Artigos

O fascismo é incompatível com a obra de arte

Raul Gonzalez Tuñon* Publicado em 05.07.2019

O texto do poeta argentino Raul Gonzalez Tuñon foi publicado na revista Diretrizes, em maio de 1944, quando a guerra já havia virado para o lado dos aliados. Mesmo que a guerra terminasse com o fascismo derrotado, a preocupação de Tuñon e outros intelectuais era o perigo das influências fascistas permearem as artes e as ciências. O texto está cheio de situações conjunturais de grande importância para aquele momento, mas que não ganharam título de clássicos, assim como alguns dos artistas citados pelo autor.

Jovens alemaes jogam livros em fogueira, Berlin, 10 de maio de 1933 [Reproducao]

Tuñon nasceu em 1905 e morreu em 1974.  Foi membro do Partido Comunista Argentino e importante intelectual daquele país. Fundou e trabalhou em diversos periódicos, principalmente dos que tratavam de cultura e arte. Discutia sobre estética e valores artísticos, inclusive polemizando com as principais teses do realismo socialista. Influenciou os principais poetas que cantaram a Guerra Civil Espanhola e foi um árduo combatente anti-fascista, sendo amigo de Federico García Lorca e Pablo Neruda. O texto abaixo traz uma reflexão sobre os valores da arte e da cultura universais, tema que vem ganhando assombrosa atualidade.

---------------------

O fascismo é incompatível com a obra de arte

Uma peregrina e perigosa teoria esbouçou-se por aí, segundo a qual fascismo e cultura, fascismo e talento criador são conciliáveis. Só o ressentimento do fracasso, a incultura do pretencioso aldeão, o filofascismo em potência em indivíduos que imitariam Gentil se o fascismo triunfasse aqui, podem inspirar semelhante “teoria”.

Antes de que o tenebroso Millán Astray (o ex-chefe dos “galápagos de couro duro que não se ruborizam”) gritasse em Salamanca, apregoando a morte de Unamuno: “Morra a Inteligência!”, já um “teórico nazista [Hermann Göering] havia exclamado: “Quando ouço a palavra cultura ponho a mão no meu revólver” ...

O fascismo é a negação por excelência da cultura e o maior obstáculo do talento criador. O fascismo é incompatível com a obra de arte. Nega-se na teoria e na prática. Quem ignora que na Alemanha, sob o pretexto da “arte degenerada”, foram destruídas telas de Picasso, de Renoir, de Van Gogh, de Paul Klee? Quem ignora que Anna Seghers, Bertoldo Brecht, Alberto Einstein, Alejandro Moisi, Ludwig Renn, Thomas Mann, Heinrich Mann, Ernest Toller, escritores, sábios poetas e artistas, foram expulsos e seus livros queimados juntamente com as grandes obras do pensamento universal? A primeira coisa que os nazistas fizeram ao chegar a Paris foi destruir os túmulos dos poetas da Liberdade, encarcerar Romain Rolland e oferecer as sobras dos banquetes de Otto Abetz – à imitação dos grandes senhores romanos – aos literatos degenerados e desonestos a Pierre Mac Orlan e a Francis Carco, a Jean Cocteau e a Ferdinand Celine!

Na Itália, durante vinte anos, permaneceu em silencia sobre a mesa de trabalho a pena de Benedetto Croce (que não é santo de nossa devoção, mas cujo talento extraordinário e suas inclinações democráticas não se podem negar). Quanto a Roberto Bracco, um dos mais vigorosos dramaturgos do último tempo, foi tornado prisioneiro em sua casa e morreu sem ter podido deixar-nos sua obra máxima. Em troca, o fascismo exaltou a trivial travessura e a pornografia dos Marinetti e dos Pitigrilli, a espantosa mediocridade dos Bontempelli e dos Sandro Volta... Mas o pequeno Zoilo cita o caso de Pirandello! A este velho débil, vacilante, ouvimos em Buenos Aires falar com tristeza do regime fascista. Não teve a coragem suficiente para comporta-se como Bracco, como Croce ou como a insigne família Ferrero. E vinte anos de fascismo anularam seu gênio indiscutível. Porque a verdade é que Pirandello não nos deu tudo o que o seu gênio criador prometia, por culpa, precisamente do fascismo. Com que amargura ouvimos também em Buenos Aires, Margarida Sarfatti, a diretora de “Jerarquia” falar das atrocidades do fascismo! A pobre criatura compreendeu muito tarde que na Itália de Mussolini não havia lugar para a inteligência. Ela acreditou ingenuamente, por um instante, que o fascismo era a “velocitá” (era-o, em realidade, se se pensar nos soldados fascistas que morreram na Espanha e na África), o “tempo novo” das farsas imbecis de Marinetti.

Desafio os pequenos confucionistas a nomearem um só escritor, um só músico, um só homem de ciência, um só poeta – verdadeiramente autênticos – que tenham sido produzidos, até agora, pelo nazismo alemão ou pelo fascismo italiano! E se o produziram – coisa esta impossível , porque um homem de verdadeiro talento, de verdadeira sensibilidade artística não pode ser fascista – seria o caso de marca-lo a fogo , como fizeram os escritores e artistas franceses dignos de André Gide – por outra parte vítima de seus complexos – depois de seu miserável “De volta da URSS”, acabou assinar a ata de sujeição dos invasores germânicos.

Lembro que, em Paris, em 1935, no Palais de la Mutualité, durante o Primeiro Congresso Internacional de Escritores, Ilya Eherenburg (tive a sorte de ouvi-lo) atacou a Breton, Peret e outros tresnoitados do surrealismo, que pretendiam que a arte devia permanecer neutra, ser alheia aos fenômenos sociais fundamentais. Ilya disse, então, estas coisas certas e formosas:

“Enquanto em França, a grande burguesia em decadência deprecia os artistas e na Alemanha se considera ‘arte degenerada’ ao melhor da pintura moderna, na União Soviética os operários menos qualificados que visitam o Museu de Arte Moderna de Moscou, se detêm antes as telas de Picasso ou de Matisse, e dizem, movendo a cabeça: “Ainda não entendemos bem isto... têm que nos explicar, temos que estudar para compreendê-lo realmente”... Que diferença de atitudes! Já esses operários menos qualificados sabem o que significa Picasso no processo da pintura universal.

Que dizer da Espanha? Ali está Frederico García Lorca, assassinado pelas balas da Falange no cemitério de Granada. Ali está Antônio Machado, enterrado num povoado francês, depois do êxodo trágico. Ali estão as academias sem sábios, as escolas sem mestres. Ali estão os maiores poetas e escritores da Espanha exilados, E ali estão o grande “bluff” Ortega y Gasset e o outro grande “bluff” Gregório Marañon preparando ante-salas em Portugal, enquanto os Alberti, os Leon Felipe, os Del Rio Hortega, os Márquez, os Bergamim, os Alberto, os Rodriguez Luna, os Aparício, os Prieto, os Bolívar, os Gori Muñoz, permanecem no exílio. Claro que ficam na Espanha os “sábios” do “Conselho de Hispanidade”, um dos quais acaba de receber o Chile até a homenagem de certos jornalistas “democráticos”. Refiro-me a Jimenez Diaz.

E que dizer da Argentina? A reação começou ali depois de Uriburu exilando Anibal Ponce e termina agora queimando livros nas praças públicas, encarcerando e expulsando Troise, condenando Codovilla a uma morte lenta, forçando Agosti, Portogalo e Gonzalez Alberdi a procurar abrigo fora do país, exonerando sábios como Houssy e Caxtex, enquanto exalta a um Martinez Zuviria e coloca um falso Laurel na fronte pouco limpa de um Calos Ibarguren... Eis aqui como é impossível, em todo o mundo conciliar fascismo e cultura, conciliar fascismo e talento criador!

Só poderão afirmar o contrário aqueles que fazem “obséquios a Goebbels”...

Revista Diretrizes: Política, Economia, Cultura (RJ) edição nº 203 páginas 16 e 19; de 25 de maio de 1944
*Raul Gonzalez Tuñon, autor de “Rosa Blindada”, encontra-se atualmente, em Santiago do Chile. A situação política de seu país obrigou-o a exilar-se. O grande poeta argentino continua a escrever no país amigo, tomando parte ao lado dos escritores e poetas na luta contra o nazi-fascismo.