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Na Arábia Saudita, a emancipação feminina vem de cima para baixo

Florence Beaugé Publicado em 26.07.2018

Empenhada na guerra no Iêmen e querendo empurrar para o Irã a carapuça de obscurantista, a Arábia Saudita redobra os esforços para melhorar as condições das mulheres do reino. Entretanto, as reformas propostas ou realizadas são lentas, frágeis e respondem apenas parcialmente às expectativas de mudanças

“Estamos finalmente virando um país normal”, exclama Najat M., estudante de Arquitetura em Riad. A opinião se ouve em toda parte. No reino saudita, tantas vezes criticado, entre outros motivos, pela dureza da condição feminina, multiplicam-se os indícios de mudança. Uma mulher nomeada para um cargo de responsabilidade; uma sala de cinema reaberta após trinta anos de proibição, com público misto. O Exército e a polícia passaram a recrutar mulheres, e as autoridades estudam abolir a proibição do convívio misto em lugares públicos e o fechamento compulsório do comércio nos horários de oração.1

Toda semana cai um tabu. O que mais fez barulho foi provavelmente o fim da proibição de a mulheres dirigirem: a partir de junho, elas poderão ser habilitadas sem necessitar do consentimento de seu “tutor” masculino. A medida foi anunciada em setembro, como parte do vasto programa de reformas econômicas e sociais imposto pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman (conhecido como “MBS”), de 32 anos, filho do rei Salman, de 81. Até o uso da abaya, longa vestimenta preta com a qual as mulheres sauditas se vestem da cabeça aos pés nos espaços públicos, está sendo questionado. Em fevereiro, um clérigo anunciou no rádio que se vestir “modestamente” pode ser suficiente. Algumas semanas depois, durante viagem oficial aos Estados Unidos, MBS declarou, em uma entrevista, que uma muçulmana sem abaya é uma muçulmana “como as outras”. Em um momento no qual o reino procura a todo custo se diferenciar de seu rival iraniano, cultivando boas relações com o Ocidente, o status das mulheres é um elemento essencial da comunicação do príncipe herdeiro. As maiores agências ocidentais (Publicis, Image 7, Edile Consulting) foram chamadas para o resgate. Sua missão: tentar melhorar a péssima imagem do reino no mundo e, de passagem, também a de Bin Salman.2

As mulheres sauditas estão felizes com essas mudanças? É difícil saber. Não existe liberdade de expressão, e a sociedade (30 milhões de pessoas, um terço delas estrangeiras) é muito atomizada. As jovens parecem satisfeitas – e 70% da população tem menos de 35 anos –, mas muitas mulheres dizem que estão cansadas de ver a Arábia Saudita ser julgada apenas pela condição das mulheres. “Ter esse olhar superior sobre nós me irrita muito. Nós queremos ditar nossa conduta, mas somos um país de tribos e tradições. Temos o direito de evoluir em nosso próprio ritmo!”, exclama a universitária Hoda al-Helaissi, uma das trinta mulheres integrantes da Majliss al-Shura, assembleia consultiva encarregada de apresentar propostas legislativas ao governo (seus 150 membros, todos não eleitos, são nomeados pelo rei, e as mulheres passaram a ser aceitas em 2013).

“Em dois anos conseguimos o que estávamos pedindo havia mais de trinta. As mudanças são enormes. É preciso vir aqui ver para acreditar”, avalia Fawziah Albakr. A professora de Sociologia da Educação da Universidade Rei Saud é uma das 47 pioneiras que, em 6 de novembro de 1990, pegaram no volante e dirigiram pela capital, a fim de chamar a atenção para a proibição de dirigir, anacronismo único no mundo. Mas, para as mulheres, a verdadeira reviravolta veio com certeza há dois anos, com a retirada dos poderes do Comitê para Promoção da Virtude e Combate ao Vício, cuja polícia religiosa – a Mouttawa – as perseguia em todos os lugares públicos. “Isso mudou nossa vida. Antes, todas ficavam de olho para ver se a outra estava ‘andando na linha’. Nós nos sentíamos assediadas na rua. Nossa vida melhorou muito”, acrescenta Fawziah Albakr.

Para as mulheres mais instruídas, o próximo objetivo é abolir a tutela masculina. Essa disposição da xaria, em vigor no país, que trata as mulheres sauditas como menores de idade por toda a vida, foi aliviada apenas em 2017. As mulheres podem finalmente prescindir do endosso de seu mahrâm (marido, pai, irmão ou até o filho ou qualquer outro homem da família) para fazer procedimentos administrativos, trabalhar ou abrir uma empresa, mas ainda precisam de autorização para tirar passaporte, viajar e, principalmente, casar, como na maioria dos países muçulmanos.

Embora Hatoon al-Fassi, feminista de longa data e professora de História das Mulheres da Universidade Rei Saud considere que a atmosfera atual é “positiva” para as mulheres, cada dia é uma batalha. “Os homens estão sob pressão. Eles não sabem qual é sua margem de manobra”, diz. Ela tem a dimensão disso toda semana, quando envia sua coluna ao jornal governista Al-Riyad. Às vezes, a colunista precisa esperar três semanas para ver seu artigo publicado, porque o assunto é delicado, e a direção – exclusivamente masculina – teme desagradar ao poder. A reação dos religiosos também é temida. Apesar de estarem sob controle do poder político desde o advento de MBS, eles continuam sendo um parceiro-chave da monarquia e poderiam agir, se necessário.3 “Seguimos tateando, mas cada passo à frente é uma vitória”, diz Hatoon al-Fassi, antes de lançar algumas frases contundentes contra “esses homens covardes que não tomam a iniciativa nem dizem o que pensam”.

A maioria dos sauditas está pronta para aceitar essas mudanças ou continua agarrada a seu passado, em nome de costumes ancestrais? Não existe resposta única. Muito utilizadas (93% da população têm acesso à internet), as redes sociais – principalmente o Twitter, mas também Instagram, Snapchat e Facebook – funcionam como institutos de pesquisa, na falta de um melhor: em 2016, segundo a Global Media Insight, a Arábia Saudita detinha o recorde mundial de participação nessas plataformas. Mas esses espaços de liberdade são vigiados, e a população desconfia. “Muitas pessoas aqui consideram as mudanças atuais anti-islâmicas. Agora, porém, outras vozes podem se expressar. Até então, não podíamos ouvi-las ou elas eram demonizadas”, explica Hatoon al-Fassi.

Embora se declare “confiante no futuro”, um fato a preocupa: essas mudanças se devem a “uma só pessoa”, o que não parece “muito saudável”. Ela faz alusão ao príncipe herdeiro, que decide soberanamente – e muitas vezes brutalmente – as reformas que devem ser feitas, sem dar a menor esperança de abertura no plano político. Ao contrário de seus vizinhos iranianos, que elegem o presidente e o Parlamento, os sauditas e as sauditas não votam para definir seus deputados. A monarquia concentra todos os poderes, ou quase. O regime chegou a endurecer, e o medo é palpável. Para estabelecer seu poder, MBS não hesita em colocar seus adversários atrás das grades, sejam eles conservadores ou progressistas. Várias ondas de detenções ocorreram entre junho e novembro de 2017, às vezes por uma simples mensagem de caráter político no Twitter, e muita gente ainda está chocada com o caso Ritz-Carlton, nome do hotel em Riad onde diversas personalidades ficaram presas.

Beduínas dirigem há trinta anos

No popular souk de Swakah, no sul de Riad, as mulheres estão preocupadas com as mudanças. Todas estão hermeticamente cobertas com abayas, hijabs e niqabs pretos. Nenhuma fala seu verdadeiro nome. Aqui, a mudança é percebida como uma ameaça. “Eu sou contra o comportamento das mulheres e tudo o que tem havido nos últimos tempos”, diz uma mulher de seus 60 anos, cujos olhos, único elemento visível através do niqab, se enchem de lágrimas. Ela vende roupas há 22 anos. “O trabalho para as mulheres não é contrário ao islã, mas todo o resto vai contra a castidade que devemos guardar.” Enquanto fala, ela olha furtivamente em torno de si e acrescenta em voz alta: “Mas vida longa ao príncipe herdeiro!”.

A poucos passos dali, Nurah L., de 25 anos, de quem só podemos ver os olhos maquiados e as unhas pintadas de branco, também se diz “contra o direito de dirigir” concedido às mulheres. Seu marido garante seu deslocamento, pela manhã e à noite. “Nossa vida é boa assim. Não somos ocidentais”, argumenta. Ela gosta de poder trabalhar: “Meu marido me deu permissão sem problemas. Eu levo dinheiro para casa e não fico entediada”.

Não longe dali, no souk Hijab, as reações das mulheres pouco diferem. Mas temos algumas surpresas. Dirigir? Ibtissam S. e Norr K., ambas com 50 e poucos anos, desatam a rir sob o niqab: “Nós dirigimos há trinta anos! Entre os beduínos, as mulheres se sentem nesse direito. Aliás, como poderia ser de outro jeito, longe de tudo?”. Elas vivem em aldeias ou acampamentos 50 quilômetros ao norte da capital.

“Eu trabalho porque preciso de dinheiro. O trabalho é um dom de Deus. O profeta, aliás, nos encorajou a isso”, declara uma viúva, mãe de oito filhos. Sua amiga acrescenta: “Desde que não seja contra o islã e não convivamos com homens, podemos fazer o que quisermos!”. Quatro mulheres confessam – com cautela –, em torno de uma banca de roupas íntimas: “Se até agora as mulheres eram proibidas de dirigir, era para protegê-las. O homem deve assumir suas responsabilidades”, repete uma delas. As outras aprovam vigorosamente. 

Em Taif, uma segregação rigorosa

Jasmeen D. e Mariam N., estudantes de Economia, trabalham meio período como vendedoras no souk Hijab. Elas passam o dia teclando no celular. A segunda é noiva de um estudante de Medicina que ela conheceu numa festa de casamento. Ele a viu de longe, quando ela tirou o niqab, e pediu sua mão a seus pais. “As mudanças atuais vão na direção certa. E, graças à permissão para dirigir, em breve seremos autônomas!”, diz sua amiga, sorrindo e fazendo o V da vitória. No entanto, as moças mantêm o princípio da tutela: “Sentimo-nos protegidas”. O futuro? “Eu quero acima de tudo me sentir importante na sociedade!”, declara Mariam.

Ambiciosas as sauditas são, e não escondem isso. “Elas aproveitam todas as oportunidades. São mais dinâmicas que os homens, como se tivessem uma vingança a realizar!”, observa um jovem empresário. Entre as meninas, 97% são escolarizadas. Na universidade, as mulheres são 60% da força de trabalho. Na realidade, a libertação – muito relativa – das mulheres começou sob o reinado do rei Abdullah (2005-2015). Foi ele quem as autorizou a trabalhar no comércio. Empregos normalmente modestos, de caixa e vendedora, mas que abriram o caminho para todas as áreas, com exceção da magistratura – já que o wahabismo considera, assim como outras correntes no islã, que a função de juiz é proibida para as mulheres pela xaria. Ao mesmo tempo, Abdullah distribuiu bolsas de estudo no exterior para centenas de milhares de jovens, 30% deles mulheres. “Tudo isso contribuiu para a abertura das mentes. Os jovens estão conectados ao mundo exterior com as redes sociais”, ressalta a universitária Hoda al-Helaissi. “Com a crise econômica, não podemos mais viver com apenas um salário, e as mulheres querem uma carreira. Muitas vezes, elas são apoiadas pelo marido, irmão ou pai.”

Na verdade, tudo depende da família, do ambiente, do lugar… Todo fim de semana, as mulheres da família Mansour se reúnem para jantar com a avó, sob uma gigantesca tenda beduína plantada no jardim da casa da família. O barulho dos carros que atravancam Riad se ouve muito ao longe. A capital (6 milhões de habitantes) é uma cidade enorme e plana, construída no deserto. Não há prédios residenciais, mas casas cor de areia que se estendem ao infinito, avenidas ladeadas por palmeiras robustas e empoeiradas, arranha-céus futuristas e incontáveis shopping centers, onde as mulheres passeiam.

Os Mansour, uma antiga família burguesa e rica, são bastante conservadores. “Eu desconfio das mudanças atuais. ‘Eles’ querem que a gente vire Dubai. Eu me apego a nossos valores e não vou abrir mão do meu niqab”, diz uma mulher de cerca de 50 anos. “Sou muçulmana, essa é minha identidade.” Dirigir? Elas são a favor, “desde que não nos obriguem!”. Para elas, o importante é “ter escolha”, e isso em todas as áreas. Uma delas, que viveu seis anos nos Estados Unidos, prefere manter o motorista: “É caro, mas menos cansativo”. Como ela, milhares de mulheres sauditas têm um motorista paquistanês, indiano ou bengali. Mão de obra muçulmana pronta para ser extremamente explorada. E a tutela? “A partir de certa idade, 21 anos, por exemplo, devemos poder prescindir dela”, avaliam. As moças ouvem suas mães e tias, mas às vezes dão sua opinião. Estudantes, a maioria diz que quer “morar dois ou três anos no exterior, mas depois voltar”. Todas pretendem trabalhar e se casar, “mas não antes dos 30 anos, e sem ter mais de dois ou três filhos”. A abaya? “É prática e elegante, como um casaco”, dizem.

Nurah lamenta não ter conseguido estudar Veterinária, curso ainda inacessível às mulheres. Para compensar, estuda Ciências e, principalmente, monta a cavalo. Um dia, tem certeza, representará seu país nos Jogos Olímpicos. “Meu irmão me disse: ‘Você pode competir, mas está fora de questão aparecer na TV ou falar com os jornais!’. E eu respondi: ‘É a minha vida. Cuide do que é da sua conta’.” E a desigualdade entre homens e mulheres na Arábia Saudita? “Elas têm a ver com as tradições, não com a religião”, avalia, estabelecendo uma distinção clara entre os dois termos.

Reema, prima de Nurah, lançou-se na confecção e venda de abayas na internet. Modernas e coloridas, suas criações parecem vestidos de princesas ou de noivas. Muito rapidamente, graças às redes sociais, os pedidos cresceram. Muitas de suas amigas também optaram pelo comércio on-line, setor em franca expansão, especialmente entre as mulheres. Outra vende pratos prontos, e outra, joias. Outra, ainda, é maquiadora profissional. A maioria vai bem. Nos fins de semana, elas se encontram em lugares que recentemente se tornaram mistos, como o Café Bateel, e descobrem o rosto. É a oportunidade – raríssima – de conhecer rapazes.

A 750 quilômetros de distância, mais a oeste, Taif quase faz Riad parecer uma cidade liberal. Meca está a apenas 65 quilômetros dali. Mas, ao contrário de Jidá, que está aberta ao contato de peregrinos vindos do mundo todo, Taif, com 987 mil habitantes, permanece muito conservadora. Lá, a segregação dos sexos é rigorosa. Nenhum restaurante, nenhum café quebra as regras. E o preto é onipresente…

“Aqui não se pode fazer nada. Há sempre um homem te controlando. Nunca nos deixam em paz!”, lamenta Salwa M., de 26 anos, estudante de Ciências Islâmicas, alegre e divertida. “Eu tenho sorte, meu pai confia em mim, mas não é assim com as minhas amigas. Toda vez que elas imploram ao tutor: ‘Me deixe sair’, a resposta é: ‘Não’, e muitas vezes elas apanham.” Ela conta que muitas têm namorado. Enquanto seus pais pensam que estão na aula, elas chamam um motorista para deixá-las na casa de alguém. Embora condenadas, as relações sexuais antes do casamento são comuns. Embora o aborto seja estritamente proibido, exceto no caso de risco de vida para a mãe, qualquer mulher consegue uma pílula anticoncepcional na farmácia, mesmo sem receita médica.

Segundo Salwa, se as moças se casam em Taif – sempre casamentos arranjados –, é por despeito, “para conseguir liberdade”. Casada e mãe, a mulher tem autoridade em casa. A educação das crianças e as despesas são de sua responsabilidade. Quanto à poligamia (entre 8% e 10%), ela tem se tornado rara na geração mais jovem, embora de vez em quando vozes se levantem para pleiteá-la em seu favor, a fim de “remediar” o celibato das mulheres.

Quando não está na aula, Salwa passa a vida em frente à televisão. Ela adora as novelas turcas e indianas. Sobre os homens sauditas, não tem ilusões. “Eles não sabem o que é o amor. Só querem sexo…”

Arranjados ou não, “quase metade dos casamentos hoje termina em divórcio”, diz Mohammed al-Amri. Recentemente, o cientista social lançou um alerta na imprensa, tratando desse problema “que traz sérias consequências para a sociedade”. Khadija S., de 28 anos, amiga de Salwa, é divorciada. O marido batia nela. Agora ela vive com o irmão, que se tornou seu tutor. Ela trabalha em um salão de cabeleireiro. “O que preocupa meu irmão é o olhar dos vizinhos. Aqui, a única coisa que importa é o que as pessoas vão dizer!” Suas duas amigas têm saudade da época da polícia religiosa: “Pelo menos não éramos assediadas na rua. Agora somos! Os homens nos perseguem para pegar nosso número de telefone!”. Elas sonham ir embora para um país “onde as mulheres têm direitos”. Em Taif, acham que ainda vão ter de aguardar “pelo menos mais uma geração”.

Repressão nunca foi tão feroz

Com sua orla, sua cidade velha – Al-Balad, classificada com patrimônio mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) –, suas esculturas ao ar livre e seus restaurantes de todas as nacionalidades, Jidá, com 4 milhões de habitantes (sendo 840 mil estrangeiros), cidade mercantil situada às margens do Mar Vermelho e passagem obrigatória para Meca, portanto sujeita a inúmeras influências, é sem dúvida a cidade mais sedutora – e menos conservadora – da Arábia Saudita. Além disso, segundo a lenda, foi ali que Eva, mãe da humanidade, foi enterrada.

Lá também as avenidas são desproporcionais e o número de shopping centers é inacreditável. Mas as mulheres são menos sufocadas do que em qualquer outra parte do reino. As abayasmuitas vezes são beges, azuis, cinza-pálido, enfeitadas com pérolas, equipadas com zíperes… A vaidade é a norma, e as cirurgias estéticas, muito frequentes. A sociedade, dá para sentir, está em ebulição. Faz muito tempo que ali, mais que em outros lugares, os sauditas encontraram na arte – cinema, pintura, literatura – um meio de expressão ou evasão.

Três meses antes da reabertura oficial de um cinema em Riad, Mariam, filme de Faiza Ambah que celebra uma adolescente francesa ansiosa para usar o véu na escola, apesar da proibição legal, já havia sido exibido em Jidá, no Arbab al-Heraf. Nesse espaço cultural único, inaugurado em 2017 por um rapaz que voltou da Austrália, cerca de sessenta jovens de ambos os sexos assistiram ao filme. A diretora admite ter ficado “chocada” com as reflexões dos jovens durante o debate que se seguiu. “Eles ousaram falar sobre sua vida para estranhos. ‘Meu namorado me deixou porque eu não usava o hijab’, contou uma adolescente. Outra contou a experiência inversa: o namorado a proibia de usar. Outra disse: ‘Eu sou cristã’ [a prática de outros cultos que não o islã é proibida na Arábia Saudita]. Nesse momento, um rapaz de 20 e poucos anos se levantou e disse: ‘No fundo, seu filme fala sobre a aceitação do outro, e é disso que sentimos falta aqui’”, lembra.

Primeira guia turística do reino, Abir Abusulayman apresenta Al-Balad como ninguém, embora os turistas não estejam se acotovelando pelas ruas. Ela lamenta os “estereótipos” construídos sobre as sauditas, segundo ela, pela imprensa ocidental. “Quando me dizem: ‘Vocês finalmente serão livres, vão poder dirigir’, eu fico chocada! Sim, meu país está evoluindo em etapas. Dez anos atrás, ninguém poderia imaginar que chegaríamos lá”.

Em 2006, é verdade, a publicação do romance Les Filles de Riyad[As moças de Riad],4 de Rajaa Alsanea, causou escândalo. Sob a forma de blog, quatro amigas contam sua vida e seus amores. Nada muito chocante, só o cotidiano das mulheres limado pelas tradições. Originalmente publicado no Líbano, o livro logo começou a circular discretamente no reino. Em 2015, Deux femmes de Djeddah [Duas mulheres de Jidá], da romancista e médica Hanaa Hijazi,5 também abalou a sociedade, mas não foi censurado. No romance, duas amigas, esmagadas pelas proibições, acabam cometendo suicídio. O livro foi lido e bem recebido no geral, “inclusive pelos homens”, diz a autora. Muitas leitoras, porém, criticaram o final trágico. “Eles queriam outro fim para as duas heroínas, e isso me confortou. Elas imaginaram, portanto, perspectivas para as mulheres.”

Na possibilidade de dirigir, Lina al-Maeena vê acima de tudo um símbolo: “Dirigir nossa vida e – por que não? –, um dia, o país!”, imagina. Nada resiste a essa mulher de 40 e poucos anos, que acredita na emancipação por meio do esporte. Há doze anos, ela criou a primeira equipe nacional de basquete feminino, quando o esporte era proibido para as mulheres. Hoje, ela é membro da Assembleia Consultiva. Há um ano, o esporte passou a ser obrigatório para as meninas nas escolas públicas. Abertura social ou emergência médica? Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), quase 70% das mulheres sauditas têm excesso de peso e 40% sofrem de obesidade.

O processo de modernização do país é irreversível? A entrada maciça de mulheres no mercado de trabalho é um imperativo econômico. Nesse campo, não tem volta. E o fato é que, nas declarações do príncipe herdeiro, não se fala em democratização. As eleições municipais são as únicas do reino.6 “No exterior, MBS é apresentado como um jovem príncipe reformador que luta contra a corrupção. Mas a repressão nunca foi tão feroz”, diz uma jornalista de cerca de 40 anos. “Sim, eu tenho mais liberdade como mulher, mas nosso espaço de expressão de modo geral foi reduzido. Não tenho medo de andar na rua, mas tenho medo de falar com você de rosto descoberto. Acho que a arbitrariedade hoje reina como nunca.”

Aí estão os limites da aposta no futuro. Seria a menor subordinação das mulheres a desculpa para um exercício de poder despótico? Ou uma reforma indispensável para um regime que deseja se tornar palatável na cena internacional, a fim de manter seu posto ao lado de Washington e Tel Aviv no caso de uma guerra contra o Irã?

O imperativo da diversificação econômica

Passar de uma economia rentista para uma economia produtiva: esse é o objetivo do Visão 2030, plano de desenvolvimento promulgado pelo rei Mohammed bin Salman (MBS). Totalmente dependente dos hidrocarbonetos, a economia saudita passa por dificuldades. Entre o fim de 2014 e o início de 2015, o preço do petróleo passou de US$ 100 o barril para menos de US$ 45. Resultado: o reino viu sua taxa de crescimento cair para 1,4% em 2016, contra 7% dois anos antes. Em 2017, o país chegou a entrar em recessão.

Em 2015, as autoridades reagiram: fim das subvenções, repetidos aumentos das tarifas públicas e introdução de uma taxa sobre o valor agregado (TVA – imposto sobre o consumo) de 5% a partir de janeiro de 2018. Preocupada em manter o contrato social que a liga à população, a família real criou paralelamente uma conta-cidadão. Assim, 11 milhões de sauditas recebem um benefício mensal (entre US$ 80 e 240). O PIB por habitante está em US$ 21 mil por ano, enquanto nos Emirados Árabes Unidos é de US$ 37 mil e, no Catar, de US$ 61 mil.

Ao mesmo tempo, o Estado, até então responsável por 70% dos empregos, busca mais aceleradamente desencarregar-se de certas responsabilidades, ampliando a atuação do setor privado. Para diversificar sua economia, a Arábia Saudita apostas nas minas (potássio, cobre, urânio, ouro), no setor petroquímico, nas energias renováveis e no turismo. O reino espera passar dos 8 milhões de peregrinos que chegam a Meca todo ano para 30 milhões até 2030 e, principalmente, deseja se abrir ao turismo não religioso. Sítios arqueológicos como Madain Saleh, equivalente a Petra, na Jordânia, poderiam se tornar destinos de primeira grandeza. Ilhas do Mar Vermelho poderiam ser preparadas para receber turistas ocidentais. Por fim, o projeto Neom (US$ 500 bilhões), no norte, planeja construir a cidade do futuro, equipada com todas as tecnologias mais avançadas.

Oficialmente, o desemprego está em 12,8%. Um em cada três jovens com menos de 30 anos está desocupado. Quase dois terços das mulheres estariam em busca de emprego. Em fevereiro, o departamento dos passaportes nos aeroportos e nas fronteiras recebeu 107 mil mulheres se candidatando a 140 cargos oferecidos com prioridade para elas.

Elevar a participação das mulheres na população ativa para 30% até 2030 – hoje em 15% (40% no resto do Golfo) – permitiria aumentar a renda familiar, melhorar o crescimento e substituir os 11 milhões de estrangeiros que ocupam o lugar dos sauditas no setor privado. “MBS tem o mérito da coerência. Ele não fala de religião, mas de economia. A mudança econômica só pode vir com mudança social, e essa mudança precisa envolver a mão de obra feminina”, enfatiza Stéphane Lacroix, pesquisador e professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris.

Anunciada há anos, a “saudização” passou a ser feita na marra. Os estrangeiros e suas famílias pagam impostos cada vez mais pesados. Os imigrantes paquistaneses e indianos têm maciçamente deixado o país.

Investidores e empresários continuam traumatizados pelo caso Ritz-Carlton: durante três meses, no último inverno, o hotel de luxo de Riad foi transformado em um cárcere dourado para a elite econômica e política do reino, pega no que foi anunciado como uma vasta campanha anticorrupção. Os detentos (entre eles o bilionário Al-Walid ben Talal) foram libertados após um acordo financeiro com as autoridades, ou absolvidos.

A juventude e as classes populares aplaudiram essa operação “mãos limpas”, mas a alta burguesia de Riad e Jidá a interpretou como uma chantagem do príncipe herdeiro para forçar grandes fortunas a se juntarem a seus caros projetos. Balanço do caso: US$ 106 bilhões “recuperados”, ao preço de uma crescente desconfiança dos investidores, num momento em que mesmo a abertura do capital da gigante do petróleo saudita Aramco – se isso acontecer – não será suficiente para financiar todas as necessidades do reino. (F.B.)

*Florence Beaugé é jornalista.

Publicado em Le Monde Diplomatique