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A segunda domesticação do milho: o neoliberalismo e a sua “seleção natural” monopolista

Luciano Resende Moreira Publicado em 28.10.2020

O presente artigo visa resgatar a luta secular de civilizações que domesticaram o milho e demonstrar a nova luta em torno de sua apropriação enquanto componente essencial à cesta básica dos trabalhadores. A partir desta rica história, denunciar os riscos que se corre ao permitir o avanço das teses neoliberais sobre a agricultura, que vem acentuando a formação de imensos conglomerados empresariais que se sobrepõem aos interesses dos povos e das nações. O caso do milho é emblemático, neste sentido.

Milho Foto: Fundação Tortilla. México

O Prêmio Nobel da Paz deste ano foi destinado ao Programa Mundial de Alimentação (PMA) das Nações Unidas. Justo reconhecimento para uma iniciativa voltada à segurança alimentar no mundo. Vários personagens que fazem ou fizeram parte deste esforço estão sendo homenageados, como é o caso do brasileiro José Graziano, ex-diretor-geral da FAO e idealizador do Fome Zero, no governo Lula. Mas por questão de justiça, não se pode deixar de mencionar (e homenagear) outro importante personagem que está presente todos os dias na mesa da imensa maioria das pessoas: o milho. Um cereal milenar, distribuído por todo o planeta, e que contribui decisivamente para garantir o sustento de bilhões de cidadãos. 

Uma das mais fantásticas invenções da humanidade: o milho.

O poeta Octavio Paz afirmou, certa feita, que “o invento do milho pelos mexicanos apenas pode ser comparado com o invento do fogo pelo homem”. De fato, duas descobertas extraordinárias.

O milho é uma invenção por ser uma obra original, resultante da genialidade humana. Um trabalho de domesticação de uma espécie nativa da América Central, realizado por gerações de agricultores indígenas, artífices de um melhoramento genético ancestral, por assim dizer.

Embora não tivessem conhecimentos científicos sobre as bases da genética e muito menos dominassem os fundamentos da biologia molecular, esses povos – sobretudo astecas, maias e olmecas - tinham larga experiência no cultivo de algumas plantas, entre elas o teosinte, que deu origem ao milho.

Foi baseado na observação de seus agricultores, ao perceberem que algumas características eram herdadas de geração em geração, que se promoveu um trabalho de melhoramento genético, baseado no método da seleção massal. Aquelas plantas de teosinte, que apresentavam alguma característica capaz de chamar a atenção destes agricultores primitivos, tinham seus grãos selecionados a fim de serem aproveitados como sementes no próximo cultivo. 

Dessa maneira, se promovia um processo de melhoramento genético - ainda que de forma empírica, firmado no senso comum -, beneficiando os alelos favoráveis de se manifestarem fenotipicamente em cada safra.

 
Figura 1: O ancestral do milho (teosinte) e o milho moderno atual, esquematizado, com uma moeda servindo como referência de tamanho. (Foto: Fonte: Nicolle Rager Fuller, National Science Foundation. Disponível em: https://www.nsf.gov/news/news_images.jsp?cntn_id=104207.)

Claro que essa transformação do teosinte em milho, ou seja, de uma espécie em outra, não se deu da noite para o dia. Estima-se que as primeiras plantações tenham se iniciado há mais de oito mil anos na região da América Central e, durante todo esse tempo, foi se promovendo lentamente esse trabalho de seleção massal.

Alguns trabalhos acadêmicos apontam que o milho chegou ao Brasil antes de ter sido completamente domesticado, e que os índios estabelecidos na região também contribuíram com o melhoramento da espécie, assim como fizeram com a mandioca (outra fantástica espécie desenvolvida pelo intelecto humano).

No decorrer desses séculos, o milho foi a base alimentar de várias civilizações. Diversos povos indígenas reverenciavam o milho como uma dádiva divina, cultuando-o na religião e exaltando-o nas artes. O milho recebia o nome de “sustento da vida”. E não é para menos.

No livro sagrado dos maias, conhecido como Popol Vuh, há várias referências ao milho. Diferentemente da bíblia dos cristãos, que “explica” a criação do homem sendo concebido a partir do barro, os maias citam o milho como sendo o substrato básico da criação humana.

De acordo com o povo maia, no início do mundo era assim:

“Havia lá todo tipo de comida: alimentos pequenos, alimentos grandes, plantas pequenas e plantas grandes. Os animais mostraram o caminho. E então as espigas de milho amarelo e as espigas de milho branco foram moídas, nove vezes Ixmucané as moeu, e isso entrou, com a água, na massa que viria a compor as extremidades, o vigor do homem. Fizeram assim, A-que-Concebe, O-que-Gera, Tepeu e Gucumatz, assim chamados. E então puseram em palavras a criação, a formação de nossas primeiras mães, de nossos primeiros pais. De milho amarelo e de milho branco se fez sua carne (grifo meu); apenas de alimento se fizeram os braços e as pernas do ser humano. Esses foram nossos primeiros pais, os quatro homens, formados apenas com alimento”. Popol vuh [1].

Até hoje, povos de todo o continente americano rendem tributos ao milho. Não é para menos. Estima-se que em algumas comunidades, esse cereal responda por aproximadamente 70% de todas as calorias ingeridas e cerca de 50% das proteínas consumidas todos os dias. Entre a população mexicana em especial, o consumo médio anual per capita é superior a 60 quilos, o que equivale a aproximadamente 3,5 vezes mais do que consomem os brasileiros.

É praticamente impossível sair pelas ruas de uma cidade do país, sem encontrar algum prato ou alguma especiaria qualquer preparada a partir do milho. A começar pelas famosas tortilhas que são consumidas aos milhões todos os dias. Tacos, gorditas, elotes, enchiladas, tlayudas, tamales, atole, tejate e tantas outras iguarias e bebidas complementam o rico cardápio de uma população que herdou de seus ancestrais a paixão pelo milho.

A tortilha é tão importante para os mexicanos que fez um ex-presidente neoliberal, Felipe Calderón, a esquecer os seus conceitos de livre mercado e promover o tabelamento de preços do cereal, no episódio que ficou conhecido como o “Pacto Tortilheiro”, em 2007. Na ocasião, Calderón foi enfático ao afirmar: "Não toleraremos especuladores, nem aproveitadores, faremos que os preços sejam respeitados, ou haverá multas para quem desrespeite as leis"[2].

O então presidente da nação mexicana, Felipe Calderón, teve que rever seus princípios neoliberais para conter a “revolta da Tortilha”, o que demonstra a força do milho como patrimônio material e imaterial do país e parte integrante do sentimento de nação do povo mexicano.

Sobre essa identidade, Guilhermo Bonfil assim expressou em seu livro intitulado “Sin maíz no hay País”:

“As grandes civilizações do passado e a vida de milhões de mexicanos de hoje têm como raiz e fundamento o generoso milho. Ele foi fundamental para a criatividade cultural de centenas de gerações; exigiu o desenvolvimento e aperfeiçoamento contínuo de inúmeras técnicas de cultivo; conduziu ao surgimento de crenças e práticas religiosas que fazem dele uma planta sagrada; permitiu a elaboração de uma arte culinária de riqueza surpreendente; marcou o sentido do tempo e ordenou o espaço em função de seus próprios ritmos; inspirou as mais variadas formas de expressão estética; e se converteu na referência necessária para entender formas de organização social, pensamento e estilo de vida das mais amplas camadas populares do México. Por isso, na realidade, o milho é a base da cultura popular mexicana”. BONFIL, 2007.

Atualmente, o milho encontra-se difundido pela quase totalidade do globo terrestre. É a base alimentar de diversos povos e nações, sendo fonte de carboidrato acessível a milhões de pessoas. É o cereal mais produzido em todo o planeta, superando o trigo e o arroz. O último relatório de oferta e demanda mundial de milho do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) estima que a safra global de milho (2020/2021) ultrapasse 1,1 bilhão de toneladas de grãos.

Também é calculado que, atualmente, algo em torno de 70% da produção mundial de milho seja para a formulação de ração para animais como suínos, bovinos, peixes, aves. Ou seja, é matéria prima para a produção de proteína animal. O restante é utilizado de diversas formas, destacando seu uso como ingrediente básico para a produção de bebidas alcoólicas, colas, edulcorantes alimentícios, óleos, combustível e uma infinidade de outros itens que compõem diversas cadeias produtivas. O uso do milho para a produção de etanol nos EUA é tratado como programa estratégico para a maior potência do planeta.

No Brasil, o consumo do milho já estava estabelecido entre diversos povos indígenas muito antes da chegada dos portugueses. É sabido que os guaranis, por exemplo, tinham o cereal como um dos principais ingredientes de sua dieta.

Desde a chegada dos portugueses, o consumo aumentou significativamente e novos produtos à base do cereal, foram incorporados aos hábitos alimentares dos brasileiros.

Hoje, o milho faz parte da cultura popular brasileira. Está enraizado no imaginário de milhões de pessoas, manifestando-se nos diversos pratos da culinária nacional como o angu, a polenta, a pamonha, o cuscuz, as canjicas, os mingaus, os bolos, entre tantas outras iguarias. Entre as variedades mais populares, encontram-se o milho pipoca, o milho verde, o milho doce, o milho branco e o minimilho (conservas). Na rica literatura brasileira, Monteiro Lobato inspirou-se no milho para, nas mãos de tia Anastácia, criar o mais sábio de seus personagens do Sítio do Pica Pau Amarelo: o Visconde de Sabugosa.

O milho é o segundo grão mais produzido no Brasil, ficando atrás apenas da soja. Previsões da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a partir de seu 1º Levantamento da safra de grãos 2020/2021, estimam a produção de milho deva atingir 105,2 milhões de toneladas, o que representa o maior volume da história, com aumento de 2,6% sobre o ciclo anterior, mesmo com redução de 1,1% na área cultivada. O Brasil é hoje o terceiro maior produtor de milho de mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da China.

Por toda essa rica história e por esses números extraordinários, a cultura do milho é alvo da cobiça de diversos setores. Há uma disputa por sua apropriação que passa pelos interesses de grandes corporações internacionais e pelos anseios legítimos da imensa maioria do povo que se nega a ficar refém dos monopólios.

Uma intricada cadeia produtiva em torno do milho, enquanto matéria prima essencial a diversos produtos e processos, vai sendo construída à margem dos interesses da nação. Os Estados Nacionais vão sendo sujeitados aos mandos e desmandos de grandes conglomerados que exercem abertamente o controle dos estoques, ao ponto de, no Brasil, mesmo alcançando a maior produção de sua história, assistir-se à escalada recorde nos preços deste cereal.

Tudo isso faz parte do receituário neoliberal, avesso à intervenção do Estado na regulação do abastecimento interno, contrário à execução de políticas públicas voltadas à soberania alimentar, e refratário à manutenção de uma taxa de câmbio capaz de impedir que a maior parte da produção agropecuária seja exportada aos países com moedas mais valorizadas, atenuando a disparada dos preços deste e outros cereais que compõem a cesta básica dos brasileiros. 

“Sem milho, não há país”: a contribuição do milho na formação de nações e no enfrentamento de crises.
“Ao cultivar o milho, o homem também se cultivou” (BONFIL, 2007)

A frase acima, extraída do material de campanha “Sin maíz no hay País”, dá a devida dimensão sobre importância da cultura do milho para o desenvolvimento das civilizações que hoje se constituíram nas diversas nações do continente americano. O milho está para as Américas, assim como o arroz está para o continente asiático.

Portanto, nada mais justo que um conjunto de movimentos sociais ligados à questão da terra pautem a defesa do milho - e outras culturas agrícolas - como patrimônio material e imaterial dos povos desta região.

Trata-se de uma luta em defesa da soberania e da segurança alimentar de milhões de pessoas. Uma campanha permanente para, entre outras reivindicações, garantir que o milho seja apropriado pelo povo como produto básico de suas dietas, e não apenas como commodities negociadas na bolsa de valores.

Obviamente que uma bandeira como essa envolve diversas frentes. Umas mais justas que outras. Algumas mais progressistas, outras menos. Mas certamente o cerne de toda questão referente à soberania alimentar, especificamente envolvendo culturas como o milho, passa, fundamentalmente, pela denúncia das políticas neoliberais.

Nada é mais central a um país soberano que defender-se dos novos colonizadores de plantão. Salvaguardar os interesses nacionais da cobiça de grandes empresas que tentam se apoderar de todos os elos das cadeias produtivas que envolvem diversas commodities agrícolas, dentre elas o milho.

Justamente o milho tem um grande simbolismo para política do Estado de Bem Estar Social, avessa ao neoliberalismo. Em “American Dreamer: The Life and Times of Henry A. Wallace” [3], biografia do vice-presidente dos Estados Unidos durante os governos de Franklin Delano Roosevelt, é relatada a vida e a obra deste personagem que teve papel de destaque atuando politicamente na superação da Grande Depressão de 1929 e sua relação com o milho. 

Henry Agard Wallace (1888–1965) “ajudou a formular e administrar o New Deal – nome dado a uma série de ações implementadas no governo do presidente Roosevelt, com o objetivo de recuperar e reformar a economia norte-americana” (MOREIRA, 2017). Como Secretário da Agricultura dos EUA, desenvolveu programas de subsídios agrícolas e conservação dos solos, o que beneficiou todo o setor por décadas.

Oliver Stone e Peter Kuznick enfatizam em seu livro “A história não contada dos Estados Unidos” que o presidente “Roosevelt pediu para Wallace tomar as iniciativas que fossem necessárias para reparar o devastado setor rural do país”. Suas soluções foram polêmicas:

“para interromper o excesso de produção, ele pagou aos fazendeiros para destruírem 25% das plantações de algodão. Também ordenou o abate de seis milhões de leitões. Embora garantisse a distribuição pelo Departamento de Agricultura da carne, da banha e do sabão resultante dos leitões mortos para os norte-americanos carentes, fazendeiros furiosos o atacaram. Wallace usou o rádio para defender seu programa, chamando-o de ‘uma declaração de interdependência’” (STONE & KUZNICK, 2015).

Wallace explicava seu plano lembrando que “o impulso descontrolado de individualismo talvez tivesse justificativa econômica nos dias em que tínhamos todo o oeste para crescer e conquistar, mas agora o país se encheu e desenvolveu (...). Devemos indicar novos caminhos na direção de uma economia controlada do bom senso e da decência social”.

Stone e Kuznick destacam que “O plano de Wallace funcionou de maneira brilhante. O preço do algodão dobrou. A renda agrícola cresceu 65% de 1932 a 1936. Os preços do milho, do trigo e do porco se estabilizaram. E os agricultores se tornaram apoiadores ferrenhos de Wallace”.

Mas há uma outra face do mais famoso vice-presidente dos EUA que poucos conhecem: a de extensionista e pesquisador da cultura do milho. Importante ressaltar que não foi Wallace quem “inventou” a semente de milho híbrido, mas certamente foi o maior entusiasta e divulgador dessa novidade.

Em 1915, Wallace já produzia sementes de milho híbrido de alto rendimento. É a partir daí que desenvolve suas habilidades em estatística e escreve importante artigo em conjunto com George W. Snedecor, professor da universidade do Estado de Iowa, sobre correlações e regressões, publicando esses estudos estatísticos nas páginas do semanário agrícola da família.

Após assumir o cargo de editor desta publicação - que havia sido fundada por seu avô -, Wallace escreve intensamente sobre as virtudes de se usar sementes híbridas. Na época, a maioria dos agricultores não entendia absolutamente nada sobre o que Wallace redigia a esse respeito.

Por isso, Wallace percebe a necessidade do trabalho de extensão e promove aquilo que podemos chamar na atualidade de “dias de campo”, ou seja, demonstrações práticas sobre a performance do desenvolvimento das variedades. Era preciso que o agricultor visse com seus próprios olhos e comparasse a produtividade entre as variedades e os híbridos da época.

Assim, como não havia lugares para os agricultores comprarem as sementes de milho híbrido, Wallace cria, em 1926, aquela que anos mais tarde se tornaria a maior gigante mundial na comercialização de sementes de milho do mundo: a Pioneer Hi-Bred Corn Company.

Inicialmente a empresa se chamava Hi-Bred Corn Company, e se tornou a primeira e maior empresa de sementes híbridas do mundo. As pesquisas de Wallace foram uma das mais importantes contribuições genéticas de plantas de 1920 a 1940.

Para se ter uma ideia da aceitação do milho híbrido pelos produtores e do sucesso da empresa, em apenas dez anos, ou seja, entre 1933 e 1943, as plantações de milho no estado de Iowa saltaram de 1% para quase 100% da área semeadas com sementes híbridas.

Por uma dessas conhecidas ironias do destino, sua empresa foi comprada pela companhia da família da qual Wallace mais se indispusera politicamente, tanto na época em que foi Secretário de Agricultura como quando foi vice-presidente da República: a dos irmãos DuPont. Wallace os acusavam de, juntamente com outros oligarcas anti-Roosevelt, de se locupletarem imensamente com a Segunda Grande Guerra Mundial em conluio com os nazistas.

Ainda bem que não vivera para ver essa transação efetivada. A aquisição completa da Pioneer Hi-Bred International pela tradicional empresa da área química E. I. DuPont de Nemours & Company, com sede em Wilmington, Delaware, foi concretizada em 15 de março de 1999.

 
Figura 2: Wallace examinando espigas de milho, Des Moines, 1920. (Foto: arquivo)

De todas as formas, ainda que a fusão ocorresse, foi outra empresa estadunidense que a comprou. Muito diferente é o que ocorre no Brasil, onde empresas brasileiras tradicionais na produção de sementes de milho como a Agroceres, sem apoio do Estado Nacional, são arrebatadas por multinacionais estrangeiras

A despeito da hegemonia neoliberal no Brasil, a história da Agroceres e de seu fundador, Antônio Secundino de São José, tem uma grande semelhança com a Pioneer e seu criador Wallace.

Antônio Secundino nasceu em 1910 na Fazenda da Onça, na então Santa Rita de Patos, atual Presidente Olegário, em Minas Gerais. Aos 17 anos de idade rumou para Belo Horizonte na intenção de cursar Direito, mas uma visita a um padre amigo da família que estava na cidade de Viçosa mudou seu destino.

Em Viçosa, ficara sabendo que iria se iniciar a primeira turma da Escola Superior de Agricultura e Veterinária, a ESAV (futura UFV), idealizada pelo ex-presidente Arthur Bernardes. Ao visitar o campus, não hesitou em se matricular no curso de agronomia.

Segundo Pacheco (2006) “em 1931, aos 21 anos, era um agrônomo formado em busca de trabalho”. Em 1937, foi promovido a Chefe do Departamento de Genética, Experimentação e Biometria da ESAV e, nesse mesmo ano, com a ajuda do geneticista norte-americano, então diretor da escola, Dr. John B. Griffing, “conseguiu uma bolsa para um período de treinamento, de seis semanas, em Stoneville Experiment Station, no Mississipi, e um curso de pós-graduação na Faculdade do Estado de Iowa. Foi aí que Secundino conheceu Henry Wallace, seu grande incentivador.”

De volta ao Brasil, em 1938, Secundino organizou o Departamento de Genética Vegetal e escolheu como assistente Gladstone de Almeida, “que acabara de se formar, e com quem formou uma dupla de trabalho e amizade que duraria a vida toda” (PACHECO, 2006).

De sua volta dos EUA, Secundino trouxe consigo uma coleção de linhagens e cruzamentos do Corn Belt e a variedade de polinização aberta Tuxpan Yellow Dent, que havia sido criada, há pouco tempo, pelo Dr. P. C. Mangeldorf, através de um composto em que entrava o Tuxpeño, do México.

 
Figura 3: Cartazes de divulgação das sementes de milho híbrido da Agroceres. (Foto: Fonte: https://agroceres.com.br/Painel/uploads/11052016121225.pdf. )

Desta variedade originaram várias linhagens que somadas a outras de origem nacional permitiram a composição dos primeiros híbridos comerciais do Brasil. Era a primeira vez que um milho comercial havia sido produzido nos trópicos.

Em 1945, Secundino criou a Agroceres Ltda., sediada no município mineiro de Rio Novo, uma companhia dedicada a experiências com milho híbrido.

Tal como Wallace, Antônio Secundino e seu sócio Gladstone de Almeida tiveram a difícil tarefa extensionista de convencer os agricultores a pagarem mais por uma semente híbrida. Mas a Agroceres, uma empresa genuinamente brasileira, que se consolidou buscando o que havia de mais moderno para sua época, superou todos os desafios até chegar ao posto de líder de mercado.

Nome consagrado em todo país, Agroceres foi uma das marcas mais conhecidas no meio rural brasileiro. Uma companhia que foi 100% brasileira e se diversificou com participação de destaque também nas áreas de semente de sorgo e hortaliças, em genética animal (sobretudo suínos e aves) e nutrição animal, gerando milhares de empregos diretos e indiretos em unidades espalhadas pelo país e até no exterior.

Mas tal como Wallace com a Pioneer, Secundino foi poupado de ver sua grande empresa, orgulho nacional, ser anexada por outra gigante, de capital estadunidense. Em 1997 a Monsanto adquiriu o controle da maior empresa de sementes de milho do Brasil, a Agroceres, assim como já havia feito com a FT Sementes do Paraná, tornando-se, dessa forma, líder do mercado brasileiro de sementes. A Agroceres era uma das últimas empresas de capital 100% brasileiro no setor de alta tecnologia em sementes de milho, sorgo e hortaliças.

Se é verdadeira a consigna dos movimentos campesinos de que “sem milho, não há país”, voltamos a nos tornar uma colônia. A soberania alimentar brasileira vem sendo solapada pelo neoliberalismo, com a perspectiva de se tornar ainda mais vulnerável com as atuais políticas de abertura comercial indiscriminada em curso, sem qualquer tipo de proteção às empresas nacionais estratégicas.

O significado antineoliberal do Prêmio Nobel da Paz de 2020

A escolha do Prêmio Nobel da Paz em 2020 para o Programa Mundial de Alimentação (PMA) das Nações Unidas, laureado principalmente por seus esforços para combater a fome, demonstra a importância dos esforços públicos voltados para a segurança alimentar.

Mesmo no Brasil, um dos maiores produtores de alimentos do mundo, e que havia comemorado a saída do Mapa da Fome em 2014, assiste-se a escalada da pobreza e o retorno da fome. Levantamento do IBGE mostra avanço da fome no país que atingia 5% da população brasileira em 2018, ante 3,6% em 2013, alcançando mais de 10 milhões de pessoas [4].

É mais uma prova inequívoca do caráter nocivo do neoliberalismo e de que políticas públicas são fundamentais para se garantir não apenas a segurança alimentar, mas a soberania alimentar. Um país só pode ser plenamente soberano se sua política agrícola e alimentar não for estabelecida apenas pelos interesses do mercado.

Neste sentido, o conceito de “soberania alimentar” vai além do que propugna termo “segurança alimentar”. Soberania alimentar reivindica a autonomia dos povos e das nações na produção de seus próprios alimentos, sem ficarem reféns dos interesses privados, sobretudo dos grandes monopólios internacionais.

Por ocasião do Fórum Mundial sobre Soberania Alimentar, ocorrido na cidade de Havana, Cuba, em 2001, definiu-se como Soberania Alimentar:

“[…] o direito dos povos definirem suas próprias políticas e estratégias sustentáveis de produção, distribuição e consumo de alimentos que garantam o direito à alimentação para toda a população, com base na pequena e média produção, respeitando suas próprias culturas e a diversidade dos modos camponeses, pesqueiros e indígenas de produção agropecuária, de comercialização e gestão dos espaços rurais, nos quais a mulher desempenha um papel fundamental […]. A soberania alimentar é a via para se erradicar a fome e a desnutrição e garantir a segurança alimentar duradoura e sustentável para todos os povos.”

É impossível haver soberania alimentar em um país que abdica de seu protagonismo na política agrícola, destacadamente no estratégico setor de sementes, deixando à cargo de empresas multinacionais estrangeiras dominarem quase que por completo a produção e comercialização dos insumos básicos para a produção de alimentos.

Para se ter ideia da gravidade da situação, apenas dez empresas dominam hoje quase 80% do mercado mundial de sementes. Nenhuma delas é brasileira, mesmo sendo o país um dos maiores produtores de grãos do mundo e, a cada ano, atingindo safras recordes.

Destas dez empresas, três delas controlam mais da metade do mercado mundial. São elas: Monsanto (26%), a DuPont Pioneer (18,2%) e a Syngenta (9,2%). Entre o quarto e o décimo lugar aparecem a companhia Vilmorin (do francês Grupo Limagrain), WinField, a alemã KWS, Bayer Cropscience, Dow AgroSciences e as japonesas Sakata e Takii.

A compra de empresas brasileiras por multinacionais estrangeiras, como foi o caso da já mencionada Agroceres – até então líder de mercado no país e possuidora de uma rica expertise no estratégico setor de sementes -, demonstra que a “desnacionalização nada teve a ver coma a incapacidade tecnológica ou competitiva como muito se propagou no período, mas apenas como estratégia monopolista de entrada em novos mercados” (BANDEIRA & MEDEIROS, 2019). Os grupos internacionais adquiriram empresas brasileiras para eliminar concorrentes e absorver seu conhecimento produtivo e de mercados específicos. 

De acordo com recente estudo de Bandeira e Medeiros (2019) “o setor de sementes se torna pertinente para observarmos o ocorrido, com base na importância que tem hoje. Este segmento à montante da agricultura foi desnacionalizado praticamente em plenitude, nas grandes culturas agrícolas nacionais”.

Estes autores ainda ressaltam que o referido processo de desnacionalização “é mais grave quando analisamos sua dinâmica financeira, com um grande arcabouço de royalties que se criou na sequência, respondendo ao questionamento do porquê este setor foi tão visado por corporações que nem mesmo eram do segmento de sementes em sua origem”. É o que nos mostra o quadro abaixo:

 
Quadro 1: Aquisições das principais corporações no setor de sementes. (Foto: Fonte: Bandeira (2015), com atualizações.)

É possível perceber, nos dados apresentados acima, que nada menos que trinta destacadas empresas brasileiras, a maior parte delas especializadas na cultura do milho, foram literalmente fagocitadas por empresas estrangeiras que, historicamente se comportam como patógenos a produzir danos em países hospedeiros como é o caso do Brasil. A vacina, que seria o fortalecimento do Estado Nacional, parece ainda estar longe de ser aprovada pelos governos neoliberais.

Todas as empresas compradas eram líderes em seus setores nas suas regiões, com grandes estruturas de produção e comercialização, mas que passavam por problemas financeiros diante da crise nacional. Os governos neoliberais lhes negaram ajuda em nome de uma pretensa livre concorrência. Contraditoriamente, o mesmo não ocorreu em outros setores da economia, como foi o caso dos bancos que foram contemplados até com um Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (PROER).

Há outros bancos que precisam de apoio dos governos neoliberais e são negligenciados. Bancos que guardam tesouros incalculáveis. São os bancos de germoplasma, fiel depositário do patrimônio genético que abrigam sementes não só do milho, mas de diversas outras espécies agrícolas que correm o risco de desaparecer. Bancos que garantem a variabilidade genética de culturas que demoraram milênios para chegarem ao estágio atual e são deixadas à mercê dos interesses de mercado.

Todo e qualquer país que valoriza sua história não pode abrir mão de suas riquezas. E o milho, certamente, é um dos grandes patrimônios da nação brasileira e dos povos vizinhos que compõem o continente onde ele nasceu e se desenvolveu.

[1] O termo Popol vuh, traduzido do idioma quiche, significa “livro da comunidade”. É um rico documento que registra aspectos importantes da cultura maia, onde o milho tem papel de destaque. Estima-se que tenha sido produzido no século XVI, coincidindo com a chegada do colonizador europeu no continente americano.

[2] Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo no dia 20 de jan. 2007, intitulado “México tenta conter a revolta da tortilha”. Ver mais em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2001200701.htm.

[3] Primeira biografia completa de Henry A. Wallace, escrita por John C. Culver e John Ride, que revela o   grande político, agricultor, economista, escritor e empresário que foi vice-precidente dos EUA durante a Grande Depressão e deu grandes contribuições na implementação do New Deal. Henry Agard Wallace foi um geneticista de renome internacional, um autor prolífico, um economista inovador, um intelectual visionário e uma das figuras mais importantes e controversas deste século.

[4] Ver mais em: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/09/17/ibge-confirma-que-pas-voltou-ao-mapa-da-fome-em-2018-diz-pesquisador.ghtml. Acessado em 14 de out. 2020.

Referências bibliográficas:

BANDEIRA, J. L. A geografia econômica das sementes: dos grandes monopólios ao sudoeste do paraná. Francisco Beltrão: UNIOESTE. Dissertação de Mestrado em Geografia. 2015.

BANDEIRA, J. L; MEDEIROS, M. C. Desnacionalização e internacionalização na agricultura brasileira: impactos estratégicos no caso do setor de sementes. Dossiê Agronegócios no Brasil, p. 40-60, Abril. Florianópolis: Geosul. 2019.

BONFIL, G. Sin maíz no hay país. CONACULTA. México. 2007.

MOREIRA, L. R. A seleção natural do imperialismo estadunidense. O Golpe político que descartou o geneticista defensor do “Século do Homem Comum”, da presidência dos Estados Unidos da América. Disponível em: http://www.grabois.org.br/portal/artigos/153274/2017-01-16/a-selecao-natural-do-imperialismo-estadunidense. Acessado em 14 de out. 2020.

PACHECO, L. A. A Universidade Federal de Viçosa no Século XX. Viçosa: Ed. UFV. 2006.

STONE, O; KUZNICK, P. A história não contada dos Estados Unidos. Barueri: Faro, 2015.