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Notas de política e filosofia na pandemia*

A. Sérgio Barroso**  Publicado em 21.04.2020

As eleições municipais deste ano atravessarão um corredor dum tenebroso cemitério clandestino (de fossas abertas). O negacionismo - moda dos desgraçados de plantão - erguerá sua longa foice, desta feita para abater a eles próprios e a miríade social perversa que lhes sustenta. A galhofa ao sofrimento humano viralizada pelo presidente (provisório) da República será soterrada junto a uma multidão de cadáveres. Alta Idade Média.

Negacionismo em tempos de pandemia e a morte da razão

Mas é mais. É espectral a decomposição dos sistemas eleitorais das “democracias representativas”, d’alhures e daqui. As eleições municipais francesas deste 15 de março de 2020, a exemplo, deixaram em casa 56% dos aptos a votar; mas a abstenção ali já fora de 36%, nas municipais de 2014. No Brasil, nas de 2016 já se abstiveram quase 20%. Lá e cá, a manipulação eleitoral pelo dinheiro reproduz-se numa simbiose grotesca na “moral de rebanho”, de massas, de Nietzsche. [1]

Decadência absoluta

Luciano Canfora, pensador italiano realizara análise percuciente do esvaziamento dos fundamentos democráticos, substituídos, numa retórica corrompida, pela supremacia da lógica do mercado; e pelo forjar de “consensos” amalgamados na aliança da cúpula política com a mídia. Canfora denunciou “a atual interpenetração entre o mecanismo financeiro mundial – o capital financeiro - e a grande criminalidade” (“Crítica da retórica democrática”, Estação Liberdade, 2007).

Não à toa que, em junho de 2019, um navio do JP Morgan Asset Management (fundo de investimento gerenciado pelo banco americano JP Morgan Chase) foi retido na alfândega da Filadélfia com nada menos que 20 toneladas de cocaína, avaliadas em US$ 1,3 bilhão! Modestamente, no mesmo junho de 2019, um avião presidencial da comitiva de Jair Bolsonaro foi apreendido com 39 quilos do mesmo pó, na Espanha. Confesso, o sargento da equipe governamental levou lá seis anos de cadeia. Silêncio cínico até hoje. 

Naquele mesmo ano M. Draghi, saíra da presidência do Banco Central Europeu (BCE - 2011-2019); antes fora estrategista do oligopólio financeiro americano Goldman Sachs. Draghi, a quem o Nobel de economia P. Krugman disse-o, “sem dúvida, o maior banqueiro central dos tempos modernos”, foi claramente imposto ao comando estatal europeu pela grande finança. Visível, a metida de mão do privado no público. Assim é que as coisas passaram a funcionar na globalização neoliberal. [2]

O sociólogo alemão Wolfgang Streeck vai ao busílis da questão: o BCE “é uma instituição fora do processo democrático”. Recorda ele a Itália dos anos 1990: governadores do Banco Central, G. Carli e C. Ciampi assumiram a seguir as funções de primeiro-ministro, ministro das finanças e presidente, quando o sistema partidário desabara “sob o peso dos escândalos de corrupção – os anni de fango ou anos de lama” (“Tempo comprado. A crise adiada do capitalismo democrático”, Boitempo, 2018).

Steven Levitsky (Harvard) em seu “Como as democracias morrem” (Zahar, 2018), “best seller” do The New York Times, enfatiza o longo processo de decomposição da democracia nos EUA. Donald Trump, diz ele, “é um violador em série” das normas democráticas de seu país, mas “o processo de erosão começou décadas atrás”. Exemplifica Levitsky: Tom Delay, por exemplo, líder republicano da era Bush Jr., acusara Obama de “marxista”. “A desintegração” – diz - era como se deveria conceituar uma histórica regressão da mitificada ética democrática norte-americana.

Ora, em 2000, Bush Jr. já havia sido imposto, através de um golpe claro, na presidência dos EUA. O embuste se deu com o impedimento, pela Corte Suprema dos EUA, da recontagem dos votos na Flórida, que consagraria a sua derrota. E o citado professor italiano relembra que as palavras “golpe de Estado” vieram da boca de Al Gore, o candidato Democrata que deveria vencer as eleições (L. Canfora, idem, pp. 27-8).

No tempo: bem antes da pandemia, a democracia burguesa, mistificada num nascedouro “ocidental”, já era pretérito imperfeito. A crise econômico-financeira em curso irá destroça-la sem perdão.

Da irracionalidade – e o defunto Hegel

No Brasil, um país já fraturado politicamente por determinação do atual presidente da República, a irrupção súbita da pandemia viral engatou-se numa economia estagnada e quase 12 milhões de desempregados (“oficiais”). Vamos à depressão econômica-social. Não por coincidência, os donos do sistema financeiro brasileiro apoiaram e continuam apoiando a mescla ideológica do ex-capitão: insanidade, perversidade, destruição nacional.

Acicatado por lancinantes desigualdades, com cerca de 800 mil presidiários, o país pode ser destroçado se não afastar Bolsonaro e sua família-gângster, apoiados por um grupo de militares oportunistas. Daqui até lá, penúria desolação e desesperança abater-se-ão sobre milhões de eleitores, de qualquer maneira. 

No grande filósofo [Georg] Hegel (1770-1831) brotava uma razão “quase enlouquecida”: [3] em sua dialética tudo se encerrava no Conceito. Conta o formidável Domenico Losurdo (“Hegel e a liberdade dos modernos”, Boitempo, 2019) que, no “Prefácio” a “Princípios da filosofia do direito” Hegel escrevera “nada é real senão a ideia” (p. 64). Uma epidemia de cólera o liquidou!

*Texto amplamente baseado no publicado no jornal “Campus. O dia Alagoas”, 19 a 25 de abril de 2020, com o mesmo título, editado pelo prof. Sávio Almeida (UFAL). Aqui: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=3274473682571565&set=pcb.3274473952571538&type=3&theater

**A. Sérgio Barroso - Médico, Doutor em Desenvolvimento Econômico (Unicamp), diretor da Fundação Maurício Grabois.

NOTAS

[1] Na obra-prima “Nietzsche: o rebelde aristocrata. Biografia intelectual e balanço crítico”, transcreve-o Domenico Losurdo:

“Tornamo-nos pessoas respeitáveis porque somos pessoas respeitáveis, ou seja, porque se nascem capitalista dos bons instintos e de situação de abastança (...) quando se nasce pobre, já por parte de pais que só tenham dissipado e não acumulado, se é então ‘incorrigível’, ou seja, maduro para a penitenciária ou para o manicômio”. (Rio de Janeiro, Revan, 2009, p. 361).

Ou ainda, Nietzsche, na “Genealogia da moral” referindo-se aos escravos negros e sua ‘menor inteligência’; ‘raças inferiores’ protegidas de algum modo pela ‘insuficiência de seu desenvolvimento intelectual’:

“A curva da tolerância humana à dor parece subir extraordinariamente e quase de repente, assim que deixamos para trás dos primeiros dez mil ou dez milhões de indivíduos de uma civilização superior” (Losurdo, idem, p. 388).

[2] 1. Não sendo aqui momento a maiores digressões econômicas, vale lembrar as crises de impacto global que acompanham a “financeirização” capitalista, desde a década de ascensão do neoliberalismo (1980), isto é, 1987, 1997-8, 2007-8-9 (depressão). Agora incluirá um enorme mergulho da economia chinesa - o que não vigeu na última crise -, seguramente com possibilidades muito amplas para a retomada. Note-se: as prospecções (claramente depressivas) do I.B. ao “Financial Times” são terríveis!

 

2.Segundo estima a “Oxford Economics”, somente os EUA perderão 20 milhões de empregos, provocando a maior taxa de desemprego desde a Grande Depressão (1929-39), atingindo severamente 40% dos postos de trabalho. Aqui: https://www.sinpermiso.info/textos/la-depresion-pospandemica 

[3] Esta definição, muito feliz e retratista, é de Leandro Konder (“Hegel: a razão quase enlouquecida” (Rio de Janeiro, Campus, 1991). Como analisa José Barata-Moura, em Hegel, a historicidade conflui ao cativeiro do Espírito (‘Geist’), sendo seu sistema como ‘totalidade conclusa’ manifestadamente de uma unidade complexa, múltipla, devenientemente articulada em conexões, porém abstrata porque ‘imediata ou mediatamente’ apartado da concreção histórica (“Materialismo & Subjetividade. Estudos em torno de Marx”, J. Barata-Moura, Lisboa, Avante!,1997, pp. 31-2).