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Jogo de Espelhos*

Fábio Palácio** Publicado em 10.02.2020

A polarização social invadiu as telas de cinema em 2019 e “Parasita” é um bom exemplo. O longa faz uma crítica ácida das desigualdades de classe em um país tido como modelo de desenvolvimento capitalista tardio, a Coreia do Sul. O enredo retrata um jogo de oposições em que cada polo não apenas existe em função de seu contrário, mas nele se converte facilmente. Estruturada nessa dinâmica, a narrativa, como se sabe, se desenrola a partir das ações de dois núcleos: a família Kim, de classe baixa, e a família Park, de classe alta.

Afundados na pobreza, os Kim têm uma existência uberizada. Vítimas do desemprego estrutural, sobrevivem de bicos. Não há dinheiro para nada, nem mesmo para o “sagrado wi-fi”, como define a certa altura o patriarca Kim Ki-taek (Song Kang-ho) em momento cômico que, além de insinuar o que seriam, nos dias de hoje, os chamados “gêneros de primeira necessidade”, ainda questiona se a tecnologia não teria se tornado a religião de nosso tempo.

O filho Ki-woo (Choi Woo-sik) é astuto e possui bom nível formativo. Isso fica claro desde a primeira reviravolta da história, quando é convidado por um amigo, universitário de família endinheirada, a substituí-lo como tutor particular de inglês de Da-hye (Jung Ji-so), uma jovem da família Park.

Indagado sobre o porquê de ter sido escolhido, já que o amigo conhecia tantos universitários tarimbados, Ki-woo ouve, entre outros motivos, que conhece mais inglês que a maioria dos acadêmicos.

A informação contrasta com o fato de o jovem haver falhado, várias vezes, no exame de ingresso para a universidade. Quais as razões do insucesso? Algo a ver com sua posição na rígida hierarquia social sul-coreana? Bong critica, no subtexto, a apregoada meritocracia: numa sociedade em que não há oportunidades para todos, o mérito não é suficiente para alguns.

Com o tempo, Ki-woo passa a conhecer os meandros da família que o emprega. Quando a sra. Park (Cho Yeo-jeong) menciona que seu filho menor precisa de um novo preceptor de artes, ele vê a chance de empregar também a irmã, Ki-jung (Park So-dam), apresentando-a como especialista no assunto.

Uma vez admitida, ela conspira para demitir o motorista dos Park e colocar em seu lugar o próprio pai. Cada conquista é um trampolim para a próxima falcatrua. E é assim que se trama a demissão da governanta da casa, a fim de que o último membro da família, a matriarca Chung-sook (Jang Hye-jin), possa ser contratada, também por indicação daqueles que, a essa altura, já conquistaram a confiança do sr. Park e sua esposa.

Para que tudo dê certo, as armações dos Kim exigem planejamento e sincronia de papéis. Isso é exposto por meio de sofisticadas técnicas de montagem — um dos pontos altos do filme, que, não por acaso, concorre ao Oscar da categoria. À medida que as armações se sucedem, o clã de baixa renda chega ao melhor dos mundos, resolvendo às custas da família rica seus problemas econômicos.

Nesse ponto, porém, tudo começa a mudar. Como nas máscaras gregas que simbolizam a arte dramática — um rosto sorrindo, outro chorando —, aquilo que era até então comédia se converte em seu oposto, a tragédia, e o filme desponta como o que de fato é: um thriller sociológico com altas doses de suspense.

Essa etapa tem início quando a antiga governanta reaparece para desarranjar a arquitetura de trambiques. Conforme se revela então, já antes dos Kim outra família — a da ex-governanta — também “parasitava” os Park. E o mais surpreendente: parte dessa família, o marido da governanta dispensada, continuava morando na espaçosa mansão.

Acontece que muitas casas coreanas, especialmente de famílias abastadas, contam com abrigos subterrâneos que servem como proteção em caso de um ataque nuclear vindo da Coreia do Norte.

Porém, como a sugerir que, para além da ameaça vermelha, o verdadeiro perigo na Coreia do Sul é representado pelo próprio capitalismo, o diretor Bong Joon-ho, que militou na juventude em um partido de ideologia socialista, informa pela voz de seus personagens que os abrigos não protegem apenas contra os mísseis norte-coreanos, mas também contra os agiotas sul-coreanos.

No abrigo da mansão vivia, com algum estoque de víveres, o marido da governanta. Quando as duas famílias de desvalidos se descobrem uma à outra, e uma delas percebe que foi vítima de golpe, começa uma guerra que acabará por afetar os Park.

A disputa entre as duas famílias pobres simboliza a desunião dos “de baixo”. A refrega entre as famílias miseráveis é exposta com fartura de referências alegóricas às formas contemporâneas da guerra, que vão muito além da coerção e do uso de armamentos tradicionais. Quando o marido da governanta demitida consegue capturar imagens comprometedoras dos Kim, estes acabam rendidos pela mera ameaça, feita por seu contendor, de enviar aos patrões as cenas gravadas.

Ao ver a família Kim inteira ajoelhada, com as mãos para o alto, em face do simples risco de acionar o comando send de seu celular, o marido comenta com a mulher: “Veja, isso é mais poderoso do que um míssil da Coreia do Norte!”.

É a partir dos infortúnios trazidos pelo choque entre as duas famílias pobres que o cineasta expõe uma ideia chave: a de que “nenhum plano dá certo”. Por milimetricamente detalhado que seja um planejamento, algo sempre sai do controle. A vida é mais rica e complexa do que nossas vãs filosofias.

A referência não deixa de evocar o jogo de espelhos das duas Coreias — e pode ser lida como uma crítica à planificação econômica socialista, mas também, como já declarou Bong Joon-ho, às mirabolantes equações da engenharia econômica neoliberal, as quais pretendem encaixotar a realidade em fórmulas econométricas que sempre apontam para o melhor dos mundos, mas costumam resultar em catástrofes sociais.

Ao lado da oposição entre plano e resultado — forma particular da dialética discurso-realidade —, outras polaridades organizam os eixos da narrativa. Uma delas cristaliza-se em frase chave do filme, dita pelo jovem Kim. Ao assistir aos Park recepcionando convidados em uma festa, ele pergunta a sua aluna Da-hye: “Todos parecem tão maravilhosos! Você acha que eu me encaixo nisto?”.

O cineasta explora a ideia de uma camada superficial da realidade, feita de aparências, a contrastar com algo mais profundo, que raramente se revela. O que parece belo e harmonioso pode ocultar profundas tensões e incongruências. Quando o patriarca dos Kim pergunta ao senhor Park (Lee Sun-kyun) se ele ama a esposa, o último, surpreso com a pergunta, limita-se a rir e responder: “Sim, vamos chamar isso de amor!”.

Quem, de fato, vive de aparências? Se a família pobre aposta no ilusionismo, o mesmo não poderia ser dito do núcleo abastado? Na verdade, o que fazem os Kim não é nada além de entrar no jogo de aparências dos Park. Contudo, ao assim proceder, trazem consigo a realidade nua e crua, que costuma ser implacável na destruição de miragens e disfarces.

O real apresenta-se, então, como uma tessitura de dupla camada: há a superfície, o mundo de aparências que todos vivenciamos, mas ao qual a maioria está confinada; a par dele, há uma camada mais essencial, que muitas vezes permanece oculta, mas nem por isso deixa de ser verdadeira, podendo concretizar-se a qualquer instante.

Esses dois polos não se separam de forma radical: ao passo que sonhos, utopias e planos podem materializar-se, a “verdadeira” realidade — aquela que nos aparece, que consideramos sólida e palpável— pode esfumar-se diante de nossos olhos, revelando-se a mais aberta ficção.

É quando se percebe, nas palavras do professor Massaud Moisés, algo que nos irmana à narrativa asiática: “A coexistência da fantasia e do realismo, mas de molde a intercambiar os efeitos: nota-se o caráter realista destas [...] fugas da fantasia, tanto como o caráter fantástico destas explicações da realidade”, naquilo que se convencionou chamar de realismo fantástico, e que, mais do que tendência narrativa, vai-se mostrando uma poderosa ontologia.

É nesse jogo de espelhos, em que os opostos se refletem e interpenetram, que o título do filme — em princípio enigmático — vai se desvelando. O que o cineasta deseja saber do público é, afinal, a qual das famílias ele se refere: quem é o verdadeiro parasita?

Como sugere a narrativa, numa sociedade dilacerada pelas desigualdades, o infortúnio não afeta apenas os desvalidos. Também os opulentos são vítima da deterioração do tecido social, por mais que se escondam atrás de muros, grades ou mundos de faz-de-conta. Em uma sociedade parasitária, ninguém está a salvo do parasitismo.

*Artigo publicado em 09/02/2020, no caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo.

**Doutor em ciências da comunicação pela USP, é jornalista e professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão, é diretor da Fundação Maurício Grabois.