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Um mês sem Augusto Buonicore. O tempo passa rápido, a saudade nunca passa. 

Sônia Regina Ferreira de Oliveira Publicado em 12.04.2020

No dia onze de março completou-se um mês de ausência do Augusto em nossas vidas.

Augusto Buonicore, com sua companheira Sônia e a filha Clara Foto: Arquivo Pessoal

Ele gostava de efemérides. No início do ano fazia sempre sua listinha com datas significativas e para algumas delas preparava artigos visando lembrar fatos e pessoas, em geral ligados às lutas dos povos. Era seu modo de afirmar que a memória é um potente instrumento para reaquecer e cultivar o movimento incessante pela transformação do mundo. Fico imaginando que para ele devia ser mais fácil escrever sobre fatos em que os trabalhadores haviam se saído vitoriosos. Muito mais fácil do que escrever sobre as histórias dolorosas de injustiças e violências como foi o Massacre da Lapa, sobre o qual eu e ele editamos uma vez um pequeno vídeo para mantermos viva a denúncia. Escrever pensando que sua morte vai se distanciando no tempo é muito doído. Pois vamos medindo todo o tempo pelo qual já não o temos mais ao nosso lado. Mas escrever sobre ele é também cultivar sua memória e reaquecer nossos corações. Por isso resolvi compartilhar com seus amigos e camaradas algumas palavras. Breves fragmentos sobre o modo como o olhávamos aqui de perto. Palavras soltas, que não tenho a habilidade que ele tinha com a escrita. 

Conheci Augusto como aluna de um curso de formação política do PCdoB em Campinas, em 1986. Eu concluindo o ensino médio, ele concluindo a graduação em História. Ele já tinha a postura e gestual que viriam a ser conhecidos de todos vocês, que tiveram a oportunidade de conviver com ele nas reuniões do PCdoB, nos cursos, nas palestras pelo Brasil afora. Seus braços e mãos seguiam a entonação da fala, como modulando as palavras, estendendo-se e voltando ao peito, pontuando no ar o que desejava fazer penetrar na consciência, ou melhor, na vontade, do ouvinte. As pernas sempre trançando um pé frente ao outro, parecendo querer mais desequilibrar do que equilibrar o corpo sobre o chão. O cabelo farto, já com a pequena mecha branca, que foi se espalhando durante esses 34 anos de convivência. Suas aulas naquele curso, voltado a militantes de movimento estudantil, movimento de mulheres e operários, tratavam da formação da sociedade brasileira e ele enfatizava: “A sociedade brasileira foi fundada sobre bases latifundiária, escravagista e patriarcal”.  O conteúdo tratado era de meu conhecimento, obviamente, mas a diferença ali era que a análise da história apontava para as permanências observadas no Brasil da década de 1980 e, principalmente, para a necessidade de transformar a realidade injusta e arcaica. O conhecimento para o Augusto só tinha importância se servisse para transformar os homens e a sociedade. E para que esse conhecimento chegasse a um maior número de pessoas acreditava ser importante cuidar da escrita e das estratégias de divulgação. Por isso deu atenção não apenas à publicação de livros, mas também às revistas sindicais, aos cursos e palestras dedicados à militância dos movimentos sociais e, mais recentemente, aos jornais virtuais e redes sociais. Penso que deste modo conseguiu o que desejava. Chegou a um número grande de pessoas. Em seu velório havia um rapaz novinho, sentado sozinho, quieto. Procuramos saber quem era e se tratava de um professor de história do ensino fundamental, da Rede Municipal de Ensino de Campinas. Nunca conhecera Augusto pessoalmente, nem era militante de organizações políticas. Lia seus artigos e acompanhava seus debates nas redes sociais. Soubera de sua morte pelo facebook e estava ali prestando-lhe homenagem. Achei muito simbólica a presença deste jovem professor, por mostrar como Augusto chegava a   tantos militantes anônimos, que movimentam a história nos microcosmos da vida social, como por exemplo as escolas.  

 
Augusto com a prima Maria Helena. Desde cedo amava a leitura. (Foto: Arquivo Pessoal)

O amor à leitura lhe foi iniciado logo na infância, pela mãe que apesar da pouca escolaridade lia para ele e presenteava com livros e gibis. Ainda muito novinho ganhou da tia uma coleção que tratava da vida de filósofos. Também criança leu toda a Enciclopédia Disney, onde aprendeu sobre a vastidão do mundo, os grandes conquistadores, as curiosidades da ciência e a beleza das artes. No entanto, a experiência íntima com a leitura não lhe garantiu uma relação fácil com a escola, como os pedagogos costumam supor. Assim como outras personalidades tidas por geniais Augusto teve suas dificuldades com a escola quando criança. Repetiu duas vezes o ano, sofria com a matemática e não suportava a modorra das lições e exercícios repetitivos. Dizia que só conseguiu ver sentido no conhecimento escolar quando, no ensino médio, iniciou sua militância política. Licenciado em História, assumiu aulas em uma escola pública de ensino fundamental, mas a experiencia durou um único dia. Durante a aula, os alunos, na idade entre dez, onze anos, pediam para sair para ir ao banheiro ou tomar água. Ele, apesar de perceber a malandragem, pois também fora aluno um dia, autorizava sem questionar. De repente, a diretora da escola surge na porta da sala de aula, trazendo o bando de alunos de volta e dizendo: “Professor, você não pode deixá-los sair da sala”. Augusto então desistiu das aulas. Em sua concepção os alunos não poderiam ser obrigados a ficar na sala de aula se não desejavam.  Essa ânsia pela liberdade de escolher seus caminhos nos estudos faria também, anos mais tarde, com que abandonasse o doutorado em Ciência Política. Queria poder pesquisar e escrever sem a tutela, por vezes rígida e limitante, que faz a academia.  

Durante os nove meses de tratamento do linfoma, diagnosticado em junho de 2019, Augusto esteve internado inúmeras vezes para as quimioterapias ou para acompanhar pequenas intercorrências que surgiam. No ritual de arrumação da mala os livros eram cuidadosamente escolhidos. Claro que os livros despertavam curiosidade entre os profissionais do hospital e Augusto tinha então a oportunidade de falar um pouquinho dos assuntos que lia. Lucas, um rapazinho de 18 anos, técnico em enfermagem, ao saber que atendia ali um historiador, contou que gostava de temas relativos à Segunda Guerra Mundial. Augusto, então, lhe indicava livros e filmes, o que lhes rendia boas conversas. Escreveu três artigos durante o tratamento e planejava outros dois. As temáticas do totalitarismo e do identitarismo o provocavam.  Estes temas já estavam presentes em vários de seus escritos, mas dizia querer avançar na teoria. Penso que sua experiência de paciente de hospital por certo também contribuía para esse interesse. Augusto se afligia ao perceber que no hospital perdia toda a autonomia e privacidade. Por mais cuidadosos e respeitosos que os profissionais fossem com ele, era notória a condição de submissão do doente, como é a do prisioneiro, e podemos dizer, dos alunos na escola. Foucault foi revisitado por ele nestes meses de internações. 

Essa sua forte relação com a linguagem ia além da escrita. Embora tímido e ansioso quando se preparava para falar em público, empolgava os ouvintes. Acompanhei de perto a dedicação do Augusto ao movimento sindical. Foi um dos fundadores do Sindicato dos Trabalhadores Municipais de Campinas, em 1988. Por uma década atuou na sua diretoria, destacando-se como uma liderança extremamente respeitada e com um potencial de comunicação incrível. Nas assembleias tensas, por vezes com mais de cinco mil trabalhadores em greve, o silêncio era absoluto quando ele iniciava seus discursos. Percorria os locais de trabalho da Prefeitura para conversar com trabalhadores, gostava de conversar com as pessoas, especialmente ouvi-las. Inúmeras vezes pude vê-lo lendo os boletins do sindicato para os trabalhadores dos serviços braçais, em grande número analfabetos, naquele início da década de 1990.  Augusto era conhecido como um hábil mediador dos conflitos, políticos ou interpessoais, tão comuns entre os diretores do Sindicato e nos enfrentamentos com a oposição sindical. Certa vez, dois homens armados chegaram ao Sindicato anunciando um assalto. As mulheres começaram a gritar, os ladrões entraram em pânico e o Augusto foi quem acalmou a todos. Essa era uma das histórias, que passado o stress acabavam se tornando engraçadas, contadas   por seus companheiros para exaltar sua capacidade de mediação. Penso que essa sua habilidade se devia ao seu modo como se pautava pela racionalidade, afetividade, lealdade e um profundo respeito pelas pessoas, compreendidas por ele sempre em processo de mudança. 

Já na UTI, estando ele bastante debilitado, nossas últimas conversas foram sobre cinema. Eu contando que fora com nossa filha ver o filme Parasita e ele dizendo que o Oscar havia sido injusto com o Coringa, que ele considerou sensível e genial. Depois disso, a dificuldade de nos entendermos só foi crescendo. A fala ficando fraquinha em decorrência da insuficiência respiratória causada pelo choque séptico que sofreu no pós transplante de medula. A angústia por não poder compreender o que ele dizia, foi das maiores angústias que senti na vida. Quando precisou ser sedado e receber oxigênio por respirador mecânico cessou de vez nossa experiência de vida juntos. Então já não havia mais diálogo. A palavra desapareceu. Num monólogo triste e desesperado resolvi levar todos os dias músicas para ele. Cartola, Maria Bethânia, Chico Buarque, Edu Lobo, Elis Regina, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, encerrando com Sérgio Ricardo em minha última visita. Faltou Frank Sinatra para completar sua lista de artistas preferidos. Augusto era muito romântico e carinhoso. Pronto a relevar todos os meus defeitos.  Suspeito que tenha sido a mulher mais amada deste mundo. Durante todo o período de tratamento jamais lamentou ou se vitimou, enfrentou com coragem e até bom humor. O que tornava mais fácil para nós que o acompanhamos. Também não conversávamos sobre a morte. Embora soubéssemos da gravidade da doença e percebêssemos que ela nos rondava, nunca planejarmos o que fazer em relação a tantas coisas e decisões que preciso tomar agora, sem ele. 

Alguns milhares de livros, coleções de revistas nas quais colaborou como autor ou editor ao longo destes 40 anos, encadernações da Tribuna da Classe Operária, caixas e mais caixas de textos selecionados e meticulosamente organizados em suas pesquisas. A única certeza que tenho é que ele gostaria que esse material estivesse em locais onde de fato sejam úteis, para pesquisas e ampla divulgação. 

 
Augusto durante lançamento de um de seus livros (Foto: Arquivo Pessoal)

Augusto tinha ainda muitos planos. Assim que adoeceu organizou um conjunto de artigos e ensaios que escreveu sobre a história do Partido Comunista do Brasil ao longo da vida e remeteu a mim e a colegas da Fundação Maurício Grabóis. Em suas palavras sobre tais textos  “Alguns carregam uma carga de pesquisa maior (inclusive em arquivos públicos) e trazem resultados inéditos-originais até à época de sua publicação, como o da relação da Internacional Comunista e o movimento negro (no Brasil e no mundo), relação dos comunistas e o tenentismo (prestismo), relação PCdoB com Cuba entre 1962 e 1966  e sobre a história das mulheres no PCB (escrito com o Fernando). Resgatam acontecimentos e personagens que estavam quase esquecidos, como Minervino Oliveira,  Claudino Silva, Genny Gleizer e Elisa Branco. Mesmo os mais simples deles - marcando efemérides - exigiram certa pesquisa bibliográfica. Creio que seja um rico material para pesquisas futuras. Se possível, batam um olho no sumário da obra. Sugiro publicá-lo no próximo aniversário do Partido numa versão física, caso tenhamos recursos, ou virtual”. Já tinha intitulado o livro: “Retalhos Vermelhos: histórias comunistas”. Outro material que deixou pronto para publicação é a biografia de Dynéias Aguiar, militante do PC do B que faleceu com 81 anos em 2013. Buscarei viabilizar essas publicações. Em especial a biografia, bela homenagem ao Dynéias, homenagem que Augusto sempre quis prestar a todos os militantes históricos e como o fez retratando em livro a vida de João Amazonas. 

Alguns outros projetos que acalentou podem ser realizados por quem tiver interesse e prazer em fazê-lo. Ele queria retratar a história dos Tribuneiros, referência aos que divulgavam a Tribuna da Classe Operária, jornal comunista que circulou entre 1979 e 1988. Publicou inclusive depoimento sobre sua própria experiência como um tribuneiro. Esse depoimento pode ser acessado em https://tribunadalutaoperaria.blogspot.com/2009/12/augusto-buonicore-fala-da-experiencia_15.html e sabemos que sobre esse assunto há algumas iniciativas de resgate histórico já circulando em Universidades e nas páginas do próprio PCdoB. Ele tinha muita vontade de documentar a história da UCES (União Campineira dos Estudantes Secundarista de Campinas), de cuja reorganização pós ditadura militar ele participou. Algum material inicial sobre essa experiência deixou aqui arquivado. Ficou também em suspenso a produção de um documentário sobre o golpe militar de 1964 em Campinas. Neste projeto são parceiros colegas do Museu da Imagem e do Som de Campinas, onde trabalhava como historiador. Nos últimos anos foi realizada uma série de entrevistas com homens e mulheres que à época eram estudantes, políticos e líderes sindicais na cidade. Esse material pode ser retomado e concluído.

Temo, porém, que a dor da separação seja para sempre inconclusa. Nunca mais ouviremos suas ponderações, não o veremos mais sentado na sala rindo com Friends, The big bang theory ou Porta dos Fundos. Não brigaremos mais por seus sapatos jogados pela casa, que esse era o grande defeito do Augusto, aos meus olhos. De resto, era só amor e companheirismo. Ainda não sei em que a dor da separação irá se transformar. Por ora é só dor e saudade. E Saudade, como enfatiza a Nereide, querida companheira dele na Escola Nacional do PCdoB, é amor que fica. Encerro, então, com Alceu Valença, que Augusto adorava e que foi a sua última pesquisa no google no hospital, para ouvir música no celular.

Amor que fica (Alceu Valença)

Fica o dito e não dito
Fica o dedo e fica o dado
Fica o feito e o desfeito
O carinho e o cuidado
Fica a chama, fica a vela
Fica a casa e fica a rua
A toalha na janela
Linda, caminhavas nua
Amor que fica é amor que fica
Fica a cama, fica o quarto
Um retrato e uma figa
Duas mãos e não mais quatro
Duas vidas divididas