Especiais - Jorge Mautner, artista brasileiro, sensibilidade comunista

Oficialmente paulistano, Mautner celebra o “abraço instantâneo” brasileiro

Cezar Xavier Publicado em 04.12.2013

Vindo como refugiado do nazismo no ventre da mãe, o influente músico carioca reafirma na Câmara de São Paulo, ao receber o título de cidadão paulistano, sua visão tropicalista, antropofágica e comunista sobre o Brasil.

O salão da Câmara era nobre, mas o clima na plateia era bem popular. Jorge Mautner foi recebido por potpourris de marchinhas de carnaval, chorinhos, frevos e sambas, tocados pela banda de sopros da Câmara Municipal de São Paulo. O clima já era de baile, quando a “solenidade” começou para uma homenagem ao cantor, compositor, poeta e escritor paulistano, proposta pelo vereador Orlando Silva (PCdoB).

A festa tropicalista invadiu a Câmara para reafirmar algo que todos já sabem, mas era preciso oficializar: Jorge Mautner é paulistano. Mesmo tendo nascido no Rio de Janeiro... Afinal, suas composições, seus textos, seus poemas, sua prosódia, suas rimas, suas melodias, as harmonias e os ritmos, se aliam ao que de mais vanguardista temos na literatura e na música feita por inúmeros artistas paulistanos. Como ele mesmo disse, na noite de ontem, quem acredita que “atrás do arranha-céu tem o céu tem o céu e depois tem outro céu sem estrelas” poderia ser composta em outra cidade que não esta?

Quem vive nesta cidade, desde sempre aprende a conviver com misturas inusitadas e originais de brasileiros. Dessas misturas que Mautner chama de amálgama e que explicitam o jeito brasileiro de ser no mundo. “Diferente de outros povos, somos amálgama. Outros países têm multiculturalismo, pluralidade cultural, mas não amálgama”, diz ele, distinguindo o modo como os outros convivem com a diferença, mantendo uma certa distância. Aqui, não! Aqui não há reservas quanto ao outro. Se é "gostoso" ser daquele jeito, também quero ser assim. No Brasil, a mestiçagem é nossa maior riqueza, defende Mautner. Como defendem longas linhagens de tropicalistas, e outras "espécies" de artistas e intelectuais antropofágicos.

A solenidade desta noite quente de dezembro tinha o objetivo também de abafar um pouco da inveja que, nós, paulistanos, temos dos primeiros sete anos do menino judeu/austríaco/iugoslavo/carioca. Foi nesses anos cariocas que Mautner recebeu o que considera sua formação afetiva, sob o "carinho total" de sua babá Lúcia, que era ialorixá do candomblé. Daquelas mulheres negras que ora vestiam uniforme de babá, ora vestiam-se como rainhas africanas e iam exercer seus mistérios religiosos com o garoto Henrique George no colo. Não deu pra sair desse elemento de amálgama ileso. Mautner já chegou a São Paulo vestido com as vestes da matriz africana que cobriam o corpo europeu resgatado da Europa nazista. Tudo isso, numa época em que essas práticas afro eram mal vistas pela sociedade branca.
Mas foi aqui, diz ele, que houve sua formação total para as artes e para a sensibilidade comunista, a partir do contato com amigos como o filósofo João Quartim de Moraes e depois Mario Schenberg. Aos dezessete anos, já compusera A Bandeira do meu Partido, música que sempre faz questão de cantar quando encontra-se entre camaradas, sempre carregada da emoção original que o estimulou a compô-la. Foi assim que quis encerrar a solenidade de ontem.

Foi em São Paulo que passou a carregar o violino debaixo do braço, por influência do padrasto violinista do Teatro Municipal, que tocava pelas rádios da cidade com cantoras do calibre de Aracy de Almeida. Sua vizinhança era a Escola de Samba Vai-Vai, do Bixiga, onde não tinha como fugir da batucada e do samba, era preciso render-se a eles.

Como intelectual que é, Mautner tem amplas referências de brasileiros notáveis que enxergavam e defendiam a originalidade da identidade brasileira, como o paulista universal José Bonifácio de Andrada. Outras referências paulistas são lidas por Mautner com seu jeito peculiar de entender o Brasil: quando os japoneses chegaram para o cultivo de café em São Paulo, a umbanda logo criou o orixá samurai. Foi em 1954, na festa do 4º. Centenário, durante a inauguração do Parque do Ibirapuera, que, pela primeira vez, Mautner ouviu o maracatu, outro ritmo que nasce do candomblé. “São Paulo recebeu todo mundo e a integração é total o tempo todo”, diz ele, lembrando o modo como todos os tropicalistas foram recebidos na metrópole, deixando sua marca.

“Os tupis, que deram origem a este país inacreditável, trazem o mito do mistério como base da sua relação com aquele que vem de fora. Tudo que é estranho, diferente e forasteiro, ao invés de estraçalhado, rejeitado e expulso, aqui é pra ser amado, para ser desvendado em seu mistério”, explicou, mais uma vez, ontem. Tudo isso, para mostrar que “é assim o tempo todo, no Brasil”, como repetiu várias vezes enquanto era recebido documentalmente nos braços paulistanos. “Esse abraço instantâneo não tem em nenhum outro lugar do mundo”.

Ainda que esteja cravada na alma brasileira a hospitalidade, as notas tristes de sua trajetória atravessam os anos de chumbo de ditadura militar, quando é preciso deixar o país para continuar vivo. Ainda assim, Mautner volta logo, animado pela crença de que o povo só acreditaria que as coisas podiam melhorar e mudar através dos shows e canções.

Mautner destaca, além dos shows catárticos que ocorriam em meio às trevas de tortura e repressão, um adendo impressionante de solidariedade inédita entre religiosos importantes, com a morte do jornalista Vladimir Herzog, sob tortura. Toda a reflexão vertida de forma verborrágica por Mautner é pontuada, constantemente, por esta sensibilidade mística e cristã, em que gestos de solidariedade e carinho pelos que sofrem são exaltados como eventos civilizatórios carregados de emoção e afetividade. “Tanto a matemática, quanto o planejamento do partido, são feitos de emoção”, disse ele aos cidadãos que afluíram à Câmara Municipal para ouvi-lo e entender um pouco de sua lógica.

Mautner não esqueceu de saudar João Amazonas, dirigente histórico do Partido Comunista, a quem conheceu e de dedicar o título de cidadania ao eterno parceiro Nelson Jacobina, com quem conviveu durante 40 anos e que sempre acompanhou os eventos do Partido, quando convidado.


Homenagem singela
A solenidade foi um desfile de homenagens ao homem que tenta-se alcançar em sua complexidade de pensamento e influência, mas parece sempre escapar por entre as tentativas de defini-lo. Estavam lá para esta tarefa o presidente da Câmara, vereador José Américo (PT), a vice-prefeita de São Paulo, Nádia Campeão (PCdoB), o presidente da Fundação Maurício Grabois, Adalberto Monteiro e o proponente da iniciativa, vereador Orlando Silva (PCdoB). Compareceram também o dirigente nacional do PCdoB, Walter Sorrentino, o dirigente municipal do PCdoB, Jamil Murad, a deputada estadual Lecy Brandão (PCdoB), o deputado estadual Alcides Amazonas (PCdoB), Laura Moraes, representando o secretário municipal de Cultura, Juca Ferreira, além de sindicalistas, lideranças comunitárias, gestores públicos e gestores de cultura. Mautner recebeu mensagens de congratulações do prefeito Fernando Haddad, do governador Geraldo Alckmin, dos vereadores paulistanos e de personalidades como o arquiteto Ruy Ohtake, do músico Clemente Nascimento e da jornalista Astrid Fontenele.

José Américo admitiu ser influenciado culturalmente por Jorge Mautner em sua criatividade, respeito e generosidade, com senso de justiça e liberdade, “mas com muita rebeldia”. “Jorge Mautner é daqueles compositores que influenciam e ajudam a formar o conceito da música popular brasileira, da música de vanguarda que olha para a frente”.

Nadia lembrou Niemeyer que dizia que sua arquitetura não era nada. “O que é importante são as ideais, as pessoas, a vida, a sociedade que queremos”, diz ele. Para ela, o que mais marca Mautner é essa luta pela coerência, defendendo um ideal e o socialismo, sendo uma pessoa integra.

Adalberto Monteiro, também poeta, comparou Mautner a um cometa, que a há mais de meio século risca o céu da cultura brasileira, desbravando fronteiras da arte, provocando espanto, encantando e agregando gente. “Num mundo dividido, desce cedo tomou partido, e se viu acometido pela paixão avassaladora do amor ao povo brasileiro”, ressaltou ele.

Mautner foi aplaudido quando Monteiro lembrou que, em dias de festa e em momentos de festa, ele soube demonstrar seu amor pelo povo brasileiro, assim como nos tempos de censura, perseguição e de exílio. “Tomou partido e, ante as desgraças e injustiças, cultiva uma convicção desde a mais tenra juventude. Em alternativa a esse mundo de iniquidades e guerra, defendeu a alternativa de uma nova sociedade”.

“Para Mautner, O brasileiro é um otimista que não se rende aos obstáculos. O povo brasileiro sabe encontrar uma saída e tira de letra obstáculos que pareciam intransponíveis.” Monteiro diz que Mautner traz em sua trajetória essa marca expressiva do povo brasileiro, “gente que trabalha, que canta e dança”.

Monteiro afirmou que Sao Paulo o reconhece, o enaltece e se orgulha de tê-lo como filho. “Tanto fizeste por esta cidade, quantas alegrias proporcionastes a essa gente que tanto trabalha”, destacou.

O vereador Orlando disse que não poderia terminar 2013 sem fazer “essa singela homenagem” a Mautner, a que mais o deixou feliz durante este ano todo. Orlando o definiu como um homem de pensamento que dedica sua vida a fazer arte, literatura, música e pensar caminhos para que o Brasil seja um país mais justo e melhor. “O Brasil ideal do Mautner é o Brasil plural, esse amálgama, essa fusão que produziu essa confusão maravilhosa que é o nosso país”.

O vereador destacou seu compromisso profundo com a democracia exposta na militância cultural durante a ditadura militar. “ A Câmara de São Paulo é que é homenageada esta noite. Quando voltarem para suas casas, podem dizer que estivemos juntos numa homenagem para um grande brasileiro, um grande homem de ideias”.