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Controvérsias em torno da derrota de Cunha 

Adalberto Monteiro Publicado em 16.07.2016

Em momentos de viragens, de derrota – quando orientações políticas envelheceram ou estão prestes a ficar superadas, quando sob tal nevoeiro os partidos da esquerda revolucionária são chamados a fazer convergências pontuais, passageiras, tópicas, com forças do campo político oposto, explorando contradições no terreno do adversário –, afloram obrigatoriamente turbulências e divergências por diferentes motivações.

É o caso da celeuma em torno da recente votação para a presidência da Câmara dos Deputados. A esquerda e as forças democráticas conseguiram concretizar uma de suas palavras de ordem: Fora Cunha! Mesmo diante desse êxito se instaurou um debate.

A aprovação do processo de impeachment na Câmara dos Deputados, em 17 de abril, por mais de dois terços dos votos, já indicava ser impossível que as forças democráticas elegessem um candidato diretamente a ela vinculadas.

Vem a réplica: já que era impossível as forças antigolpistas vencerem o pleito que marcassem posição, então – não se misturando com os golpistas.

Aqui se bifurca o caminho: ou apenas “marcar posição” ou impingir algum tipo de revés, algum tipo de dano, ao poderoso campo adversário que hoje detém o controle absoluto da Câmara.

Partindo do grito das ruas, da realidade da Câmara, uma tarefa se impunha à esquerda e às forças progressistas, esta sim, possível: Derrotar Cunha, conduzi-lo à cassação com o fito de varrer daquela Casa sua conduta autoritária, sua pauta obscurantista e, por extensão, abalar as estruturas de um rolo compressor, alcunhado de “centrão”, principal bloco parlamentar de apoio ao governo interino golpista de Temer.

Essa conduta é coerente com a palavra de ordem Fora Cunha! A esquerda que adotou tal conduta manteve-se fiel ao grito das ruas, é coerente com o objetivo central de derrotar o golpe e combater o governo interino.

Como atingir esse objetivo numa Câmara sob controle das forças conservadoras, senão explorando as contradições do próprio arranjo parlamentar que sustenta o golpe?

No primeiro escrutínio, surgiu a candidatura de Marcelo de Castro do PMDB que votou contra o impeachment, a quem o PSOL, por suas convicções, não apoiou e jamais apoiaria; o PT, embora tenha indicado apoio a Castro, se dividiu. Castro não tinha a mínima chance de derrotar Rosso&Cunha.

Quando essa dispersão se revelou impossível de ser revertida, o PCdoB decidiu lançar o deputado federal Orlando Silva como candidato. A candidatura de Orlando cumpriu o papel de denunciar o golpe em marcha e de empreender a defesa da democracia, conclamou ampla mobilização contra a pauta regressiva do governo interino e, abertamente, pugnou uma ampla convergência partidária para varrer da Câmara Cunha e sua prática autoritária, sua agenda obscurantista. Uma convergência para restaurar o regimento da Casa, o respeito às bancadas, aos parlamentares e à minoria.

No segundo escrutínio, se deu o que a relação de forças, previamente, já havia indicado: a disputa entre Rogério Rosso (PSD-DF) e Rodrigo Maia (DEM-SP), ambos próceres do golpe, ambos da tropa de choque do governo interino. Iguais, porém circunstancialmente diferentes.

Rosso, preposto de Cunha, candidato ungido pelo centrão, máquina parlamentar de guerra a serviço do golpe, se apresentava como favorito – embora Temer negasse, era seu candidato predileto. Se Rosso ganhasse, o centrão se manteria vivo, mesmo com a eventual cassação de Cunha, condição importante para aprovar, de modo mais célere e certo, a pauta antipovo, antinação e antidemocracia. Além disso, Temer administraria melhor a desgraça de Cunha, sua alma gêmea.

Rodrigo Maia é neoliberal convicto. Todavia, nesta batalha específica, a vitória de sua candidatura derrotaria Cunha, aumentaria as possibilidades da cassação do dito cujo e, como já se disse, poderia debilitar ou mesmo desagregar o centrão, fomentando contradições na base parlamentar do golpe. E, além disso, Maia se viu impelido a assumir, com a Casa e com o conjunto das Bancadas, a restauração do regimento e o respeito à minoria.

Ante esse confronto, Rosso versus Maia, a bancada comunista, juntamente com a maioria da esquerda que tem representação na Câmara, votou em Maia pelas razões políticas acima expostas. Ironicamente, o denominado candidato antigolpe, deputado Marcelo de Castro, indicou voto a Rosso.

A vitória de Maia, certamente, não altera a relação de forças da Câmara, que segue sob às rédeas das forças conservadoras e reacionárias. Contudo, por algum tempo, Temer terá que se ocupar em reagrupar seu condomínio parlamentar. Perderá o sono com a boataria de uma possível delação premiada de Cunha. Aliás, providencialmente, comentaristas da grande mídia aconselham a Procuradoria-Geral da República a não aceitar a delação de Cunha, com argumentos que parecem se dirigir a crianças do maternal. A Câmara, por sua vez, talvez volte a ser regida, com algum respeito, pelo seu regimento.

É muito pouco para tão grande desgaste, dizem uns. É cretinismo parlamentar, vociferam os senhores guardiões da “doutrina” e da verdade.

Desagregar ou debilitar o “centrão”, expurgar Eduardo Cunha do parlamento, pilastras de sustentação de Temer, não pode, pensamos, ser considerado “pouco”,sobretudo, em tempos ásperos, de estiagem dura e prolongada.

E sigamos debatendo e lutando, lutando e elaborando, mas sempre unidos, impulsionando a jornada contra o golpe, contra a pauta regressiva do governo interino, e coesos nas mobilizações e nas ações para derrotar o golpe no Julgamento do Senado Federal.

*Jornalista, editor da revista Princípios e secretário-geral da Fundação Maurício Grabois