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Carlos Marighella: Quando é preciso não ter medo*

Augusto C. Buonicore** Publicado em 02.10.2019

No dia 4 de novembro completa 50 anos do brutal assassinato de um dos principais líderes revolucionários brasileiros, que chegou a ser considerado o “inimigo número um” da ditadura militar: Carlos Marighella. Ele ingressou bem jovem no Partido Comunista do Brasil (PCB). Foi preso e torturado várias vezes antes e durante o Estado Novo. Elegeu-se deputado constituinte em 1945 e foi arbitrariamente cassado com toda sua bancada, retornando à clandestinidade. Resistiu de armas nas mãos à ditadura implantada pelos generais fascistas em 1964 – formando a Ação Libertadora Nacional (ALN). Morreu traiçoeiramente numa emboscada armada pelos seus algozes. Seu nome virou lenda e referência das lutas do nosso povo pela liberdade. Quando uma amiga perguntou-lhe: quem é você Marighella? Ele respondeu faceiro: “sou apenas um mulato baiano”.

“Ei Brasil-africano!
Minha avó era negra haussá,
ela veio da África,
num navio negreiro.

Meu pai veio da Itália,
operário imigrante.

O Brasil é mestiço,
mistura de índio, de negro, de branco”

(De Canto para Atabaque - Carlos Marighella)

Carlos Marighella nasceu em 5 de novembro de 1911 na cidade de Salvador. Seu pai era imigrante italiano, sua mãe uma negra, filha de escravos. Nas suas veias corria o sangue haussá, aqueles escravos islamizados que colocaram a Bahia em pé de guerra com suas inúmeras rebeliões no início do século XIX.

Seguindo o espírito contestador de seus antepassados, em 1932, Carlos ingressou na juventude comunista. O Brasil estava agitado naqueles dias. A Revolução de 1930 mal completara dois anos e o descontentamento com os caminhos que estava tomando se espalhava por vários setores sociais. No mesmo ano em que aderiu ao comunismo, foi preso e espancado pela polícia do interventor Juracy Magalhães. Antes de terminar o curso de engenharia civil, atendendo ao pedido da direção do Partido Comunista do Brasil (PCB), mudou-se para São Paulo. Partiu sem contestação ou arrependimento. Muitos anos depois diria: “Um sentimento profundo de revolta ante a injustiça social não me permitia prosseguir em busca de um diploma (...) num país onde as crianças são obrigadas a trabalhar para comer”.

Chegou a capital paulista numa má hora. Estava em andamento uma grande caçada aos dirigentes comunistas e, por isso, logo caiu nas garras da temida Polícia Especial, comandada por Felinto Müller. Torturado por 23 dias, nada revelou sobre o seu Partido. Saiu da prisão em julho de 1937, durante um breve período de liberalização do regime. Contudo, quatro meses depois, foi decretado o Estado Novo. O Brasil mergulhava numa ditadura sem máscaras.

 
Marighela sai da prisão em 1945

Em maio de 1939, foi preso pela terceira vez. As torturas foram ainda piores que as anteriores. Bravamente continuou a não dar informação alguma aos seus algozes. Ficou aprisionado por cerca de seis anos. Enquanto estava no cárcere, um grupo de abnegados camaradas procurava reorganizar o Partido Comunista. À frente desse trabalho encontravam-se Maurício Grabois, Diógenes Arruda, João Amazonas, Pedro Pomar e Amarilio Vasconcelos.

Esse esforço hercúleo culminou na realização da histórica Conferência Nacional da Mantiqueira em agosto de 1943, que reorganizou o PCB. Entre os eleitos para o novo Comitê Central estavam os nomes de dois prisioneiros, símbolos da resistência democrática e popular: Carlos Marighella e Luís Carlos Prestes.

No início de 1945 foi decretada a anistia. Vivia-se uma nova época. O Partido Comunista do Brasil, agora na legalidade, prestigiado pela sua ação decisiva na luta contra o nazi-fascismo, crescia num ritmo acelerado, se transformando numa importante força política nacional. Seus comícios reuniam dezenas de milhares de pessoas e Prestes era um verdadeiro mito entre os trabalhadores.

 
Marighela com a bancada Constituinte

Quando da eleição à Assembleia Nacional Constituinte, se candidatou pela Bahia e foi eleito. A bancada comunista era composta por 14 deputados federais e um senador. O combativo baiano esteve, ao lado de seus camaradas, na linha de frente dos grandes debates nacionais. Destaque especial merece sua corajosa defesa da separação da Igreja e do Estado e do direito ao divórcio. Enquanto ainda era deputado, se enamoraria pela jovem Clara Charf. Ela seria sua companheira por toda vida.

A partir de 1947 a conjuntura internacional começou mudar. A grande aliança entre URSS e as potências capitalistas ocidentais, forjada durante a guerra contra o eixo nazifascista, desfazia-se e transformava-se num conflito aberto. Era o início da Guerra Fria. A bandeira do anticomunismo voltou a ser levantada com redobrada energia pelas classes dominantes de todo mundo. No Brasil as coisas não foram diferentes.

Sintonizado com os novos interesses do imperialismo, o presidente Dutra reiniciou a dura repressão ao PC do Brasil. As manifestações públicas foram proibidas e dispersadas com violência. Os sindicatos sofreram intervenção do Ministério do Trabalho. Jornais comunistas começaram a ser empastelados pela polícia. Preparava-se febrilmente o terreno para a cassação do registro do Partido Comunista e de seus parlamentares. O que acabou acontecendo alguns meses depois.

Marighella, novamente, foi obrigado a mergulhar na clandestinidade e passou a dirigir o Partido no estado de São Paulo. Nesse período os comunistas paulistas, enraizados dentro das fábricas, dirigiram importantes manifestações operárias, como a greve geral de 1953 – uma das maiores da história brasileira até então.

Desde 1950 o PC do Brasil vinha defendendo a constituição de uma Frente Democrática de Libertação Nacional e a luta armada visando derrubar o governo e o regime vigentes – uma linha política marcada pelo sectarismo e o esquerdismo. A deposição e o suicídio do presidente Getúlio Vargas, em agosto de 1954, levaram-no a mudar de posição e se aliar prioritariamente aos trabalhistas. A vitória de JK – numa aliança entre PTB e PSD, com apoio do PCB -, trouxe dias mais tranquilos para os dirigentes “vermelhos”, que tiveram os pedidos de prisão preventiva anulados e puderam, finalmente, sair da clandestinidade. A democracia brasileira parecia começar a desabrochar.

Contudo, a paz interna dos comunistas brasileiros foi abalada por notícias vindas de muito longe. Em fevereiro de 1956, numa sessão secreta do 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), Nikita Krushov leu o seu famoso relatório no qual denunciava os erros e crimes de Stalin. O que era para ser um documento secreto, rapidamente, se espalhou pelo mundo, através das agências noticiosas estadunidenses. A primeira reação dos dirigentes comunistas foi negar as informações dadas pela imprensa burguesa, sempre suspeita.

O delegado brasileiro presente àquele congresso, e que poderia elucidar as dúvidas surgidas, demorou em voltar ao país. Mas, quando chegou, confirmou grande parte do que havia sido divulgado. Abriu-se uma profunda crise no interior do Partido. Numa das reuniões do Comitê Central, convocadas a discutir o documento soviético, o valente Marighella não conteve as lágrimas. Foram dias de agonia para ele e todos os seus camaradas. Piores do que aqueles vividos na prisão. Afinal, Stalin era o seu grande ídolo. Aquele que, em meio a enormes dificuldades e vicissitudes, havia comandado a construção do socialismo na URSS e derrotado as potências nazifascistas. Agora era apresentado como um monstro pelo seu próprio partido.

Na verdade, por trás das denúncias ao “culto à personalidade” de Stalin estava a tentativa de mudar a linha política do PCUS e do movimento comunista internacional. Desde aquele congresso os soviéticos passaram a defender a coexistência pacífica com o imperialismo estadunidense e a possibilidade de transição pacífica para um novo regime social, rumo ao socialismo, na maior parte dos países do mundo. 

Num primeiro momento, aliou-se à Prestes visando a implantar a nova política consubstanciada na “Declaração de Março” de 1958. Com esse documento o PCB incorporou as teses fundamentais do PCUS, defendo a transição pacífica, a tendência irreversível da democracia e o caráter democrático das forças armadas no país. Essa linha, com pequenos ajustes, foi ratificada no 5º Congresso do PCB, realizado em 1960. Os principais opositores, que reorganizariam o PC do Brasil em fevereiro de 1962, foram excluídos ou mantidos na condição de suplentes no Comitê Central, mas continuando no Partido. Entre eles estavam vários líderes históricos e principais responsáveis pela reorganização do partido durante o final do Estado Novo. 

O primeiro grande acontecimento que viria sacudir algumas de suas convicções foi a revolução cubana. Ela tinha se dado pela via da luta armada e em conflito com as teses reformistas do Partido Socialista Popular (comunista). A tentativa de ocupação da ilha por mercenários em abril de 1961, com apoio do imperialismo estadunidense reforçou nele a ideia da necessidade de preparar-se para a resistência armada – e, também, minou a confiança nas possibilidades da coexistência pacífica, apregoada por Krushov.

No início de 1962 realizou-se na ilha uma grande Assembleia Internacional que aprovou a 2ª Declaração de Havana. Ela passaria a influenciar o programa de várias organizações revolucionárias latino-americanas e empolgaria Marighella. O documento afirmava: “O dever de todo revolucionário é fazer a revolução. Sabe-se que a revolução vencerá na América latina (...) mas não cabe aos revolucionários sentar-se à porta de sua casa para ver passar o cadáver do imperialismo”. Numa clara contestação aos soviéticos dizia: “não é justo enganar os povos com a vã ilusão de que é possível desalojar as classes dominantes por vias legais que não existem nem existirão”. Na época, essas ideias também empolgavam o PCdoB. 

No Brasil as teses krushovistas, compartilhada pela direção do PCB, também foram abaladas por um outro acontecimento ocorrido um pouco antes. No mês de agosto de 1961 o presidente Jango renunciou abrindo uma grave crise política. Os ministros militares se recusaram dar posse ao vice-presidente João Goulart, que se encontrava em viagem oficial à China. No Rio Grande do Sul, o governador Leonel Brizola, com apoio do comandante do 3º Exército, resolveu resistir ao golpe e garantir à posse do sucessor legal. Formaram-se batalhões populares e o país chegou à beira de uma guerra civil.

A saída encontrada foi de aceitar a posse de Jango, mas sob um regime parlamentarista. Marighella ficou descontente com a forma encontrada para solucionar a crise. Mais alguns dias, afirmava ele, os golpistas teriam se rendido sem a necessidade de concessões. O preocupou o fato do partido de sido pego completamente de surpresa e não ter conseguido elaborar uma resposta à altura, a exceção do Rio Grande do Sul.

Em agosto de 1961, no mesmo mês da renúncia de Jânio, a direção de Partido mudaria os seus estatutos – retirando as referências ao Internacionalismo proletário e ao marxismo-leninismo - e alteraria o nome da organização para Partido Comunista Brasileiro, mantendo a sigla PCB. Esses foram justamente os álibis usados pela reação para cassar o Partido em 1947. É claro que essas alterações não podiam lhe garantir a volta à legalidade. Um grupo de dirigentes protestou veementemente contra as mudanças realizadas através de uma carta contendo cerca de 100 assinaturas e passaram a ser punidos e expulsos. Logo, em fevereiro de 1962, eles reorganizariam o Partido Comunista do Brasil, agora com a sigla PCdoB. A frente desse esforço estavam João Amazonas, Maurício Grabois e Pedro Pomar.   

Numa conferência nacional de organização, realizada em 1962, iriam se revelar as diferenças de opinião existentes no interior do próprio Partido Comunista Brasileiro (PCB), que não era um bloco monolítico. Marighella, por exemplo, não aceitava a via pacífica como único meio de derrotar o imperialismo e o latifúndio. Acreditava na possibilidade de um golpe militar direitista e que era preciso estar preparado para resistir a ele. Não era possível depositar todas as esperanças no “esquema militar” de Jango nem sobre um possível papel progressista a ser desempenhado pela burguesia brasileira numa eventual crise. Ele, então, passou a compor uma espécie de ala esquerda do PCB. Contudo, uma nova cisão ainda não estava colocada no horizonte e, por isso, continuou publicamente defendendo as posições oficiais da direção do Partido.

O golpe militar de 1º de abril de 1964 precipitou a crise interna do PCB. Ele, novamente, havia pegado a direção comunista desprevenida. Muitas de suas teses – especialmente sobre a via pacífica - mostraram-se equivocadas. Marighella foi um dos primeiros a exigir uma mudança de rumos. O imobilismo o incomodava profundamente. O conflito entre os comunistas brasileiros se agravou.

No dia 9 de maio de 1964, num sábado, os órgãos de repressão tentaram prendê-lo. Ele refugiou-se num cinema, mas foi descoberto. Policiais cercaram e invadiram o prédio. Diante da resistência inusitada imposta pelo antigo líder comunista, eles atiraram. Uma bala atingiu-lhe o peito. Mesmo assim, não se entregou. Entrou num corpo a corpo renhido com os agentes da repressão. Precisou que uma coronhada na cabeça o pusesse a pique. Tudo foi documentado por um fotógrafo do Correio da Manhã. O ato inaugural tornou-se um dos símbolos da resistência ativa à ditadura militar recém-instaurada.

Alguns meses depois descreveria essa experiência e colocaria suas opiniões sobre a tática a ser adotada contra a ditadura no livro “Como resisti à prisão”. Ali escreveu: “Os brasileiros estão diante de uma alternativa. Ou resistem à situação criada com o golpe de 1º de abril ou se conformam com ela. O conformismo é a morte”. Continuou: “A grande falha deste caminho (trilhado pelo PCB) era a crença na capacidade de direção da burguesia, a dependência da liderança proletária à política efetuada pelo governo de então”. O autor, pela primeira vez, advogava a necessidade de se utilizar da violência revolucionária contra os generais no poder: “A ditadura surgiu da violência empregada pelos golpistas contra a nação, e não pode esperar menos que a violência por parte do povo para enfrentar os crimes cometidos pelo governo e os militares (...)”.

No ano seguinte, radicalizou mais suas posições, e publicou “A crise brasileira”. O proletariado, afirmou, “não tem outro recurso senão adotar uma estratégia revolucionária (...) Trata-se da revolução, da preparação da insurgência armada popular”. E, concluiu, “o trabalho mais importante, aquele que tem caráter prioritário é a ação no campo, o deslocamento das lutas para o interior do país”.

Apesar de suas divergências públicas, em 1966, ele foi eleito secretário do Partido no estado de São Paulo. Logo depois se desligou da Comissão Executiva Nacional do PCB. “Solicitando demissão da atual Executiva, declarou, desejo tornar público que minha disposição é lutar revolucionariamente junto às massas e jamais ficar à espera das regras do jogo político, burocrático e convencional que impera na liderança”. Na tradição comunista esse era um ato de grave insubordinação.

A luta agora passou por dar um novo rumo à política da direção central do Partido que, acreditava-se, teria como palco o VI Congresso. Na Conferência paulista Marighella conseguiu 33 votos dos 36 delegados presentes. A linha reformista oficial também foi derrotada no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul. Diante da possibilidade de perder o controle partidário, a direção interveio nesses estados e iniciou o afastamento dos militantes descontentes, acusados de divisionismo.

 
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Para piorar a situação, ele foi o único membro do PCB que participou da 1ª Conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), realizada em Cuba. Nesse conclave buscou-se, contra a vontade dos soviéticos, articular uma espécie de Internacional revolucionária latino-americana. Um dos seus lemas era “Criar um, dois, três Vietnãs!”. Procurando novos caminhos, ele empolgou-se com as teses pouco ortodoxas ali aprovadas. Antes de ser expulso, apresenta sua carta de afastamento do Comitê Central do PCB. Escreveu: “não tenho que pedir licença para praticar atos revolucionários”. Permaneceu vários meses na ilha e foi firmando suas convicções sobre os caminhos da revolução brasileira. Redigiu “Algumas questões sobre a guerrilha no Brasil”, dedicado a Che Guevara. Agora a guerrilha era reconhecida como “o caminho fundamental, e mesmo único, para expulsar o imperialismo e destruir as oligarquias”.

Segundo Marighella, a etapa de nossa revolução continuava sendo nacional-democrática e entre as forças sociais interessadas na sua realização se encontrava os setores progressistas da burguesia. No entanto, a hegemonia desse processo deveria estar nas mãos do proletariado. A maneira de se conseguir isso seria através da utilização de métodos de lutas mais avançados e da construção de uma aliança estratégica com os camponeses. Afirmou ele: “O governo pelo qual lutamos não poderá ser senão o resultante da frente única anti-ditadura (...). Esforçando-nos para que tal frente única se torne realidade, sustentamos a necessidade da aliança com a burguesia nacional, levando em conta não somente tudo o que dela nos aproxima, quando se trata de objetivos comuns em defesa dos interesses nacionais, mas também tudo o que dela nos separa (...). E o Partido deve ser o chefe da oposição popular, para não ficarmos a reboque da oposição burguesa”. A hegemonia do proletariado, explica ele, não implicaria numa mudança no “caráter anti-imperialista a anti-feudal, nacional e democrático da revolução brasileira”.

Voltando ao país, fundou o Agrupamento Comunista de São Paulo e, depois, através de uma articulação envolvendo militantes de vários estados, criou a Ação Libertadora Nacional (ALN). Uma das características dessa nova organização era a negação da importância dos partidos políticos nos processos revolucionários latino-americanos. Seu lema era “a ação faz a vanguarda”. Uma posição que, claramente, não se enquadrava dentro da tradição marxista e leninista que tendia a valorizar o papel dos partidos de vanguarda (comunistas), inclusive na preparação e no desenvolvimento da guerra popular.

Podemos dizer que, nesse período, houve um claro desvio anti-teoricista no pensamento de Marighella – possivelmente influenciado por Regis Debray. Isso explicaria a pouca atenção dada ao estudo mais profundo da realidade brasileira e a elaboração de uma estratégia adequada, como estava sendo procurada nos documentos anteriores do próprio Marighella. Não foi retomada a rica discussão sobre as etapas da revolução brasileira. A ação, por si só, parecia resolver esses complexos problemas teóricos e políticos. Os aspectos técnico-militares da revolução pareciam serem os únicos que realmente contavam. O resto era diletantismo, fruto da antiga cultura comunista pré-OLAS.

Apesar de advogar a importância do trabalho no campo, a ALN acabou ficando presa às atividades guerrilheiras nas grandes cidades. Entre os seus primeiros atos estavam os assaltos a casas bancárias e outros estabelecimentos, visando levantar fundos para montagem da guerrilha rural. No começo, a ditadura não imaginava que essas ações estavam sendo praticadas por organizações da esquerda armada. O segredo apenas foi descoberto em novembro de 1968 quando da prisão de um militante. Desde então, tornou-se o “inimigo público número 1”.

No entanto, foi pego de surpresa quando, em setembro de 1969, um comando do MR-8 e da própria ALN capturou o embaixador estadunidense e o soltou em troca da libertação de vários presos políticos. Queixou-se por não ter sido informado com antecedência de uma operação tão decisiva. Os autores do sequestro responderam usando uma tese do próprio Marighella: “ninguém precisa pedir autorização para realizar um ato revolucionário”.

O experiente combatente tinha consciência que a ditadura, humilhada pelo sequestro, partiria para o contra-ataque. Ele estava certo. Naqueles dias começou uma verdadeira operação de cerco e aniquilamento. Poucos depois a quase totalidade dos que haviam participado daquela ação arrojada estava presa ou morta. O Grupo Tático Armado da ALN foi praticamente desbaratado pela repressão que se seguiu.

 
Marighela é assassinado em São Paulo

Faltava pegar Marighella. Essa passou a ser uma verdadeira obsessão dos órgãos de segurança. Através de informações extraídas de militantes presos e barbaramente torturados, a polícia localizou-o e montou uma emboscada. No dia 4 de novembro – menos de dois meses da captura do embaixador estadunidense – Marighella foi executado em plena Alameda Casa Branca na cidade de São Paulo.

O medo dos policiais era tanto que mesmo a vítima estando sozinha e desarmada, eles se embaralharam e acabaram matando e ferindo seus próprios comparsas. Um delegado levou um tiro na perna e uma investigadora morreu baleada na cabeça. Envergonhados, os bandidos do regime disseram que foram atacados por seguranças do líder da ALN. A farsa logo foi desmascarada.

 

No mesmo dia do assassinado se reunia o núcleo da direção do PCdoB. Ao saber da trágica notícia lançou uma nota – publicada n’A Classe Operária – dizendo: “Vítima de torpe cilada, vilmente fuzilado em plena rua pela polícia, morreu Carlos Marighella. O assassinato desse conhecido revolucionário é mais uma ação vergonhosa e covarde que se acrescenta à onda de inominável violências que a ditadura militar vem cometendo. A história do Brasil registra poucos crimes políticos tão infames, tão friamente planejados como o perpetrado na Alameda Casa Branca, em São Paulo. (...) Esse monstruoso crime a ditadura é parte de todo um plano visando amedrontar, através do terror e do banditismo, os democratas e patriotas (...)”.      

Talvez o poema Rondó da Liberdade, escrito pelo próprio Marighella, descreva com precisão o espírito libertário daquele que nunca se curvou diante às intempéries. Nas câmaras de tortura do Estado Novo, resistindo sozinho e baleado num cinema carioca ou diante de seus algozes numa alameda escura de São Paulo, ele parece sempre querer nos dizer: “É preciso não ter medo,/ é preciso ter a coragem de dizer./ Há os que têm vocação para escravo,/ mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão./ Não ficar de joelhos,/ que não é racional renunciar a ser livre./ Mesmo os escravos por vocação/ devem ser obrigados a ser livres,/quando as algemas forem quebradas”. As algemas da ditadura militar já foram quebradas. Outras ainda estão aí para serem partidas e o serão pelas mãos, sem medo, de outros milhares de marighellas. Pátria ou morte. Venceremos!

 * Publicado originalmente em Carta Maior e Portal Vermelho, respectivamente em setembro e novembro de 2009

**Augusto C. Buonicore é historiador e diretor de publicações da Fundação Maurício Grabois. Autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira: encontros e desencontros; Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas; e Linhas Vermelhas: marxismo e os dilemas da revolução. Todos publicados pela Fundação Maurício Grabois e Editora Anita Garibaldi.

Bibliografia

Betto, Frei. Batismo de Sangue, Ed. Casa Amarela, 2000

José, Emiliano. Marighella: o inimigo público número um da ditadura militar, Ed. Sol e Chuva, 1997

Magalhães, Mário. Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo. Ed. Companhia das Letras, SP., 2012

Marighella, Carlos. Por que resisti à prisão, Ed. Brasiliense/Edufba, 1994

---------------------- . Escritos de Marighella, Ed. Livramento, RS., 1979

---------------------- . Poemas – Rondó da Liberdade, Ed. Brasiliense, SP. 1994

Nóvoa, Jorge (org.). Carlos Marighella: o homem por trás do mito, Ed. Unesp, SP., 1999

Sacchetta, V. & Camargos, M. A imagem e o gesto: foto-biografia de Carlos Marighella, Ed. Fundação Perseu Abramo, SP. 1999.

Filmografia

Marighella: Retrato falado do guerrilheiro –Documentário de Silvio Tendler, 2001

Marighella. Documentário de Isa Grinspum Ferraz, 2012

Hercules 56 – Documentário de Silvio Da-Rin, 2006

Batismo de Sangue – Filme dirigido por Helvécio Ratton, 2007.