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A memória histórica como campo da luta de classes

Augusto C. Buonicore Publicado em 07.04.2017

A história pode ser vista como obra de “grandes personagens” ou como obra coletiva. Pode ser encarada como o resultado de acordos “por cima”, ou como fruto de lutas sociais abrangentes. A história pode ser vista apenas como grandes acontecimentos ou como processos contraditórios de variadas durações, que conhecem momentos de rupturas revolucionárias.

A liberdade guiando o povo Foto: Eugene Delacroix

Podemos extrair lições do passado

O que o passado pode nos ensinar? Pergunta como esta perturba o sono da humanidade desde os seus primórdios. Todas as comunidades procuraram de alguma forma estabelecer laços com seu passado, ora para aceitá-lo e transformá-lo numa referência para a atuação no presente, ora para rejeitá-lo, como algo a não ser seguido. Portanto, é uma das características dos homens e das mulheres vivendo em sociedades fazer comparações entre o seu passado e o presente e, a partir daí, tentar projetar como seria o futuro.

Há alguns séculos, segundo Eric Hobsbawm, “supunha-se que (o conhecimento da história) pudesse nos dizer como uma dada sociedade deveria funcionar. O passado era o modelo para o presente e o futuro”. Não sem razão, nas sociedades antigas a figura do velho era um símbolo de sabedoria, pela experiência de vida que possuía e, especialmente, pela possibilidade de transmitir o conhecimento acumulado às novas gerações.

A escrita contribuiu muito para mudar essa realidade. Embora seja relativamente antiga, ela só foi disseminada a partir da invenção da prensa mecânica (com tipo móvel) por Gutenberg no século XV – ou seja, já no início do capitalismo. Na chamada Idade Média predominava o analfabetismo, mesmo entre a nobreza. Carlos Magno, por exemplo, não sabia ler nem escrever.

Ainda na primeira metade do século XIX a grande maioria da população europeia era analfabeta. Na Rússia, quando das Revoluções de 1917, 80% da população não sabiam ler ou escrever. A memória e os conhecimentos eram ainda, em grande medida, transmitidos pelos maisvelhos através da fala.

Com a expansão do processo de alfabetização e a consolidação de uma cultura escrita – necessária à fase industrial do capitalismo –, a situação mudou sensivelmente. A cultura oral perdeu importância. A memória do “fazer” poderia agora ser armazenada em livros, revistas e manuais. As coisas adquiriram um novo ritmo, mais acelerado. Num tempo em que “tudo o que é sólido se desmancha no ar”, o velho passa a ser considerado um estorvo à sociedade.

Mas, voltemos à nossa questão inicial: O que o passado pode nos ensinar? Hobsbawm é muito cético quanto a esta possibilidade. As respostas que ele nos dá não são nada alentadoras, especialmente na sua coletânea Sobre a História. Diz ele: “Não podemos deixar de aprender com (essas comparações em relação ao passado) (...). Podemos aprender coisas erradas – e, positivamente, é o que fazemos com mais frequência”. Em outro momento chega a afirmar: “Infelizmente uma coisa que a experiência histórica também ensinou aos historiadores é que ninguém jamais parece aprender com ela”. Uma avaliação decerto bastante pessimista sobre a capacidade dos seres humanos de aprenderem algo com a história.

As pessoas comuns – o senso comum – tendem, na maioria dos casos, a jogar a culpa pelos erros cometidos pela humanidade nas costas da nossa ignorância, da nossa incapacidade de extrair lições dos acontecimentos ocorridos no passado. Afirmam: “Se tivéssemos aprendido com os nossos erros, não os teríamos cometido de novo”.

Esta constatação pode até valer para a vida privada, mas não para a história das sociedades humanas.Aqui, infelizmente, ao contrário do que diz o senso comum, os fatos e os acontecimentos históricos não falam e nem ensinam por si mesmos. Eles devem ser lidos por homens portadores de interesses contraditórios e, por vezes, antagônicos. Por isso, não é possível ler a história de um mesmo jeito e extrair dela sempre as mesmas lições.

Um ditado, talvez, nos seja muito útil neste debate: “Se os teoremas da geometria, hoje universalmente aceitos, entrassem em conflito com os interesses das classes sociais, com certeza, eles também seriam objeto de questionamentos e de conflitos acirrados”. Lembramos, por exemplo, quantos livres pensadores não foram aprisionados, supliciados e até executados por afirmarem simplesmente que a Terra não era plana e, pior, que não era o centro do universo criado por Deus.

Por que houve tantas e sangrentas polêmicas em torno de algo que nos parece, hoje, tão evidente? É que essas verdades, na época, atingiam em cheio interesses de duas “entidades” poderosas: a alta nobreza e a Igreja católica. Muitos crentes, inclusive, se recusavam a olhar pelo telescópio para não serem tentados pela ciência demoníaca que entendiam ser a astronomia.

As lições que o passado pode nos dar estão ligadas às capacidades de cada classe ou setor social de apreendê-las, e estas capacidades de apreender estão ligadas à sua condição de “ser no mundo”. Em outras palavras: cada segmento social (classe, camada, gênero, etnia e nacionalidade) extrairá lições diferentes de cada acontecimento histórico particular, a depender de seus interesses, imediatos ou históricos, reais ou imaginários.

Vejamos, então, um exemplo paradigmático. Qual lição nós, seres humanos, podemos extrair do holocausto dos judeus, perpetrado pelos nazistas durante a Segunda Grande Guerra Mundial? A grande maioria das pessoas, impregnadas por certa ideologia humanista, liberal ou socialista, concluirá que a intolerância, especialmente étnica, conduz à barbárie e, por isso mesmo, deve ser combatida logo que apareçam os seus primeiros sinais. Isto, acreditamos, permitiria minimizar os riscos da volta ou expansão de um movimento de tipo nazi-fascista.

Será que essa mesma conclusão (ou lição) sobre o holocausto judeu seria extraída por um militante dos inúmeros movimentos nazistas espalhados pelo mundo, inclusive no Brasil? Diria que não. Ele, sem pestanejar – e para nosso espanto (e indignação) –, diria: “o problema foi que Hitler começou tarde demais e não matou um maior número de judeus e comunistas”.

No outro extremo, um sionista – ou seja, um nacionalista radical judeu de direita – tiraria como lição da história que os judeus não devem contar com ninguém, visto que ninguém se importou com eles durante o holocausto. O massacre, a diáspora do povo palestino e a construção de assentamentos (ou colônias) judaicos nos territórios ocupados são os resultados mais concretos das lições extraídas pelos sionistas do holocausto.

Dei um exemplo extremo, mas que pode servir para todos os principais acontecimentos históricos: como as Revoluções francesa, russa e cubana, como todas as sangrentas guerras do século XX.Citarei apenas mais um caso. Refiro-me à lição extraída pelo liberal Sir Karl Popper, autor do livro A sociedade aberta e seus inimigos, sobre os atuais conflitos africanos. Ele chegou à conclusão de que as independências daquele continente foram concedidas cedo demais e teria sido como entregar um orfanato nas mãos das próprias crianças. No fundo, ele deve ter pensado não num orfanato inglês, mas num abrigo de garotos infratores. Muitos intelectuais passaram a clamar pela volta do colonialismo civilizador. Assim, existem lições e lições. 

O passado do historiador 

Se perguntássemos, para qualquer pessoa comum, o que é história, ela, rapidamente, nos diria: É algo que trata de fatos e personagens que existiram num passado mais ou menos distante. Estes três elementos (fatos, personagens e passado), sem dúvida, entrariam em duas de cada três definições do que seria história. E, ao referir-se ao passado, pensava-o como uma coisa morta, que nada poderia nos dizer, emuito menos nos ensinar sobre o tempo presente.

Não é sem razão que, no interior das salas de aula, a história muitas vezes foi tida como uma disciplina chata. Isto se deu, especialmente, devido à pouca relação estabelecida entre o que era ministrado e os problemas concretos vividos pelos alunos. Não existia qualquer convicção de que o aprendizado da história pudesse ajudá-los desvendar, e principalmente transformar, o mundo em que viviam.

O problema é que o passado do historiador não deveria ser – e não é – algo morto, como o fóssil de um dinossauro encravado numa rocha ou exposto num museu. Os fatos, como uma espécie de matéria-prima da história, não são coisas mortas que apenas devem ser coletados e colocados numa sequência rigorosamente cronológica. Repito, não é possível estudar uma comunidade humana e seu desenvolvimento histórico como se fosse uma colmeia ou um conglomerado de rochas. Estranhamente, este passado continua vivendo e produzindo seus efeitos sobre nós, e é justamentepor isso que ele deve ser estudado e melhor compreendido.

No caso das ciências humanas – ao contrário das ciências naturais e exatas –, não há uma muralha da China separando o objeto a ser estudado (as sociedades) do sujeito que o estuda (o historiador, o sociólogo etc.), mesmo tratando-se do estudo de agrupamentos que viveram há milhares de anos.

Para os antigos historiadores de tendência positivista, os fatos eram como coisas brutas e mortas. Eles estavam permanentemente atrás dos fatos puros, duros e irretorquíveis. Contra os fatos não havia argumentos, gostavam de dizer. Contudo, os fatos não falam por si mesmos, como afirma o senso comum positivista. Segundo o historiador inglês Edward Carr, “os fatos falam apenas quando o historiador os aborda: é ele quem decide quais fatos devem vir à cena e em qual ordem e em qual contexto”.E conclui: “a convicção num núcleo sólido de fatos históricos que existem objetiva e independentemente da interpretação do historiador é uma falácia absurda, mas que é muito difícil de ser erradicada”.

O historiador que se propõe fazer perguntas ao passado não é um ser desencarnado, separado do mundo. É membro de uma determinada sociedade, de uma determinada época, de uma determinada classe social. Encaixa-se no interior de determinadas ideologias e perspectivas teórico-metodológicas, que, na maioria das vezes, têm um forte sentido classista. Portanto, o historiador não é neutro diante dos conflitos e dos problemas que aparecem à sua frente durante a pesquisa que realiza.

É a sua situação no mundo que determina as perguntas e as escolhas cotidianas que faz. Isto, é claro, vai direcionar as respostas que ele procura encontrar. Um historiador liberal-burguês, por exemplo, jamais colocaria a questão: de onde vem a exploração do trabalho? Para ele, o conceito de exploração nada teria de científico, não passaria de uma excrescência ideológica – invenção de alguns socialistas inconformados.

A história não é a simples catalogação neutra de fatos ocorridos no passado. A missão dos historiadores é relacioná-los numa totalidade concreta (processo histórico), e principalmente interpretá-los. E a interpretação sempre tem por base determinada teoria ou ideologia. A partir dos mesmos fatos podemos construir várias e contraditórias interpretações.

O historiador marxista tem como objetivo fornecer uma explicação coerente das origens e desenvolvimento das sociedades humanas em suas diversas dimensões. Procura compreender as inúmeras transformações pelas quais elas passaram. As mudanças sociais devem ser, em última instância, os verdadeiros objetos das pesquisas históricas.

As sociedades humanas – como tudo no universo – estão num constante movimento. Elas nascem, desenvolvem-se – conhecem várias fases – e depois fenecessem. Estas transformações podem dar-se lentamente – quase imperceptíveis –, ou de maneira abrupta, como ocorre nas guerras e nas explosões revolucionárias. Mas qual é o motor dessas permanentes mudanças? São as contradições existentes no seio de cada sociedade, que se traduzem naquilo que os marxistas chamaram de lutas sociais ou luta de classes.   

Por que os trabalhadores devem conhecer a história? 

Em todas as comunidades humanas existe um combate surdo pela memória. Ele faz parte de uma luta maior visando à conquista da hegemonia na sociedade. Em outras palavras, a história é um espaço no qual os grupos sociais se enfrentam para decidir qual deles dirigirá os rumos da nação e mesmo do planeta.

Por isso, as classes dominantes sempre procuraram reconstruir o passado para, no presente, justificar a sua própria dominação. Os líderes das nações imperialistas, por exemplo, buscam utilizar-se da chamada história universal para justificarem a dominação e a exploração que exercem sobre outros povos, considerados inferiores.

Vejamos alguns exemplos extremos dessas tentativas: os faraós do Egito foram transformados em filhos diletos do Deus Rá; alguns governantes gregos e romanos tornaram-se descendentes de deuses e heróis olímpicos. Para justificar a escravidão africana, os negros foram considerados descendentes de Cam, o filho amaldiçoado de Noé. Deveriam pagar, através da servidão, pelos pecados de seus antepassados. Estes são apenas exemplos mais descarados da reconstrução mítica da história feita pelos membros das classes proprietárias no poder e seus escribas. Existem outros exemplos mais sutis, menos perceptíveis, mas nem por isso menos perversos.

Os deserdados da terra, os povos explorados, escravizados – ou mesmo eliminados –, deixaram poucos rastros na história universal. Os escravos do Egito, Roma e Grécia não nos legaram nenhuma obra escrita apresentando o seu ponto de vista sobre a situação na qual viviam. Quem escreveu a história dessas sociedadesantigas foram os homens livres e,na sua quase totalidade, proprietários de terras e de escravos. Alguns imperadores também aventuraram-se no oficio de escrever história. O objetivo era enaltecer os seus próprios feitos e os dos seus antepassados.

No Brasil as coisas não podiam ser diferentes. Aqui também não foram os índios e negros escravizados que escreveram a história do país. Afinal, a quase totalidade deles não sabia ler e escrever – era-lhes proibido frequentar escolas. O que sabemos deles, num primeiro momento, nos foi contado por viajantes estrangeiros e jesuítas. Relatos que muitas vezes descreviam o martírio desses povos, mas, em geral, vinham carregados de preconceitos e graves incompreensões.

Somente na segunda metade do século XIX, ao começar ser questionada a escravidão, surgiu pela pena dos abolicionistas uma “outra história”, mais crítica ao passado escravista. Mesmo assim, apesar de sua boa vontade, os abolicionistas não poderiam expressar adequadamente as opiniões dos explorados. E aqui não vai nenhum demérito a eles,pois foi através dos óculos desses escritores progressistas que começamos a conhecer um pouco mais da evolução e das vicissitudes de nossa sociedade.

Não quero dizer que se os índios e os negros escravizados soubessem ler e escrever produziriam interpretações exatas da sociedade na qual viviam. Eles ainda não tinham o instrumental teórico necessários para isso. Mas, com certeza, seus depoimentos nos permitiram ver a realidade por outros ângulos e nos ajudariam a montar o complexo quebra-cabeça do que foi o mundo colonial e escravista. O olhar da senzala jamais será o mesmo que o da Casa Grande, mesmo que por ela pudesse ser fortemente influenciado. Este, inclusive, foi o erro daqueles que pretenderam generalizar as conclusões de Gilberto Freyre expressas na sua obra magna.

Podemos dizer que somente com o advento do capitalismo e a formação de uma classe trabalhadora moderna, que aprendera a ler e escrever – podendo, assim, produzir seus próprios intelectuais orgânicos –, é que foi possível construir uma história mais coerente das classes exploradas. Apesar disso, por um bom tempo esta nova história (em geral socialista) foi marginal, circulando fora dos grandes circuitos, como as academias e o mercado editorial. Afinal, as ideias dominantes são sempre – ou quase sempre – as ideias das classes dominantes. 

Somente tendo a consciência de que a história é um espaço de luta de classes, os trabalhadores poderão se dedicar com mais afinco ao seu estudo e elaboração. O domínio da história e, por conseguinte, da dinâmica das sociedades em que vivem – como das experiências de resistências desenvolvidas por seus antepassados –, os ajudará a travarem, de maneira mais consequente, as lutas do presente, avançando rumo ao socialismo.

Saber que as sociedades se transformam – que nada é imutável –, e que o principal instrumento dessas mudanças é a ação consciente dos homens, tem um efeito decisivo no processo de constituição da classe dos trabalhadores como agente ativo de sua própria história.

A construção dos fatos e personagens da história brasileira

Vejamos agora como se constroem socialmente os fatos e personagens históricos, tendo como referência a história do Brasil. Comecemos pelo processo de nossa independência política, que teve como um de seus momentos marcantes a proclamação do Sete de Setembro. Incontestavelmente esta data se constitui enquanto um fato histórico. Creio que ninguém, atualmente, negaria isto ou proporia eliminá-la do calendário cívico nacional.

É claro que a coisa não ocorreu como descrito na clássica pintura de Pedro Américo, localizada num lugar nobre do Museu do Ipiranga. A tela em questão foi produzida muitas décadas depois do famoso grito de Pedro I. Seu objetivo, não declarado, foi enaltecer os feitos do membro fundador da família real brasileira. Os Bragança, naquele momento, passavam por graves dificuldades. Estávamos em 1888, às vésperas da Proclamação da República.

Sabemos que dom Pedro não estava montado num garboso cavalo e sim numa simples mula, ainda que real. A sua comitiva e os soldados não estavam trajando vistosas roupas de gala, mas vestes surradas e empoeiradas da longa viagem pelo interior. Contudo, foi a imagem deixada pelo pintor paraibano que prevaleceu no imaginário nacional e, para que isto ocorresse, foi preciso reproduzi-la nos livros didáticos, nos selos comemorativos e nos filmes apologéticos, como Independência ou morte. Na época, o trabalho do artista custou uma pequena fortuna aos cofres públicos.

Isto pouco importa, pois sabemos que a Independência do Brasil não se reduziu ao grito de dom Pedro às margens plácidas do Ipiranga. Ela foi um processo longo que teve suas origens mais remotas nos movimentos nativistas,como a revolta de Bequimão no Maranhão (1684), a Guerra dos Emboabas (1707-1709) e a Revolta de Felipe dos Santos em Minas Gerais (1720). Passou pela Inconfidência Mineira (1789), pela Conjuração Baiana (1799), a Insurreição Pernambucana (1817), a chegada da família real portuguesa (1808), a elevação do país à condição de Reino Unido (1815) e a decisão de dom Pedro de ficar no país (9 de janeiro). O processo também não terminou no Sete de Setembro, como geralmente se pensa. Mesmo depois daquela data, o Brasil ainda não estava completamente libertado.

No Norte e Nordeste do país, devido à forte influência portuguesa no comércio e junto às tropas, havia muita resistência em se separar de Portugal. Eclodiram, então, as chamadas guerras da independência na Bahia, no Piauí e no Maranhão. Ali foram mobilizados tantos homens quanto nas guerras de Independência ocorridas na América espanhola. A Bahia, depois de muita luta, tornou-se independente apenas em 2 de julho de 1823, o Maranhão em 28 de julho.

Para muitos patriotas, a tarefa não estava completada. No trono ainda tínhamos um monarca estrangeiro, que dividia sua fidelidade entre o Brasil e Portugal. Mesmo tendo abdicado ao trono português em favor de sua filha, continuava se interessando pelos assuntos lusitanos. Existia uma preocupação real dos brasileiros quanto a uma possível recolonização do país.

Em 1831, depois de alguns conflitos sangrentos nas ruas do Rio de Janeiro, dom Pedro I renunciou. Somente então foi, de fato, concluída a Independência do Brasil. Portanto, foram várias datas e vários personagens que se envolveram naquele conturbado processo, mas apenas alguns acabaram sendo destacados, selecionados, para compor o panteão dos fatos e heróis nacionais.

O título de herói da Independência coube a dom Pedro I e o fato mais importante ficou sendo o famoso grito dado às margens do Ipiranga: “Independência ou morte”. Esta escolha – nada casual – se encaixava perfeitamente dentro dos interesses das elites brasileiras que buscávamos símbolos que melhor expressassem e servissem à sua dominação de classe.

De fato, nossa independência não foi obra exclusiva de dom Pedro, nem aconteceu num único dia. Ela foi fruto de contradições acumuladas por séculos, colocando em lados opostos os interesses da colônia e os da metrópole, e que já tinham ocasionado as Inconfidências mineira e baiana (1799).

A verdadeira Independência teria sido possível sem as guerras de libertação na Bahia, no Maranhão e no Piauí; sem os levantes populares em várias cidades, como o ocorrido no Rio de Janeiro em 1831. Não se realizaria sem o pensamento e ação dos setores populares e radicais do independentismo, como de Cipriano Barata ou de José Bonifácio.

Vejamos outro importante herói nacional e o fato histórico ligado a ele. Refiro-me a Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, e à Inconfidência Mineira. Ninguém tem dúvidas sobre o papel deste trágico personagem. Ele é, incontestavelmente, o principal herói brasileiro. É o seu rosto, por exemplo, que constava da exposição do bicentenário da independência da Argentina na Casa Rosada – ao lado de Simon Bolívar e San Martin.

Lembramos que nem sempre foi assim, e talvez nunca tivesse sido se não fosse pela decisão de alguns homens. O próprio termo inconfidência literalmente significa “ato de deslealdade, traição”. Portanto, era uma palavra com forte sentido negativo e que hoje soa quase como um elogio à rebelião.

Pelo menos até 1889 – ou seja, 100 anos depois da sua morte –, o nome de Tiradentes não parecia digno de qualquer menção governamental especial e muito menos de comemorações cívicas. Era considerado mais um louco do que um herói. Afinal, os filhos e netos de “Maria Louca” – mandante do enforcamento e esquartejamento– é que se encontravam no poder. Somente após a Proclamação da República, Tiradentes passou a compor o panteão dos heróis nacionais e a data de sua morte – 21 de abril – virou feriado nacional.

Mas, por qual razão foram escolhidas a Inconfidência Mineira e a figura de Tiradentes como símbolos da luta pela liberdade da Pátria? Em primeiro lugar, por este movimento ter sido liderado por uma elite ilustrada – poetas, oficiais do exército, padres, funcionários públicos, empresários etc. Todos senhores brancos respeitáveis. A favor de Tiradentes, o mais plebeu deles, pesava o fato de ser republicano, e principalmente alferes (equivalente ao posto de segundotenente). Sabemos que a República foi, em parte, obra de militares, como Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Benjamim Constant. Assim, puderam traçar um fio de continuidade entre suas ideias (e posição social) e as de Tiradentes.

A escolha poderia ter recaído sobre outros movimentos e mártires. Dez anos depois da Inconfidência Mineira, eclodiu uma tentativa de conjuração na Bahia – também conhecida como Revolta dos Alfaiates. Como o próprio nome já indica, ela foi mais popular e radical que a mineira. Por isso mesmo, causou um maior impacto na colônia – colocando em alerta a própria metrópole. As bandeiras dos conjurados baianos eram: a independência, a República e a abolição da escravidão.

Ao contrário do que aconteceu em Minas Gerais, deste movimento baiano participaram muitos escravos e ex-escravos. Se a Inconfidência Mineira foi muito influenciada pela Revolução Americana, a Conjuração Baiana o foi pela Revolução Francesa, muito mais radical.

Quatro de seus líderes foram enforcados no dia 8 de novembro de 1799. Como Tiradentes, tiveram seus corpos esquartejados,os membros decepados e colocados em praça pública para que a população visse e não tentasse seguir o seu exemplo. Dos mortos, dois eram soldados rasos e dois eram alfaiates. Seus nomes: Lucas Dantas, Manuel Faustino, Luiz Gonzaga das Virgens e João de Deus Nascimento.

Trataremos agora de um último herói nacional e da última data histórica. Refiro-me a Zumbi de Palmares e ao 20 de novembro, data provável de sua morte e que foi instituída oficialmente como o dia nacional da consciência negra. Se hoje fizéssemos uma pesquisa sobre qual seria o principal herói do Brasil, sem dúvida, o nome deste líder negro estaria disputando palmo a palmo os primeiros lugares com o alferes Tiradentes, e talvez com o imperador dom Pedro I.

Não precisamos dizer que este é um fenômeno novo. Era inconcebível que isto pudesse vir a ocorrer durante o Império escravista ou mesmo nos primeiros anos da chamada República Oligárquica (1889-1930), quando ainda predominavam ideologias assentadas no “racismo científico”. Onde imperava o ideal de uma sociedade composta por uma população exclusivamente branca, sem mestiços ou negros. Numa sociedade elitista desta natureza não haveria lugar para heróis negros.

O nome de Zumbi começou a aparecer na história durante a campanha abolicionista – incorporado pelo seu setor mais radicalizado. Era uma das referências de um determinado movimento cívico, ao lado de outros personagens, como legendário líder dos escravos de Roma: Spartacus. Ainda seria preciso quase cem anos para que o nosso herói negro começasse a galgar os íngremes degraus do panteão da pátria. Coisa que só foi possível devido à crise da ditadura militar e à democratização do país, fortemente impulsionados pelos movimentos de contestação popular, nos quais se incluíam as organizações negras. A data provável da morte de Zumbi, atualmente, é feriado em vários estados e caminha para se tornar feriado nacional. É claro que o racismo difuso ainda existente entre nós buscará criar algumas dificuldades para que isso aconteça.

O “caso Zumbi” demonstra que a história continua aberta para a criação de novos heróis e fatos históricos. Conforme novas forças sociais entram em cena, a história vai se ampliando, se democratizando. Operários, camponeses, negros, mulheres, homossexuais e idosos, corretamente, continuam tentando emplacar os seus heróis. Hoje são apenas deles, amanhã poderão ser de todos nós – ou, pelo menos, de quase todos.

Heróis regionais, de movimentos específicos, por um lado, podem se tornar, em determinados momentos, heróis nacionais. Por outro lado, heróis nacionais podem decair na escala de prestígio social e entrar em recesso – ou mesmo se aposentardefinitivamente. Cito apenas os casos dos bandeirantes paulistas, da princesa Isabel (a “redentora dos escravos”) e do duque de Caxias – este último foi atingido em cheio pelo desgaste sofrido pelas Forças Armadas durante a Ditadura Militar, que imperou no país por 20 anos.

Diga-se de passagem que o nosso bom Duque só atingiu o status de grande herói durante outra ditadura, a do Estado Novo. Este estava em luta para reforçar os aspectos unitários da Nação contra o federalismo das elites regionais. O ato solene da queima das bandeiras estaduais e a ascensão do Duque fazem parte de um único processo e servia aos mesmos interesses.

Não são indiferentes, para a sociedade, os personagens e acontecimentos que escolhemos para compor a história pátria. Estas escolhas não são neutras. Nada mais falso que encará-las como coleção de fatos puros (objetivos), distribuídos cronologicamente. Estas escolhas estão carregadas de significados e produzem efeitos na consciência do povo. Podem reforçar visões e práticas conservadoras ou progressistas.

Por fim – e isso é o mais importante –, devemos acentuar que mesmo os grandes personagens somente são grandes porque expressaram, em algum momento, determinados movimentos mais amplos da própria história – não são propriamente eles que fazem a história e sim são produzidos por ela. O que seria do imperador Napoleão Bonaparte sem a Revolução Francesa, que convulsionou o solo social nacional? Sem ela, ele possivelmente não ultrapassaria a modesta condição de pequeno oficial em alguma província distante de Paris.

As mesmas questões servem para o Brasil. Será que sem Tiradentes ou dom Pedro I não teríamos conquistado a Independência? Sem a princesa Isabel, ou mesmo Zumbi, não haveríamos tido a Abolição? Sem Deodoro não existiria a República? É claro que mesmo sem estes personagens o Brasil ainda seria uma República independente e sem escravidão. No máximo, os ritmos e as formas das mudanças teriam sido diferentes, mas não seu sentido geral.

Portanto, ainda mais importante do que escolhermos nossos fatos e heróis é definirmos como encaramos o próprio fazer histórico. A história pode ser vista como obra de “grandes personagens” – indivíduos quase sobre-humanos – ou como obra coletiva. Pode ser encarada como o resultado de dádivas,de acordos “por cima”, ou como fruto de lutas sociais abrangentes, que têm por base interesses materiais concretos dos diversos agrupamentos sociais. A história pode ser vista apenas como grandes acontecimentos ou como processos contraditórios de variadas durações, que conhecem momentos de rupturas revolucionárias.

* Esta é uma versão ampliada do texto apresentado na mesa "A importância da história na formação do ser social", que compôs a programação do XX Encontro Nacional de Educadores, promovido pela Secretaria Municipal de Educação de Paulínia (SP) ) entre 26 e  28 de julho de 2010. Publicado no mesmo ano no Portal Grabois e na Carta Maior. 

** Augusto Buonicore é historiador, presidente do Conselho Curador da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira: encontros e desencontros, Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas e Linhas Vermelhas: marxismo e os dilemas da revolução. Todos publicados pela Editora Anita Garibaldi

 

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