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Armas de Bolsonaro são apologia à estupidez

Osvaldo Bertolino Publicado em 25.10.2018

A campanha de Jair Bolsonaro a favor do amplo uso de armas é uma apologia à estupidez. Esse ponto de vista, evidentemente, não tem chance de equacionar o problema real e crescente da falta de segurança nas grandes cidades do país. Ele considera que a criminalidade tem que ser resolvida com o recrudescimento da violência, seja ela policial ou particular. Acha, enfim, que bandido bom é bandido morto, sem mediações de qualquer ordem. Essa bandeira da violência que combate a violência havia perdido terreno em uma grande porção da sociedade. Ela era tida como coisa de gente truculenta. O ponto de vista social, a forma correta de encarar o problema, foi por muito tempo bem respeitado no Brasil.

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Com o aumento das taxas de criminalidade, os anos 1990 trouxeram uma mudança fundamental. Cada vez mais, a causa social passou a ser considerada sinônimo de bom-mocismo inócuo. Como era de se esperar, a causa da violência que combate a violência ganhou mais e mais adeptos. E abriu amplo terreno para o discurso de candidatos que, em cumprindo o que sugerem, podem consolidar a polícia como uma força que, ao invés de investigar e prender, executa sumariamente; ao invés de garantir a ordem e o equilíbrio social, movimenta-se à margem da lei, desestabiliza e ameaça a própria sociedade com o uso indiscriminado da violência; ao invés de exorcizar de delegacias e quartéis a tortura e o desrespeito aos direitos civis — legado dos anos de ditadura — reforça o uso destes elementos incivilizados.

Com o apelo eleitoral crescente desta linha de pensamento, corremos o risco de ratificar, por meio da democracia, um sistema de repressão que, sob o pretexto de combater o crime, adota o crime como método. O dolo passaria a ser considerado uma manobra normal de sobrevivência. Não há dúvida de que o uso desses argumentos se apóia no fato de milhões de brasileiros terem trocado, nas últimas décadas, a pobreza pela miséria. De um lado, a nova lógica neoliberal criou nessa legião sedes tremendas, e, de outro, a sociedade e sua velha estrutura não lhes permite satisfazê-las. Como resultado, estamos divididos, cada vez mais, entre os que se viram para sobreviver na selva liberal e os que nutrem ódios de classe.

Essa idéia se equipara a mitos execráveis

O sentimento de que não pertencemos a um mesmo conjunto se acentuou. A relação entre os grupos sociais é cada vez menos racional. Passa ao largo da inteligência, da capacidade de diálogo e raciocínio. Se não fizermos nada, o próximo estágio será o da desagregação social em sua face mais cruenta: o pobre sentindo muita raiva por se perceber confinado em uma posição inferior na base da pirâmide social (o que não significa flertar com o submundo), e o rico achando que a solução mais eficaz para erradicar a pobreza do país é o extermínio dos pobres. Essa visão de que a posse de uma arma entra nessa contenda como elemento determinante no fundo acha que as causas da violência estão na população pobre. Na verdade, essas causas varam a sociedade de cima a baixo.

Não passa de falácia jogar sobre os pobres toda a responsabilidade pelo caos. Essa ideia se equipara a mitos execráveis como o de que às mulheres cabe o papel de esquentar a barriga no fogão e esfriá-la no tanque. Ou o de que os negros são menos dignos por terem mais melanina em suas peles. Seus defensores são, portanto, politicamente reacionários e culturalmente conservadores. Por isso, a defesa das armas de forma contundente e de roldão, sem considerar esses elementos, é essencialmente hipócrita. Feita dessa forma, sem comungar nenhum projeto, em última instância conduz à barbárie. A defesa das armas num cenário assim reproduz um individualismo cético, distante da urbanidade, do esforço de coexistência.

É necessário pensar na afirmação da cidadania

É inegável que o ser humano voltado para essa ideia significa um ser humano de costas para conceitos como integridade e bem comum. Essa concepção acaba varrendo do debate a reflexão, a filosofia, e, em conseqüência, os fundamentos do comportamento ético. Por essa lógica, os ganhos materiais representam o único valor pelo qual vale a pena lutar. O importante na vida é gerar os números certos — o resto é o resto. Desse modo, para garantir a diversão em uma noite tediosa, considera-se incinerar alguém. Para extravasar uma raiva qualquer, ou a mera tensão do momento, executa-se sumariamente uma pessoa.

Se é fato que o capital e a sua lógica têm parte na degradação social, é obrigatório que as pessoas progressistas ocupem posição central no esforço de recuperação dos valores que nos garantem viver juntos sobre um mesmo pedaço de terra. Alteraríamos esse quadro, caminhando na direção do civismo, se eliminássemos a tradição de que os que habitam a base da pirâmide social devem assumir goela abaixo responsabilidades que não são suas. É necessário pensar na afirmação da cidadania não como um ponto de educação moral e cívica, mas como meio efetivo de melhorar a qualidade da vida. O resto é mesquinhez ou falta de inteligência.