Especiais - Domenico Losurdo, a esquerda presente e anti-imperialista

No Rio, Losurdo ressalta o referencial marxista para análise das contradições do século XX

Cezar Xavier Publicado em 23.06.2015

Nesta segunda-feira, 22 de junho, o mundialmente reconhecido historiador e filósofo marxista, Domenico Losurdo, esteve no Rio de Janeiro, onde lotou o auditório do Conselho Regional de Economistas (Corecon).

Losurdo comandou a Conferência “Marx e o balanço histórico do século XX” e promoveu o lançamento de dois de seus livros: “Marx e o balanço histórico do século XX”, da Editora Anita Garibaldi, e “A luta de classes: uma história política e filosófica”, da Boitempo Editorial. A palestra foi transmitida ao vivo pela internet, onde mantém o arquivo integral do evento, com tradução.

O evento fez parte de uma extensiva agenda do italiano pelo Brasil, desde o dia 10 de junho, quando participou do Seminário Internacional Cidades Rebeldes, no Sesc Pinheiros, prosseguindo por conferências em Santo André (SP), São Paulo (SP) e São Luís (MA). Após o debate no Corecon-RJ, Losurdo prossegue para Niterói, de onde parte para São Paulo e Itália.

Losurdo realizou uma exposição acerca do processo político do século XX, salientando o papel do marxismo e dos movimentos revolucionários e anticoloniais para as transformações históricas. “O marxismo e o movimento comunista entenderam pela primeira vez a questão da liberdade e da democracia no sentido fundamental dos termos. A doutrina de Marx e Engels mudou o mundo a partir de um gigantesco processo de emancipação. Os movimentos revolucionários comunistas mudaram radicalmente a face do mundo”.

A partir destas premissas que enfatizam as lutas de classes como motores da história, desde a Primeira Guerra Mundial, prosseguindo até as atuais guerras e ameaças de guerra no Oriente. Losurdo desmascara a lógica liberal, desde os seus principais ideólogos no século XIX, que justificavam a escravidão negra e a submissão dos povos coloniais às potências imperiais. A Revolução Russa altera a correlação de forças, transformando o capitalismo, que passa a incorporar demandas proletárias para resistir ao avanço comunista.

Marx, cujo bicentenário acontece em 2018, aponta a contradição fundamental do liberalismo em relação aos conceitos de democracia, liberdade do indivíduo e da inviolabilidade da privacidade pessoal. Losurdo desconstrói a falácia do liberalismo no Ocidente que aponta a conquista dos direitos e da democracia como consequência do desenvolvimento do liberalismo. Ele afirma que tal modelo é marcado por cláusulas de exclusão assustadoras, bárbara discriminação entre os seres humanos, que negou a liberdade aos povos de origem colonial, aos trabalhadores pobres e às mulheres. Ele cita John Stuart Mill que em meados do século XIX afirma: "Despotismo é uma forma legítima de governo quando se trata de bárbaros” para lembrar que a escravidão e o liberalismo funcionaram juntos na Inglaterra e nos Estados Unidos.

O intelectual italiano ressaltou o papel do movimento marxista que, segundo ele, foi capaz de compreender a liberdade através da visão universal, onde o princípio da liberdade do ser humano reside na possibilidade de usufruir dela independente de qualquer coisa: "um homem ou uma mulher que passa fome está numa situação de total ausência de direitos, que prova a liberdade própria dos escravos". Dessa forma, o movimento inspirado por Marx e Engels contestou a tradição liberal e a liberdade burguesa-democrática.

Um século e meio de história que teve início com a Revolução de Outubro, permeada pelas teorias de Marx e Engel, tiveram desdobramentos como o fim da escravidão, a realização do estado de bem estar social e acarretou um processo de emancipação. Dessa forma, a democracia moderna através do debate de ideias e da luta do proletariado tornou o conceito de liberdade mais concreto e mais rico.

Na sua exposição Losurdo faz questão de evidenciar duas criticas à teoria de Marx e Engels, para ele fruto da influência anarquista. A primeira se refere à possibilidade de destruição do Estado, já que não podemos pensar em todos os seres humanos vivendo juntos sem uma organização. Não podemos supor que todos os indivíduos vão respeitar a vivência coletiva, que não existam contradições ao se acabar com a exploração econômica. É necessário acabar com o poder gerencial por parte da burguesia sob o Estado, com o poder político de garantia dos direitos da classe dominante. Principalmente no momento de transição do capitalismo ao socialismo, é fundamental o debate sobre as funções do Estado e como a organização da sociedade vai se dar.

A outra critica é bem conhecida e muito importante no momento político que vivemos no mundo, pois tem a ver com o novo momento imperialista do capitalismo mundial. A dominação do capital é internacional e, entender a luta pela soberania nacional como catalisador da mobilização do comunismo internacional, é fundamental.

Após a exposição, o debate foi aberto com a oportunidade dos presentes na Conferência comentarem e questionarem o pensador marxista. Foram feitas indagações sobre a questão do Estado, na acepção marxista, a questão dos partidos e dos sindicatos, a questão da luta de classes na China, assim como o avanço da direita na atualidade. Losurdo aproveitou para expandir sua análise, reafirmando os temas abordados. "O governo Lula deve ser considerado de direita ou esquerda?". Losurdo respondeu que precisamos sempre identificar quem classifica os governos como direita e esquerda. "Analisar um poder político fora da dinâmica internacional, pode não nos fazer enxergar os desafios da humanidade".

A Conferência, que foi organizada pela Fundação Maurício Grabois, aconteceu no auditório do Corecon-RJ, no centro da capital fluminense. Além de Losurdo, compuseram a mesa o presidente estadual do PCdoB, João Batista Lemos; a líder da bancada comunista na Câmara Federal, deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ); e o presidente estadual da Fundação Maurício Grabois-RJ, Caíque Tibiriçá.

Abaixo, Losurdo com membros da Seção Fluminense da Fundação Maurício Grabois: