Especiais - REVISTA JACOBIN: CENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO RUSSA

Partindo da Estação Finlândia

Yurii Colombo Publicado em 08.05.2017

A trégua temporária entre o novo Governo Provisório e as massas rebeldes deixou de lado o maior problema que havia dado início à Revolução de Fevereiro: a guerra. Quando as intenções agressivas e militaristas do Governo Provisório foram reveladas, as manifestações dos “dias de abril” mostraram que a revolução ainda estava viva.

Quando Vladmir Lenin chegou em Petrogrado, há cem anos atrás, saindo do famoso “trem blindado” que viajou da Suíça e cruzou a Alemanha, a situação russa, tanto internamente quanto nas frentes de batalha, parecia ter estabilizado.

A trégua temporária entre o novo Governo Provisório e as massas rebeldes, contudo, deixou de lado o maior problema que havia dado início à Revolução de Fevereiro: a guerra. Quando as intenções agressivas e militaristas do Governo Provisório foram reveladas, as manifestações dos “dias de abril” mostraram que a revolução ainda estava viva.

Depois de fevereiro, o czar Nicolau II foi preso e um governo provisório havia sido formado. O novo líder do governo era o príncipe Georgy Lvov, uma figura decorativa que representava o último vínculo com o antigo regime, mas seu gabinete ministerial estava dominado por liberais assustados que temiam a própria revolução que os colocara no poder. O ministro do exterior era Pavel Milyukov, um líder histórico dos Cadetes, enquanto o ministro da guerra era Aleksander Guchkov, político Outubrista e presidente da Duma. O ministério da justiça foi assumido pelo Socialista-Revolucionário Alexander Kerensky, o único socialista dentre os ministros.

A primeira tarefa do novo governo era garantir à Entente e aos capitalistas russos que a guerra iria continuar. Como o próprio Milyukov afirmou a um jornalista francês, “a Revolução Russa foi feita para poder remover os obstáculos que levariam a Rússia a vencer a guerra”.

A luta revolucionária de fevereiro criou conselhos de trabalhadores democraticamente eleitos chamados de soviete, assim como na revolução de 1905, mas agora eles incluíam soldados e se estabeleceram inicialmente em Petrogrado e, posteriormente, em todas as províncias do Império.

No dia primeiro de março, o Soviete de Petrogrado publicou sua Ordem nº 1, que declarava que “as ordens da comissão militar da Duma do Estado deveriam ser executadas somente em casos nos quais elas não contradissessem as ordens e decisões dos Conselhos Operários e dos representantes dos Soldados”.

Além disso, a revolução havia trazido novas liberdades sem precedentes até então, além de colocar fim a contínua perseguição policial. Quando o jornalista inglês Morgan Philips Price chegou de trem em Moscou, no dia 6 de abril, ele observou que:

“Eu caminhava pelas ruas e logo reparei uma mudança desde a última vez que estive aqui. Não havia nenhum policial ou gendarme por perto. Todos eles tinham sido presos ou enviados ao front em pequenos batalhões, Moscou estava sem policiais e parecia estar bastante feliz desse jeito”.

O Soviete de Petrogrado foi dominado pelas forças socialistas, principalmente pelos Mencheviques. Eles argumentavam que o governo deveria permanecer nas mãos da burguesia e que a classe operária deveria ter o papel de servir de contrapeso para meramente pressionar o novo Governo Provisório.

Para eles, a Rússia não estava pronta para uma revolução socialista. Uma situação de “dualidade de poderes” rapidamente se desenvolveu: de um lado, o Governo Provisório representando os interesses de capitalistas e latifundiários, enquanto o verdadeiro poder estava nas mãos dos Sovietes e das classes trabalhadoras.

No dia 23 de março, os Estados Unidos entraram na guerra. No mesmo dia, a cidade de Petrogrado enterrou as vítimas da Revolução de Fevereiro. Oitocentas mil pessoas marcharam pelos Campos de Marte, na maior mobilização daquele ano até então.

O funeral se tornou uma espécie de hino à solidariedade internacional e um apelo pela paz; em sua obra clássica, História da Revolução Russa, Leon Trotsky escreveu que as “manifestações comuns de soldados russos junto com prisioneiros austro-alemães era um fato vívido e cheio de esperança que permitia acreditar que a revolução, apesar de tudo, carregava consigo a fundação de um mundo melhor”.

Tsereteli e os líderes Mencheviques dos Sovietes garantiram apoio externo ao Governo Provisório e acreditavam que a guerra deveria continuar, mas com uma postura “defensiva e sem anexações”. Esta posição intermediária tentou abranger a obrigação do governo de continuar a guerra como se nada tivesse acontecido e as expectativas dos soldados e dos trabalhadores de uma paz separada.

No dia 14 de março, o Soviete de Petrogrado lançou um manifesto chamando “os povos da Europa a falarem e agirem em conjunto de forma resoluta e em busca da paz”. Mas o apelo aos trabalhos alemães e austríacos – que declarava que a “Rússia democrática não poderia ameaçar a liberdade e a civilização” e que “defenderemos firmemente nossa liberdade de qualquer tipo de invasão reacionária” – foi lido por muitos como pró-guerra.

Como Trotsky afirmou, “o artigo de Milyukov estava mil vezes correto ao declarar que ‘embora o manifesto tenha começado com uma nota tão típica de pacifismo, ele desenvolvera uma ideologia que essencialmente era a mesma que a nossa e nossos aliados”.

Antes da Revolução de Fevereiro, a guerra estava se encaminhando para uma paralisação, já que os soldados recusavam-se a lutar, com centenas de milhares deles desertando e fraternizando com os soldados alemães. Desde o Natal de 1914, essa fraternização incluía danças e a troca de conhaques e cigarros entre os soldados alemães e russos, continuando assim pelos anos seguintes e sem que isso gerasse uma revolta aberta contra os oficiais. O historiador Marc Ferro cita uma carta que um soldado russo escrevera a sua esposa sobre os oficiais:

“A guerra? Eles ficam lá parados enquanto nós estamos na lama, eles ganham 500 ou 600 rublos quando nós recebemos somente 75. Eles estavam obcecados com a injustiça. E ainda assim, enquanto eram os soldados que lidavam com a parte mais difícil da guerra, era diferente para eles, cobertos com suas medalhas, cruzes, condecorações; mas eles estavam distantes demais do campo de batalha”.

No início os generais tentaram bloquear as notícias da rebelião em Petrogrado para que elas não chegassem até as tropas que estavam no front, mas os soldados alemães informaram os soldados russos sobre a Revolução de Fevereiro, o que erodiu ainda mais a confiança desses homens sobre os seus oficiais. Paradoxalmente, a revolução acabou pondo fim nas deserções. Os soldados passaram a esperar pelo iminente fim da guerra e não queriam sabotar a habilidade do novo governo em negociar a paz. Os relatos que vinham do front mostravam que o sentimento geral era de “apoiar o front, mas não se juntar às ofensivas”. Conforme as semanas se passaram, o comandante do Quinto Exército relatou que “o espírito de luta havia declinado…a política, que havia se espalhado praticamente por todos os setores do Exército, fez com que todos os militares desejassem massivamente apenas uma coisa – acabar a guerra e ir para casa”. Durante a primeira semana de abril, oitocentos soldados desertaram do front norte e do front ocidental.

O retorno de Lenin e a publicação das Teses de Abril acaram gerando uma mudança fundamental na política Bolchevique, defendendo uma postura de “nenhum apoio” ao Governo Provisório burguês e imperialista.

As posições dos Bolcheviques sob a direção de Stalin e Kamenev tinham sido moderadas e continuaram apoiando a posição de “Ditadura Democrática do Proletariado e do Campesinato” para levar adiante a ideia de revolução burguesa, tal como desenvolvida por Lenin em 1905.

Em um artigo publicado no Pravda, o jornal do partido, Kamenev argumentou que as “Teses de Abril” representavam a “opinião pessoal” de Lenin e que “consideram que o seu esquema geral é inaceitável, já que ele parte do princípio de que a revolução burguesa está acabada e conta, então, com a imediata transformação dessa revolução numa revolução socialista”.

Na conferência Bolchevique de março de 1917, Stalin também teria apoiado uma possível unificação com os Mencheviques internacionalistas “seguindo as linhas traçadas em Zimmerwald-Kiental”. Ainda assim, já no ano de 1915, Lenin estava cético sobre a terminologia pacifista e anti-guerra da maioria em Zimmerwald, alegando que ela abria as portas para um apoio à guerra e inclusive chamando-os de “kautskyistas imbecis”.

Quando retornou à Rússia em abril, Lenin argumentou que a esquerda de Zimmerwald deveria destruir completamente a maioria dos pacifistas de Zimmerwald, inclusive os Mencheviques, que Stalin e tantos outros Bolcheviques desejavam unir-se.

O incansável Lenin conseguiu ganhar a maioria no partido. Os Bolcheviques contavam com 79.000 membros, dos quais 15.000 estavam localizados em Petrogrado. Ainda que fosse uma força pequena e minoritária, especialmente dentro do Soviete de Petrogrado, eles eram fortes o suficiente para ter destaque nos eventos da época. Nem o governo e nem os líderes Mencheviques que encabeçavam os sovietes queriam uma nova crise política que emergia agora na segunda metade de abril. Milyukov e os capitalistas russos tinham reassegurado os aliados sobre o papel da Rússia no conflito e aspiravam a captura do estreito dos Dardanelos, dominado pelo Império Otomano.

Contudo, Milyukov percebeu que sem algum acordo com os sovietes, as tropas dificilmente aceitariam e lutariam em prol dos planos do governo.

Por outro lado, Tsereteli insistia na necessidade de um anúncio do governo que frisasse que a guerra da Rússia era exclusivamente defensiva. A resistência de Milyukov e Guchkov foi então quebrada e em 27 de março o governo declarava que:

“O povo russo não busca fortalecer seu poder externo às custas de outros povos e não tem o objetivo de escravizar e humilhar ninguém. […] Mas o povo russo não irá permitir que sua pátria mãe saia da Guerra Mundial humilhada e saqueada em seus recursos vitais”.

A declaração defensivista de 27 de março não fora bem recebida pelos Aliados, que viram nela uma concessão aos Sovietes. O embaixador francês, Maurice Paléologue, reclamou da “timidez e indecisão” da declaração.

Mas a aposta de Milyukov em usar a guerra contra a revolução tinha levado em consideração a verdadeira correlação de forças entre o Governo Provisório e os Sovietes. Ele queria aumentar a influência do primeiro gradualmente.

Alguns dias depois, acontecera uma nova reunião entre representantes do governo com os representantes dos Sovietes. A Rússia precisava desesperadamente de um empréstimo de seus aliados para dar continuidade à guerra e um novo memorando do governo poderia obtê-lo. No dia 18 de abril, Milyukov mandou uma nova nota aos governos dos Aliados, enfatizando o desejo de “continuar a guerra em total acordo com os Aliados e cumprindo suas obrigações perante eles”.

A nota também dizia que a revolução tinha meramente fortalecido a vontade popular de levar a guerra a um fechamento vitorioso. Em uma sessão noturna especial, em 19 de abril, o Comitê Executivo dos Sovietes discutiu a nota. “Foi praticamente sem debate e de forma unânime que reconhecemos que isso não era nada do que o Comitê esperava”, declarou o membro Vladimir Stankevich.

A Gazeta Rabochava, um jornal Menchevique, acrescentou que a nota de Milyukov estava “debochando da democracia”. Contudo, o jornal da proeminente intelligentsia liberal, Novoe Vremya, tentou defender a nota, declarando que não era possível rasgar os tratados existentes.

Se a Rússia assim fizesse, “nossos aliados também teriam total liberdade de ação: se não houvesse mais tratado, ninguém teria que cumpri-lo […]. Nós acreditamos que, com exceção dos Bolcheviques, todos os cidadãos russos irão considerar que a tese principal por trás da nota é a correta”.

Porém, a nota causou uma explosão espontânea de indignação popular. A Gazeta Rabochava escreveu:

“Petrogrado reagiu com sensibilidade e nervosismo. Em toda a parte, nas ruas, nos bondes, há disputas acaloradas e apaixonadas sobre a guerra. Os bonés e os lenços defendem a paz; os chapéus e os lenços defendem a guerra. Nos distritos operários e nos quartéis, a atitude perante a nota está sendo expressada com uma recusa à política de anexação”.

O menchevique Sukhanov, talvez o melhor repórter da Revolução Russa, relembrara vividamente:

“Uma imensa multidão de trabalhadores, alguns inclusive armados, estava indo em direção à avenida Nevsky saindo do distrito de Vyborg. Havia muitos soldados juntos com eles. Os manifestantes estavam marchando sob as frases de “abaixo o Governo Provisório”, “abaixo Milyukov”! Uma tremenda excitação dominou o ambiente geral dos distritos operários, das fábricas e dos quartéis. Muitas fábricas pararam. Reuniões públicas estavam acontecendo em toda a parte”.

Na noite de 20 de abril, os líderes Mencheviques do Soviete de Petrogrado pediram ao governo para emtir uma nova nota corrigindo a de Milyukov e adotando um tom pacifista, mas no final eles acabaram aceitando a posição Socialista Revolucionária de Kerensky, que afirmava que era o suficiente solicitar uma “explicação” sobre a nota.

Apesar disso, contudo, no dia 21 de abril teve uma nova onda de agitações e dessa vez elas estavam sendo dirigidas e organizadas pelos Bolcheviques. Foi a primeira vez, desde a revolução, que o partido de Lênin estava na vanguarda e não na retaguarda do movimento. Ao mesmo tempo, na avenida Nevsky, apoiadores armados do Governo Provisório se reuniram, organizados pelos Cadetes. De acordo com a edição de 22 de abril do Rabochava Pravda:

“Ontem, nas ruas de Petrogrado, a atmosfera estava ainda mais agitada do que no dia 20 de abril. Nos distritos [operários] uma série de greves tiveram início […]. As inscrições nas faixas tinham uma natureza bastante variada, mas poderia se perceber uma característica comum em todas elas: no centro, na avenida Nevsky, na Sadovaya e em outras ruas, predominavam as frases em apoio ao Governo Provisório; já nos arredores, era o contário […] Confrontos entre os manifestantes dos diferentes grupos eram frequentes […]. Há muitos rumores de tiroteios”.

Uma mulher que participou das manifestações escreveu mais tarde que:

“as mulheres nessas fábricas […] foram junto com os manifestantes até a avenida Nevsky, pelo número ímpar da rua. A outra multidão, por sua vez, moveu-se paralelamente a eles, pelo lado par da rua: ali havia mulheres bem vestidas, oficiais, comerciantes, advogados, etc. Seus slogans eram: ‘Vida longa ao Governo Provisório’, ‘vida longa a Milyukov’ e ‘prendam Lênin’”.

A tensão nos bairros operários escalara ainda mais. Um trabalhador fabril descreveu uma das reuniões daquela tarde:

“O humor estava se alterando […]. Foi decidido que eles esperariam por uma decisão direta dos Sovietes. Mas antes que essa decisão chegasse, alguns operários retornaram do centro trazendo notícias de confrontos, de faixas sendo rasgadas e de prisões […]. Os humores logo se elevaram. ‘O quê!? Eles estão nos correndo das ruas, rasgando nossas faixas e nós vamos assistir isso calados e de longe? Vamos até a Nevsky!’”

Nessa situação tensa, o general Kornilov – apoiado por Milyukov – decidiu colocar a artilharia no lado de fora do Palácio Mariinsky e convocar as escolas militares para lhe dar apoio. O objetivo era conectar os diferentes setores do Exército até um comício pró-governo que estava acontecendo a poucos metros de uma manifestação liderada por operários bolcheviques. Milyukov, em suas memórias, tentando esconder e natureza contrarrevolucionária de sua iniciativa, argumentara que:

“No dia 21 de abril, o general Kornilov, comandante chefe do distrito de Petrogrado, foi informado sobre as manifestações dos subúrbios e da presença de trabalhadores armados, e então ordenou que várias unidades de guarnição fossem levadas até a praça do palácio. Ele se deparou com a resistência do Comitê Executivo dos Sovietes, que disse ao Estado maior, por telefone, que o chamado às tropas poderia complicar a situação. Depois de negociar com os delegados do Comitê […] o comandante-chefe cancelou sua ordem e ditou, na presença de membros do comitê, uma mensagem telefônica para todas as tropas de guarnição, exigindo que eles permanecessem nos quartéis. Depois disso, um apelo feito pelo Comitê Executivo foi colocado nas ruas anunciando que os ‘camaradas soldados não deveriam sair, nesses dias agitados, sem a ordem expressa do Comitê Executivo’”.

De fato, o Comitê Executivo dos Sovietes – entendendo que o caráter contrarrevolucionário da decisão de Kornilov ameaçava também a eles – deu a ordem para que os soldados não saíssem dos quartéis. Kornilov viu-se isolado e sem alternativas, exceto bater em retirada.

O risco para os líderes dos Sovietes era de que isso gerasse um impasse e, portanto, o Comitê Executivo rapidamente declarou que o incidente com o governo tinha sido resolvido e pediu para os trabalhadores voltarem para suas casas. O Rabochava Pravda ironicamente apontou que:

“quando o Comitê Executivo publicou sua ordem para que os soldados não fossem às ruas armados, alguém começou a observar cenas curiosas nas quais os soldados tentavam persuadir seus camaradas de não se envolverem nas manifestações, independente de quais fossem suas posições políticas. Era comum ver também soldados apelando aos civis para manterem-se calmos”.

Kornilov assegurara a Milyukov que ele tinha “forças suficientes” para esmagar os rebeldes, mas essas forças nunca se materializaram. Mais tarde Trotsky escrevera que “essa leviandade atingiria seu pico em agosto, quando o conspirador Kornilov iria lançar contra Petrogrado um Exército não-existente”. Na noite de 21 de abril, ainda que alguns tiros pudessem ser escutados, a crise política tinha terminado.

Dado o equilíbrio de poder em abril de 1917, os Bolcheviques não estavam interessados numa batalha aberta que empurrasse o país para a guerra civil. Pela primeira vez o partido de Lênin tinha tido um importante papel nos acontecimentos, mas ainda não estava pronto para liderar o movimento em prol de uma nova revolução.

Os sovietes ainda estavam se consolidando e estavam sob a hegemonia Menchevique. Para Lênin, uma nova revolução ainda era prematura e o slogan apoiado por alguns Bolcheviques de “derrubada do governo” estava errado:

“Deveria o Governo Provisório ser deposto imediatamente? […] Para tornar-se um poder, os trabalhadores com consciência de classe devem ganhar a maioria antes […]. Nós não somos blanquistas […]. Nós somos marxistas, nós defendemos a luta de classe dos proletários contra as intoxicações pequeno-burguesas”.

A crise tinha enfraquecido, mas nada mais seria como antes. Ficara claro que nenhuma decisão do governo poderia ser aprovada sem que os Sovietes estivessem de acordo. A estratégia dos Cadetes e dos capitalistas, a partir daí, foi tentar envolver diretamente os socialistas no governo. E a principal condição para o envolvimento dos partidos socialistas no governo era a deposição de Guchkov e Milyukov.

Depois de suas demissões, o Governo Provisório fez uma proposta para o Soviete de Petrogrado para que formassem um governo de coalizão. Eles chegaram a um acordo no dia 22 de abril e seis ministros socialistas entraram no ministério (dois Mencheviques, dois Socialistas-Revolucionários e dois Populistas). Apenas o presidente do Comitê Executivo dos Sovietes, Nikolay Chkheidze, se recusou a aceitar um ministério.

Os Bolcheviques também se recusaram a participar do governo e, ao invés disso, resolveram preparar-se para as vindouras lutas revolucionárias. De certa forma, os “dias de abril” fortaleceram a necessidade dos trabalhadores em prol de sua auto-organização e de se armarem. Um exemplo disso foi na fábrica de sapatos Skorokhod, onde os operários decidiram formar uma Guarda Vermelha de mil pessoas e pediram aos Sovietes por quinhentos rifles e outros quinhentos revólveres.

No dia 23 de abril, numa reunião de delegados de fábrica para organizarem as Guardas Vermelhas, um orador argumentou que “o Comitê Executivo dos Sovietes está confiando demais nos Cadetes. O Soviete não vai às ruas. Mas os Cadetes, sim. Apesar dos Sovietes, os trabalhadores foram para as ruas e salvaram o dia”.

Os “dias de abril” fortaleceram a resolução dos trabalhadores e soldados de Petrogrado. Os Cadetes de Milyukov tinham perdido a batalha. Os Mencheviques e os Socialistas-Revolucionários mantiveram seu controle sobre o Soviete de Petrogrado, mas a confiança neles estava abalada. E nos meses seguintes, a guerra e a crise revolucionária iriam se aprofundar ainda mais.

Tradução de Ângelo Régis e Raphael Boccardo

[* Traduzido por Ângelo Régis e Raphael Boccardo, este artigo é o terceiro de uma série de artigos sobre o centenário da “Revolução Russa de 1917″ organizada pela revista Jacobin e que sairá ao longo do ano e publicada no Brasil em uma parceria entre o Blog Junho e o Blog da Boitempo. Redigidos originalmente em inglês, os artigos serão traduzidos em várias línguas, como francês, espanhol, alemão e coreano. Para o português, o blog Junho reuniu um grupo de tradutores e colaboradores, coordenados por Fernando Pureza, que atenderam ao chamado para trazer, ao público brasileiro, alguns dos trabalhos mais atuais sobre a Revolução Russa celebrando o centenário do evento político mais importante do século XX.]

Yurii Colombo é um ativista socialista italiano de longa data e jornalista trabalhando em Moscou e Milão. Escreveu este artigo especialmente para o dossiê sobre o centenário da Revolução Russa, organizado pela Revista Jacobin, traduzido para o português pelo Blog Junho, e publicado em parceria com o Blog da Boitempo.

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