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Descrédito na política: os poderosos seguirão intocados

Marcio Pochmann Publicado em 30.09.2016

Governo Temer faz valer o coronelismo da República Velha, segundo o qual tanto faz quem está de plantão no governo.

Avenida Paulista, 31 de agosto de 2016: consolidação do golpe ao governo Dilma Rousseff Foto: Rovena Rosa/ABr

Nos estertores do mês de agosto do ano de 2016, o processo de impedimento do governo da presidenta Dilma Rousseff, legítima e majoritariamente eleita em novembro de 2014, fez acender o alerta amarelo acerca da finalidade e da validade do regime democrático no Brasil. Por sua tradição autoritária, posto que sua experiência democrática representa apenas um quarto tempo da sua existência enquanto nação independente desde 1822, a perspectiva da disputa pelo poder por meio das eleições livres encontra-se novamente comprometida.

Em síntese, a frustração da esperança de que as transformações significativas da realidade nacional frente a um capitalismo excludente e externamente dependente possam de fato vir a ocorrer. Consolida-se, assim, a máxima do conservadorismo das elites dirigentes de que o futuro possível é tão somente o congelamento do presente.

Mesmo o reformismo corretivo de excessos numa sociedade tão desigual segue inaceitável pela elite dirigente, indicando o quanto inexiste marcha progressiva, tão pouco trajetória evolutiva na histórica da dominação brasileira. O que significa dizer que o estamento burocrático identificado por Raymundo Faoro (em seu clássicoOs Donos do Poder) e por Florestan Fernandes (em A Revolução Burguesa no Brasil) permanece ativo e altivo no interior do aparelho de Estado ao longo do tempo.

Não obstante evidências de modernização provocadas pela recente inserção passiva na globalização, as estruturas institucionais e políticas no país não se alteraram, apenas adaptaram-se aos esquemas de continuidade, cada vez mais complexo e sofisticado. Nesses termos, os vícios do patrimonialismo, com privilégios extraeconômicos garantidos aos estamentos burocráticos do Estado, seguem "imexíveis", independentemente da vigência do regime democrático.

Da mesma forma, o papel da comunicação na disputa e convencimento da direção moral, cultural e política da sociedade se mantém central. Certamente Antônio Gramsci (Cadernos do Cárcere) identificou e destacou como a organização da comunicação se apresenta comprometida com a manutenção e defesa da sustentação ideológica do bloco dinâmico do poder, dispensando a existência do regime democrático.

Diante disso, a esquerda que se organizou em torno de partidos políticos desde a transição da ditadura civil-militar (1964-1985) para o regime democrático, acreditando que as eleições não eram apenas para valer, mas, sobretudo, para transformar a realidade, fragiliza o seu sentido material. O governo Temer, em suas consequências forjadas pela experiência da República Velha (1889-1930), aponta que tanto faz qual seja o partido de plantão no governo: os interesses do coletivo de ricos, poderosos e privilegiados seguirão intocados.

Por isso, proclamam que a Constituição Federal de 1988 não cabe na economia brasileira de 2016 em diante. Se o regime político atual impossibilita a mudança democrática da realidade, qual o sentido prático de perseguir somente retórica, uma vez que a aliança conservadora entre o estamento burocrático e o poder das comunicações termina por bloquear a viabilidade da mudança prática?

O descrédito atual da política no Brasil resulta justamente disso. Ou seja, a constatação acerca da lacuna entre o descompromisso das promessas com suas realizações possíveis.