Entrevistas

Tankas de inverno, versos do golpe

Entrevista de Claudio Daniel a Cezar Xavier Publicado em 14.12.2017

Desde 2013, Claudio Daniel escreve sobre o longo inverno sem lua que cobriu o Brasil por meio dos versos concisos e fotográficos da poesia oriental. Bashô encontra Maiakóvski em sua “caligrafia” precisa e comovente. A tradição japonesa não o impede de avançar o registro das estações do ano para o retrato nada natural da desigualdade social.

Se a poesia é síntese em forma de palavras, tankas e haicais conseguem poder de concisão ainda mais impressionante com suas expressivas cenas da natureza em minúsculos versos cuidadosamente medidos. É a típica mágica e técnica de que são capazes os japoneses ao sintetizar sabor, textura e consistência numa minimalista fatia de peixe cru, que, para muitos, é como saborear um prato complexo e completo. Claudio Daniel decidiu aventurar-se por esse vespeiro, não apenas respeitando a tradição, mas ousando resumir em tankas e haicais flagrantes do Brasil sob golpe de estado.

Em Fuyú (ideograma do inverno), os poemas escritos entre julho e setembro passado, Claudio Daniel transforma pequenas notas de pé de página de jornal - já que suas cenas jamais virariam manchete -, em efêmeras cenas do inverno paulistano. Aquelas imagens que nos comovem pela injustiça de sua ocorrência e pelo modo como parecem fazer parte da natureza da cidade, cada vez mais. Pobres que perdem tudo, menos a lua cheia, um menino dormindo sob o lixo, um usuário de crack num cemitério, alguém em luto que procura desesperadamente pelo consolo da luz da lua, o cão que persegue a própria cauda...

Os versos que se relacionam por meio de analogia ou metáfora também falam das pequenas e belas cenas, da cidade, das pessoas e da natureza baiana, onde esteve. O inverno temperado brasileiro emoldura tudo com desconforto, abandono, escuridão, ventanias, folhas mortas, envelhecimento. Mas o poeta já navegou por outras gramáticas, como as cantigas de orixás, que pedem pelo povo brasileiro.

“Fuyú” vem em edição da Espectro Editorial, a princípio, aos mais próximos, já que o mercado editorial só tem prateleira para auto-ajuda. Seu primeiro livro, “Sutra” (1992), foi publicado em edição de autor, com apenas 500 exemplares; o livro passou despercebido, sem chamar a atenção da crítica literária. Nos anos seguintes, de acordo com o próprio poeta, publicou “Yumê” (1999) e “A sombra do leopardo” (2001), que tiveram melhor acolhida: saíram resenhas em diversos jornais e cadernos de cultura, como o Suplemento Literário de Minas Gerais, e ele foi agraciado com o prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, oferecido pela revista Cult. Nos anos seguintes, Claudio Daniel recebeu uma bolsa de criação literária da Funarte, pelo projeto do livro “Fera bifronte” (2007), e foi bolsista do programa Rumos Literatura, do Instituto Itaú Cultural.

A partir de “Fera bifronte”, o poeta passa a olhar com atenção maior às contradições sociais, tentando expressá-las como um alerta. Seus versos agem como uma lanterna a iluminar as sombras. Claudio Daniel passa a observar as imagens que não combinam com a lógica do cenário ao redor, mas que a maioria ignora por receio do chamado à ação. De lá pra cá, observa-se um agravamento da narrativa, com dramas cada vez mais insuportáveis e contradições ainda mais nevrálgicas. Não se sabe quando o inverno vai passar, ou quando os poemas de primavera tingirão o washi com seu colorido e aromas.

Além das edições disponíveis nas livrarias, é possível ler alguns de seus poemas, inclusive do recente Fuyú, no blog Cantar a Pele de Lontra 

Como foi a sua formação literária? Quais são os seus poetas favoritos?

Nasci numa casa em que havia livros por toda parte. Meu pai, Orlando, foi um técnico eletrônico com segundo grau incompleto que trabalhou a vida inteira em fábricas de caldeiras e de aparelhos de televisão. Ele era um leitor compulsivo: amava Baudelaire, Shakespeare, François Villon, que lia nos idiomas originais (também estudou árabe, por algum tempo) e estimulou o meu gosto pela leitura. Minha mãe, Lázara, dona de casa que foi secretária das Indústrias Reunidas F. Matarazzo, adorava romances e lia diariamente os jornais, numa época em que ainda havia jornalismo no Brasil. Comecei a ler muito cedo, claro, principalmente livros de história, amava  saber sobre as antigas civilizações. Na adolescência, li poemas como “O corvo”, de Edgar Allan Poe, “Ismália”, de Alphonsus de Guimaraens, “Perfume exótico”, de Baudelaire, composições de Cruz e Sousa e outros autores simbolistas que chamaram a minha atenção pela musicalidade, imagens poéticas e riqueza de imaginação de seus textos. Depois, fiquei encantado com a descoberta dos autores modernistas e concretistas, em especial Oswald de Andrade, Murilo Mendes, João Cabral de Melo Neto, Augusto e Haroldo de Campos, que influenciaram muito a minha escrita poética, pelo alto grau de síntese, concisão, fragmentação semântica e discursiva e pela visualidade de seus poemas. Gosto de poemas que causam uma sensação de estranhamento, por violarem as formas habituais da fala.

Como suas preferências literárias influenciam sua pesquisa?

Acredito que todo texto literário dialoga com outros textos, numa rede infinita de interrelações. Sei que devo muito à concisão e imagética do poeta-samurai japonês Matsuo Bashô, do século XVII, mas também aos jogos de linguagem, à irreverência e inquietação política de Maiakovski, entre muitos outros poetas que ainda hoje me encantam e ensinam. Se eu fosse fazer uma lista, seria imensa, mas não poderia deixar de citar, além dos nomes já referidos, os de Lezama Lima, Herberto Helder e Paul Celan.

Procuro, em minha poesia, descobrir uma mitologia pessoal, construir uma dicção própria, em dialética constante com a tradição, ou antitradição, que elegi – Jorge Luís Borges já dizia que cada poeta escolhe os seus antecessores, a sua “família” espiritual, situada além das dimensões do espaço e do tempo. Em meu caso, acredito que me situo na “família” de autores que, sem abdicar da reflexão crítica sobre a realidade e do posicionamento político, colocam em primeiro plano o artesanato semântico, a pesquisa formal, o rigor e a invenção.

Um exemplo da poesia que praticava nesse período [no início dos anos 2000] é a composição intitulada Poros:

POROS

Um silêncio verde  — Paul Celan

O
verde,
sua pele
ácida. Tocar
os poros
do verde, florir
metálico. Ouvir
sua voz de asa
e sombra.
Olhos, faisões
de cegueira.
Jóias de irada
divindade.
Abelhas e lagostas
amam-se, odeiam-se,
tulipas caem
na goela
do tempo.
Tuas mãos tateiam
a nervura imprecisa
da cicatriz
e não há mar,
nem pão, nem página.
Alucino-te
ao mirar-me
no silêncio
de uma laranja
quadrada.
Aqui, nada mais viceja.
Lacraias afogam-me
em tua lágrima
e se fecha a porta
esquerda. Toda palavra
me fere com sua cor.
Quando cessa
o canto, calados,
ouvimo-nos
em um corte
azul.

Mais importante do que prêmios [que recebeu] foram as conversas com poetas e críticos literários que admirava há bastante tempo e que contribuíram para o desenvolvimento de meu trabalho, como Haroldo de Campos e João Alexandre Barbosa, e a descoberta de poetas de minha geração, com quem mantenho até hoje diálogo sobre poesia, a vida e o mundo.

Em meus livros posteriores a “Fera bifronte”, sobretudo “Cadernos bestiais” e o “Livro de orikis”, minha atenção voltou-se para a temática política, devido aos graves acontecimentos transcorridos no país a partir de 2013, que culminaram no golpe de estado de 2016. Mantive a mesma preocupação com a construção rigorosa da linguagem, mas com ênfase na referencialidade: nos três volumes dos “Cadernos bestiais”, tentei criar um registro poético do golpe, fazendo caricaturas poéticas do Judiciário, do Congresso, da mídia, dos banqueiros e outros setores responsáveis pela maior tragédia da história contemporânea do país. Um exemplo dessa poética é a peça intitulada “Hino ao Congresso Nacional”, que diz:

Cabeças à venda
corvos corcundas
traficam trevas.

Já no “Livro de orikis”, fiz uma releitura das cantigas de orixás de origem ioruba, cantados até hoje nos terreiros de candomblé, incorporando referências políticas, como neste oriki, dedicado a Ogum:

OGUM

Ogum Onirê
pisca o olho
e cai um dedo
do mentiroso.
Pesca o peixe
sem ir ao rio.
Molamolá
— farejador
de farelos —
livra seus filhos
do abismo.
Ogum Ondó
viajou a Ará
e a incendiou.
Viajou a Irê
e a demoliu.
Senhor de Ifé,
livra seus filhos
do abismo.
Ogundelê
malha o ferro
e faz flechas
de flagelo.
Comedor de cães
fulmina o racista.
Ogum Megê
queima o sangue
do fascista.
Megegê
golpeia o golpista
da revista.
Ferreiro-ferrador
forja a foice
forja o martelo.
Que não falte
o inhame.
Que não falte
massa de pão.
Pai do meu avô,
livra seus filhos
do abismo.
Ogunhê!

Por que a opção pela poesia oriental? Trata-se de uma opção permanente, ou apenas episódica?

Gosto de experimentar diferentes gêneros poéticos, técnicas e procedimentos formais, para não ficar preso a uma única forma. Procuro renovar minha poesia ampliando a temática e adotando novos recursos. Após dialogar com o oriki ioruba, quis escrever tankas e haikus, gêneros poéticos tradicionais da literatura japonesa que me fascinam desde a juventude, quando li pela primeira vez “Sendas de Oku”, diário de viagem de Bashô, em que o mestre japonês pratica uma escrita híbrida, mesclando poemas curtos e relatos em prosa de suas viagens. O haiku – mais conhecido no Brasil como “haicai” – é uma forma extremamente plástica, que permite diferentes recriações e releituras criativas, como as praticadas, entre nós, por Millôr Fernandes, Paulo Leminski e Alice Ruiz. Já o tanka é bem menos conhecido e praticado, embora haja algumas realizações interessantes nesse gênero, de autoria do escritor paranaense Wilson Bueno, já falecido, autor do “Pequeno tratado de brinquedos” e de “Pincel de Kyoto”. Não penso em meu diálogo com a poesia japonesa como algo permanente, nem como simples modismo, mas como um momento criativo, que tem me ocupado nos últimos tempos.

Porque a opção pelo tanka, em “Fuyú”, em detrimento do haiku?

Escrevi uma centena de haikus, reunidos em Portão 7, que será publicado em 2018 pela Lumme Editor. Os poemas desse livro são divididos, à maneira japonesa, em quatro seções, conforme as estações do ano – prática que remonta à antologia Kokin Wakashu, publicada no século IX, e que remete à ideia de tempo cíclico. Mantive a referência sazonal, ou kigo, expresso em versos como “louco de outono” ou “formiga de primavera”, mas desconsidero a métrica de 5-7-5 sílabas, em favor da máxima contenção verbal, precisão e clareza nas linhas. Procurei, nesta coleção de poemas de temática urbana, fixar em um pequeno número de palavras o registro de cenas e situações do cotidiano, sob o influxo do princípio de shasei, apresentado pelo pintor Nakamura Fusetsu, que privilegiava o “retrato do estado natural, a representação verídica não só de paisagens, mas também de situações do cotidiano”, na definição de Maurício Arruda Mendonça. Um exemplo de minha abordagem do haiku é esta composição:

pobres perdem tudo
menos a nudez
da lua de primavera

Há temas que se repetem em diversas composições deste caderno: amor, violência urbana, moradores de rua, metrô, cegueira, animais, insetos, frutas, entre outros, e por isso mesmo busquei, sempre que possível, aglutinar os poemas em séries temáticas, recurso aliás adotado em meus outros livros de poesia. A maioria das peças incluídas aqui foram escritas entre os anos de 2016 e 2017, quando morei nas proximidades da Praça Roosevelt, na cidade de São Paulo, ponto de encontro de ciclistas, skatistas e grafiteiros, que aparecem retratados em diversas composições do livro, como nestas peças:

na escadaria da praça
duas meninas
se beijam na boca

e

skatista, traveco,
ciclista, grafiteiro
na mira da polícia

As poucas peças mais antigas foram compostas em 2010, época em que eu visitava com frequência o Parque do Ibirapuera, situado também em São Paulo, em particular a área do parque a que dava acesso o Portão 7 – daí o título do livro.

Já o livro Fuyú / Poemas de inverno foi escrito DEPOIS, embora tenha sido publicado antes! Neste outro livro, adotei o tanka, gênero poético japonês formado por duas estrofes: a primeira de 5-7-5 sílabas, o hokku (que mais tarde deu origem ao haiku ou haicai) e um dístico de 7-7 sílabas, o waki, com relativa independência sintática e referencial entre as duas estrofes: a relação entre uma e outra, sutil e delicada, é de ordem analógica e metafórica. Outro elemento essencial do tanka e de quase toda a poesia tradicional japonesa é o kigo, ou signo da estação do ano em que os poemas foram escritos (sendo que a referência sazonal é importante não apenas por indicar a época do ano em que aconteceram os fatos mencionados no poema, mas também por suas implicações religiosas e filosóficas, como as noções de tempo cíclico e da efemeridade de todos os fenômenos do universo e da natureza). Os poemas deste livro foram escritos entre julho e setembro de 2017 em São Paulo e em Salvador, que visitei com a minha mulher, Scheila Sodré. Um exemplo de meus tankas:

noite de inverno:?
policiais ateiam
fogo no barraco.

pobres perdem tudo
menos a lua cheia.

O contexto social de alguns poemas é bastante contundente. Esta conotação é comum na poesia japonesa?

Não, não é. O primeiro registro da poesia clássica japonesa é a antologia Manyoshu (“Livro de dez mil palavras”), publicada no século VIII, durante o Período Heian (794-1192). Esta coletânea, dividida em vinte volumes, reunia 4.500 poemas, classificados de acordo com os temas. O mais antigo poema é de amor, composto pela princesa Iua, esposa do imperador Nintoku.  O grande número de composições poéticas de temática amorosa presentes na antologia deve-se ao fato de que, na antiga sociedade aristocrática japonesa, orientada por rígidas normas de conduta, o namoro se fazia pela troca de poemas de parte a parte. Ao longo de 450 anos, o Manyoshu recebeu acréscimos de poetas de diferentes classes sociais, desde a família imperial até damas e nobres, monges, guerreiros, a plebe, até mendigos, sendo numerosos os autores desconhecidos. A poesia se manifestava como uma forma de expressão que transcende ou subverte o tecido social, como se fosse um território livre de imposições e normas específicas de conduta: temas populares são abordados pela aristocracia, que se identifica com as camadas mais humildes, não havendo, pelo menos no sentimento e nas letras, divisão estanque entre elas (idem). O Manyoshu cantava o amor (somon, “poemas de paixão”) e a morte (banka, “elegia e canto fúnebre”), e ainda, nos poemas mistos, abordava celebrações, viagens, ocorrências militares e, em número menor, até mesmo temas como a miséria, o imposto pesado e o saquê. Já na antologia palaciana Kokin Wakashu, foram banidos os temas relacionados à política e à bebida alcoólica, recorrentes na poesia chinesa – por exemplo, no Livro das odes coletadas por Confúcio, ou Shi king (?) –, cuja influência estava caindo em desuso na lírica japonesa. Depois do final da II Guerra Mundial, com as transformações ocorridas na sociedade japonesa, o haiku também se transformou – a métrica de 5-7-5 sílabas foi sendo gradualmente abandonada e temas antes banidos, como o erotismo e a política, passaram a ser abordados pelos novos poetas.

 
(Foto: A pintura de Edward Hopper )

Este olhar oriental sobre a brutalidade da realidade brasileira congela cenas como se fossem parte do ciclo perene da natureza. O que você pretende causar na percepção poética de seu leitor com esses versos?

Procuro aplicar o princípio do shasei, formulado pelo pintor Nakamura Fusetsu, ou seja, tento retratar cenas e situações que percebo à minha volta, que revelam os fortes contrastes existentes na sociedade brasileira. Acredito haver aqui também a influência do pintor figurativista norte-americano Edward Hopper, mestre no retrato do cotidiano. O que eu desejo provocar no leitor, mais do que a simples reação emotiva, é a reflexão sobre as causas da exclusão social. Porém, não faço isso a partir do discurso ideológico, e sim de paisagens, personagens e ações que muitas vezes não percebemos, como se fossem “invisíveis”. Tento dar visibilidade a essa invisibilidade.