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É preciso frieza para entender e estar no jogo

Ricardo Cappelli Publicado em 24.05.2017

Está em curso um processo avançado de metástase do sistema político brasileiro. Quem mais está se fortalecendo são setores da burocracia estatal de caráter antinacional. São eles que estão no comando. Nunca a negação da política e dos partidos foi tão grande. No vácuo da irracionalidade do impeachment, estes setores assumiram o leme para não largar mais.

A recusa de Temer à renúncia foi de certa forma positiva. É preciso frieza e equilíbrio para ler o jogo em curso.

O movimento de ontem foi claro. O mercado pressionou fortemente por uma saída rápida. Apostou tudo nas reformas. O impacto das revelações e a reversão das expectativas foi fulminante. A Bolsa despencou. As empresas brasileiras perderam nada menos que 225 bilhões de reais. Suas ações despencaram. Um desastre.

A GLOBO desde cedo seguiu o mesmo caminho. Noblat e Moreno chegaram a anunciar a renúncia de Temer no Twitter. A pressão foi enorme. O objetivo era claro. Temer perdeu “funcionalidade”. Troca-se ele rapidamente num acordo por cima, sem povo, sem dar tempo para a indignação tomar as ruas. O caminho defendido por Globo/mercado é eleições Indiretas. Sabem que o programa que defendem não passa pelo escrutínio popular.

Com a recusa de Temer e o horizonte de grandes manifestações, o clamor por eleições diretas tende a aumentar e pressionar os deputados nesta direção. Abriu-se a possibilidade de incluir povo no jogo, tudo que eles não queriam.

Temer continuará seu calvário. Como sairá, o tempo dirá. Seu governo acabou. Apesar da derrota momentânea da agenda de reformas neoliberais, é precipitado comemorar. A delação da JBS explodiu Aécio e Temer. Um até pouco tempo era oposição. O outro, figura decorativa. É muito pouco provável que os próximos capítulos do Sr. Joesley não contaminem seriamente os demais partidos. Foi nos governos Lula e Dilma que a empresa viveu seu “boom”. Está em curso um processo avançado de metástase do sistema político brasileiro. Quem mais está se fortalecendo são setores da burocracia estatal de caráter antinacional. São eles que estão no comando. Nunca a negação da política e dos partidos foi tão grande. No vácuo da irracionalidade do impeachment, estes setores assumiram o leme para não largar mais.

A batalha central será esvaziar o poder destas corporações e devolvê-lo à política, através da radicalização da democracia com a convocação de eleições diretas. Necessitará muita amplitude e a superação da divisão sectária do país entre “coxinhas” e “mortadelas”. Todos que defendam “Eleições Diretas Já!” devem ser bem recebidos. Não será uma batalha fácil. O capitalismo atual não convive bem com povo e democracia.

Com determinação, luta e muita amplitude podemos ter alguma chance.

Parte II

Por que o jornalista Lauro Jardim teve o “privilégio” de dar “o furo do século”? Por que a Globo resolveu exigir a saída de Temer e colocar a família de Aécio no presídio no JN? Teria a família Marinho dado uma súbita guinada à esquerda? Seria Lauro Jardim o mais competente jornalista de todo hemisfério sul? Por que Meireles anunciou ontem ao mercado que, seja qual for o presidente, ele e sua equipe permanecerão? Quem lhe deu esta segurança? Por que foram feitas sonoras com alguns Ministros do STF defendendo a manutenção das atuais regras constitucionais (indiretas)?

As revelações “exclusivas” da Globo são mais um capítulo da parceria de sucesso entre a emissora e setores da burocracia estatal de caráter antinacional que começou com o impeachment de Dilma e pode acabar instaurando uma “democracia de fachada” no país. São eles que estão no comando. O “furo”, ou o vazamento, como queiram, foi milimetricamente planejado no jogo em curso. Temer e Aécio foram a “manga do kimono” dada de caso pensado. Querem utilizar a “força da suposta imparcialidade” para o grande golpe final. Após o enfrentamento Lula x Moro ficou evidente a fragilidade de um contrato em branco para decretar a prisão de alguém. A partir daí foi colocada em curso a estratégia final.

Do lado do mercado foi ficando claro também a dificuldade de Temer aprovar as reformas. A saída foi a “Operação Patmos” (Apocalipse). Obviamente que aparecerá munição pesada contra os governos Lula e Dilma em seguida. As cartas estão com eles e serão usadas no momento certo. Afastado Temer e destruído o PSDB, ninguém se levantará contra uma prisão “parcial” de Lula e outros da esquerda. Está em curso o Apocalipse do sistema político brasileiro. Alguém lembra o que fazia Meireles até o ano passado? Acertou quem respondeu que ele era um dos principais executivos do grupo JBS, isto mesmo.

Joesley está agora no seu apartamento de 45 milhões de dólares nos EUA, pelo acordo com “eles” não será preso nem usará tornozeleira eletrônica, é o segundo maior anunciante da Globo, e seu principal executivo (Meireles), garantido pelo Globo, continuará a comandar a economia do país sem os políticos com quem antes tinha que negociar. Existe crime perfeito só em filme? Parece que não. A sanha da Globo por uma queda rápida de Temer reside no medo de que, se arrastando, possa levantar a população por Diretas, o que bagunçaria toda sua estratégia. Os jornais de hoje são categóricos. Folha e Estadão pedem prudência, equilíbrio e racionalidade, o Globo fuzila.

As manifestações de ontem foram importantes, mas foram pão com mortadela. Nós com nós mesmos. Se não ampliarmos rapidamente, a Aliança do Coliseu, formada pela Globo e setores da burocracia estatal de caráter antinacional, nomeará o biônico pelo Congresso. Parte da esquerda se ilude com uma saída mediada no congresso. Com Rodrigo Maia no alvo e munição de sobra para ele e para seus deputados, dificilmente não ficarão de cócoras para a Globo. Teremos um governo biônico com a política de joelhos, um arremedo de democracia.

Conseguir colocar a população na rua parece o único caminho para tentar impor eleições Diretas, mas não será tarefa fácil. A população está anestesiada. Hora é de muita amplitude e mobilização. Haverá força para um contragolpe?

Dias difíceis pela frente. Infelizmente, o jogo é bruto, e vai piorar.

Ricardo Cappelli é ‎Secretário Chefe da Representação Institucional do Governo do Maranhão no Distrito Federal