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Stálin e Hitler: irmãos gêmeos ou inimigos mortais?

Domenico Losurdo Publicado em 19.04.2016

Abstract: Segundo a categoria “totalitarismo”, cara à ideologia dominante, Hitler e Stálin são considerados irmãos gêmeos. Já a categoria “colonialismo”, que aparece endossada por Gandhi durante a guerra de independência, coloca Churchill como o irmão gêmeo de Hitler: o objetivo final deste último estava em construir as “Índias Alemãs” na Europa Oriental, e de modo particular na União Soviética. Nesse sentido, qual das duas categorias poderia nos ajudar a explicar com mais rigor o século XX? Hoje em dia grandes historiadores concordam em caracterizar a guerra entre o Terceiro Reich e a União Soviética como a maior guerra colonial da história no mundo. Até poder-se-ia dizer que Hitler e Stálin eram ambos “totalitários”, mas esquecer que, enquanto o primeiro levou adiante a radicalização da tradição colonial ocidental, se esforçando em subjugar e até mesmo escravizar as “raças inferiores” na Europa Oriental, foi justamente a feroz resistência do país governado por este último que derrotou tal projeto. Em síntese, Stálin não foi o irmão gêmeo de Hitler, mas sim, seu inimigo mortal. A derrota do projeto de Hitler em Stalingrado, - o de construir as “Índias Alemãs” na Europa do Leste - foi o início do declínio das Índias Britânicas, tanto quanto do sistema colonial em todo o mundo. Palavras – chave: totalitarismo, colonialismo, Índias Alemãs, Segunda Guerra, Índias Britânicas.

1. Eventos históricos e categorias teóricas

Quando filósofos investigam eventos históricos, eles procuram debater categorias ao mesmo tempo em que possam reconstruí-las e representá-las. O que se entende hoje a respeito da categoria “totalitarismo” (a ditadura terrorista do partido único e o culto à personalidade), situa Stalin e Hitler como a extrema realização desta tormenta, - como dois monstros que possuem características semelhantes a irmãos gêmeos. Não é por nada, – como argumenta um filósofo – mas ambos foram unidos por quase dois anos decorrentes de um pacto vergonhoso. De fato, esse pacto foi seguido por uma guerra impiedosa travada entre os dois gêmeos, apesar de haver controvérsias a esta questão. Seria esta uma conclusão obrigatória? Por um momento, façamos um breve exercício de observação para além das fronteiras da Europa. Gandhi estava convencido de que Hitler teria algum tipo de irmão gêmeo. Mas este não era Stalin, para quem, ainda em setembro de 1946 foi considerado pelo lider indiano um “grande homem” no topo dos grandes estadistas[1]. Não, o irmão gêmeo de Hitler foi, essencialmente, Churchill, pelo menos no julgamento das duas entrevistas dadas por Gandhi em abril de 1941 e em abril de 1946 respectivamente: “Eu afirmo que na India temos regras hitlerianas, entretanto camufladas por suaves terminologias”. E acrescenta: “Hitler foi um ótimo transgressor britânico”. “Hitler é apenas uma resposta para o imperialismo britânico[2]”. Talvez a primeira das duas ilustrações seja a mais sugestiva. Ela ocorreu ainda quando o tratado de não agressão entre Alemanha e União Soviética ainda estava em vigor: o líder indiano do movimento independentista parece não ter se ofendido por isto.  Já na frente política anticolonial, alguns militantes parecem não ter encontrado a mesma posição. As razões desta questão podem ser explicadas por um importante historiador afro-americano de Trindade e Tobago, entusiasta admirador de Trotsky, chamado C.L.R. James, quem, em 1962 descreve as desenvolturas de outro militante do movimento pela emancipação negra, também de Trindade, da seguinte forma: “Uma vez na América, tornou-se militante comunista. Quando transferido para Moscou passou a chefiar o Departamento de organização e propaganda do movimento Negro. Nesta posição tornou-se o mais conhecido e o mais confiável dos agitadores pela independência africana. Em 1935, buscando alianças, o Kremlin separou a Grã-Bretanha e a França, tidas como imperialismos democráticos, da Alemanha e Japão, fazendo do imperialismo fascista o principal alvo da Rússia e da propaganda comunista. Esta atividade foi traduzida pela emancipação africana como uma farsa: a Alemanha e o Japão não tinham colônias na África. Padmore rompeu instantaneamente com o Kremlin.[3]”.

Desta maneira, percebe-se que Stalin não foi criticado e condenado como irmão gêmeo de Hitler, mas o foi pelo fato de não ter reconhecido neste ultimo o irmão gêmeo dos lideres do imperialismo inglês e francês. Para importantes personalidades do movimento anticolonial não foi fácil entender que o Terceiro Reich havia assumido a liderança colonial (e escravista) da contra-revolução: amiúde, o debate acerca do tratado de não-agressão sofre claramente destas seqüelas eurocentristas.

Tão questionável quanto é colocar Churchill em proximidade com Hitler, como faz Gandhi (e outros defensores do movimento anticolonial de forma indireta) embora não deixa de ser compreensível: Hitler não declarou inúmeras vezes a construção das “Índias Alemãs” na Europa Oriental? Churchill não prometeu defender a qualquer custo as Índias Britânicas? De fato, em 1942 o primeiro ministro britânico ao reprimir o movimento independentista “levou as ultimas conseqüências, utilizando-se da força aérea e seu alto poder de fogo contra a massa de manifestantes”[4]. A falsidade ideológica que habita a repressão das ruas é altamente sugestiva. Vejamos o que nos diz Churchill: “Eu odeio os indianos. Eles são um povo repugnante, com uma religião repugnante”; felizmente temos um numero sem precedentes de “soldados brancos” para garantir a ordem. A tarefa é confrontá-los “sem deixar que floresça (e rapidamente se reproduza) esta raça infame”. Marshall Artur Harris, protagonista dos atentados aéreos na Alemanha, foi aconselhado em “enviar alguns excedentes de seu arsenal para destruí-los[5]”.

Voltemos da Ásia para a Europa. No dia 23 de julho de 1944 Alcide de Gasperi, o líder católico que estava prestes a tornar-se primeiro ministro da Itália liberada do fascismo, fez um discurso onde enfaticamente proclamou:

“Quando eu vejo a assustadora perseguição de Hitler e Mussolini a seres humanos devido a sua raça, bem como a criação de uma legislação anti-judaica, e por outro lado, os russos fundindo cerca de 160 raças em torno de si, são deste ultimo esforço em unificar a raça humana à que faço minhas palavras: isto é o cristianismo, isto é a verdadeira universalidade do senso católico” [6].

Neste caso, o ponto de partida na formação da catastrófica “categoria racista”, encontrou sua expressão máxima na grosseira Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler. Sem embargo, qual seria o contraponto a esta questão? Por uma devida razão já mencionada anteriormente não seria a grande Grã-Bretanha de Churchill. Nem mesmo os EUA, onde prevaleceu a Supremacia Branca no sul. A respeito desse regime, um importante historiador americano (George M. Fredrickson) escreveu recentemente: “o esforço para garantir a pureza da raça no sul do solo americano, antecipou os aspectos oficiais da perseguição nazista aos judeus em 1930”; quando se considera também a lei segundo a qual nos sul dos EUA uma gota de sangue impuro era o suficiente para ser excluído da comunidade branca, tem de se concluir que: “a definição de um judeu para um nazista nunca foi tão rigorosa como “a regra de uma gota” que prevaleceu na classificação dos negros nas leis da raça pura dos estados americanos do sul”[7]. Nesse sentido, não causa surpresa De Gasperi enxergar a União Soviética como a verdadeira antagonista da Alemanha hitleriana. Daí que os irmãos gêmeos dos quais a categoria de totalitarismo fala, aparece em cena como inimigo mortal das categorias racistas e colonialistas.

2. “A maior Guerra colonial da História”

Portanto, qual seria a categoria mais adequada à realidade? Vamos dar a palavra aos envolvidos nessa questão. No dia 27 de janeiro de 1932, quando Hitler se dirigiu aos industriais de Dusseldorf (e a toda Alemanha) em busca de apoio na tomada do poder, ele explicava sua concepção da historia e da política da seguinte maneira. Ao longo do século XIX a “raça branca” alcançou uma dominação incontestável, sendo esta a conclusão de um processo que havia começado com a conquista da America e do desenvolvimento sob o “signo e o sentimento absoluto da supremacia da raça branca”. O bolchevismo ao colocar o sistema colonial em discussão, conseguiu criar uma confusão no “pensamento branco europeu” trazendo um grande risco a civilização. Se quiserem enfrentar essa discussão, é necessário reforçar a supremacia e o direito da raça branca de se defender incondicionalmente como “posição central dos arianos no resto do mundo, mesmo que se tenha que optar pela mais cruel brutalidade”. “Será necessário adotar o direito a extrema crueldade”. Não há duvidas até aqui: Hitler apresenta sua candidatura de líder máximo num dos países mais importantes da Europa, comportando-se como protagonista de um projeto em que defende a supremacia branca em todas as partes do mundo.

O recurso em defesa da mobilização da raça branca encontrou forte apoio na Alemanha da Primeira Guerra Mundial, como também em seus anos subseqüentes. Por outro lado, o método encontrado pela Entente, e, particularmente a França, em colorir suas tropas causou escândalo e indignação. Além disso, quando se deu a ocupação da Renânia representado pelas tropas da Entente, as mulheres alemãs acabaram sendo estupradas: Esta foi a vingança estabelecida pelos vencedores, humilhando o inimigo derrotado através da contaminação de seu sangue e sua raça pela “mulatização”. De qualquer modo, a ameaça negra não reside apenas no sul dos EUA onde se tem a Ku-Klux Clan como sentinela, mas também em toda a Alemanha (e Europa): Este é o argumento da opinião publica alemã naquele momento. E foi este o clima ideológico que influenciou fortemente a formação nascente das lideranças nazistas.

No dia 14 de junho de 1922 Heinrich Himmler participou no protesto de massas em Munique organizado pela “Deutsche Notbund gegen die Schwarze Schmach”[8] , que – como informou o jornal local, “a ocupação da Renânia pelas tropas da Entente travestidos de uma bestialidade criminosa visava esmagar nossa raça, bem como destruir-nos”[9]. Em seu diário Himmler faz a seguinte observação: São milhares de pessoas. E todos gritavam: Vingança. Era impressionante. “Mas eu já havia participado de eventos mais excitantes do que este” [10]. Felizmente a Inglaterra não estava alinhada a irresponsabilidade racial francesa. Foi o que pensou Alfred Rosenberg, que “defendia a Federação dos dois povos brancos”, ou melhor, dizendo, dos três povos brancos, já que quando se elevava a luta contra a Negroization em nível global, para além da Alemanha e da Grã-Bretanha, estão lá também os EUA. Todavia, ao final de 1942, - mesmo o Terceiro Reich estando ao lado do Japão na Segunda Guerra – Hitler não se dava por satisfeito com os sucessos da aliança formada com seu parceiro da raça amarela, “lamentando as enormes perdas que o homem branco sofria no leste da Ásia”: isto está relatado no diário de Joseph Goebbels, que, por sua parte denuncia Churchill “como o atual coveiro do império Inglês”[11].

A raça branca tinha de ser defendida na Europa. Seu principal inimigo era a União Soviética, que, inserida no mundo colonial, estimulava as raças inferiores à rebelião. Esta concepção foi muito difundida na Alemanha daquela época: Depois dos Bolcheviques terem assumido o controle da Rússia – Oswald Spengler escreveu em 1933 – caía então a “mascara branca”, para ela torna-se novamente na Ásia a superpotência da Mongólia – agora parte integrante da população colorida no mundo, e cheia de ódio da “humanidade branca”[12]. Na verdade, essa ameaça foi ao mesmo tempo uma grande oportunidade: “À frente da raça branca e da Alemanha abria-se um imenso espaço colonial”. Algo parecido ao faroeste. É o que se exalta em “Mein Kampf”: a “inacreditável força do interior” expressada no modelo de expansão colonial americana, modelo que, alias, deve-se copiar territorialmente na construção compacta do Reich no Oriente e na Europa Oriental[13]. Mais adiante, após o desenlace do projeto Barbarossa, Hitler compara inúmeras vezes a “guerra contra os povos indígenas da Europa Oriental” com a guerra contra os “povos indígenas da América do Norte”: em ambos os casos a raça branca será vitoriosa[14]. Nos seus discursos secretos que não foram destinados ao publico, Himmler declara de um modo particularmente explicito um aspecto adicional ao programa colonial do Terceiro Reich: É preciso necessariamente de uma “raça estrangeira de escravos”, de modo que a “raça superior” nunca perca sua maestria[15], e muito menos possa se misturar. “Se nós não enchermos nossos acampamentos com escravos – e digo aqui, nesta sala, de forma muito clara e explicita – com escravos, que, independentemente de qualquer perda, construirão nossas cidades, nossas aldeias, nossas fazendas”, não será possível realizar o programa de colonização e germanização do solo conquistado na Europa do Leste.[16]

Por fim, os “indígenas” da Europa Oriental estavam mais próximos aos pele-vermelhas, estes que precisavam ser expropriados da sua terra, deportados e dizimados; em contrapartida, eram os negros que estavam destinados a trabalhar como escravos a serviço da raça superior, enquanto os judeus, igualados aos bolcheviques responsáveis pelo fomento das raças inferiores, deveriam ser aniquilados.

Claro, que a concepção da escolha das vitimas, na qual tinha em primeiro plano a União Soviética, não poderia ser compartilhada. É interessante notar que Stalin, já em fevereiro e outubro de 1917 chamava a atenção para o fato de que a Rússia desgastada da guerra interminável corria o risco de se transformar em uma colônia da Inglaterra, da América, e da França[17]: a Entente tentava de qualquer maneira continuar a guerra em ato, como se a Rússia fosse a África Central[18]. A Revolução Bolchevique foi necessária para afastá-la do perigo. Depois de Outubro, Stalin enxergava o pioneirismo do poder soviético em “converter a Rússia colonial a um país livre e independente”[19].

Desde o inicio, Hitler tinha planejado retomar a tradição colonial e efetivá-la na Europa Oriental e especialmente na Rússia “selvagem” com a vitória do bolchevismo; por outro lado, Stalin começava a chamar seu país a enfrentar a chamada subjugação colonial e interpreta-la precisamente a partir do ponto de vista da Revolução Bolchevique.

Mesmo sem idéia alguma, Stalin começou a reconhecer as características essenciais do milênio que tinha apenas começado. Na onda da Revolução de Outubro, Lenin esperava que a objetividade central do século XX se desse na batalha entre o capitalismo por um lado, e o socialismo/comunismo por outro: Entretanto, o mundo colonial foi completamente ocupado pelas forças capitalistas, e a cada nova partição seguida pelas iniciativas dos derrotados, ou países “desfavorecidos” levaria a uma nova guerra mundial que pudesse representar um passo a frente na definitiva destruição do sistema capitalista: a conquista da ordem socialista estava na ordem do dia. Mas Hitler fez um movimento inesperado: ele reconheceu que na Europa Oriental e especialmente na Rússia soviética, havia espaços livres para edificar o programa de colonização do Reich alemão. Do mesmo modo comportou-se o império japonês quando invadiu a China, e a Itália fascista (com a exceção da Etiópia) nos Balcãs e na Grécia. Nesse sentido, Stalin percebeu que o século XX seria marcado, em oposição a todas as expectativas, pela luta entre o colonialismo e o anticolonialismo (promovido e apoiado pelo movimento comunista) na Europa.

Em nosso tempo, temos como certo que: “A guerra pelo espaço vital liderada por Hitler foi a maior guerra colonial da historia” [20]. O inicio do primeiro ataque foi desencadeado na Polônia. As instruções do Führer nas noites da ofensiva diziam: é necessária a “eliminação das forças” vitais do povo polonês; a “brutalidade” deve ser usada para inibir a empatia; “o mais forte tem esse direito”. Semelhantes são as orientações que se dão mais tarde no projeto Barbarossa: antes do encarceramento dos comissários políticos, os quadros do Exército Vermelho, do Estado Soviético, do Partido Comunista devem ser imediatamente exterminados; no leste é preciso medidas duras e extremistas, tendo os soldados e oficiais alemães o dever de superar suas reservas e escrúpulos morais. Levando de volta o povo de uma antiga cultura à condição de peles-vermelhas (para serem expropriadas e dizimadas) bem como de negros (para serem escravizados), os “representantes da inteligência polaca devem ser mortos”; naturalmente deve-se agir com o mesmo tratamento a inteligência soviética da Rússia; “isto pode até soar duro, mas é a lei da vida”[21]. É assim que se pode explicar o destino do clero católico, dos quadros comunistas na URSS, e em ambos os casos a situação dos judeus, muito bem representados por camadas intelectuais suspeitas e inspiradoras no apoio ao bolchevismo. Hitler obteve sucesso em ao colocar a Polônia de encontro com a Rússia, no entanto queria determinar o destino de ambos; mesmo os ventos da trágica guerra nacional de resistência do povo polaco e a grande guerra patriótica foram relacionados um com o outro. Todavia, a reviravolta “da maior guerra colonial da historia” foi Stalingrado. Se Hitler era o proponente crucial da contrarrevolução colonial, Stalin era o proponente principal da revolução anticolonial, que de forma inesperada abriu caminho até o centro da Europa.  

 3. Stalin, Hitler e as minorias nacionais.

A definição apresentada por Stalin poderia de algum modo substituir à política que procedeu em contraste com as minorias nacionais da União Soviética? Não há duvidas que não haja espaço para o direito a recessão na concepção de Stalin. A conversa com Dimitrov no dia 7 de novembro de 1937 confirma o fato: “Àqueles que lançarem qualquer ataque contra o Estado Socialista, seja em atos ou pensamentos, será aniquilado”[22]. Até mesmo os pensamentos serão punidos. Esta é uma definição extraordinariamente eficaz, mas completamente involuntária de totalitarismo!

Por outro lado, Stalin saúda o renascimento cultural das minorias do leste europeu reprimidas por tanto tempo. É o que se pode observar no X Congresso do Partido Comunista da Rússia em 1921: “Por cinquenta anos todas as cidades húngaras tiveram traços predominantemente alemães; agora elas se magyarised; os bielo-russos também despertaram. Este fenômeno de algum modo pode tomar conta de boa parte da Europa: da cidade alemã que foi Riga, ela não se tornou uma “Lettish city”; por outro lado, as cidades da Ucrânia inevitavelmente se “ucranizaram” e fizeram do elemento russo anteriormente dominante um fator secundário. Constantemente Stalin polemiza contra os assimiladores, sejam os assimiladores turcos, sejam os alemão-prussianos, bem como os czaristas russos. Esta posição é particularmente importante por estar intimamente ligada a uma elaboração teórica de caráter universal. Nas polemicas contra Kautsky, Stalin sublinha que no socialismo não faz sentido levar a cabo o desaparecimento das línguas e das particularidades nacionais, mas sim, seu maior desenvolvimento e evolução. Cada política de assimilação deverá ser condenada como antipopular e contra revolucionaria: sua fatalidade consiste justamente por não compreender o poder colossal da estabilidade possuída por uma nação[23]; àqueles que procuram “declarar guerra à cultura nacional” serão considerados “defensores da colonização”[24]. Tão dramática e inescrupulosa quanto devem ser as declarações políticas e suas praticas concretas, tais declarações nada mais são do que pode haver em um regime político em que a educação e a mobilização ideológica de funcionários e ativistas do partido desempenham enquanto seu papel de doutrinar as massas.

Mais uma vez o contraste com Hitler se torna aparente. Fica mais perceptível quando se começa a assumir a “slavicization” e a “De-germanisation” na Europa Oriental. Porem, esse processo poderia sofrer um revés em todos os meios. Não é suficiente combater a assimilação lingüística e cultural que representa na realidade “o início do abastardamento”, e, portanto, uma aniquilação dos “elementos germânicos”, com a aniquilação das propriedades que permitiram a conquista deste povo uma vez vitorioso[25]. É preciso germanizar o solo sem nunca germanizar as pessoas. Isso só é possível se seguir um modelo muito preciso: do outro lado do atlântico, a raça branca se espalhou por todo o ocidente americanizando o solo, mas não os pele-vermelhas: desta forma os EUA mantiveram-se um estado nórdico-germano sem descender do “angu de cidadãos internacionais”[26]. Este é o modelo a ser seguido pela Alemanha na Europa Oriental.

4. O papel da Geografia e da Geopolítica

No que diz respeito ao debate sobre a questão nacional, fica claro o contraste entre a Rússia e o Terceiro Reich. De fato, chega-se a diferentes conclusões refletindo a cerca das praticas de governo dos dois regimes, podendo-se até mesmo compará-los com base na categoria de totalitarismo. Todavia, este procedimento incorre-se no risco de serem mal interpretadas categorias tais como o terror, a brutalidade, e o controle dos pensamentos de uma maneira psicopatológica.

Não se deve esquecer o método doutrinário que foi desdobrado por um clássico do liberalismo. No ano de 1787, Alexander Hamilton declarou em uma passagem da nova constituição federal, que a limitação do poder e introdução do Estado de direito nos dois estado com características insulares (Grã-Bretanha e EUA) - que são protegidos pelo mar contra qualquer ameaça estrangeira - foi um sucesso. Se o projeto da federação tivesse falhado, e se sobre suas ruinas houvesse repousado os contornos de um sistema de estados, semelhante ao que poderia encontrar-se no continente europeu, então mesmo na América teria se realizado o fenômeno do exército permanente e a centralização do poder absolutista. “Assim, observar-se-ia em pouco tempo no país, o estabelecimento das mesmas engrenagens despóticas do velho mundo”[27]. De acordo com Hamilton, fica claro o papel fundamental da geografia e da geopolítica na explicação das reminiscências ou o desaparecimento das instituições liberais.

Ao investigar as grandes crises históricas, percebe-se que em todas elas – mesmo que de modo distinto – ocorreram a concentração de poder nas mãos de uma personalidade mais ou menos autocrática: A primeira revolução inglesa terminou com o poder nas mãos de Cromwell; a Revolução Francesa primeiro levou ao poder Robespierre, e posteriormente, Napoleão em seu lugar; o resultado da revolução dos escravos negros de São Domingo foi a ditadura militar de Toussaint Louverture, seguida de Dessalines; a Revolução Francesa de 1848 levou ao poder Louis Napoleão, bem como Napoleão III. A categoria “totalitarismo” pode ser usada nas comparações analíticas das praticas de governança, que, em situações mais ou menos agudas de crise são aplicadas. Mas quando se esquece do caráter formal desta categoria considerando-a absoluta, corre-se um grande risco de situar uma heterogeneidade familiar com uma semelhança de irmãos.

A inquietação que percorreu todo o século XX se deu as inúmeras crises ocorridas em um pequeno lapso de tempo entre a primeira e a segunda guerra mundial, onde irrompeu a ditadura de um homem só. Em um olhar mais atento este é o destino de quase todos os países da Europa continental. Deixemos de lado os países com o status de “ilha” mencionados por Hamilton. Embora estes possuíssem a tradição liberal como pano de fundo, - particularmente favorável por sua situação geográfica e geopolítica-  ao mesmo tempo apresentavam tendencialmente a concentração de poder, o reforço do executivo sobre o poder legislativo, limitando o Estado de Direito: nos EUA, um mandado de execução por Franklin Roosevelt’s foi suficiente para encarcerar cidadãos americanos de origem nipônica. Isto significa que as investigações em que a categoria totalitarismo é fundamentada tocam até mesmo os países mais discretos.

5. “Totalitarismo” e “todo problema da autocracia racial”

Sem embargo, vamos alterar o foco das praticas de governança para as questões de objetividade política. Até mesmo Hitler observava com preocupação as politicas domesticas dos EUA. Em “Mein Kampf” e “Hitler Zweites Buch” repetidamente avisava: Em toda Europa, e não só na União Soviética se incentivou as raças de todas as cores a lutar contra a supremacia branca, - sendo estes inimigos declarados da civilização e da dominação branca; não se deveria esquecer-se da França, o país que submeteu o país da raça branca, que é a Alemanha, à ocupação de suas tropas coloridas. Deve-se prestar também a atenção ao processo de “bastardization”, a “negroization” ou a universalização da “nigerização” que está ocorrendo na França, ou mais precisamente na Europa-mulato-africana, que tem se expandido do Reno ao Congo[28]. Este infortúnio é positivamente combatido pelo exemplo norte-americano, onde os “germânicos” poderiam ter evitado a mistura do sangue ariano com a dos povos inferiores, permanecendo uma raça pura e sem mistura, razão pela qual estaríamos nós habilitados em dominar todo o continente[29].

O regime da “supremacia branca” foi um modelo de dominação no sul dos EUA, influenciando as culturas reacionárias que mais tarde culminaram no Nazismo. Em uma visita aos EUA no final do século XIX, o grande teórico da geopolítica, Friedrich Ratzel, esboça algumas características ilustrativas: quando as nuvens de fumaça ideológica com seu fiel princípio de justiça desapareceram, irrompeu na realidade a “aristocracia racial”, tal como foi a lei de Lynch contra os negros, “a repressão e a destruição dos índios”, e a perseguição dos imigrantes recém chegados do Oriente. Nos EUA, a situação que emergia, evitava por um lado as “formas de escravidão, mas aderia ao espirito de subordinação da estratificação social das raças”. De qualquer forma essa inversão assumiu estimada ilusão dos abolicionistas e defensores da diversidade das raças nos anos da “reconstrução” democrática. Sobre essa questão Ratzel assume uma visão clara sobre as consequências à longo prazo presentes na republica norte-americana: “Só estamos no começo das repercussões que esta inversão terá na Europa e possivelmente na Ásia”.

Mais tarde, o vice Consul austro-húngaro em algum lugar de Chicago denunciava a contrarrevolução em curso nos EUA por sua natureza benevolente e instrutiva. A Europa tem aqui suas reservas, pois os negros das colônias são recebidos aqui com educação. Diferentemente do comportamento americano, “do orgulho à pureza da raça”, que evita o contato com os não-brancos, bem como aqueles cujas veias fluem apenas “uma gota de sangue negro”! Bem, se a América não é de nenhum modo professora da Europa, será então os negros a grande questão.

Ambos os autores aqui citados, pioneiros em prever a contra-revolução racista que pôs fim a diversidade racial nos tempos da reconstrução democrática nos EUA, agora poderiam vê-la atravessar o atlântico. Alfred Rosenberg, por exemplo, elogia os EUA “como o maravilhoso país do futuro”: ao limitar os direitos civis somente aos brancos, e fortalecer em todos os níveis e meios a supremacia branca, seu mérito é ter formulado a “nova ideia do Estado-raça”: Sim, “a questão negra está na vanguarda de todas as questões existentes nos EUA”; e se alguém por sua vez tivesse abandonado por incoerência o “principio de igualdade para os negros” não se presenciaria as consequências para os amarelos e os judeus igualmente[30].  

Este é o primeiro aspecto de uma explicação contundente. No inicio do século XX, nos anos da formação do movimento nazista na Alemanha, a ideologia reinante nos estados do sul dos EUA encontrou sua expressão máxima nos jubileus da supremacia branca, onde pessoas armadas e fardadas se corrompiam inspiradas nas “crenças raciais dos povos do sul”. Esta é sua formulação: “1. O sangue dirá. 2. A raça branca deve dominar. 3. Os povos teutônicos representam a pureza da raça. 4. O negro é inferior e continuará assim. 5. Este é um país de homens brancos. 6. Sem igualdade social. 7. Sem igualdade politica 8. Em matéria de direitos civis, devem-se adaptar as legislações politicas em beneficio do homem branco, já ao homem negro cabe o beneficio da duvida; e sob qualquer circunstancia não se pode interferir no prestigio da raça branca. 9 Na politica educacional o negro terá apenas as migalhas que caem da mesa do homem branco. 10. É preciso haver educação industrial para o negro poder melhor atender e servir o homem branco [...] 14. Deixe o menor homem branco calcular mais do que o mais alto negro 15. As declarações acima indicam a direção da Providencia”[31].

Sem embargo, não há duvidas que tais declarações inclinavam-se ao nazismo. Especialmente porque no sul dos EUA havia um comprometimento com este catecismo: “exigiam que a Constituição fosse para o inferno”, só para demonstrar na teoria e na pratica a absoluta superioridade dos arianos e para escapar do “Hideous Omnious, National, Menace” dos negros. Mesmo o negro “não fazendo mal nenhum”, como dizem alguns críticos e intelectuais, gangues racistas além de promover o terror, estavam sempre dispostos a “mata-los e remove-los da face da terra”; queriam a todo custo erguer os pilares da “autocracia racial” com absoluta “identificação da raça superior com o próprio ser do Estado”[32].

Qual o significado mais adequado para o Terceiro Reich: a categoria “totalitarismo” (que aproxima Hitler de Stalin) ou a categoria “autocracia racial” (que se refere ao regime da supremacia branca que dominou o sul dos EUA, bem como na tomada de poder por Hitler na Alemanha)? Uma coisa é clara: não se pode entender o vocabulário nazista adequadamente se só se voltar para a Alemanha. Qual seria a “tragédia do sangue” de que Mein Kampf fala – como vimos – se não a miscigenação dos que são condenados pelos partícipes da supremacia branca? Até mesmo um termo chave da ideologia nazista, “subhumano [untermensch] é a tradução americana de “homem inferior” [under man]!.

Este destaque é dado por Alfred Rosenberg em 1930, ao expressar admiração pelo autor americano Lothrop Stoddard: o escritor tem o mérito de ser o primeiro a cunhar as noções da questão que emerge como subtítulo de seu livro (The Menace of the Under Man) publicado em Nova York no ano de 1922, e três anos mais tarde numa tradução alemã em Munique (The Drohung des Untermenschen) [33]. O “homem inferior”, e respectivamente “os inferiores” é uma ameaça a civilização e para evitar esse perigo é preciso uma “autocracia racial”! Se partirmos da categoria de “totalitarismo”, sugere-se considerar não Stalin e Hitler, mais sim os supremacistas brancos dos estados do Sul dos EUA e os nazistas alemães como irmãos gêmeos. Além disso, Stalin se opôs a ambos, sendo até por vezes saudado por ativistas afro-americanos como o “novo Lincoln”[34].

6. Duas guerras para restaurar a dominação colonial e a escravização

Certamente o pacto Ribbentrop – Molotov ainda deve ser explicado. A União Soviética se esforçou não como a primeira, mais sim, como ultima instancia fazer acordo com o Terceiro Reich. Nesse ponto, como um filosofo distinto que se deixa conduzir pela analise das categorias políticas da historia comparada, gostaria de fazer algumas considerações. Quase um século e meio antes da guerra desencadeada por Hitler submetendo e escravizando os povos da Europa Oriental, há certamente outra grande guerra em um contexto histórico cujo objetivo se dava em restaurar a dominação colonial e a escravização. É a campanha comandada por Napoleão que confiou ao seu irmão legalista, Charles Leclerc, guerra a São Domingo, até então a ilha governada pelo líder da revolução vitoriosa dos escravos negros, Toussaint Louverture. Mesmo após 29 de agosto de 1973, o dia em que LF. Sonthonax, o representante da França revolucionaria que proclamou a abolição da escravidão na ilha, Louverture continuou a lutar ao lado da Espanha; dizia-se que a França suspeitava do líder negro por colaborar por um longo tempo com um país do Antigo Regime que havia lutado contra a República jacobina e o poder abolicionista, e que, entretanto, havia se estabelecido em São Domingo. Mesmo em 1799, Louverture, para salvar o colapso da economia nacional, estabeleceu relações econômicas com a Grã-Bretanha, que até então estava em guerra com a França, e uma possível vitória da Inglaterra teriam efeitos negativos no projeto dos abolicionistas[35]. É desse modo que Toussaint continua ser o protagonista da luta anticolonial e das revoluções abolicionistas contra Leclerc (e Napoleão). Apesar de a situação histórica ser completamente outra um século e meio depois, não há razão alguma para aproximar Stalin de maneira diferente: A tortuosidade do processo histórico não se deve conduzir a perder a noção do essencial.

Mesmo antes da invasão francesa e já prevendo essa situação, Louverture impôs uma ditadura produtivista implacável reprimindo com mão de ferro os ataques contra seu poder; após a chegada da expedição francesa liderada por Leclerc, inicia-se uma guerra onde no final restou apenas o extermínio de ambos os lados. Dessa forma, o que se poderia dizer sobre uma interpretação dessa disputa em que coloca Louverture e Leclerc sob a categoria de totalitarismo, opondo-se ambos a liderança democrático-liberal dos EUA? Esta caracterização por um lado pode até ser banal: a barbárie é obvia em um conflito que se transforma em uma guerra racial; por outro lado poderia haver uma grande distorção: seria como colocar os inimigos da escravidão ao lado dos proprietários de escravos e omitir que os senhores de escravos encontraram inspiração e apoio nos EUA onde a escravidão negra estava em alta. A categoria totalitarismo não se torna convincente se for utilizada como único critério interpretativo de um conflito gigantesco entre a revolução anticolonial e a contrarrevolução colonial, ao defender a escravidão que se desencadeou na primeira metade do século XX. Está claro que este é mais um capítulo da historia que necessita de profundas investigações por haver profundas controversas interpretativas inevitáveis; mas não há razão alguma para transformar inimigos mortais em irmãos gêmeos.

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* Artigo publicado em Crisis & Critique, Stalin What Does the Name stand for?, Volume 3, issue 1, 29-03-2016, edited by Frank Ruda & Agon Hamza. Tradução por João Victor Moré Ramos.

[1] Tendulkar 1990, p.210.
[2] Gandhi 1969-2001, Vol. 80, p. 200 (Answers to Questions, 25. April 1941) and vol. 86, p. 223 (Interview with Ralph Coniston in April 1945).
[3] James 1963, p. 310 (Addition of 1963 to the original edition of 1938)
[4] Torri 2000, p. 598
[5] In Mukerjee 2010, p. 78 and pp. 246-47).
[6] De Gasperi 1956, p. 15-16.
[7] Fredrickson 2002, p. 2 and p. 124.
[8] Trans. German Emergency League against the Disgrace of the Blacks
[9] Longerich 2008, p. 66/Longerich 2012, p. 51
[10] Ibid.
[11] Goebbels 1992, pp. 1747-48.
[12] Spengler 1933, p. 150
[13] Hitler 1939, pp. 153-54.
[14] Hitler 1980, p. 377 and p. 334 (Conversations of the 30th August of 1942 and of 8th August of 1942).
[15] Trans. Herrentum,
[16] Himmler 1974, p. 156 and p. 159
[17] Stalin 1917.
[18] Stalin 1917.
[19] Stalin 1920.
[20] Olusoga, Erichsen 2011, p. 327
[21] Hitler 1965, see the speeches from the 22th of August 1939, from the 28th of September 1940 and from the 30the March and 8th November 1941.
[22] Dimitroff 2000, p. 162.
[23] Stalin 1921.
[24] Stalin 1927.
[25] Hitler, 1939, p. 82 and pp. 428-29.
[26] Hitler, 1961, p. 131-32.
[27] Hamilton 1987
[28] Hitler 1961, p. 52; Hitler 1939, p. 730.
[29] Hitler 1939, pp. 313-14
[30] Rosenberg 1937, p. 673 and pp. 668-69.
[31]  In Woodward 2013, p. 350 and pp. 355-56.
[32] In Woodward 2013, p. 352-53.
[33] What concerns Ratzel, the vice consul in Chicago and Stoddard, see Losurdo 2007b, p. 164- 65 and pp. 159.
[34] Losurdo 2012, chapter 6, § 8.
[35] James 1963, S. 104 u. 186.

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Traduzido por João Vitor Ramos