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As voltas da vida (política) ou uma breve história sobre o preço da ambição

Atilio Boron Publicado em 31.05.2016

A partir de uma cena da juventude de José Serra no Chile, Boron analisa a trajetória peculiar do "exilado marxista" que avança para mais uma tentativa de chegar ao cargo máximo da República por meio de um atalho no governo golpista de Michel Temer.

Serra toma posse como Ministro de Relações Exteriores Foto: José Cruz/ABr

A cena em uma sala de aula na FLACSO, Santiago de Chile, em agosto de 1967. Os alunos dos dois mestres que ensinavam naquele tempo, um em Sociologia e um em Ciência Política, aguardam ansiosamente a chegada de um novo professor de economia: um jovem brasileiro exilado, com impecáveis antecedentes de esquerda, que pela primeira vez lecionaria um curso em nível de pós-graduação. O diretor da instituição faz a apresentação de praxe e logo depois o professor passa a explicar o seu programa, o que faz em um bom "portunhol" e com um forte sotaque brasileiro que servia para matizar a aridez de seu discurso. O conteúdo e a literatura são estritamente marxistas, sem a menor fissura pela qual pudesse deslizar alguma outra vertente de pensamento econômico.

Quando ele terminou sua apresentação um pesado silêncio desceu sobre o ambiente. Eu era um dos estudantes e me chamou a atenção o hermetismo teórico do programa. Ele já tinha feito um curso de Economia Política na Argentina, na Faculdade de Ciências Econômicas da UBA, com a inesquecível Rosa Cusminsky, que após o golpe de 1976 seguiu para o exílio no México e continuou a ensinar na UNAM. No curso ministrado por Rosa, uma marxista "convicta e confessa", como declarou José Carlos Mariátegui, estudamos Marx (algumas passagens do Capital, lemos com fruição Salários, Preço e Lucro, olhamos o Anti-Dühring), mas também vimos John M. Keynes, Joseph Schumpeter, Joan Robinson, Arthur Cecil Pigou e John K. Galbraith. Eu quebrei o silêncio e com muito tato pediu ao professor principiante, se não iríamos também estudar o trabalho de alguns destes autores que a boa da Rosa tinha feito nos ler, no meu caso, quando ainda não tinha dezoito anos. A resposta me deixou gelado, quando indignado, virou-se para mim e disse, com um tom ameaçador e balançando duro em sua mão o dedo indicador direito: "Olha jovenzinho: se você quer perder tempo estudando esse lixo burguês, não tem nada para fazer no meu curso ". Intimidado pela violência verbal do professor, ninguém se atreveu a abrir a boca. Este começou a ditar a sua matéria e eu nem sequer me preocupei em tomar notas, coisa que eu faço habitualmente.

Depois da aula eu fui embora e nunca mais voltei ao seu curso. Eu tive sorte, porque naqueles anos o Chile era a Atenas latino-americana e eu completei minha formação em economia pela mão de dois professores formidáveis: Celso Furtado e Osvaldo Sunkel, que lecionavam dois cursos separados no Instituto de Estudos Internacionais da Universidade do Chile, que como era previsível, foram muito superiores ao que ensinou o meu censor. Este começou uma carreira acadêmica e política notável e eu devo admitir que durante o governo de Salvador Allende foi um colaborador próximo de seu ministro da Economia, Pedro Vuskovic. Ele também passou muito mal com o golpe de Pinochet e quase não conseguiu sair do Chile. Como eu, foi para os Estados Unidos e obtive um doutorado em economia pela prestigiada Universidade de Cornell. Depois disso, ele passou um tempo no Instituto de Estudos Avançados de Princeton e depois de quatorze anos de exílio voltou ao Brasil, onde à mão de seu mentor e protetor no Chile, Fernando Henrique Cardoso, tornou-se deputado federal, senador, prefeito de São Paulo, governador e candidato à presidência duas vezes, quando foi derrotado por Lula uma vez em 2002 e novamente em 2010 por Dilma. Em sua campanha presidencial em 2002, suas infâmias e diatribes contra Hugo Chavez adquiriram uma notoriedade lamentável, e seu rancor contra tudo o que tem a ver com Chávez e o chavismo, a revolução bolivariana e a revolução, persiste até hoje, alimentada por seu ódio visceral ao PT e tudo o mais que se pareça, culpado de sua frustração política.

Sua adesão à endireitada social-democracia brasileira e sua conversão calculada ao neoliberalismo como uma rota de escalada para chegar à Presidência do Brasil acentuou mais os traços de extrema intolerância e dogmatismo que exibira em sua juventude. Hoje, representa a versão mais radical e mais sofisticada, talvez, - porque é uma pessoa inteligente e dono de uma sólida formação intelectual -, da direita brasileira. Seu desejo insaciável de poder, esse que segundo Hobbes cessa apenas com a morte, ele não apenas jogou fora o que acreditava com zelo fanático no final dos anos sessenta, mas trouxe-o para validar a agressão escandalosa sobre o governo do Brasil às mãos de um bando de corruptos que merecem estar na cadeia pelo resto da vida. Mas com o ardor próprio dos convertidos, ele não se preocupa com nada e concordou em desempenhar uma posição muito importante no governo de Michel Temer, posicionando-se para tentar pela terceira vez, tornar-se presidente do Brasil e, assim, satisfazer sua obsessão incontrolável. Este é o personagem que, na nota publicada hoje pelo jornal La Nación (Buenos Aires), prometeu "limpar de ideologia a política externa" do Brasil. Eu lhes apresento a José Serra, o meu professor que não foi e agora chanceler do governo golpista do Brasil.

Serra é recebido com protestos em Buenos Aires.

Publicado em Resumen Latinoamericano, em 19 de maio de 2016.

Traduzido por Cezar Xavier para o Portal Grabois.