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Três notas sobre a tática eleitoral do PCdoB – e os galhofeiros

A.Sérgio Barroso Publicado em 08.06.2018

“Visto que nossos inimigos observam curiosamente nossas ações, é necessário que estejamos atentos a nós mesmos, e essa vigilância transforma-se insensivelmente em hábito de virtude. A emulação é uma contenção moral” (Plutarco, “Como tirar proveito de seus inimigos”). [1]

Lula celebra o lançamento da candidatura de Manuela D´Ávila durante o 14o. Congresso do PCdoB

1.Diante da profunda derrota sofrida pelas forças progressistas do país, com a derrubada do governo Dilma Rousseff (2016), o 14º Congresso do PCdoB (novembro de 2017) advogou centralmente: a) perseverar, convictamente, na defesa da construção de uma “Frente Ampla”, com a perspectiva de que o campo democrático, popular e patriótico vença as eleições presidenciais de 2018; b) decidido o 14º Congresso pela pré-candidatura de Manuela D’Ávila, afirmou-se que seu sentido é para propagar a identidade partidária, suas ideias programáticas, conformar uma agenda de saídas para a crise que afunda o país, forjar diálogo amplo com variados setores da sociedade “ultrapassando nossas fileiras, e a base social do petismo”.[2]

Na anterioridade do 14º Congresso, o PCdoB publicou um sólido estudo, debruçado sobre um balanço multilateral das experiências de 13 anos dos governos progressistas abertos pelo novo ciclo iniciado pelo ex-presidente Lula. Intitulado “Governos Lula e Dilma: o ciclo golpeado. Contexto internacional, realizações, lições e perspectivas” (2017), o detalhado – e inovador - estudo se inspira claramente nas contribuições teóricas de Marx, Lênin, Gramsci e outros pensadores do campo avançado em inúmeras esferas. Como nele escreve Renato Rabelo, as 300 páginas do compêndio visavam, politicamente, alertar, em chamamento comum a uma “ampla unidade das forças da resistência, tomando como ensinamento os embates políticos e ideológicos do ciclo Lula-Dilma” (op. cit, p. 11), salientado as saídas reais para os impasses estruturais do Brasil.    

2. Ingentes esforços, especialmente a partir de reiteradas iniciativas da direção da Fundação Mauricio Grabois, presidida por Rabelo, ensejaram a redação de um importante manifesto conjunto assinado pelas Fundações Perseu Abramo (PT), Leonel Brizola (PDT), Lauro Campos (PSOL). O importante documento (“Unidade para reconstruir Brasil”, 2018) elaborado em meio às turbulências políticas sucessivas, se fundamenta numa concepção estratégica: “independentemente das estratégias e táticas eleitorais do conjunto das legendas progressistas”, uma base programática convergente pode facilitar o diálogo que construa a união de amplas forças políticas, sociais, econômicas e culturais que constituam uma nova maioria política e social capaz de retirar o país da crise e encaminhá-lo a um novo ciclo político de democracia, de soberania nacional e de prosperidade econômica e progresso social – discorre o texto. O objetivo estratégico dessa unidade converge para a reinvenção de um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento, soberano, autônomo e próprio para reverter a tragédia que se abateu com o golpe ultraliberal de Temer et alii. Seguiu-se mais recentemente a proposta de concretização de uma “Frente Parlamentar progressista”, ideia em curso, e desta feita acrescida com a ativa participação da Fundação Mangabeira Unger (PSB), igualmente baseada no teor do Manifesto das Fundações.

“É difícil distinguir do amigo o hábil bajulador” (Plutarco) [3]

3. Evidente a justeza das orientações emanadas do 14º Congresso do PCdoB, partido político revolucionário, extremamente cônscio de suas responsabilidades e tarefas para com as classes trabalhadoras, o povo e a nação. Ademais da intensa resistência à regressão nacional e social imposta pelos golpistas, em todas as frentes de luta, o fato de alta gravidade consumado na prisão arbitrária, política (e ideológica) de Lula extraiu – e assim esistindo - de um grande número de dirigentes e quadros da linha de combate do PCdoB exaustivas energias. A solidariedade ao nosso querido ex-presidente tornou-se espécie de “questão de honra” para o nosso Partido. Os militantes dessa heroica organização revolucionária quase centenária continuam a levantar-se em defesa do ex-presidente nos mais recônditos lugares desse imenso país, onde quer que se finque uma bandeira vermelha com a foice e o martelo. Exemplares da dedicação à consigna do “Lula Livre” foram a deputada federal Jandira Feghali (RJ); o deputado Federal Orlando Silva (SP); o presidente da CTB Adilson Araújo; Carina Vitral (UJS); Marianna Dias (UNE); e, particularmente, a pré-candidata do PCdoB à presidência da República, Manuela D’Ávila.

Bem a propósito, designada a uma tarefa dificílima, a camarada Manuela D’Ávila vem se revelando aquilo que no linguajar nosso se chama um “quadro comunista” excepcional. Bem mais: Manuela tem conseguido defender, explicar, convencer, expandir para além das fileiras comunistas, e mesmo às de esquerda, as propostas principais que a orientação do congresso comunista aprovou unitária e entusiasticamente. A nossa pré-candidata, com jovialidade e segurança tem adentrado por terrenos complexos da reinvenção nacional da batalha pelo desenvolvimento do país, com desenvoltura; conseguiu dar visibilidade a temas candentes a espera de uma voz vigorosa, como a da terrível opressão e o verdadeiro massacre que se dá sobre a juventude negra brasileira, para ficar em duas vastas temáticas. Mas, quem tem sido a porta-voz da unidade (real) da esquerda e das correntes progressistas no processo eleitoral de 2018 senão a pré-candidata comunista Manuela D’Ávila, quem? Acaso Manuela – e o PCdoB - não têm defendido radicalmente o legítimo direito de Lula concorrer em eleições livres?

O Partido Comunista do Brasil sempre cumpriu o que decidiu, por seus militantes em Congresso, por debates democráticos no seu Comitê Central e suas resoluções deliberativas aprovadas. O PCdoB e sua Direção Nacional, exatamente por isto, respeita profundamente seus militantes: aprovadas coletivamente, as posições dos comunistas têm que ser abraçadas por todos(as) os seus filiados(as), e dispensável dizer por seus(as) dirigentes. Claro está que, em ocorrendo, a mudança de conduta tática depende de sua direção central, para isso delegada.

Sendo “o centro de gravidade” da luta política, hoje, a realização de eleições livres em 2018, por isso mesmo não existe para nós uma suposta tática formulada em “unidade em torno de Lula”. Essa “ideia”, do ponto de vista concreto da defesa enfática contra a abjeta perseguição ao ex-presidente, vem sendo praticada pelo PCdoB há meses a fio! Portanto, proclamar como meios para concretizar a tática “unidade em torno de Lula” não passa de retórica dissimulatória, de manobra contra a tática política do PCdoB. E erro analítico primário, óbvio.

Em Tempo: No PCdoB não existe “lulistas”. “Lulistas” no PCdoB é coisa de galhofeiros

NOTAS

[1] Em: Editora Martins Fontes, 2016, 3ª tiragem, “Como tirar proveito de seus inimigos”. [seguido de “Da maneira de Distinguir o Bajulador do Amigo”, Plutarco, p.6.

[2] Ver: “Documentos do 14º Congresso do Partido Comunista do Brasil. Brasília”, 17 a 19 de novembro de 2017, pp. 48 e 47 respectivamente.

[3] Ver: “Da maneira de distinguir o bajulador do amigo”, op. cit., 2016, p.31