Especiais - Bicentenário de Karl Marx: Desbravar um Mundo Novo no Século XXI

Meu caminho para Marx

Georg Lukács Publicado em 18.03.2013

“Mein Weg zu Marx” foi publicado na revisa moscovita Internationale Literatur, n. 2, em 1933, tendo sido reproduzido em G. Lukács zum Siebzigsten Gebeertstag (Berlim, Aufban, 1955).

A relação com Marx é a verdadeira pedra de toque para todo intelectual que leva a sério a elucidação da sua própria concepção de mundo, o desenvolvimento social, em particular a situação atual, o seu próprio lugar nela e o seu próprio posicionamento em relação a ela. A seriedade, o escrúpulo e a profundidade com que ele se dedica a esta problemática nos indica em que medida ele quer, consciente ou inconscientemente, esquivar-se de um claro posicionamento com relação às lutas da história atual. Os esboços biográficos que tratam da relação com Marx, da luta espiritual com o marxismo, dão-nos, por vezes, um quadro que, enquanto contribuição à história da luta social dos intelectuais no período imperialista, possui um interesse geral, mesmo quando, como no meu caso, a biografia em si não tenha nenhuma pretensão de interessar ao público.
Foi ao terminar os meus estudos secundários que se deu o meu primeiro encontro com Marx (com o Manifesto comunista). A impressão foi extraordinária e, quando estudante universitário, li então algumas obras de Marx e Engels (como, por exemplo, O 18 brumário, A origem da família) e, em particular, estudei a fundo o primeiro volume de O capital. Esse estudo me convenceu rapidamente da exatidão de alguns pontos centrais do marxismo. Em primeiro lugar, fiquei impressionado com a teoria da mais-valia, com a concepção da história como história da luta de classes e com a articulação da sociedade em classes. Naquele momento, como é óbvio no caso de um intelectual burguês, essa influência se limitou à economia e, sobretudo, à “sociologia”. Considerava a filosofia materialista – não distinguia o materialismo dialético do não dialético – completamente superada, enquanto teoria do conhecimento. A tese neokantiana2 da “imanência da consciência” ajustava-se perfeitamente à minha posição de classe na época; não a submetia a qualquer exame crítico, mas a aceitava passivamente como ponto de partida de toda e qualquer colocação do problema gnosiológico.
Na verdade, mantinha uma constante suspeita frente ao extremado idealismo subjetivo (tanto o da escola neokantiana de Marburgo quanto o da teoria de Mach), uma vez que não conseguia compreender como era que o problema da realidade podia ser definido, considerando-a simplesmente uma categoria imanente da consciência. Mas, embora isso não me tenha conduzido a conclusões materialistas, acabou levando-me muito mais a uma aproximação com aquelas escolas filosóficas que queriam resolver este problema de forma irracionalista e relativista e, até muitas vezes, mística (Windelband-Rickert, Simmel, Dilthey). A influência de Simmel3, de quem fui discípulo direto, deu-me ainda a possibilidade de “inserir” numa tal concepção de mundo tudo o que havia assimilado de Marx nesse período. A filosofia do dinheiro de Simmel e os escritos sobre o protestantismo de Max Weber foram os meus modelos para uma “sociologia da literatura”, na qual os elementos derivados de Marx estavam mais uma vez presentes, mas tão diluídos e empalidecidos que eram quase irreconhecíveis.
Seguindo o exemplo de Simmel, eu, de um lado, separava o quanto possível a “sociologia” do fundamento econômico, concebido de modo bastante abstrato, e, de outro lado, via na análise “sociológica” apenas o estágio inicial da verdadeira e real pesquisa científica no campo da estética (História da evolução do drama moderno, 1909; Metodologia da história literária, 1910, ambas em húngaro). Os meus ensaios publicados entre 1907 e 1911 oscilavam entre este método e um subjetivismo místico.
Era natural, com tal desenvolvimento da minha concepção de mundo, que as impressões que tivera da leitura de Marx, na minha juventude, fossem empalidecendo cada vez mais e acabassem por desempenhar um papel cada vez menor na minha atividade científica. Considerava, não menos do que anteriormente, Marx o economista e o “sociólogo” mais competente; mas a economia e a “sociologia” ocupavam neste período um papel insignificante nesta atividade. Ao leitor não interessam as singularidades e as diferentes fases deste desenvolvimento, através do qual este idealismo subjetivo me conduziu a uma crise filosófica. Mas esta crise – sem que de imediato eu soubesse – foi determinada objetivamente pela manifestação mais intensa das contradições imperialistas e foi precipitada com a eclosão da Guerra Mundial4. Decerto, esta crise se manifestou, de início, apenas na minha passagem do idealismo subjetivo ao idealismo objetivo (Teoria do romance, escrita entre 1914-15) e, naturalmente, Hegel adquiriu para mim uma importância cada vez maior, em particular a Fenomenologia do espírito. O meu segundo estudo intenso de Marx começa com a minha compreensão, cada vez maior, do caráter imperialista da Guerra, com o aprofundamento dos meus estudos de Hegel, no decorrer dos quais me aproximei também de Feuerbach, embora, naquele momento, me interessasse apenas pelo aspecto antropológico. Os escritos filosóficos da juventude de Marx passaram a ser o ponto central de meu interesse, embora ainda estudasse com paixão a grande “Introdução” à Crítica da economia política. Desta vez, porém, não se tratava mais de um Marx visto da lente de Simmel, mas através da perspectiva hegeliana. Marx deixava de ser o “eminente especialista”, o “economista e sociólogo”; já começava a delinear-se para mim o grande pensador, o grande dialeta. No entanto, naquela época, ainda não compreendia o significado do materialismo para a concretização, unificação e colocação coerente das questões dialéticas. O máximo que cheguei a postular foi uma prioridade – hegeliana – do conteúdo sobre a forma e procurei, sobre base essencialmente hegeliana, sintetizar Hegel e Marx numa “filosofia da história”. Essa tentativa adquiriu uma tonalidade particular porque no meu país, a Hungria, a ideologia “socialista de esquerda” mais influente era o sindicalismo de Ervin Szabó5. Os seus escritos sindicalistas, apesar de terem influenciado os meus “ensaios de filosofia da história” com vários elementos positivos (como, por exemplo, o fato de ter-me posto em contato com a Crítica do Programa de Gotha), deram um caráter acentuado de subjetivismo abstrato e, portanto, idealístico-ético aos meus escritos. Isolado, enquanto intelectual universitário, do movimento operário ilegal, não pude tomar conhecimento, durante o conflito, nem dos escritos dos espartaquistas, nem dos ensaios de Lênin sobre a Guerra. Li, porém, com efeitos profundos e duradouros, os escritos, anteriores à Guerra, de Rosa de Luxemburgo. Li O estado e a revolução de Lênin somente no período revolucionário de 1918-19.
As revoluções de [19]17 e [19]18 surpreenderam-me no bojo dessa efervescência ideológica. Em dezembro de 1918, depois de breve hesitação, ingressei no Partido Comunista Húngaro e, desde então, permaneci nas fileiras do movimento operário revolucionário. O trabalho prático logo me obrigou a dedicar-me aos escritos econômicos de Marx, a um estudo mais profundo da história, da história econômica, da história do movimento operário etc., empenhando-me, assim, numa contínua revisão dos fundamentos filosóficos. Todavia, essa luta para dominar a dialética marxista prolongou-se por muito tempo. As experiências da revolução húngara6 mostraram- me claramente a fragilidade de todas as teorias sindicalistas (a função do partido na revolução), mas persistiu em mim, ao longo dos anos, um subjetivismo ultraesquerdista (por exemplo, minha posição nos debates em 19207, sobre a ação parlamentar e a minha atitude em relação ao movimento de março de 1921)8. Tudo isso me impedia de compreender, de modo correto e verdadeiro, o aspecto materialista da dialética no seu significado filosófico mais abrangente. O meu livro História e consciência de classe (1923) mostra muito claramente essa transição. Apesar da tentativa, já consciente, de superar e “eliminar” Hegel através de Marx, problemas decisivos da dialética foram resolvidos nesta obra de maneira idealista (dialética da natureza, teoria do reflexo etc.). A teoria de Rosa de Luxemburgo sobre a acumulação do capital, à qual ainda me atinha, misturava-se de modo não orgânico com um ativismo subjetivista de ultraesquerda.
Somente a íntima adesão ao movimento operário, devida a uma prática de muitos anos, e a possibilidade que tive de estudar as obras de Lênin e pouco a pouco compreender seu significado fundamental, propiciaram o terceiro período de meu interesse por Marx. Somente agora, depois de quase uma década de trabalho prático e depois de mais de um decênio de esforço intelectual para compreender Marx, é que o caráter total e unitário da dialética materialista se tornou claro em termo concreto para mim. Mas justamente essa clareza trouxe também consigo o reconhecimento de que o verdadeiro estudo do marxismo só está começando agora e não pode mais parar. Porque, como disse Lênin, com toda razão, “o fenômeno é mais rico do que a lei... e por isso a lei, qualquer que seja, é estreita, incompleta, aproximativa”. Isto quer dizer: quem tiver a ilusão de ter compreendido, de uma vez por todas, os fenômenos da natureza e da sociedade, baseado num conhecimento, por mais vasto e profundo que seja, do materialismo dialético, terá necessariamente se deslocado da dialética viva para a rigidez mecânica, do materialismo abrangente para a unilateralidade do idealismo. O materialismo dialético, a doutrina de Marx, deve ser conquistada a cada dia, assimilada a cada hora, a partir da práxis. Por outro lado, a doutrina de Marx, em sua inatacável unidade e totalidade, constitui a arma para a condução da prática, para o domínio dos fenômenos e de suas leis. Se dessa totalidade for destacado (ou apenas subestimado) um só elemento constitutivo, teremos de novo a rigidez e a unilateralidade. Basta que se perca a relação dos momentos uns com os outros, e lá se vai o chão da dialética marxista sobre o qual apoiamos os pés. “Pois qualquer verdade – diz Lênin – se a exagerarmos, se ultrapassamos os limites de sua validade, pode tornar-se um absurdo; aliás, é inevitável que, em tais circunstâncias, ela se torne um absurdo.”
Passaram-se mais de 30 anos desde o dia em que, jovem ainda, li pela primeira vez o Manifesto comunista. O progressivo aprofundamento – ainda que contraditório e não linear – das obras de Marx tornou-se a história do meu desenvolvimento intelectual e, portanto, tornou-se também a história de toda a minha vida, na medida em que ela possa ter algum significado para a sociedade. Parece-me que, no período posterior a Marx, a tomada de posição em relação ao seu pensamento deve constituir o problema central de todo pensador que leve a sério a si próprio, e que o modo e o grau com que ele se apropria do método e dos resultados de Marx determinam o seu lugar no desenvolvimento da humanidade. Esse desenvolvimento está determinado pela situação de classe, se bem que essa determinação não é rígida, mas dialética. A nossa posição na luta de classes determina amplamente o modo e o grau que assumimos o marxismo, mas, por outro lado, todo novo progresso nessa adoção nos faz aderir cada vez mais à vida e à práxis do proletariado e redunda beneficamente no aprofundamento da nossa relação com a doutrina marxista (1933).
Postscriptum (1957)
As linhas precedentes foram escritas, como todos podem perceber, num estado de extrema tensão, que não era decorrência, apenas, do fato de que eu, depois de tantas aventuras intelectuais, finalmente sentia, com quase 50 anos de idade, o terreno firme sob os meus pés: os acontecimentos dos últimos 15 anos também contribuíram fortemente para tal estado de ânimo. Já falei dos primeiros anos da Revolução, mas não dos anos que se seguiram à morte de Lênin. Como companheiro de luta, vivenciei a ação de Stalin para salvar a verdadeira herança de Lênin contra Trotsky, Zinóviev etc., e vi que desse modo as conquistas transmitidas por Lênin foram preservadas e adaptadas ao próprio desenvolvimento posterior. (Sobre o período de [19]24 a [19]30, os anos transcorridos e as experiências correspondentes não mudaram a minha opinião em nada de essencial.)9.
Acrescente-se a isso que o debate filosófico de [19]29 a [19]3010 deu-me a esperança de que a elucidação das relações Hegel-Marx, Feuerbach-Marx, Marx-Lênin e o afrouxamento de uma assim chamada ortodoxia plekhanovista, abririam novos horizontes à pesquisa filosófica. Além disso, a dissolução da RAPP (1932)11, associação à qual sempre me opus, abriu para mim e para muitos uma grande perspectiva: a de uma retomada, sem obstáculos burocráticos, da literatura socialista, da metodologia e da crítica literária marxista. É necessário salientar que nessa expectativa havia dois componentes igualmente relevantes: a ausência de limites impostos por uma burocracia e o caráter marxista-leninista. Se se acrescentar que nós mesmos, naqueles anos, conhecemos as obras fundamentais do jovem Marx, sobretudo os Manuscritos econômico-filosóficos como também os Cadernos filosóficos de Lênin, terei apontado aqueles fatos que trouxeram grandes esperanças no início da década de [19]30.
Essas esperanças foram perdendo-se pouco a pouco na medida em que, naquele momento também, qualquer ideia (para sermos otimistas) que se distanciasse do modelo imposto esbarrava numa surda e agressiva resistência. No princípio, eu e muitos outros acreditávamos estar diante dos restos de um passado não totalmente superado: adeptos da RAPP, sociólogos vulgares etc. Mais tarde, compreendemos que todas estas tendências contrárias ao progresso do pensamento tinham sólido apoio burocrático. Entretanto, acreditamos, por algum tempo, que este sistema de defesa do dogmatismo tivesse, no final das contas, um caráter casual: muitos de nós, algumas vezes, suspirávamos pensando em Stalin: “Ah, si le roi le savait!”12. Evidentemente, essa situação não podia durar indefinidamente. Foi necessário reconhecer que a origem do confronto das correntes progressistas, que enriqueciam a cultura marxista, com a opressão dogmática de uma burocracia tirânica sobre todo o pensamento autônomo, deveria ser buscada no próprio regime de Stalin e, portanto, também, na sua pessoa.
Quando, no entanto, tratava-se de tomar posição em relação a esses acontecimentos, toda pessoa consciente tinha de partir da situação histórica do momento: a ascensão de Hitler e a preparação de sua guerra de aniquilamento do socialismo. Sempre foi claro para mim que eu deveria subordinar tudo, de maneira incondicional, a toda decisão que esta situação impunha, inclusive aquilo que pessoalmente me era mais caro: a própria obra de minha vida. Acreditava que o principal compromisso de minha vida consistia em empregar corretamente a concepção marxista- leninista nas áreas de meu conhecimento, em fazê-la avançar na medida em que a descoberta de novos dados assim o exigisse. Na medida em que a questão central, do período histórico em que minha atividade se desenvolveu, consistia na luta pela sobrevivência do único estado socialista e, portanto, do próprio socialismo, eu obviamente subordinava cada tomada de posição, mesmo em relação a minha própria obra, às necessidades do momento. Isso nunca significou, todavia, uma capitulação diante de todas as tendências ideológicas que se formaram, propagaram- se e enfim se dissolveram ao longo dessa luta. Ao mesmo tempo, estava certo não apenas da impossibilidade física de uma oposição naquele momento, mas também que essa oposição poderia, facilmente, tornar-se num apoio intelectual e moral ao inimigo mortal, ao destruidor de toda a civilização.
Por isso, fui obrigado a conduzir uma espécie de guerra de guerrilha pelas minhas ideias científicas, ou seja, através de citações de Stalin etc. tornar possível a publicação de meus trabalhos e de expressar neles, com a cautela necessária, a minha opinião dissidente, tanto quanto os limites do movimento histórico aos poucos o permitisse. Consequentemente, às vezes, era imperativo calar-se. Por exemplo, sabe-se que durante a Guerra foi decidido declarar Hegel ideólogo da reação feudal contra a Revolução Francesa; naturalmente, não pude publicar meu livro sobre o jovem Hegel. Pensava que certamente a Guerra poderia ser vencida mesmo não se recorrendo a semelhantes tolices (Dummheit) sem bases científicas, mas uma vez que a propaganda anti-hitleriana estava ocupando-se justamente disso, era mais importante no momento vencer a Guerra do que questionar sobre a justa concepção de Hegel. Sabe-se que esta tese errônea foi mantida por muito tempo, mesmo depois da Guerra, mas é igualmente sabido que depois pude publicar o meu livro sobre Hegel sem mudar uma só linha.
Tratava-se, porém, de problemas sociais muito mais graves do que este, que naquele momento evidenciavam cada vez mais o aspecto negativo dos métodos stalinistas. Refiro-me, naturalmente, aos grandes processos, cuja legalidade, desde o início, via com ceticismo, à semelhança, por exemplo, dos processos contra os girondinos, os dantonianos etc. na grande Revolução Francesa; ou seja, reconhecia sua necessidade histórica sem preocupar- me demais com a questão de sua legalidade. (Hoje penso que Kruschev tinha razão ao salientar energicamente a superficialidade política desses processos.) Minha posição mudou radicalmente quando se difundiu a palavra de ordem de extirpar pela raiz o trotskismo etc. Compreendi desde o princípio que a consequência disso não seria mais do que a condenação em massa de pessoas, na sua maioria, totalmente inocentes. E se hoje me perguntassem por que não me posicionei publicamente contra, não colocaria em primeiro plano, nem mesmo desta vez, a impossibilidade física (vivia na União Soviética como exilado político)13, mas a impossibilidade moral: a União Soviética encontrava-se na iminência da luta decisiva contra o fascismo. Um comunista convicto podia apenas dizer: “right or wrong, my party”14. Eu e muitos companheiros pensávamos que, diante de qualquer coisa que fosse feita nessa situação pelo partido dirigido por Stalin, era necessário permanecer incondicionalmente solidário nessa luta, colocando esta solidariedade acima de tudo.
O final vitorioso da Guerra mudou radicalmente toda a situação. Depois de um exílio de vinte 26 anos, pude retornar à pátria. Parecia-me que estávamos entrando num novo período, no qual havia se tornado possível, como durante a Guerra, uma aliança de todas as forças democráticas, socialistas e burguesas contra a reação. O meu discurso nos Encontros Internacionais de Genebra em 194615 expressou claramente este estado de ânimo. Estaria certamente cego, se não tivesse visto, a partir do discurso de Churchill em Fulton, como eram fortes as tendências contrárias no mundo capitalista, e quanto esforço certos grupos influentes do Ocidente faziam para liquidar a antiga aliança e se aproximarem política e ideologicamente dos ex-inimigos. Já em Genebra, Jean-R. de Salis e Denis de Rougemont apresentaram ideias que tendiam a excluir a Rússia da cultura europeia. Estaria igualmente cego se ignorasse que a reação a isso, no campo socialista, fez aflorar muitos traços daquela ideologia que eu, e muitos outros, esperávamos que se extinguisse com a paz e o reforço do socialismo, que ocorreu com o surgimento das democracias populares da Europa Central. Exatamente porque eu insisti neste esforço, imposto pela nova situação internacional (como sustentei e ainda sustento), quis aderir ao Congresso de Wroclaw (1948)16 e ao Movimento pela Paz, do qual sou seguidor convicto até hoje. É sintomático que o tema que tratei em Wroclaw tenha sido a unidade e a distinção dialética do adversário de ontem e de hoje, isto é, a reação imperialista.
O ano de 1948 assinalou, talvez, a mais importante mudança histórica desde 1917: a vitória da revolução proletária na China. Justamente em consequência dela se evidenciaram as contradições decisivas na teoria e na prática de Stalin. Já que esta vitória significava, objetivamente, que o período do socialismo num só país – tal como fora defendido, com razão, por Stalin contra Trotsky – pertencia definitivamente ao passado; o surgimento das democracias populares na Europa Central já representava uma passagem a uma nova realidade. Mas, no plano subjetivo, ficou evidente que Stalin e seus seguidores não queriam nem podiam extrair as consequências teóricas e, portanto, práticas da situação internacional, que se encontrava radicalmente modificada. O próprio Stalin, como homem muito sagaz que era, levou em conta, é claro, na sua atuação alguns sintomas e momentos da nova situação. No entanto, nunca o fez com verdadeira coerência, pois a ideia de que esta nova situação pudesse significar uma ruptura com os métodos do período do socialismo em um só país – método objetivamente derivado do constante estado de perigo de uma Rússia industrialmente atrasada, mas que ele próprio tinha levado muito além do quadro desta exigência – estava totalmente fora de seu horizonte. Aconteceu, então, que a nova situação mundial, que exigia categoricamente uma nova estratégia e uma nova tática, foi enfrentada através de uma ação em que, fatalmente, somavam-se e se agudizavam a velha estratégia e a velha tática: a ruptura da União Soviética com a Iugoslávia. Seguiu-se necessariamente a esta ação o retorno aos métodos da época dos grandes processos.
O que me ajudou, pessoalmente, a perceber a contradição entre o novo fundamento e a velha ideologia foi a discussão que se desenvolveu na Hungria em torno do meu livro Literatura e democracia17. Após a minha volta, em 1945, embora nunca tenha sido dirigente do Partido no sentido organizativo, esforcei-me continuamente em extrair consequências da nova situação, em buscar a passagem ao socialismo de um novo modo, gradual e na base da convicção. Os artigos e discursos contidos no livro que acabo de referir eram dedicados a este fim e, embora os considere, hoje, em diversos aspectos, deficientes, pouco claros e consequentes, vejo que se moviam na direção correta. A discussão mostrou a total impossibilidade de um diálogo fecundo com os ideólogos do dogmatismo.
Essa discussão e meu afastamento tático, ocorrido na época do processo Rajk18, proporcionaram-me a primeira grande vantagem de poder abandonar minha complexa atividade de funcionário e dedicar-me exclusivamente ao trabalho intelectual. Esta circunstância e a experiência da discussão sobre os grandes acontecimentos da época levaram-me ao reexame profundo dos problemas do marxismo-leninismo em relação aos métodos de Stalin e de seus seguidores. A convicção, cada vez maior, de que Stalin não havia compreendido aquilo que havia de decisivamente novo na situação tornava-se cada vez mais ampla e mais geral, em função de uma consciência mais profunda do passado. Da mesma forma, ficou evidente para mim que, embora a luta contra o fascismo tenha-se tornado o problema central, já na segunda metade da década de [19]20, seu significado não foi percebido por Stalin, senão cerca de uma década depois. Numa época em que a formação de uma frente unitária dos trabalhadores, assim como de todos os elementos democráticos, havia se tornado uma questão vital para a civilização humana, a tese de Stalin, da social-democracia como “irmã gêmea” do fascismo, tornou esta frente impossível. Ele se prendeu a uma estratégia e a uma tática que se justificavam na tempestade revolucionária de 1917 e logo em seguida, mas que, com seu abrandamento e com o desdobramento da grande ofensiva do capitalismo monopolista mais reacionário, haviam, objetivamente, envelhecido como um todo. Comecei a considerar o que aconteceu depois de 1948 como a repetição histórica do erro fundamental da década de [19]20.
Neste artigo, onde o tema próprio e verdadeiro é constituído pelo desenvolvimento interno das minhas ideias, é impossível até mesmo apenas indicar o sistema de pensamento que deu origem a estas concepções errôneas; note-se somente que a trágica dissensão no pensamento de Stalin era cada vez mais evidente para mim. Lênin, partindo da doutrina dos clássicos, evidenciou no início do período imperialista, a importância do fator subjetivo. Stalin construiu com isso um sistema de dogmas subjetivistas. A trágica dissensão consiste no fato de que seu grande talento, suas ricas experiências e a sua notável sagacidade conduziram-no, não raras vezes, a romper o círculo mágico do subjetivismo, ou melhor, a perceber claramente o erro aí contido. Portanto, parece- me trágico que ele inicie sua última obra com uma crítica correta ao subjetivismo econômico, mas sem manifestar a menor suspeita de ter sido ele próprio seu pai espiritual e constante impulsionador. Por outro lado, podem coexistir pacificamente, num tal sistema de pensamento, concepções decisivamente contraditórias. Por exemplo, a teoria das constantes contradições de classes, que necessariamente se aguçam, coexiste com a presença tangível do comunismo, segunda e superior etapa do socialismo.
Da fusão destas afirmações, reciprocamente excludentes, surgiu sua apreensão de uma sociedade comunista na qual o princípio libertador de “cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo as suas necessidades”, realiza-se em um estado policial, regulado de forma autocrática etc. etc.
Stalin, a quem se deve reconhecer o grande mérito de ter defendido, contra Trotsky, o princípio leninista do socialismo num só país, e assim ter salvo o socialismo num período de crises internas, teve quase a mesma incompreensão, no período que se iniciou em 1948, que Trotsky teve em seu tempo em relação às necessidades de desenvolvimento da União Soviética. Que este retrocesso e esta incompreensão por parte de Stalin tenham facilitado a condução da guerra fria contra os adversários do imperialismo é coisa que hoje não poucos reconhecem.
Repito, aqui se tratava de descrever somente o desenvolvimento das minhas ideias e, sobretudo, destas ideias em relação aos problemas do marxismo. O que até agora foi dito sobre Stalin serviu somente para criar o pano de fundo e a atmosfera para uma colocação correta dos problemas. Se pensarmos no entusiasmo de uma parte considerável dos intelectuais, nos primeiros anos da revolução socialista, é necessário reconhecer que entre suas causas fundamentais estava a obra duplamente genial de renovação do marxismo por parte de Lênin. De um lado, ele expurgou os preconceitos relativos aos clássicos do marxismo que se desenvolveram vigorosamente durante décadas. Este trabalho de depuração mostrou a riqueza das concepções que não haviam sido evidenciadas até o momento na obra de Marx e de Engels. De outro lado, enfatizou, ao mesmo tempo, com inexorável senso de realidade que, para enfrentar os novos problemas postos pela vida, não podíamos nos apoiar nas “infalíveis” citações dos clássicos. No momento em que a NEP foi introduzida, ele respondeu, com uma ironia mordaz, a certo tipo de crítico marxista: “Nunca passou pela cabeça de Marx escrever uma só palavra sobre o assunto; morreu sem deixar nenhuma citação exata ou indicação irrefutável a esse propósito. Portanto, é necessário sairmos dessa sozinhos.”
Como já disse aqui, nos primeiros anos que se seguiram à morte de Lênin, eu nutria esperanças numa edificação leninista do marxismo. Também já descrevi exaustivamente a minha contínua e crescente desilusão. Concluindo estas considerações, é necessário sintetizar rapidamente o que há de essencial nesta situação do ponto de vista da teoria científica. Na medida em que se reforçou e se enrijeceu a dominação intelectual de Stalin, no culto à personalidade, a pesquisa marxista degenerou largamente numa exposição, numa ampliação e difusão de “verdades definitivas”. A resposta da vida e da ciência estava, segundo a orientação dominante, assentada nas obras dos clássicos, principalmente nas de Stalin. Inicialmente, Marx e Engels forma relegados cada vez mais fortemente a um segundo plano em relação a Lênin, e depois Lênin em relação a Stalin. Lembro-me bem, por exemplo, do caso de um filósofo que foi criticado porque tratava as determinações dialéticas de acordo com os Cadernos filosóficos de Lênin. Foi lembrado a ele que Stalin havia arrolado, no quarto capítulo da História do Partido, um número menor de diferenciações da dialética e, portanto, havia fixado definitivamente seu número e sua natureza. Tratava-se, então, de encontrar para cada problema a citação mais apropriada de Stalin. “O que é uma ideia?” perguntou uma vez um companheiro alemão. “É uma ligação entre duas citações.” Seria verdadeiramente injusto afirmar, entretanto, que a porta para um desenvolvimento posterior do marxismo-leninismo tivesse sido totalmente fechada. Stalin possuía o privilégio de enriquecer o tesouro das verdades eternas com novas verdades eternas e colocar fora de circulação uma verdade até então considerada irrefutável.
Não é necessário demonstrar que neste sistema a vida científica sofria gravemente. Basta indicar, apenas, que as ciências mais importantes do ponto de vista teorético para o desenvolvimento do marxismo, a economia política e a filosofia, foram quase completamente paralisadas. O desenvolvimento das ciências naturais foi menos prejudicado; apesar de terem ocorrido conflitos ou até crises, o seu avanço prático era questão vital que não era possível de modo algum opor-lhe obstáculos, ao contrário, no campo da mera aplicação prática, era até mesmo fortemente promovido. Para essas disciplinas, as perigosas consequências da estéril “citatologia” nas questões metodológicas ou nos conceitos básicos se manifestavam mais marginalmente.
Eu não era, de modo algum, o único que conduzia uma guerra de guerrilha contínua contra este espírito de enrijecimento. Mas a partir da morte de Stalin e, especialmente, depois do XX Congresso, este complexo de problemas entrou num estágio qualitativamente novo; finalmente, todos estes problemas foram discutidos abertamente e os cientistas começaram a expressar-se publicamente de modo mais ou menos claro. Também com relação a isso, neste esboço de autobiografia intelectual, é impossível nem sequer acenar às discussões e às tendências que lá se manifestaram; devo, por isso, limitar-me a resumir minha própria opinião. Acredito que hoje o maior perigo para o marxismo esteja representado pela tendência revisionista. Exatamente porque durante décadas tudo que Stalin afirmava era identificado com o marxismo, proclamando-se, inclusive, o coroamento definitivo deste, os ideólogos burgueses se apressaram em utilizar a incorreção, agora evidente, de algumas teses de Stalin, e de aspectos essenciais de sua metodologia, com o objetivo de revisar também os produtos dos clássicos do marxismo, postos no mesmo nível de Stalin. É o caso de apontar-se para um perigo muito sério, na medida em que esta perspectiva de pensamento carrega consigo mais de um comunista, muitas vezes desarmado intelectualmente pela educação esquemática e dogmática. Entretanto, enquanto os dogmáticos vincularem a identidade substancial de Stalin com os clássicos do marxismo, estarão tão desarmados intelectualmente frente àquelas correntes (com sinal contrário), quanto os revisionistas de boa fé. Para a manutenção e o progresso do marxismo-leninismo é necessário que se encontre um “tertium datur” como solução para este beco sem saída; é necessário, portanto, extirpar o dogmatismo para combater o revisionismo.
Lênin foi o primeiro a indicar claramente o “ponto arquimédico” de apoio para esta necessária tomada de posição. Somente se estivermos conscientes de que o marxismo nos legou um método seguro, um número extraordinário de verdades sólidas, uma quantidade de pontos de partida, tanto mais seguros quanto mais forem desenvolvidos, de que não podemos fazer nenhum progresso real no caminho da ciência sem uma assimilação e aplicação aprofundada desses princípios; de que, no entanto, a elaboração de ciências universais sobre a base do marxismo é algo a ser desenvolvido e não alguma coisa já alcançada; se tudo isso for claramente compreendido se terá uma retomada da pesquisa marxista. Engels, antes de sua morte, indicou esta tarefa para os futuros marxistas; Lênin fez vários apelos nesta direção. Acredito que chegou o momento de cumprir esta solicitação. Quando dizemos: não temos ainda uma lógica, uma estética, uma ética, uma psicologia marxistas, não dizemos com isso nada que deva desencorajar. Pelo contrário, falamos com a paixão plena de esperança dos grandes e entusiásticos deveres científicos que poderão preencher fecundamente a vida de gerações inteiras.
Naturalmente, é impossível nestas rápidas linhas falar concretamente, mesmo apenas da possibilidade destes empreendimentos. Não me resta muito espaço, nem mesmo para tratar de meu próprio trabalho. Posso apenas dizer que o meu contato com os clássicos do marxismo me deu, pela primeira vez na vida, a possibilidade de compreender e avaliar os objetivos para os quais meus esforços sempre estiveram dirigidos: de apanhar com exatidão, de descrever fielmente e de exprimir verdadeiramente, como realmente são, os traços histórico-sistemáticos dos fenômenos da vida do espírito. A luta contra o dogmatismo foi, ainda deste ponto de vista, uma autodefesa. Estes fenômenos foram, certamente, deformados, na medida em que iniciei minha atividade sob a influência da ideologia burguesa. Entretanto, o dogmatismo, no seu evidente subjetivismo, era contra todo aprofundamento do objeto, contra toda generalização que partisse deste objeto. Aquele que tolera semelhante paradoxo na sua vida intelectual poderá somente oferecer belos dogmas e fotos totalmente desvinculados da realidade. A minha guerra de guerrilha contra o dogmatismo não apenas preservou a minha relação com a vida e com seus objetos, como também a promoveu. Se hoje posso trabalhar numa estética e posso sonhar com a realização de uma ética, devo-o a esta luta.
Justamente por isso escrevo também estas linhas num estado de ânimo cheio de tensão; sei bem que a luta por esse novo caminho está bem distante de ser concluída; aliás, vimos, e ainda hoje vemos, diversas recaídas no dogmatismo, com o correspondente reforço do revisionismo. Pessoalmente – e aqui falo somente em meu nome, no meu trabalho –, estou convencido de que o esforço sério na direção de uma ciência marxista universal pode dar à minha vida um conteúdo indestrutível. (A história julgará qual o valor objetivo da minha contribuição para esta obra. Não tenho autoridade para me pronunciar sobre isso.) Ainda hoje existem diversos obstáculos neste caminho. Desde seu surgimento, o movimento operário revolucionário teve de superar os mais diversos descaminhos ideológicos; até agora conseguiu superá-los e estou convencido de que o mesmo ocorrerá no futuro. Permitam-me, por isso, concluir com uma frase um pouco modificada de Zola: “La verité est lentement en marche et à la fin de les fins rien ne l’arrêtera.”19

Verinotio revista on-line – n. 12, Ano VI, out./2010, ISSN 1981-061X

1 “Mein Weg zu Marx” foi publicado na revisa moscovita Internationale Literatur, n. 2, em 1933, tendo sido reproduzido em G. Lukács zum Siebzigsten Gebeertstag (Berlim, Aufban, 1955). Com tradução para o italiano por Ugo Gemmelli foi publicado em Nuovi Argomenti, no 33, 1958. O “Postscriptum” foi escrito para o Simpósio sobre o Pensamento Contemporâneo, editado no Japão sob o título “Isvanami Gendai Schiso”. Em 1957 foi editado em italiano. Esta tradução foi publicada originalmente in Revista Nova Escrito/Ensaio especial – Marx Hoje, ano V, n. 11/12, 1983. Tradução para o português, a partir do texto integral traduzido por Ugo Gemmelli in Marxismo e politica culturale (Torino, Einaudi Editore, 1977), de Luiza L. S. Sakamoto, Marilene G. Pottes e M. Dolores Prades. Revisão técnica de Thereza Calvet de Magalhães. Notas da Edição Brasileira.
2 Naquele período, o neokantismo se constituía na tendência filosófica dominante no mundo de língua alemã; duas escolas prin- cipais compunham esta tendência: a escola de Marburgo, da qual faziam parte Cohen e Natorp, e a escola de Heidelberg, cujos principais exponentes eram Windelband e Rickert.
3 LukácsfoialunodeSimmelemBerlim,duranteosanos1909-10,assimcomoteveaulasemHeidelberg,noanode1913,com Windelband e Rickert, quando travou conhecimento com Emil Lask e Max Weber.
4 Lukácsrefere-seaquiaoestadodedesesperoproduzidopelaIGuerraMundial,aqualrepudioudemaneiraveementeeglobal; a perspectiva de uma vitória da Alemanha tinha o efeito de um pesadelo. Vivia em permanente tensão diante da situação mundial. Só o ano de 1917 traria a solução de problemas que até então considerava insolúveis, conforme ele mesmo explicita no Prefácio de 1962 à Teoria do romance.
5 OcontatodeLukácscomErwinSzábodatade1902.NaqueleanoLukácsseinscreveunaorganizaçãoEstudantesSocialistasRevo- lucionários de Budapeste, organizada por Szábo, influente anarcossindicalista húngaro.
6 A República Soviética da Hungria, proclamada em março de 1919 e liderada por Béla Kun, durou apenas alguns meses, até agosto do mesmo ano. Lukács participou ativamente deste processo, tornando-se vice-comissário do povo para a área de educação, e depois da demissão em junho do social-democrata Zsigmond Kunfi, ocupa o seu lugar à frente do ministério.
7 Lukács refere-se, aqui, por certo, em especial, ao artigo “Zur Frage des Parlamentarismus” (“Sobre a questão do parlamentaris- mo”), de 1920, publicado pela primeira vez na revista Kommunismus, em Viena, de cujo Conselho Editorial era membro. Neste texto Lukács defendia a ruptura total com todas as instituições burguesas, inviabilizando, assim, qualquer ação política legal. Lênin criticou violentamente este artigo.
8 Trata-se da insurreição da direção esquerdista, em março de 1921, do Partido Comunista Alemão, que redundou numa sangrenta e violenta derrota do movimento operário.
9 A crítica lukacsiana ao stalinismo expôs seu autor a toda sorte de imputações, tanto dos antisstalinistas fervorosos, quanto dos defensores ardorosos de Stalin. Isto porque Lukács buscou sempre centrar sua análise do stalinismo num âmbito teórico-metodo- lógico preciso, chegando a preservar, em alguns raros momentos, aspectos da figura de Stalin, principalmente no que diz respeito à sua defesa do “socialismo num só país”, o que, sem dúvida, é genuinamente discutível, ademais de ilustrar, com um grande exemplo, como pôde ser complexa, para gerações, toda essa questão. O autor desenvolve mais amplamente sua crítica do stalinismo, por exemplo, na “Carta sobre o stalinismo” (1963): “no caso de Stalin não se trata de erros particulares e ocasionais (como alguns ten- taram apresentá-los) e sim de um falso sistema de ideias gradualmente montados, um sistema cujos efeitos nocivos se fazem sentir tanto mais dolorosamente quanto menos as condições sociais são semelhantes às condições em que apareceu o sistema stalinista e das quais o mesmo foi reflexo deformado e deformante”. Cf. Temas de Ciências Humanas. São Paulo, Grijalbo, n. 1, 1977, p. 13.
10 Em 1928 iniciaram-se dentro do Partido Comunista Húngaro (KPU) os debates para a realização do II Congresso do Partido. Naquele momento o KPU se encontrava dividido em duas grandes frações: a oficial, liderada por Béla Kun, e a de Landler, à qual Lukács estava intimamente ligado. Com a morte de Landler, neste mesmo ano, Lukács assumiu a direção da fração e a responsa- bilidade de elaborar uma política alternativa à de Béla Kun. As teses apresentadas por Lukács ficaram conhecidas como “Teses de Blum”, pseudônimo utilizado pelo autor no interior do KPU, em que defendia a Ditadura Democrática dos Trabalhadores. Estas teses contrariavam profundamente a direção do IC naquele período, que repudiava toda e qualquer aliança com a social-democracia. As críticas a Blum foram violentas; no entanto, a certeza de sua justeza fez o autor afirmar, anos mais tarde: “Pode-se considerar que meus anos de aprendizagem do marxismo terminaram no momento em que comecei a superar definitivamente – a partir de uma questão concreta e importante, na qual confluíam os mais diversos problemas e determinações – aquele complexo dualismo contra- ditório que caracterizava meu pensamento desde os últimos anos da Guerra.” A grande inflexão do seu pensamento produziu-se em 1929 com a elaboração das teses. (Prólogo de 1967 à edição de História e consciência de classe.) Este salto qualitativo permitiu-lhe, ainda, aprofundar seu estudo das obras do jovem Marx, quando em 1930 foi nomeado colaborador científico do Instituto Marx-Engels de Moscou. Nestas condições, Lukács entrou em contato com os Manuscritos econômico-filosóficos de 1844. As palavras de Marx sobre a objetividade como propriedade material primária de todas as coisas e relações geraram em Lukács uma “impressão transformadora”. 11 RAPP – Associação dos Escritores Russos, originária do Proletkult dos anos 1920 e dissolvida em 1932 pelo Comitê Central do Partido Comunista Bolchevique.
12 Em francês no próprio texto: “Ah, se o rei o soubesse!”.
13 Lukács voltou a Moscou em 1933, na condição de exilado político, e lá permaneceu até agosto de 1945, quando retornou à Hun- gria.
14 Em inglês no texto: “Certo ou errado, meu partido”.
15 Encontros Internacionais, Genebra, 1946 – Congresso de filósofos cujo tema foi o Espírito Europeu. Lukács polemiza duramente com Karl Jaspers e trata da crise do liberalismo e da filosofia burguesa, publicando, como ensaio, a sua conferência “A visão aristocrática e democrática”.
16 Congresso de Wroclaw, Polônia, agosto de 1948; Lukács foi um dos fundadores do Congresso Mundial da Paz.
17 O autor refere-se às sucessivas críticas que partiram dos órgãos governamentais húngaros contra o seu texto Literatura e democracia (Irodalom és demokrácia, Budapest, Szikra, 1947).
18 Por ocasião da guerra fria e do fortalecimento dos aparelhos estatais dos países socialistas. Rajk ex-secretário-geral do KPU, sob a acusação de “titoísmo”, foi condenado à morte em 1949.
19 Em francês no texto: “A verdade caminha lentamente, e no fim dos fins nada poderá detê-la.”