Especiais - Guerra Civil Espanhola (1936-1938)

Neruda e Lorca: coração alado, cascata cristalina.

João Quartim de Moraes Publicado em 19.07.2016

Ao nascer, há cento e cinco anos, em 12 de julho de 1904, na cidadezinha de Parral, sul do Chile, recebeu um nome barroco: Neftalí Ricardo Reyes Basoalto. As tristezas da vida não esperaram para golpeá-lo. Era ainda um recém-nascido quando morreu-lhe a mãe. Seu pai, um ferroviário, tornou a casar-se e se fixou em Temuco, por onde passa, como por Parral, a estrada de ferro que, de Santiago, dirige-se para o sul.

Neruda e Lorca na década de 1930 Foto: [Reprodução]

Lá seguiu os primeiros estudos. Em 1917, publicou, no jornal La Mañana, de Temuco, seu primeiro artigo « Entusiasmo y perseverancia». Em 1918, com quatorze anos, seu poema «Mis ojos» saiu numa revista literária de Santiago, Corre-Vuela. O artesanato da palavra já tinha então se tornado a vocação de sua vida: durante os anos seguintes, seus versos compareceram em várias revistas e jornais em que se expressava a inteligência chilena.  Seus primeiros textos estavam assinados Neftalí Reyes. Mas, desde 1920, adotou o pseudônimo com que se tornou mundialmente célebre: Pablo Neruda.

Tinha sabido reconhecer a magia da palavra desde o momento em que aprendera a falar e adquirido, com fantástica precocidade, aquele domínio da expressão em que se sublima a matéria poética. Mas se desde sempre, ou quase, vivera para a poesia, não dispunha ainda dos meios para viver da poesia. Em 1921, fixou-se em Santiago para completar os estudos pedagógicos para professor de francês. Em 1923-1924, entretanto, já tinha composto alguns de seus mais belos e pungentes poemas, em que cantava, tanto quanto a paixão amorosa e o ardor do desejo, a emoção do encontro e a melancolia do desencontro. Publicados sob o título célebre « Vinte poemas de amor e uma canção desesperada», eles foram lidos no original ou em traduções, pelo mundo todo, ou quase.  Os tão conhecidos versos que abrem o vigésimo poema figuram, pela simplicidade das palavras e pela intensidade do sentimento, entre os mais tocantes da coletânea:

« Posso escrever os versos mais tristes esta noite,

Escrever, por exemplo, a noite está estrelada e tiritam, azuis, os astros bem ao longe »

O governo chileno da época teve a boa inspiração de lhe abrir a carreira diplomática. Nomeado cônsul em Rangum, partiu para a Birmânia em junho de 1927. A  longa viagem começou pela travessia dos Andes: foi até Buenos Aires para embarcar no navio que o levou à Europa. As grandes rotas oceânicas obedecem às linhas de comunicação fixadas pelo colonialismo: para ir do sul da América ao sul da Ásia cumpria antes subir ao continente europeu.  É certo, porém que visitar Madri, Paris e Marselha (onde tomou o navio para a Birmânia) não chega a ser um castigo...

Foi depois nomeado cônsul em Colombo, Ceilão. Em 1929, assistiu ao Congresso Pan-hindu em Calcutá. Enviaram-no em seguida a Batavia (Java), depois a Singapura, de onde, en 1932, retornou au Chile. Nomeado cônsul em Buenos Aires, no ano seguinte, conheceu Frederico Garcia Lorca, que para lá viera em outubro de 1933, afim de montar suas peças. Os destinos dos dois maravilhosos poetas de língua espanhola do século XX logo se cruzaram. O enorme sucesso alcançando por Lorca na Argentina valeu-lhe tornar-se o poeta espanhol mais conhecido no continente americano. Neruda se tornaria, com o entusiástico apoio de Lorca, o poeta americano mais conhecido no continente europeu. No ano seguinte, com efeito, se reencontraram na Espanha, para onde Lorca voltara em abril de 1934 e aonde também foi Neruda, nomeado cônsul em Barcelona e, em seguida em Madri, onde, ao lado de Lorca, participou intensamente do movimento cultural de um povo então animado do mais pujante entusiasmo revolucionário.

Em Confieso que he vivido (a estupenda auto-biografia editada por sua mulher, Matilde, e por Miguel Otero Silva), antes de se referir aos trágicos desdobramentos do golpe de Estado militar-fascista, Neruda evoca o primeiro e já intenso encontro com  Lorca no ano de 1933 em Buenos Aires, narrando um risonho, galante e cômico episódio em que os dois lá se envolveram. Traduzo-o com poucos cortes:

“Recordo que uma vez recebi de Frederico um apoio inesperado numa aventura erótico-cósmica. Tínhamos sido convidados uma noite por um desses milionários que só a Argentina ou os Estados Unidos podiam produzir. Tratava-se de um homem rebelde e autodidata que tinha feito uma fortuna fabulosa com um jornal sensacionalista. Sua casa, rodeada por um imenso parque, era a encarnação dos sonhos de um vibrante novo rico. Centenas de jaulas de faisões de todas as cores e de todos os países delineavam o caminho. A biblioteca estava coberta apenas de livros antiqüíssimos que ele comprava por telégrafo nos leilões de bibliógrafos europeus; além disso era extensa e estava repleta. Mas o mais espetacular era que o piso desta enorme sala de leitura estava totalmente revestido de peles costuradas uma na outra até formar um só e gigantesco tapete.[...] Assim eram as coisas na casa do famoso Natalio Botana, capitalista poderoso, dominador da opinião pública em Buenos Aires. Frederico e eu nos sentamos à mesa perto do dono da casa e diante de uma poetisa alta, loura e vaporosa, que dirigiu seus olhos verdes mais a  mim do que a Frederico durante a refeição. [...] Levantamos depois de comer, junto com a poetisa e com Frederico, que tudo celebrava e ria a propósito de tudo. Afastamo-nos em direção da piscina iluminada. Garcia Lorca ia na frente e não parava de rir e de falar. Estava feliz. Era esse seu costume. A felicidade era sua pele. Dominando a piscina luminosa se levantava uma alta torre. Sua brancura de cal fosforescia sob as luzes noturnas. Subimos lentamente até o mirante mais alto da torre. Em cima, os três, poetas de diferentes estilos, ficamos separados do mundo. O olho azul da  piscina brilhava lá embaixo. Mais longe ouviam-se as guitarras e as canções da festa. A noite, acima de nós todos, estava tão próxima e estrelada que parecia colher nossas cabeças, submergi-las em sua profundidade. Tomei em meus braços a garota e ao beijá-la, dei-me conta de que era uma mulher carnal e compacta, completa e esbelta. Diante de Frederico surpreso nos estendemos no chão do mirante. E eu já começava a tirar-lhe a roupa, quando percebi em cima e pertinho de nós os olhos desmesurados de Frederico que nos olhava sem atrever-se a acreditar no que estava ocorrendo. -Fora daqui! Vai-te e cuida para que ninguém suba pela escada! gritei-lhe. Enquanto no alto da torre se consumava o sacrifício ao céu estrelado e à Afrodite noturna, Frederico correu alegremente para cumprir sua missão de alcoviteiro e sentinela, mas com tal afobação e tanto azar que rolou escada abaixo.[...]”

Uma amiga que me deu o prazer de ler com atenção uma versão preliminar desse texto, informou-me, a propósito de minha tradução de “su misión de celestino y centinela” por “sua missão de alcoviteiro e sentinela”, que numa tradução anterior para o português de Confieso que he vivido, publicada em 1977, consta: “sua missão celestial e de sentinela". O termo português celestial pode se dizer em espanhol celeste ou celestial. Celestino,a é alcoviteiro,a, proxeneta, cafetão, gigolô, marafona etc. Superada apenas pelo Quixote em grandeza literária, mas precedendo-o de cem anos (composta no final do século XV e publicada em 1499-1500), La Celestina  conta a história de uma alcoviteira. Tradutor é mal pago entre nós, mas alguns sequer merecem a pouca paga que recebem. Não entendendo o que lêem, escrevem o que não sabem. Às vezes, agridem o bom senso: afinal, que sentido teria classificar de “celestial” a tarefa assumida por Lorca, de impedir que a bela poetisa e o amigo chileno fossem inconvenientemente interrompidos em seu íntimo enlace? No céu não há nem se faz sexo... Num velho dicionário português de Portugal encontrei os seguintes significados (mantenho a ortografia): Celestino= Que tem a côr do céu”; Celestina= Planta corymbifera, de bellas flores azuis. Variedade azul de sulfato de estrôncio. (Lorca, porém, gostava mais do verde do que do azul). Segundo o Novo AurélioCelestino=De cor azul-celeste; já Celestina compreende duas espécies de planta ornamental e, o que aqui mais nos interessa, significa também alcoviteira. Que a palavra, neste sentido pecaminoso, só se use no feminino não passa de um machismo semântico. Neruda, ao aplicá-lo ao amigo, rompeu com esta hipócrita discriminação...

Irmanados em seu tenaz anti-comunismo, liberais e fascistas de vários  matizes têm tentado, com métodos de Rede Globo, ocultar o firme compromisso de Lorca com o combate anti-fascista e a Frente Popular. Reforçam a tese dos carrascos franquistas de que o imenso poeta era “apolítico” e foi morto por engano ou vingança pessoal. Os fachos (como dizem nossos camaradas lusos) mentem com muito cinismo! Lorca era membro da Sociedade Amigos da União Soviética e do Socorro Vermelho Internacional. Para nós, brasileiros, é especialmente comovedora sua participação em atos públicos de solidariedade a Luís Carlos Prestes, cuja prisão, pela polícia do nazistoide Filinto Muller, comovera a opinião anti-imperialista e anti-fascista  internacional.

Em julho, os dias e, sobretudo os entardeceres, são longos na Espanha. Por isso, brasileiros e outros latino-americanos que por lá andam pela primeira vez, costumam espantar-se ao ler anúncios de programas para “las 9 de la tarde”. Num fim de tarde destes, que sem dúvida se estendeu noite adentro, dia 11 de julho de 1936, Lorca participou de um jantar oferecido por Pablo Neruda, então cônsul do Chile em Madri. Entre os convidados era intensa a preocupação perante os sinais inequívocos do golpe militar-fascista em preparação. O deputado socialista Diez Pastor insistiu com Frederico, que repetia “-Me voy a Granada”: “-Quédate aquí. Em ningún sitio estarás más seguro que en Madrid”. Até o escritor falangista Augustín de Foxá lhe deu o mesmo conselho: “Si tu quieres marcharte, no vayas a Granada, sino a Biarritz”. Ao que Frederico replicou: “E qué haría yo en Biarritz? En Granada, trabajo”.

No dia 19 de julho de 1936, Neruda tinha marcado encontro com Lorca para juntos irem a um espetáculo de vale-tudo num circo de Madri. Sabiam que aquilo seria uma marmelada, como dizemos por aqui, mas por que não passar uns momentos assistindo aos embates do Troglodita Mascarado, do Estrangulador Abissínio e do Orangotango Sinistro? “Frederico faltou ao encontro. Já ia a caminho de sua morte. Já nunca mais nos vimos. Seu encontro era com outros estranguladores. E, desse modo, a guerra da Espanha, que mudou minha poesia, começou para mim com o desaparecimento de um poeta. Que poeta! Nunca vi reunidos, como nele, a graça e o gênio, o coração alado e a cascata cristalina”.

Lorca voltou a Granada para ser covardemente assassinado pelas ratazanas fardadas da contra-revolução fascista, bêbadas de sangue, secundadas pela ralé dos beleguins locais. Enviaram o maior poeta do povo espanhol ao imenso matadouro de homens livres em que estavam transformando a Espanha. « Muerto cayó Federico; el crímen fué en Granada » diz Neruda num dos primeiros poemas de España en el corazón, impresso em 1938, com meios artesanais, sob os bombardeios da Luftwaffe, em plena frente este, perto de Gerona. Foi logo traduzido para o francês, com prefácio de Louis Aragon.

No tópico “El crímen fué en Granada” de Confieso que he vivido, além do desencontro sem possível reencontro daquela noite em que Lorca não foi ao Grande Circo Price de Madri assistir ao espetáculo de catch-as-can, Neruda evoca o “pré-conhecimento” que ele teve de sua própria morte, “história terrível” que “ainda transido de horror”, ele lhe contara, três meses antes da guerra civil, voltando de um giro teatral, durante o qual tinha acampado, junto com os atores, numa longínqua aldeia de Castela. A viagem o deixara tenso. Não tendo conseguido dormir, logo que despontaram as luzes do dia saiu dar uma volta pelos arredores:

“Fazia frio, esse frio de punhal que Castela deixa reservado para o viajante, o intruso. A névoa se desprendia e envolvia tudo em sua dimensão fantasmagórica. Uma grande cerca de ferro oxidado. Estátuas e colunas rompidas, caídas entre a folhagem morta. (Lorca) deteve-se na porta de um velho domínio. Era a entrada de um extenso parque de uma fazenda feudal. O abandono, a hora e o frio tornavam a solidão ainda  mais penetrante. [...] Um cordeiro bem pequeno veio pastar as ervas entre as ruínas e sua aparição era como um pequeno anjo de névoa  que humanizava de imediato a solidão da paragem. O poeta sentiu-se acompanhado. Logo uma vara de porcos entrou também no recinto. Eram quatro ou cinco bestas escuras, porcos negros semi-selvagens com fome brutal e cascos de pedra. Frederico presenciou então uma cena de espanto. Os porcos se lançaram sobre o cordeiro e, diante do poeta horrorizado, o despedaçaram e devoraram. Esta cena de sangue e solidão fez Frederico ordenar a seu teatro ambulante que continuasse imediatamente o caminho”.

 

Por que me tornei comunista

Que fazer, senão lutar contra os assassinos? Neruda engajou-se a fundo no combate em defesa da República. Ninguém passa por tão tremenda experiência sem receber marcas profundas, cicatrizes da alma, quando não do corpo. Os mais lúcidos e valorosos, entretanto, que mantêm abertos os olhos e o coração, se engrandecem em força de caráter no insubstituível aprendizado da fraternidade de combate. Foi este aprendizado que o conduziu ao comunismo. “Embora tenha recebido minha carta de militante muitos anos mais tarde no Chile, quando ingressei oficialmente no partido, creio ter-me definido ante mim mesmo como um comunista durante a guerra da Espanha”. Toda afirmação é determinação, portanto negação. Ele logo nos explica o que negou para se afirmar comunista: 

« Meu contraditório companheiro, o poeta nietzscheano León Felipe », diz Neruda, «era um homem encantador ». Mas, em plena guerra civil, identificou-se à propaganda da Federação Anarquista Ibérica (FAI), em cujas frentes de atuação « lia seus poemas iconoclastas » e expunha seus pensamentos, que « refletiam uma ideologia vagamente ácrata, anti-clerical, com invocações e blasfêmias ». Reconheça-se que neste assunto os anarquistas, de fato, chocavam os papa-óstias : « Yo me cago en la leche de la Virgen » era uma de suas blasfêmias rotineiras. Infelizmente, esta contundência verbal era um exibicionismo entre outros, mais perigosos. Enquanto a batalha perdura e a vitória permanece incerta, a única certeza é o entrechoque das armas. Na linha de fogo, bravatas dos valentões de retaguarda só atrapalham.

Neruda os descreve sem complacência: « Com suas longas melenas e barbas, colares e pulseiras de balas, protagonizavam o carnaval agônico da Espanha. Vi vários deles calçando sapatos emblemáticos, metade de couro vermelho e a outra de couro negro, cuja confecção devia ter custado muitíssimo trabalho aos sapateiros. E não se creia que eram uma farândula inofensiva. Cada um levava facas, pistolões descomunais, rifles e carabinas. Em geral, postavam-se nas portas principais dos edifícios, em grupos que fumavam e cuspiam, fazendo ostentação de seu armamento. Sua principal preocupação era cobrar os aluguéis dos aterrorizados inquilinos”.  

Uma noite, Neruda encontrou-se com León Felipe num café situado na esquina de sua casa. O poeta anarco-nietzscheano teve a infelicidade de esbarrar num de seus irritadiços (“quisquillosos”) correligionários. “Não sei se a postura de fidalgo antigo de León Felipe molestou aquele “herói” da retaguarda, mas o certo é que fomos detidos poucos passos adiante por um grupo de anarquistas, encabeçados pelo ofendido do café”.  Após verificação dos documentos de ambos, arrastaram León Felipe para um paredão próximo “cujos estampidos noturnos muitas vezes não me deixavam dormir”. Neruda explicou o que estava ocorrendo a alguns milicianos que estavam voltando do front e, graças a eles, conseguiu libertar o amigo.

“Essa atmosfera de transtorno ideológico e de destruição gratuita me deu muito que pensar. Soube das façanhas de um anarquista austríaco, velho e míope, de longas melenas louras, que se tinha especializado em dar “passeios”. Tinha formado uma brigada que batizou “Amanhecer” porque atuava ao sair o sol:-Nunca sentiu alguma dor de cabeça?, perguntava à vítima. –Sim, claro, alguma vez. –Pois vou dar-lhe um bom analgésico. E disparava um balaço na cabeça do interlocutor. [...] Enquanto estes bandos pululavam pela noite cega de Madri, os comunistas eram a única força organizada que criava um exército para enfrentar os italianos, os alemães, os mouros e os falangistas. E eram, ao mesmo tempo, a força moral que mantinha a resistência e a luta anti-fascista”.

A guerra civil espanhola marcou o rumo definitivo da vida e da poesia de Neruda: “A mí me hizo la vida recorrer los más lejanos sitios del mundo antes de llegar al que debió ser mi punto de partida: España”. Num artigo que circulou algum tempo pela Internet, Raul de Mattos Paixão Junior reuniu alguns versos em prosa que registram a influência da tragédia espanhola sobre o poeta:

Bandidos con aviones y con moros, bandidos con sortijas y duquesas, bandidos con frailes negros bendiciendo venían por el cielo a matar niños y por las calles la sangre de los niños corria simplemente, como sangre de niños[...]. Venid a ver la sangre por las calles. Preguntaréis: por qué su poesia no nos habla del suelo, de las hojas, de los volcanes de su país natal? Venid a ver la sangre por las calles, venid a ver la sangre por las calles, venid a ver la sangre por las calles!

Yo conocí a Bolívar una mañana larga, en Madrid en la boca del Quinto Regimiento, Padre, le dije, eres o no eres o quién eres? Y mirando al Cuartel de la Montaña, dijo “Despierto cada cien años cuando despierta el pueblo”. [...] Por eso es hoy la ronda de manos junto a ti. Junto a mi mano hay otra y hay otra junto a ella, y otra más, hasta el fondo del continente oscuro. Y otra mano que tú no conociste entonces, viene también, Bolívar, a estrechar a la tuya de Teruel, de Madrid, del Jarama, del Ebro, de la cárcel, del aire, de los muertos de España.

Engajado a fundo na defesa da causa republicana, Neruda incomodava muito a diplomacia e o governo chilenos, sabujos dos impérios liberais. Os anti-comunistas de todos os matizes (muitos dos quais camuflam-se atrás da condenação do “stalinismo”) escondem que a União Soviética foi o único Estado que ousou ajudar militarmente o governo legítimo da República. (O México inscreveu-se entre os pouquíssimos que o apoiaram diplomaticamente). Vale lembrar que sem Hitler, o general Francisco Franco, grande açougueiro de humanos, muito dificilmente teria conseguido, talvez só tarde demais para evitar a completa derrota da sublevação clérico-fascista, transportar para o território espanhol suas tropas coloniais (legionários e contingentes marroquinos recrutados nas camadas mais atrasadas das regiões sob “protetorado" espanhol), que se encontravam concentradas no Marrocos. Mercenários aguerridos, sedentos de pilhagem, bem treinados e equipados, os moros de Franco precisavam, para retomar a ofensiva (em Madri e Barcelona, a resistência anti-fascista derrotara o golpe e executara sumariamente os generais que pretendiam assassinar a República num mar de sangue), fazer junção na Andaluzia com as tropas de outro chefe golpista, Queipo de Llano. O problema era atravessar o estreito de Gibraltar.  A maioria dos navios de guerra espanhóis, graças à vigilância democrática dos marinheiros e dos suboficiais, permanecera com a República, bem como boa parte da Força Aérea (a única arma onde os oficiais, em sua maioria, recusaram-se a participar do golpe).  Nessa hora difícil, os companheiros Adolfo (Hitler) e Benito (Mussolini) tiraram o amigo Francisco (Franco) do impasse. Em 29 de julho de 1936, menos de duas semanas depois de desfechado o golpe, a Luftwaffe pôs em funcionamento uma ponte aérea entre Tetuã (Marrocos) e os aeroportos andaluzes de Sevilha e de Jerez. Em dois meses, numa ofensiva fulminante acompanhada das piores atrocidades contra os defensores da República (em Badajoz correram literalmente rios de sangue; em Toledo, mais “higiênicos”, os fascistas realizaram suas rotineiras execuções em massa à beira da fossa comum), as tropas coloniais de Franco chegaram às portas de Madri. Lá foram detidas, entretanto, pelos operários e estudantes do glorioso 5º Regimento de Milicianos, organizado e comandado pelo herói comunista Enrique Lister.

Neruda não tardou em ser destituído de suas funções consulares. Foi para Paris, onde participou ativamente do movimento de solidariedade anti-fascista e conheceu “os dois melhores homens” da literatura francesa, Paul Éluard e Louis Aragon. Fez uma conferência sobre Lorca, editou, de parceria com Nancy Cunard (uma aristocrata inglesa que escandalizara os bem-pensantes de seu hipócrita país ao fugir com um jazzista negro importado pelo hotel Savoy de Londres e, mais tarde, tornara-se namorada de Aragon), a revista Los Poetas del Mundo Defienden al Pueblo Español. Ao longo de 1937, junto com Aragon, organizou um congresso de escritores anti-fascistas do mundo inteiro, a ser celebrado em Madri, sob as bombas dos fascistas e, junto com César Vallejo, criou o Grupo Hispanoamericano de Ajuda à Espanha.

Voltou ao Chile em outubro daquele ano, engajando-se, em 1938, na Frente popular chilena, que ganhou a eleição presidencial. Nomeado, en 1939, cônsul especial em Paris para a emigração anti-fascista espanhola, conseguiu obter o estatudo de refugiado para os muitos exilados que, a bordo do navio Winnipeg, chegaram ao  Chile no fim do ano, poucos dias antes de seu próprio retorno, em 2 de janeiro de 1940.

 

Alturas de Machu Picchu

Naquele início dos anos quarenta Neruda lançou-se na composição de um grande poema épico e lírico que celebrava a grandeza e o sofrimento anônimo da humanidade. Intitulou-o primeiro Canto General de Chile. Mais tarde, ampliando-lhe o escopo, Canto General, simplesmente. Cônsul-geral em Ciudad de México, onde chegou em agosto de 1940, ele visitou também Cuba e os Estados-Unidos. Em setembro de 1942, ele deu a conhecer, em leitura pública em Ciudad de México, de seu «Canto de amor a Stalingrado». O poema logo circulou, em cartazes, por toda a cidade. Em 1943, o « Novo canto de amor a Stalingrado» celebrou a vitória heróica que mudou o curso da guerra mundial. No início de setembro de 1943, ele deixou o cargo consular no México. No caminho de volta, parou em vários lugares. No Peru, fez a obrigatória viagem a Cuzco e dali, como dirá em Alturas de Machu Picchu, um dos mais comoventes poemas reunidos no Canto General, empreendeu a perenegrinação à cidadela quechua:

subi pela escada da terra

por entre o atroz enredamento das florestas perdidas

até ti, Machu Picchu.

Pedra na pedra, o homem, onde esteve? 

Ar no ar, o homem, onde esteve?  

Tempo no tempo, o homem, onde esteve?

Foste também o pequeno pedaço rompido 

do homem inacabado, da águia oca,

que pelas ruas de hoje, que pela terra batida,

que pela folhas do outono morto,

vai esmagando a alma até a tumba?

A pobre mão, o pé, a pobre vida...

[...]

Fome, coral do homem

Fome, planta secreta, raiz dos lenhadores,

Fome,

até estas altas torres desprendidas?

Nessa cidadela sublime, prodigiosamente pendurada na Cordilheira dos Andes, protegida dos curiosos, durante séculos, por uma cadeia de montanhas tão altas e compactas que dão vertigem, sem esconder do olhar, lá em baixo, as já amazônicas ravinas em cujo fundo corre o Urubamba, rio sagrado dos quechuas, ele discerniu, aquém das rochas monumentais domadas por uma portentosa arquitetura, o sofrimento emudecido da multidão anônima dos artesãos da pedra:

Sube a nacer conmigo, hermano. Dame la mano desde la profunda zona de tu dolor diseminado. No volverás del fondo de las rocas. No volverás del tiempo subterráneo. No volverá tu voz endurecida. No volverán tus ojos taladrados. Yo vengo a hablar por vuestra boca muerta. [...] Dadme el silencio, el agua, la esperanza. Dadme la lucha, el hierro, los volcanes. Apegadme los cuerpos como imanes. Acudid a mis venas  y a mi boca. Hablad por mis palavras y mi sangre.

Eleito senador em 4 de março de 1945, ele se inscreveu no Partido Comunista do Chile no dia 30 de maio seguinte. Em 15 de julho, participou no estádio do Pacaembu da grande manifestação onde cerca de cem mil pessoas vieram comemorar a libertação de Luís Carlos Prestes, também eleito senador pouco depois. Mas os dois senadores, o poeta universal e o legendário comandante guerrilheiro, tiveram seus mandatos confiscados. Dois anos depois, com efeito, o presidente imperial Truman, que já tinha oferecido ao mundo estupefacto o espetáculo de cerca de duzentos mil corpos instantaneamnte fulminados por cogumelos radioativos, um em Hiroshima, outro em Nagasaki, desencadeou a «guerra fria», exigindo que, em toda a zona de influência do «Ocidente», os comunistas fossem postos fora da lei. Os Congressos e as «Justiças» de seus países respectivos cumpriram sem tardar essas ordens superiores. Neruda denunciou a histérica cruzada em sua « Carta íntima para milhões de homens». Parlamentares raivosos, precursores do machartysmo, replicaram cassando seu mandato em 5 de fevereiro de 1948. Logo a seguir, togados meretríssimos decretaram sua prisão. Permaneceu clandestino cerca de um ano no Chile, depois exilou-se até agosto de 1952, quando a ordem de prisão foi revogada.

O último ato de sua vida confunde-se com a grande tragédia histórica do povo chileno. Em 3 de setembro de 1969, foi designado pré-candidato à presidência pelo Partido Comunista, mas dela desistiu ao se criarem condições para lançamento de um candidato único da esquerda, o socialista Salvador Allende. Durante os dois primeiros anos do governo de Allende, marcados por intensas lutas sociais pela aplicação do programa de transição ao socialismo da Unidade Popular, Neruda, nomeado embaixador do Chile na França, investiu seu imenso prestígio internacional na propaganda da luta revolucionária de seu povo. Em 5 de fevereiro de 1973, renunciou ao cargo de embaixador e fixou-se no Chile, onde a contra-revolução, abertamente apoiada pelo governo Nixon, nomeadamente pelo genocida H. Kissinger, já estava jogando a fundo a carta da desestabilização e do putsch militar. Em 18 de fevereiro publicou o «Apelo ao nixoncídio e elogio da revolução chilena », vendido nas ruas de Santiago. Desgraçadamente, foi Allende e não o sórdido presidente dos Estados Unidos, quem tombou em de 11 setembro, no Palácio da Presidência, sob as bombas dos generais golpistas. Doze dias depois, em 23 de setembro de 1973, foi Neruda quem morreu, de tristeza ao ver a pátria cair sob as botas de Pinochet. Desafiando o terror militar fascista, os amigos que lhe prestaram a homenagem fúnebre improvisaram, à guisa de discurso, este verso muito simples:

Se siente, se siente, Neruda está presente!