Autores - A. SÉRGIO BARROSO: Reflexões sobre perspectivas do capitalismo em crise

Reflexões sobre perspectivas do capitalismo em crise (III) Minsky e a derrota dos bancos centrais

A.Sérgio Barroso Publicado em 19.10.2015

Nos argumentos para essa série de artigos acerca das razões dos impasses extremos do capitalismo vivente da crise sistêmica atual, associamos também o da “decomposição da economia política neoclássica”. A denúncia do falso discurso da recuperação dos EUA revela a persistência irresoluta da crise, assim como a deflação sistêmica integrante da depressão. Cada vez mais autores, como Minsky, admitem que “a economia moderna não é instável porque está sempre enfrentando choque externos, como o ‘choque do petróleo’, guerras, ou surpresas monetárias, mas devido à sua própria natureza”.

Nos argumentos para essa série de artigos acerca das razões dos impasses extremos do capitalismo vivente da crise sistêmica atual, associamos também o da “decomposição da economia política neoclássica”. Vimos repetindo tratar-se de imensa falsificação do discurso oficial dos EUA sobre a sua “recuperação” econômica, assim como da persistência da grande crise iniciada em 2007 sem horizonte de resolução, agravando continuamente a possibilidade de retomada da economia mundial. Denunciamos a sistêmica deflação (queda acentuada nos preços) como parte integrante da depressão (central) que assola a economia mundial, conforme distintas interpretações e correntes teóricas não liberais (neoclássicas).
Por exemplo: Barry Eichengreen, ex-economista chefe do FMI – isto mesmo! -, assim apresentara uma comparação gráfica entre a anterioridade imediata da Grande Depressão (1930) e o início da grande crise atual (2008); de como se esboçava a tendência desta crise em curso:
PIB mundial na década de 1930 e atualmente


Fonte: ver aqui: http://desmitos.blogspot.com.br/2009/05/grande-depressao-ou-grande-recessao.html
A partir do instigante artigo “Revivendo a crônica de duas depressões” (2009), B. Eichengreen e K. O’Rourke concluíram que o mundo estava passando por um choque econômico “tão grande quanto o choque da Grande Depressão de 1929-30”; o que não podia ser visto superficialmente apenas pela situação dos EUA, pois isso seria “negligenciar como alarmante é a situação atual, mesmo em comparação com 1929-1930”. Perguntaram a seguir estes economistas se “a resposta política” dada pelos bancos centrais e Estados enfrentaria os problemas. (ver aqui: http://www.voxeu.org/article/tale-two-depressions-redux)
Outrossim, observe-se as grandes depressões de 1873-96 e 1929-39 tiveram condicionalidades, circunstâncias e traços históricos diferentes da grande crise capitalista irrompida em agosto de 2007. Por exemplo, a nova marcha depressiva hoje não se relaciona diretamente com aquela da assunção da II Revolução Industrial, cujo progresso técnico impulsionou o sistema à etapa monopolista e catapultou a posição do grande capital industrial e financeiro no alvorecer do século XX - cresceram as corporações industriais e financeiras, o emprego e a renda. De outra parte, o sistema socialista (“real”) construído em torno da União Soviética, nos anos 1930 passou praticamente incólume às labaredas da Grande Depressão. Especialmente, a extensão e a profundidade da internacionalização dos circuitos monetário-financeiros eram à época “diminutas”, em relação aos tempos vividos nestes precedentes 40 anos.

Fracasso completo da economia política “neoclássica”

Como se respondessem seis anos depois à questão de Eichengreen e O’Rourke, há pouco mesmo, entre o velho cinismo e a “surpresa”, o Banco Central norte-americano (Fed) da doutora Janete Yellen e sua turma de mandachuvas escreveram na ata de setembro que: “a inflação não deve atingir 2% nem mesmo até o fim de 2018”. Ora, sabe-se que desde dezembro de 2008  a taxa de juros básica americana está próxima a zero; e há vários meses faz-se verdadeira campanha no desejo para que se elevasse a taxa de juros nesta reunião de setembro! Fracasso!

Mais: a medida de inflação preferida do Fed (o índice de preços de gastos pessoais do Departamento de Comércio) ficou abaixo de 2% por 40 meses consecutivos. Na verdade, os banqueiros do Fed estão sem alternativa: somam-se a inflação baixa mais, recente alta do dólar (preços dos produtos importados para baixo), a queda nos preços do petróleo e outras commodities. Além disso, dados sobre o emprego, divulgados seguindo a reunião mostram que as contratações do setor privado “desaceleraram em agosto e setembro”, recolocando amis uma vez novas incertezas sobre os rumos da economia americana.
Um dia antes das informações do Fed, o Banco de Inglaterra decidiu manter a taxa básica de juro em 0,5% ao ano, justificando como novo problema o desaquecimento da economia do país, e externamente, “especialmente dos emergentes”. Também na ata da última reunião do BCE (Banco Central Europeu, lê-se: “os riscos de queda da inflação intensificaram-se durante o verão” (no hemisfério Norte). Já o banco Central do Japão traça “cenário mais pessimista foi notado no comunicado da decisão do Banco do Japão (BoJ)”, dois dias antes do anunciado na ata do Fed. [1]
Contudo, observe-se na referência gráfica abaixo, da insuspeita agência americana Bloomberg, como a questão da deflação atinge muitos países e é fenômeno que se arrasta e se agrava.

Minsky, instabilidade financeira e a fábula neoclássica
Uma das ideias que enxergo das mais importantes de Hyman P. Minsky, fecundo economista norte-americano discípulo de Keynes e Schumpeter, diz respeito ao efeito das chamadas inovações financeiras, relacionadas ao crédito e a consequente possibilidade da ampliação do investimento. Efetivamente “submersa” nos comentários entre temas relevantes de sua principal obra (“Estabilizando uma economia instável”, 1986), a questão para Minsky respeitava, na ânsia da ampliação dos lucros, à utilização rápida e a sua proliferação (por cópias; imitação) dessas inovações visando facilitar cada vez mais a ampliação do crédito e da liquidez, geralmente pela burla das restrições impostas às regras monetárias ainda instituídas.

Assim: a) a expansão dos lucros reforçaria as certezas das estimativas anteriores e realimentaria as expectativas futuras; b) o crescimento das dívidas das empresas tomadoras de crédito, submetidas às oscilações nas taxas de juros e câmbio, sofre o impacto da reversão da situação de criada na euforia dos lucros, e reverte-se do ponto de vista da situação das empresas com o aborto do ciclo. Dito de outra forma, para Minsky, no “boom” econômico, a explosão especulativa, o endividamento excessivo, a busca pela liquidez, o “pânico” ocorrem regularmente em qualquer economia monetária importante. São fenômenos estruturais que passaram a acompanhar a instabilidade das economias capitalistas - da época dos monopólios.

Nas certeiras palavras de Minsky: “a economia moderna não é instável porque está sempre enfrentando choque externos, como o ‘choque do petróleo’, guerras, ou surpresas monetárias, mas devido à sua própria natureza”. [2]
Em sua famosa “Hipótese da Instabilidade Financeira”, dizia serem duas as proposições fundamentais: a) os mecanismos de livre mercado não podem levar a um equilíbrio sustentado, com estabilidade de preços e pleno emprego; b) os ciclos de negócio são devidos à propriedades financeiras essenciais do capitalismo. E isto para ele estava em “agudo contraste com a síntese neoclássica”: a fábula em que, na ausência de choques externos a economia do livre mercado sempre gerará equilíbrio autossustentado com pleno emprego e preços estáveis (idem p. 194).

Horizontes sombrios, indagações

Pesquisador sistemático da economia mundial, o marxista indiano Prabhat Patnaik vaticinava em agosto último, que o capitalismo mundial parece destinado a um agravamento da crise. Após sete anos após o seu surgimento, a crise persiste “apesar de as taxas de juro dos EUA persistirem abaixo de zero [em termos reais]. Segundo o economista, a pressão do grande capital financeiro subida das taxas, que se aproximaria, fará apenas agravar a crise. “O capitalismo hoje parece muito mais afundado na crise do que a maior parte das pessoas, incluindo mesmo muitos na esquerda, imaginam”, concluíra Patnaik. (ver aqui: http://peoplesdemocracy.in/2015/0809_pd/world-recession-set-worsen).
De acordo ainda com Patnaik, constitui-se grave erro interpretar neoliberalismo como “uma mera política econômica”, pois, na verdade, o neoliberalismo é de fato uma mera descrição (e bastante má) de todo um conjunto de medidas que estão necessariamente associadas à hegemonia da finança globalizada”. (ver aqui: peoplesdemocracy.in/2015/0517_pd/misconceptions-about-neo-liberalism).

Notas
[1] Ver: “Fed manteve juros por temor de que inflação não reaja”, Valor Econômico/Wall Street Journal, 09/10/2015. E http://www.valor.com.br/financas/4263612/taxa-americana-tende-ficar-congelada-ate-1-tri-de-2016
[2] Ver: “Estabilizando uma economia instável, - a inclinação natural das economias de mercado, complexas e globais, em direção à instabilidade”, H. Minky, Novo Século, 2013, Capítulo 8. A propósito, bom recordar Lênin: “a dominação do capital financeiro, ao invés de atenuar a desigualdade e as contradições da economia mundial, o que faz é acentuá-las”. Ou ainda, “O que é característico do imperialismo não é precisamente o capital industrial, mas o capital financeiro”. Ver: “O imperialismo, fase superior do capitalismo, Cap. VII.