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O poder invisível dos Think Tanks

Max Medeiros Publicado em 13.06.2017

É bem verdade que essas organizações participam do cotidiano da construção da opinião pública brasileira de forma contundente, mesmo que não percebamos que elas existem e quais são seus objetivos, quem são seus agentes e quem as financiam.

A origem da palavra “Instituição” remete a INSTITUERE e STATUERE, do Latim, aonde detém o significado “definir, estabelecer” e “fazer ficar de pé”, respectivamente. Mas aqui nós falaremos de instituições que fogem totalmente ao sentido do “fazer ficar de pé”, mas que usam de todos os meios disponíveis, que não são poucos, para chegar aos seus objetivos. É bem verdade que essas organizações participam do cotidiano da construção da opinião pública brasileira de forma contundente, mesmo que não percebamos que elas existem e quais são seus objetivos, quem são seus agentes e quem as financiam.

O termo Think Tank foi empregado primeiramente pelos EUA, durante a Segunda Grande guerra, com intuito de definir o ambiente propício (tank) dentro do qual os especialistas civis e militares se estabeleciam para que assim pudessem aprimorar (think) as estratégias e táticas de inserção militares. Terminada a guerra, o conceito difundiu-se, já na altura dos anos de 1960, para caracterizar diversos grupos e institutos de especialistas, atribulados com a pesquisa das relações internacionais e de outras questões estratégicas. Foi na década de 1970, que a terminologia think tanks foi associada de forma ampla a instituições norteadas também por questões da política, da economia e da sociedade cotidiana.

Essas organizações são um dos principais instrumentos de propagação ideológica no que se refere aos seus interesses. Por intermediação desses centros ou institutos de pesquisa são realizadas as produções e as propagações de seu ideário.

Uma das características principais do trabalho feito pelos think tanks e seus membros, é de se disporem como agentes de operação de sentido, referendados por ideias e relatórios que trazem consigo raciocínios científicos e dados que ratifiquem a aceitação de uma ou mais propostas específicas, e o fazem com a auto intitulação de ideologicamente “neutros”. Então, façamos aqui um paralelo entre o Instituto de Pesquisa de Estudos Sociais – IPES e o Instituto Millenium, e os seus respectivos papeis nos golpes de 1964 e 2016.  O IPES foi criado com um único objetivo, de influenciar em um clima, já “esquizofrênico” devido à guerra fria, de desestabilização do governo de João Goulart (1960-64).

Criado de forma oficial em 29 de novembro de 1961, esse instituto foi resultado da junção de grupos do empresariado orgânico do Rio de Janeiro e São Paulo, e, de forma rápida conseguiu o apoio das classes produtoras em diversos estados do país. Logo que instalado, produziu material antigovernamental e o distribuiu em todo o território nacional, associou o governo de Jango com o comunismo, fomentou debates, produziu palestras, produziu mais de uma dezena de filmes e ajudou na publicação de livros que criminalizavam os movimentos sociais, além de financiar uma serie de outros grupos que tinham a mesma inciativa, como por exemplo, os Círculos Operários carioca e paulista, a Confederação Brasileira de Trabalhadores Cristãos, a Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE) do Rio, a União Cívica Feminina de São Paulo, o Instituto Universitário do Livro e o Movimento Universitário de Desfavelamento.

A queda de Jango não demorou e o Brasil mergulhou em uma Ditadura Militar de 21 anos, causando forte repressão, censura e diversas outras violações.  A participação do IPES na destituição do governo Goulart, em 31 de março de 1964 pelos militares, foi acima de tudo  resultado de um trabalho de marketing intenso. Isso, porém, não coibiu que parte de seus componentes, de forma individual, atuassem de maneira mais incisiva. O reconhecimento dos seus feitos pelo regime militar, ocorreu em 7 de novembro de 1966, quando foi declarado “órgão de utilidade pública” por decreto presidencial. O IPES paulista foi definitivamente encerrado em 1970 e o do Rio cessou suas atividades em março de 1972.

Hoje, temos o Millenium, com nova roupagem, mais “tragável”, que age mais sorrateiramente, que se esconde sob o discurso falacioso de “fortalecimento” das liberdades individuais e democracia, mas que, em seu seio mora o mesmo espírito oportunista, golpista e vil que outrora habitava o já obsoleto e falecido IPES.  Defende as privatizações, o sistema financeiro, faz campanha permanente contra qualquer tipo de regulação dos oligopólios midiáticos brasileiros, propõe por deveras a retirada de direitos sociais e supressão de políticas afirmativas por parte do Estado, conforme podemos observar de forma clara em seu site. Criada na necessidade de formulação da oposição midiática, intelectual e empresarial aos governos Lula e Dilma, o Instituto Millenium foi a realização concreta da junção de tais forças com intuito de fazer um contraponto direto à ascensão de governos trabalhistas na América Latina.

A instituição abriga dentro de seu quadro de colaboradores financeiros e formuladores, nomes como Armínio Fraga (ex-presidente do banco central e forte defensor do estado mínimo, tem ligações umbilicais com o FMI, do qual já foi funcionário direto), Carlos Alberto Sardenberg (comentarista de economia da rede globo), Ali Kamel (diretor de jornalismo da Rede Globo), José Nêumanne Pinto (Comentarista político do SBT), Reinaldo Azevedo (agora, Ex-Jornalista da Revista Veja), dentre outros. O instituto Millenium é financiado pela Gerdau (Fabricante de aço), por Roberto Irineu Marinho (Um dos donos da Rede Globo), Família Frias (Folha de São Paulo), Família Civita (Editora Abril) e algumas empresas internacionais como Évora Holding Company e Bank of America Merril Linch.

Dessa forma, fica claro o tamanho da inserção nos principais conglomerados midiáticos do País, podendo difundir de forma sistemática e endêmica tudo aquilo que o instituto insiste em não chamar de ideologia e sim de “preocupação” com os problemas do Brasil. Assim como o IPES, o instituto Millenium trabalha com foco na difusão ampla de seu ideário a partir de editoriais, palestras, oficinas e workshops dentro das universidades e instituições patronais por todo o Brasil, além da constante produção de vídeos, documentários e publicações de livros que “idiotizam” o trabalhismo na América Latina e tentam a todo custo, vender a ideia de que “o ideal de esquerda é velho e ultrapassado” e não tem espaço no mundo moderno. Esse poder invisível, na verdade nada mais é que a mão do patronato nacional e internacional propagantizado em forma de estudos sérios, através dos Think Tanks e seus agentes.

Max Medeiros é pesquisador em Ciência Política da Universidade Federal Rural do Semiárido – Ufersa, onde cursou Administração, funcionário público e membro da Associação Latino-americana de Ciência Politica.

Publicado em Agência FPA