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Diogenes Arruda: Prisão, Tortura e Exílio (1)

Cezar Xavier Publicado em 05.05.2017

Trecho do áudio de entrevista com Diógenes Arruda Câmara, histórico dirigente do Partido Comunista do Brasil, feita em Roma, em 1979, pelos jornalistas Albino Castro e Iza Freaza.

Diógenes Alves de Arruda Câmara, nasceu em 1914 no Recife, Pernambuco, Brasil. Ingressou no Partido Comunista Brasileiro, então Partido Comunista do Brasil, em 1934, e ligou-se ao comitê da Bahia, para onde se transferiu, como funcionário do Ministério do Trabalho. Foi editor da revista Problemas. Durante o Estado Novo, viveu, por três anos, na Argentina, onde se articulou com vários comunistas. Serviu de elemento de ligação entre grupos dissidentes do PCB, que terminaram se aglutinando em torno de Luis Carlos Prestes. Em 1943 passa a fazer parte do Comitê Central do PCB. Em 1947 foi eleito Deputado Federal por São Paulo na legenda do Partido Social Progressista (PSP), escapando, assim, da cassação de mandatos que se seguiria, com o cancelamento do registro do PCB. Com as mudanças ocorridas no PCB, recriou, junto com outros militantes, o Partido Comunista do Brasil, sob a nova sigla PC do B, tornando-se um dos dirigentes. Em 1968 foi preso e torturado pela Ditadura Militar que se instalara no Brasil em 1964. Foi solto em 1972 e exilou-se na França. Retornou ao Brasil em outubro de 1979, após a anistia política e faleceu logo em seguida, em novembro do mesmo ano.

Iza Freaza - Diógenes Arruda: há quanto tempo você está fora do Brasil?

Arruda – Olha, eu saí do Brasil depois que fui posto em liberdade. Eu estive preso de 11 de novembro de 1969 a 22 de março de 1972.

Iza – Você saiu porque lá (no Brasil) a barra estava muito pesada?

Arruda – Não, eu saí porque estava muito doente. Eles me soltaram provavelmente por isso. Quando saí fui rapidamente ao médico, que chegou à conclusão de que eu estava tuberculoso dos dois pulmões e que eu tinha de me submeter a umas operações para me recuperar, e que eu estava doente do coração e tinha que fazer uma operação na vista. Então, eu sou um refugiado que não sou refugiado. Por quê? Porque eu tinha que fazer todo esse tratamento médico fora do Brasil. Fui à Argentina, da Argentina fui ao Chile, para conseguir documentos, vim a Paris e fui a um médico.

A operação custava muito caro, e eu fiz um cálculo: voltando ao Chile e fazendo a operação com os melhores especialistas de Santiago, o custo seria menor com a viagem de ida e volta e a operação lá do que se eu fizesse a operação em Paris. Eu fiz essas operações (em Santiago) e o último médico, que foi o oftalmologista, me deu alta numa sexta-feira, às 5 horas da tarde. Eu fui à Air France comprar passagem e me disseram que no sábado estava fechado. Eu vinha na terça-feira. E na terça-feira houve o golpe (militar) no Chile. Portanto, eu fui pego (pelo golpe) no Chile acidentalmente.

Iza – Você foi preso lá?

Arruda – Não. Então, passadas umas duas semanas, estávamos vendo que vários brasileiros estavam sendo presos. Tinha vindo uma equipe ou duas da repressão brasileira, e eu considerei que devia me refugiar numa embaixada e optei pela embaixada da Argentina. Passei mais ou menos um mês lá e fui à Argentina e aí fui procurado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas. E alguns amigos tinham providenciado minha vinda para a França e, então, vim para cá. Passei seis meses antes na Argentina e vim para a França, onde estou até hoje, mesmo tendo várias andanças por várias partes da Europa, Oriente. . .

Iza – Antes dessa prisão de 1969 você já tinha sido preso?

Arruda – Já. Eu já tinha sido preso em 1937 com o golpe do Estado Novo, passei em prisão três meses, depois fui preso em 1940. Nessa prisão de 1940 estive incomunicável, sendo torturado durante dois meses. Depois passei incomunicável durante oito meses. Depois de eu ter me negado por dois meses a prestar qualquer depoimento, fui solto com um ano e dois meses de prisão, por um Habeas Corpus e porque não conseguiram uma palavra de minha parte — apesar de eu ter sido seriamente delatado. Assim aconteceu. Fui preso também, quando era já suplente de deputado federal, em fins de 1945, em São Paulo, mas por um dia e uma noite. Através de um grande movimento de deputados na Câmara Federal etc., fui solto. Também aí havia me negado a prestar qualquer depoimento. A última foi essa de 1969. Foram quatro prisões.