Entrevistas

Governo da pandemia evidenciou controvérsias científicas e políticas, além de desigualdades

Cezar Xavier Publicado em 17.02.2021

Estudo americano CompCoRe mostra como “comorbidades” de cada país pesaram mais no enfrentamento do vírus do que certezas científicas, instituições democráticas e até riquezas disponíveis. Alberto Urbinatti (Unicamp) explica porque alguns países conseguiram controlar a pandemia e outros mergulharam no caos, como Brasil e EUA.

O pós-doutorando no Instituto de Geociências da Unicamp e integrante da Rede Covid-19 Humanidades, Alberto Matenhauer Urbinatti, explicou em entrevista exclusiva, porque o Brasil foi classificado como gestão caótica da pandemia no estudo CompCoRe (Comparative Covid Response), liderado pelos professores Stephen Hilgartner (Cornell University), e Sheila Jasanoff (Harvard Kennedy School), com foco na governança e nas controvérsias científicas e tecnológicas.

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O estudo analisou os motivos que teriam levado alguns países a controlarem de imediato a disseminação do vírus e países que lidam com novas ondas e variantes do vírus sem condições de controle. Questionou por que países com poucos recursos conseguiram impedir a disseminação generalizada do vírus e tiveram um número insignificante de mortes, enquanto países ricos e abundantes de recursos sanitários e econômicos vivem o caos, somando centenas de milhares de mortes.

Uma das observações importantes do estudo é que a pandemia evidenciou e acirrou “comorbidades” sanitárias, econômicas e políticas, assim como o vírus agrava quadros de obesidade, pressão arterial alta e diabetes em suas vítimas. O relatório do estudo apresenta cinco sensos comuns de gestão de pandemias, que se revelaram falácias, conforme a doença foi se espalhando. Também classifica os países conforme os resultados obtidos na governança da pandemia, como gestões de controle, consenso e caos. Em seguida faz um painel das especificidades econômicas, políticas e sanitárias que definiram o papel de cada país nessa classificação.

O estudo das três universidades americanas agregou e financiou equipes de 64 pesquisadores de 18 países, que tiveram suas gestões descritas e comparadas: Austrália, China, EUA, Áustria, França, Alemanha, Índia, Itália, ,Japão, Holanda, Singapura, Coreia do Sul, Suécia, Taiwan, Reino Unido, Indonésia, Peru e Brasil. Para coletar a realidade governamental brasileira participaram Philip MacNaghten (Wageningen University) Gabriela Marques di Giulio (USP), Marko Monteiro (Unicamp) e Alberto Matenhauer Urbinatti (Unicamp).

 

Parábola dos três países

Uma parábola reveladora antecipa o debate do estudo, a partir do ponto de vista americano, revelando muito sobre o que aconteceu em cada país e vale um resumo:

Era uma vez, três países que enfrentaram uma terrível praga. A doença lentamente sufocou alguns, deixando outros infectados, mas ilesos.

Para responder a esta terrível ameaça, os líderes de cada país declararam guerra à doença. No entanto, cada um lutou à sua própria maneira. Após um ano, o Conselho Mundial se reuniu para determinar qual país havia feito o melhor trabalho no combate à peste.

“No meu país”, começou o primeiro porta voz, “assim que o partido no poder decidiu que o perigo era real, atacaram a doença com precisão militar. Mobilizaram toda a força do estado - soldados, médicos, vizinhos, drones e celulares - para encontrar e isolar todos os portadores da doença. O exército impôs uma quarentena. Logo a doença foi completamente erradicada. Os cidadãos mais uma vez podiam cuidar de seus negócios e a prosperidade reinou em todo o país.

“Na minha terra”, suspirou o porta voz do segundo país, “lembramos a guerra, a pobreza e os olhares curiosos da polícia secreta. Conhecemos bem os perigos da desunião e os horrores do abuso de poder. Nossos líderes e cientistas conversaram com frequência. Conforme a gravidade da ameaça ficou clara, fechamos nossas fronteiras, mas tarde demais para manter o vírus longe. Infelizmente, muitos cidadãos morreram antes de controlarmos a doença. O estado gastou grandes somas para manter as pessoas em seus empregos e, lentamente, reabrimos nossa economia e as pessoas começaram a voltar à vida normal. Logo, porém, uma segunda onda surgiu, trazendo novos desafios. À medida que as mortes aumentavam, um novo bloqueio começou, ao qual alguns resistiram. Novas negociações estão em andamento e temos esperança de que a fadiga da pandemia não quebrará nosso compromisso com a solidariedade.”

O terceiro país não conseguiu concordar com um porta-voz para contar como foi a gestão da praga, então o Conselho Mundial teve que escolher um observador de um país vizinho para apresentar um relatório neutro.

“Mesmo antes de a peste atacar”, começou o relator, “os cidadãos foram divididos em dois campos de guerra, os vermelhos e os azuis. Cada lado desconfiava das afirmações do outro sobre a doença. Os azuis negaram que a ameaça fosse real: um resfriado comum, eles zombaram, ou apenas uma farsa para nos assustar. Com base na ciência autorizada das melhores universidades, os vermelhos previram milhões de mortes e procuraram fechar o país para o bem coletivo. Os azuis se opuseram ao bloqueio, argumentando que as pessoas deveriam decidir por si mesmas quais riscos aceitar. A economia do país vacilou e o desemprego disparou. Já que os vermelhos e os azuis não podiam concordar em nada, eles não fizeram nada. A praga se espalhou. Vidas e empregos foram perdidos. O ódio político cresceu. Os manifestantes marcharam na capital, brandindo armas.”

Depois que cada país falou, o Conselho se preparou para deliberar. “Nossa tarefa”, começou o presidente, “é determinar qual país teve o melhor resultado”.

“Obviamente, o país com o menor número de mortes foi o mais afortunado”, disse um.

“Mas ajustado à idade. As mortes de jovens certamente contam mais do que as mortes de velhos”, disse outro.

"Nem tanto! Uma vida humana é uma vida humana”, disse um terceiro.

No meio da gritaria, uma quarta voz irrompeu. "As mortes imediatas são apenas o efeito de superfície desta praga. A ruptura econômica também destrói vidas, e seus efeitos vão durar”.

“E as crianças?” disse um quinto. “Seu isolamento? Sua escolaridade interrompida? O que isso fará com sua saúde mental e inteligência emocional?”

“Não posso acreditar que ninguém aqui tenha levantado o assunto liberdade!”

“Mas o que é mais importante? Saúde? Prosperidade? Liberdade? Paz?”, perguntou o Presidente do Conselho.

“Em que país você escolheria morar?” uma voz baixa perguntou.

Sem saber como abordar essas questões e frustrado por não conseguir identificar um vencedor, o Conselho foi encerrado, e nunca mais se reuniu.

Cinco falácias

Urbinatti começou comentando as “cinco falácias”, sensos comuns de governança que se mostraram ineficazes para a maioria dos países, devido a suas assimetrias ou mesmo às incertezas impostas pela pandemia de Sars-Cov-2, que, quanto mais passa o tempo, mais revela novidades e mistérios.

Uma das falácias era a de que existiam manuais capazes de dizer o que cada país deve fazer para evitar as mortes e reduzir prejuízos econômicos. Por que eles não funcionaram? Algum país conseguiu aplicar manuais?

O sociólogo observa que o estudo mostra, logo de cara, que a incerteza está colocada, talvez, como nunca antes, não apenas no nível da ciência, como da política e da economia, também. “Ficou evidente que estes sistemas estão intimamente entrelaçados e dependem um do outro para funcionar.”

Não houve uma resposta categórica da ciência, mas diferentes controvérsias oriundas dos especialistas. “Se não há uma única resposta científica, não há uma única resposta política”, afirmou.

No entanto, o caso de Taiwan mostrou como o governo se preocupou de imediato em criar “anticorpos” para a pandemia, seguindo um manual da pandemia de SARS que já tinham vivido anteriormente, no início dos anos 2000. “Esse aparato fez com que a resposta de Taiwan fosse rápida, precisa, quase militar, que mobilizou um comitê de contenção da crise de coronavírus que fez com que o país desse uma resposta mais rápida que seus vizinhos. Uma resposta muito particular de controle que a maioria dos países não foi capaz de dar, porque o jogo não tinha regras claras”, explicou.

A partir disso, surge a segunda falácia, de que as diferenças políticas seriam “colocadas no banco de trás” para que a solidariedade e a união de todos contra o vírus se sobreponha. “O que se viu foi que o jogo político conturbado e polarizado se mostrou mais importante que as garantias dadas pelas políticas públicas, sempre vistas como um fim. Os contextos políticos perpassaram as políticas públicas que foram renegociadas”, explicou o especialista em políticas públicas.

O caos causado pela polarização nos EUA chegou às raias de uma milícia radical de extrema direita planejar o sequestro da governadora do Michigan que defendia lockdown, sendo investigados pela polícia. “A relação entre cidadão e estado variou de lugar para lugar. Nos EUA houve uma polarização do imaginário de um estado garantidor das principais respostas, e, por outro lado, indivíduos que procuram suas liberdades (econômicas) ao extremo”.

As estatísticas de uma epidemia são claras e podemos medir se estamos tendo sucesso em nossas medidas sanitárias. Esta foi outra falácia. O Ministério da Saúde brasileiro, por exemplo, destaca sempre quantas pessoas se recuperaram da covid, em vez de falar da letalidade. Essa escolha parece mostrar o sucesso do governo, quando na verdade esconde a letalidade da doença.

Urbinatti destacou o modo como países asiáticos destacaram seu sucesso estatístico, desconsiderando a controvérsia do modo autoritário como foi implementada a resposta à pandemia, com monitoramento eletrônico invasivo dos cidadãos. Na Espanha, a sociedade reagiu contra a disposição de colocar o Exército nas ruas. O pesquisador diz que na maioria dos países houve esse olhar militarizado sobre a pandemia.

Ciência na vitrine

Ele destacou do relatório a diferença de abordagens para a pandemia, focadas no aspecto clínico, virológico, genômico, com respostas tecnológicas milagrosas por meio de medicamentos ou vacinação, como se o vírus fosse um invasor estrangeiro. Ou a abordagem epidemiológica, das práticas sociais, comportamentais, em que a responsabilidade é doméstica e mais polêmica.

“O inimigo não é externo, em que fechar as fronteiras resolve, como muitos países trataram; mas a responsabilidade é dos cidadãos, em que os problemas internos precisam ser resolvidos pelos pactos sociais, pela solidariedade e senso de comunidade necessários para garantir o distanciamento social e a vacinação, por exemplo”, sugere o pesquisador.

Diante do comportamento errático de governos, para além do espaço de debates promovido pela imprensa, Urbinatti considera que as redes sociais cumpriram um papel importante ao dar o tom de resposta e perspectivas cidadãs sobre a pandemia.

O sociólogo e especialista em políticas públicas sanitárias e tecnológicas destacou como a ciência foi colocada na berlinda, neste momento, como já vinha sendo clamada e respeitada no debate sobre o aquecimento global. Do mesmo modo como respostas precipitadas da ciência tiveram um preço de credibilidade, também. “Muitas vezes, cientistas fizeram estimativas e elaboraram modelos matemáticos, que caíram no dia seguinte, por falta da correlação de vários fatores que influenciam os resultados, em vez de tratar a pandemia como uma fotografia estática do momento”, afirmou.

Para ele, a construção social da ciência é um tema caro no debate sociológico que foi exposto de forma muito clara na pandemia. “Cai por terra essa ideia de que a ciência sempre vai ter as melhores respostas”, diz ele, sobre parcelas dos cientistas que tinham interesses de financiamento em jogo ao defender medicamentos sem comprovação médica, por exemplo. Ou ainda as controvérsias sobre a importância da mascara para barrar o vírus, contestada por cientistas.

“O equilíbrio entre acreditar cegamente na ciência ou cair no negacionismo, um movimento crescente na sociedade, é bastante delicado em momentos como esse”, opina ele. O relatório, de acordo com ele, acerta em mostrar a importância das duas abordagens estarem articuladas, a virológica e a epidemiológica.

Controle, consenso e caos

A classificação comparativa dos países surgiu depois da análise dos dados coletados, não antes, como convém ao método científico. Além disso, as controvérsias do Brasil entraram tardiamente na pesquisa. Embora a categoria “gestão caótica” seja aparentemente óbvia para os brasileiros, controle e consenso parecem mais sutis.

Urbinatti explicou que, quando os responsáveis pelo estudo receberam os dados de Taiwan, ficou obvio que precisaria haver uma categoria “controle”, pelo modo militar e até autoritário com que alguns países estavam administrando o controle epidêmico. A própria ciência é tratada nestes países como uma “autoridade epistêmica”, algo que não necessariamente ocorreu em outros países, observa ele.

A categoria “consenso”, por sua vez, incluiu países europeus, Japão e Austrália, que, apesar de terem polarizações políticas ou religiosas internas, desenvolveram um sentimento de solidariedade e uma resposta final mais consensuada que os países categorizados como caóticos.

A relativa harmonia entre as diferentes esferas institucionais e sociais define o consenso, mesmo com os resultados controversos da Suécia, por exemplo. Urbinatti lembrou a força dos movimentos de extrema direita, naquele país, definindo o consenso.

Lado a lado, Brasil e EUA

Para o especialista, realmente são óbvios os motivos que justificam uma gestão da pandemia no Brasil. O que é novidade, na opinião dele, é colocar, lado a lado, como gestões caóticas países como Brasil e EUA.

Uma das questões comuns a estes países é a autoridade do conhecimento científico sempre colocada em questionamento. “Isso poderia ser interessante, na medida em que a ciência deve estar aberta a este escrutínio público”. No entanto, a gravidade da pandemia não permitiu oscilação em relação ao conhecimento acumulado na ciência. Urbinatti citou o caso da Índia, que teve que lidar com enormes diferenças religiosas, e as brutais diferenças entre a população urbana e rural. “Impor medidas de lockdown naquele país significou criar enormes dificuldades de mobilidade e dependência da população rural com as grandes cidades”, analisou.

No caso da Índia, milhões de pessoas tiveram que voltar para suas casas, há quilômetros de distância, sem qualquer tipo de transporte, passando fome, adoecendo e morrendo pelo caminho. “Ficou muito evidente como as condições preexistentes no país se exacerbaram na pandemia”, disse.

O que unificou estes países em torno de uma gestão caótica, segundo ele, foi o fato de não haver clareza de quem tinha a autoridade do conhecimento sobre o que fazer. A briga entre medidas distintas propostas pelo governo central ou pelos governos locais são evidentes nos EUA, conforme Trump se chocava com a autonomia dos governos estaduais ou no conflito entre o Governo Bolsonaro e João Doria, no estado de São Paulo. Ele citou o caso italiano que também viveu conflitos locais com as medidas do governo Central, como revelou o colapso sanitário da região de Bérgamo, que expôs ao mundo o temor sobre a pandemia.

Urbinatti destacou o protagonismo dos governadores brasileiros para evitar um cenário pior. “Hoje, as relações internacionais brasileiras dependem mais dos governadores do que do Ministério das Relações Exteriores, como evidencia a dependência do Brasil sobre insumos farmacêuticos e ingredientes ativos para fabricação de vacinas”, lembrou, mencionando a preciosa parceria científica entre o laboratório chinês Sinovac e o Instituto Butantan, gerido pelo governo paulista, que garantiu a aceleração da vacinação em massa no Brasil.

“A vacinação inaugurou um novo pacto global de parcerias internacionais, em termos biomédico, científicos e de relações governamentais, que podem expor países reféns dessas parceiras e colocar um protagonismo maior em outros. Algo que não havia na história recente, à exceção dos acordos climáticos, para entendermos que tipo de globalização queremos para o futuro”, analisou.

Urbinatti acha difícil saber se o Brasil construiu anticorpos para um situação semelhante no futuro, diante do caos vivido. “Mas conseguimos evidenciar a importância que o SUS [Sistema Único de Saúde] tem para o país, num momento como esse. Na comparação com os EUA, por exemplo, ficou evidente a fragilidade de não ter um seguro social para todos e uma centralidade do sistema. O Brasil consegue garantir vacinação, atendimento médico e equipamentos para os locais mais remotos do país. Se eu tivesse que buscar uma resposta a futuras pandemias, ela deveria estar diretamente ligada ao know-how e experiencia do SUS”, apostou ele.