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Reflexões sobre o mundo após a pandemia de coronavírus

Lejeune Mirhan* Publicado em 04.04.2020

Semana passada produzi um artigo onde tratava sobre o modelo neoliberal, em especial se ele resistiria a essa crise mundial, que é do capitalismo em geral. Tratei também nesse trabalho de propostas que deveriam ser adotadas para minimizar o sofrimentos dos trabalhadores. Agora quero debater com meus leitores como será o mundo depois dessa pandemia.

No artigo que publico a seguir, com base em vários autores de renome internacional que li e estudei seus posicionamentos, começaram a tecer suas primeiras reflexões sobre como será nosso mundo após a pandemia. Eu mesmo utilizei um livro que tem circulado na Internet em formato PDF (gratuito de 48 páginas) onde destaco os artigos de David Harvey e Slavoj Zizek. Levei inclusive em consideração artigos e entrevistas do historiador israelense Yuval Harari, de quem li sua excelente trilogia. Harari é o que se chamava na década de 1960 de “futurólogo”, sendo o mais famoso deles Hermann Khan. Estas são impressões iniciais onde arrisco opiniões cautelosas sobre esse “novo mundo”.

Será possível mesmo grandes mudanças?

Há tempos estudo “ordens mundiais”. Elas fazem parte de um curso que venho ministrando sobre geopolítica mundial. Elas são datas ou períodos onde se pode dizer que houve grande alteração no rumo da história de uma determinada época. Por vezes, até mesmo a alteração de classes ou frações de classe no controle do aparato estatal. Alguns momentos nos últimos 600 anos são marcantes, como o período que vai de 1453 (conquista de Constantinopla pelos turcos e fim do Império Romano do Oriente) até 1494 (tratado de Tordesilhas); como a Paz de Westfália (1648) e os tratados de Versalhes e San Remo (1919 e 1920), que impuseram sanções de guerra à Alemanha e que repartiram o espólio do império Otomano entre as potências vencedoras da I Guerra Mundial (França e Inglaterra). Houve ainda a ordem mundial advinda dos acordos de Breton Woods de 1944, que formataram o sistema monetários internacional que conhecemos até os dias atuais. Talvez a última ordem mais recente, que inaugura um mundo unipolar, tenha ocorrida a partir de dezembro de 1991, quando a União Soviética foi oficialmente dissolvida e a sua bandeira foi arriada no Kremlin, substituída pela bandeira da velha Rússia imperial e czarista. Isso sem falar da guerra Civil Inglesa (1642), das grandes revoluções americana e francesa respectivamente em 1776 e 1789. É claro que nem todos os historiadores estão de acordo com essas datas e momentos como sendo de surgimento de novas ordens mundiais. 

O que nos deparamos neste momento histórico é o que vem sendo feito em termos de verdadeiros estragos mundiais – tanto em termos econômicos quanto em termos de saúde pública e mortandades – que vem ocorrendo desde dezembro de 2019 quando um vírus da família Corona (identificado desde a década de 1960), batizado de “coronavírus” que causa uma doença mortal batizada de COVID-19. De tudo que li na vida, como marxista, jamais vi previsão alguma de profundas mudanças na sociedade advinda de epidemias ou pandemias.

Não pretendo falar sobre os efeitos desse vírus nos organismos humanos. Até porque não sou sanitarista, epidemiologista ou virologista (especialidades médicas em alta no momento). O que sei, como leigo, é que ele é um vírus de transmissão bastante rápida, que se dá a partir de gotículas da saliva que as pessoas expelem quando falam, tossem e especialmente quando espirram (são chamados popularmente de perdigotos). O seu índice de mortalidade tem variado de país para país, em função de medidas que os governos vêm adotando. Se levarmos em conta os números da pandemia em termos mundiais – quando escrevo este trabalho, a página da Universidade John Hopkins que nos permite acompanhar instantaneamente os dados, estavam infectados no mundo exatos 1.094.068 pessoas e haviam morrido 58.773 pessoas (dados obtidos às 19h29 do dia 3 de abril de 2020 em https://bit.ly/2WMzFKH). 

Olhando esses números podemos concluir que o índice médio de mortalidade em plano mundial é de 5%, ou seja, de cada cem pessoas que se infectam, cinco irão morrer. Não sabemos a extensão do contágio pelo mundo todo. O que sabemos é que apenas a China conseguiu controlar a sua propagação, com medidas adotadas pelo governo bastante drásticas, envolvendo confinamento e quarentena de mais de cem milhões de pessoas. Mas, imaginemos um contágio de “apenas” um oitavo da população da terra, hoje com quase oito bilhões de habitantes. Teríamos então infectados um bilhão de seres humanos. E, pelas estatísticas médias, podemos imaginar uma mortalidade de 50 milhões de pessoas. Esse é um número que se situa próximo às duas pandemias mundiais mais conhecidas em nossa história que foram a famosa Gripe Espanhola, de 1918/1919 e a Peste Bubônica, que alguns autores chamam de Peste Negra (não gosto desse termo), cujo pico ocorreu entre 1443-1453. Não temos números confiáveis de mortes em ambas pandemias mundiais, mas fala-se em um mínimo de 25 milhões até cem milhões de mortos.

As ações adotadas pelos governos

Não pretendo detalhar as medidas adotadas pelos principais países no mundo hoje, que demandaría muito espaço neste artigo. No entanto, à exceção honrosa de nosso país, o único no mundo cujo presidente resiste em seguir as orientações da Organização Mundial de Saúde, todos adotaram medidas de restrição de circulação de pessoas, confinamentos, quarentenas, isolamento e recomendação de distanciamento social (em uma sociedade onde as pessoas já vivem profundamente distantes uma das outras; uma ironia).

O que mais difere das ações governamentais adotadas nos países, é a quantidade de recursos públicos que estão sendo injetados nas economias, sejam recursos esses para salvar empresas e ajudar empresários da indústria, comércio e principalmente bancos, e recursos destinados às famílias e aos trabalhadores que são os que mais sofrerão com a pandemia.

Aqui relembro a quantidade de dólares que os EUA injetaram na sua economia em 2008, sob o governo de George Bush (filho) em seu último ano do segundo mandato, que foi da ordem de 700 bilhões de dólares. No último dia 25 de março o senado dos EUA aprovou valores da ordem de 2,2 trilhões de dólares, sendo que para cada trabalhador 1,2 mil dólares e mais 500 dólares para cada filho existente em todos os lares estadunidenses. Países como Inglaterra, França e Alemanha, adotaram medidas para assumir entre 80% e cem por cento as folhas de pagamento de todas as empresas privadas de seus países. 

Ou seja, como já havia citado de Jonathan Cook, é como se desabassem de um dia para outro tudo que nos ensinaram sobre o sistema capitalista e a sua financeirização, que sería a melhor forma de nos organizarmos em sociedade. Ruiu completamente o discurso que o “estado tem que ser mínimo” (sic), como se o tal “mercado” alguma vez em algum lugar da terra em toda a história da humanidade regulou alguma coisa e conseguiu dar respostas em situações de crise econômica ou pandemias. Sempre foi o velho e bom estado o agente para a tomada de decisões para debelar crises e pandemias. 

Aqui levanta-se já um debate intenso entre estudiosos de sociedade, como nós sociólogos e nossos colegas economistas. Mas também muitos outros profissionais de muitas especialidades, já apresentam suas opiniões sobre o seguinte tema fundamental: estaria o modelo neoliberal (capitalismo financeiro) liquidado ou pelo menos ferido de morte? Teríam essas economias capitalistas, chamadas de economia de cassino, que criam riqueza e valores fictícios, força para – após debelarmos a pandemia mundial – seguir dominando tudo e todos? Levantei várias opiniões sobre isso no artigo anterior – que pode ser lido aqui https://bit.ly/3bM4pQv – e tenho apenas uma certeza: o nosso mundo e nosso querido e amado planeta Terra jamais será igual ao que já fomos em passado recente. No entanto, a profundidade das mudanças que ocorrerão ainda depende de muitos fatores, em especial da forma como os trabalhadores e as organizações progressistas e patrióticas irão responder e apresentarem soluções para essa crise (movimento sindical, popular e partidos políticos). Também nesse aspecto não irei me aprofundar, pois foge do escopo de nosso trabalho.

O novo mundo que viveremos

Não quero aqui entrar em aspectos relacionados ao comportamento das pessoas, até porque este não é o foco de minha ciência – a Sociologia. Não tenho dúvidas, porém, que presenciaremos mudanças nesse aspecto, na forma como as pessoas se relacionam umas com as outras, mesmo dentro de suas famílias. Hoje fui comprar máscaras protetoras e levei algumas na casa de minha filha que me recebeu na porta do prédio acompanhada que estava dos meus dois únicos netinhos. O menor – de dois aninhos – correu de braços abertos para me dar um abraço, ao que não pude fazê-lo por motivos óbvios (que só o “nosso” presidente não entende). O abraço e o beijo – familiar, de amizades ou de amantes – talvez nunca mais seja o mesmo depois da pandemia. Da mesma forma acho que a forma como nos solidarizamos com nosso próximo vai se alterar. Acho que haverá aumento significativo com relação à solidariedade humana. Por fim, acho que viveremos menos virtualmente e mais presencialmente, coisa que hoje pouco fazemos.

Pois bem. Quero a seguir listar conclusões preliminares – como disse, a partir de muitas leituras. Veja o artigo publicado na prestigiada revista de política externa nos EUA, Foreing Police, intitulado “How the World Will Look After the Coronavirus Pandemic” (https://bit.ly/2UxHbrn que obtive no excelente canal Meteoro no YouTube) e veja o livrete que mencionei no lead do artigo de vários autores, alguns deles marxistas: https://bit.ly/34cZyW2 com 48 páginas em PDF; atente em especial para Harvey e Zizek.

1. Os EUA perderão sua liderança e hegemonia mundial – eu sei que esta é uma afirmação drástica e pode ser precipitada. No entanto, isso já vinha ocorrendo antes da pandemia. A ainda maior potência mundial vem perdendo espaço a cada dia, seja do ponto de vista econômico, seja do ponto de vista de sua liderança global mesmo. Os estados subalternos europeus que sempre lhes prestaram vassalagem, já não adotam suas orientações como antes – aliás, a Europa acaba de usar pela primeira vez o novo sistema de pagamentos internacionais fora do SWIFT estadunidense, passando a usar o INSTEX que utiliza moedas locais no comércio de petróleo, deixando de lado o dólar – acesse aqui https://bit.ly/3aSTR1G artigo de Tyler Durden, dando conta da primeira operação comercial entre a Europa e o Irã, com suas moedas, sem usar o dólar, burlando as odiosas sanções impostas pelos Estados Unidos (e o maior absurdo é que em meio a essa crise mundial nenhuma sanção a nenhum país do mundo foi levantada).

Acho que a República Popular da China emergirá como a maior potência, ultrapassando a força econômica dos Estados Unidos. As previsões de analistas internacionais que a China ultrapassaria a economia estadunidense por volta de 2050 realizar-se-á muito antes disso. Talvez em menos que cinco anos. Também a Rússia sairá muito maior do que entrou nessa crise. Caminhamos com mais velocidade para um mundo multipolar, que já vínhamos observando e que sempre defendemos.

2. Os estados nacionais sairão mais fortalecidos – é certo que isso não ocorrerá de maneira pacífica. Muita luta política ocorrerá, com divergência até entre as várias frações da classe dominante, a burguesia internacional. Mas, nunca antes na história do mundo, como vivemos hoje, os velhos e bons estados nacionais foram tão importantes como estamos vivenciando agora. Os conceitos de soberania nacional emanados no histórico acordo de Westfália em 1648, somado à criação e unificação dos estados europeus, deve se consolidar, fazendo enfraquecer as teses neoliberais tanto de M. Friedman quanto da escola austríaca de L. von Misses e F. Hayek. Aqui sabemos do risco real de serem criados estados autoritários, com restrições às liberdades democráticas, que foram nossas bandeiras mais caras no período de luta contra a ditadura militar (1964-1985).

Não vou afirmar que já estão derrotados os que – desde 1973 no Chile e 1979 na Inglaterra – tudo fizeram para enfraquecer o estado nacional, privatizaram o que conseguiram, até mesmo seus serviços de saúde, hoje sucateados e tão imprescindíveis para salvar as vidas das pessoas. Mas, suas teses caíram por terra. Não há um dia sequer onde economistas neoliberais “desde criancinhas” não falem nas páginas dos jornalões da burguesia, sobre a necessidade de o estado nacional injetar todos os recursos possíveis para salvar as suas economias nacionais. E agora falam – não podería deixar de ser – em amenizar o sofrimento do povo (coisa que em 2008 isso jamais aconteceu). E dizem que, se preciso for, os bancos centrais devem emitir moeda nova e distribuir amplamente (alguns até usam a figura de linguagem como “jogar dinheiro de helicóptero para o povo”). 

3. O nacionalismo crescerá e colocará em cheque a globalização – aqui entendo por globalização o conceito criado pela burguesia internacional na linha de dominar o mundo, destruir todas as barreiras comerciais e regulamentações internacionais de forma a que os capitais especulativos circulem livremente e suas mercadorias possam entrar em todos os países sem restrição alguma. Essa globalização está ferida de morte. Setores com uma consciência nacional mais elevada – não subservientes ao imperialismo – podem crescer politicamente nesses países, de forma a aumentar e não diminuir as restrições ao livre trânsito tanto de dinheiro quanto de mercadorias. 

A esquerda mundial jamais foi contra a globalização. O mundo globalizado que sempre defendemos tem outra concepção. A globalização que sempre defendemos foi a de um mundo sem fronteiras, com grande solidariedade entre os povos e países. Buscamos a igualdade, o comércio justo equilibrado, uma agricultura saudável para alimentar os habitantes do planeta (sabemos que hoje há excesso de alimentos e não falta dele e a fome ainda grassa na terra). Esse nacionalismo poderá no limite colocar em cheque a própria existência da União Europeia. 

4. Países da Ásia ganharão mais relevância em plano mundial – e aqui me refiro à maioria dos países daquela região e não só a China. A forma como enfrentaram a pandemia países como a Coreia (do Sul), Japão, Singapura e a ilha de Taiwan mostraram-se muito superior aos métodos adotados pelos países europeus e mesmo EUA. Tigres asiáticos foi um termo usado a partir de 1960 para definir regiões na Ásia que aplicavam modelos capitalistas sob alguma orientação de seus estados nacionais. Aqui referem-se as duas regiões chinesas de Hong Kong e Taiwan e mais Singapura e Coreia.

5. Regulação do sistema monetário internacional – é muito provável que teremos uma nova arquitetura no sistema financeiro internacional na linha do rompimento do modelo de Breton Woods. Alguns autores falam até na extinção das moedas na forma papel e a criação de uma moeda única internacional que não sería o dólar. O dólar, seguramente, deixará de ser a moeda única do comércio mundial. Talvez uma cesta de moedas que inclua o Yuan, Iene, Rublo e o Euro (não fosse o golpe de 2016 talvez até o nosso real pudesse entrar nessa cesta). Mas, lembremo-nos de como o capitalismo saiu da crise de 2008. Nenhuma regulação sobre o livre trânsito de capitais especulativos internacionais foi adotada. O tal do BIS – que se diz “Banco central dos bancos centrais” (cuja sigla significa Bank for International Sttlements, Banco de Pagamentos Internacionais) – seguiu adotando as mesmas regras de antes da crise. 

6. As cadeias mundiais de produção serão afetadas – o modelo que em Sociologia do Trabalho chamamos de “fordismo” ou mesmo “toyotismo’, que leva em conta a quase ausência de estoques nas empresas para a produção de seus bens, que chama-se Just in time – deve se modificar. A China, que é a grande fornecedora mundial de peças e produtos, pode não conseguir dar conta do abastecimento mundial e da demanda por produtos para essas cadeias produtivas. Poderemos voltar a ter, próximo a uma grande empresa ou montadora por exemplo, suas fornecedoras locais de peças e serviços, sem que se tenha que depender de imensas importações de países situados há 10 ou até 15 mil quilômetros de distância.

7. Teremos uma governança global? – vários órgãos, instituições mundiais – algumas que até parte das pessoas acham que nem sequer existem e são fruto de teorias da conspiração, como o clube Bildenberg – defendem uma governança global. Sabemos que a ONU, desde a segunda agressão ao Iraque de 2003, vem perdendo cada dia mais o papel que devería ter. Alguns autores até arriscam a dizer que, na prática, ela nunca chegou a ter um papel de “governança global”.

Aquele magnífico filme de 1951, intitulado O dia em que a terra parou, que eu mencionei no meu artigo anterior ilustra bem essa situação. Se hoje um disco voador de outro planeta aterrizasse na Terra e pedisse para falar com o líder dos terráqueos, dificilmente os que o receberíam levaríam ao Sr. Antônio Guterres, Secretário-geral da ONU, mas sim ao presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump. 

O que vislumbro não é necessariamente um corpo governamental mundial que adotasse normas e regras gerais que valessem para todo o planeta. Mas, algum tipo de articulação entre as nações mais fortes economicamente, que pudesse agir de forma rápida em situações exatamente como a que estamos vivendo hoje de uma pandemia que pode matar milhões de pessoas. Alguns autores mencionam até a criação de algo como um SUS mundial.

8. O valor das coisas se modificará – viveremos uma situação talvez do maior desemprego já visto em toda a história. Hoje não tenho mais dúvidas que a dimensão desta crise em muito já ultrapassou a de 2008 e até mesmo a de 1929. Alguns economistas chegam a falar em encolhimento do PIB dos EUA em até 50%, que impactará no PIB mundial. As pessoas ficarão mais pobres, terão menos renda mesmo com mais dinheiro em circulação, provavelmente injetados pelos bancos centrais. Nesse sentido, dificilmente o valor das coisas – mercadorias, bens e serviços – manterá no mesmo nível. Isso terá impacto nos seus preços e valores (sei que do ponto de vista marxista são coisas distintas, mas fica a ideia). É possível que em um primeiro momento, as coisas fiquem mais baratas. Imóveis e bens materiais terão seus preços de comercialização com quedas grandes. Até porque as pessoas estarão com receio de investir, de comprar coisas e bens materiais.

Nessa conjuntura, o que mais temo – e já aparece no noticiário, em especial aqui em terras brasileiras – a proposta de cortes generalizados dos salários tanto dos servidores públicos quanto do setor privado. Fico imaginando uma situação em que um empregado é demitido de uma determinada empresa. Após a retomada da economia – que ninguém arrisca em quanto tempo isso ocorrerá – o mesmo empresário o chama para retomar o trabalho esse que foi seu ex-empregado demitido no meio da crise. Ele poderá ofertar como forma de remuneração um valor salarial muito inferior ao que praticava antes da pandemia mundial. Que fará esse trabalhador ante essa situação? Provavelmente, aceitará o emprego. 

Conclusões e perspectivas

Tenho ouvido de setores mais à esquerda na política partidária no Brasil, que estaria chegando a hora de “fazermos a revolução”, tão sonhada por todos nós. Que o sistema socialista sería a solução para a crise. Disso não tenho dúvidas. O socialismo substituirá – não inevitavelmente, claro – o capitalismo que se encontra moribundo já há algum tempo. No entanto, não vislumbro no horizonte político nem uma revolução e muito menos ainda o socialismo, da qual já faz 45 anos dedico minha vida a propagar e a defender como o sistema socioeconômico justo e mais avançado para a humanidade. 

No entanto, o processo para a eclosão de uma revolução não estão dadas. Não há condições políticas para que possamos presenciar um levante com essa característica. Como entendo revolução como uma substituição das classes dominantes, que no conceito leninista é definido como “uma situação onde os de baixo não aceitam mais ser governado como antes e nem os de cima conseguem mais governar como antes”, não consigo vislumbrar essa situação. E mais ainda. Não basta as condições materiais estarem amadurecidas – fome, miséria, desemprego. É preciso que sejam preenchidas as condições subjetivas para a eclosão revolucionária. Que é uma combinação entre o grau de consciência política das massas e a existência de um partido revolucionário, detentor de uma teoria revolucionária – que é o marxismo – em condições de dirigir esse processo, partido esse que seja respeitado pelas amplas massas e sobre elas exerça grande influência. Não temos isso. O maior partido de esquerda no Brasil, que é o Partido dos Trabalhadores, não tem e jamais teve essa característica e essa ideologia. Não é partido revolucionário, que pretenda liderar a ruptura com o sistema capitalista e rumar para o caminho socialista. O PT sempre teve uma característica de partido social-democrático de tipo weberiano (o que não é ruim para a atual conjuntura). Mas, é insuficiente para a mudança estrutural de substituição de sistema socioeconômico. Os outros partidos de esquerda, em especial o PCdoB, Partido de orientação marxista-leninista, defensor do socialismo, não reúne ainda força e prestígio suficiente para dirigir esse processo. 

Assim, não teremos – em curto prazo – uma situação de ruptura de modelo econômico, ou seja, o capitalismo poderá até ser modificado, deixando a sua fase atual financeira e voltando ao modo mais produtivo, mas não está ainda no horizonte o seu desaparecimento. Mas isso não deve desanimar as forças que aspiram uma nova sociedade. Muito ao contrário. Devem unir esforços e construir uma frente bastante ampla, que reúna forças para alterar no mínimo o governo brasileiro atual, completamente despreparado para dar conta dessa crise e até proceder a alterações de cunho democrático e popular que possa proceder a alterações na linha do modelo da volta do estado de bem estar social, de empresas estatais fortes e mesmo empresas privadas nacionais, com o fortalecimento e dinamização da economia na linha que se possa chamar de “keynesiana”, onde o papel do estado possa ser muito maior do que vemos na atualidade. Com amplas liberdades democráticas e pleno funcionamento e fortalecimento das organizações sindicais dos trabalhadores. Tudo isso acho que presenciaremos muito em breve. 

* Sociólogo, professor universitário (aposentado), autor e coautor de 13 livros, atualmente exerce a função de analista internacional, sendo comentarista em canais de TV por streaming.