Especiais - Gilse Westin Cosenza, uma mulher imprescindível (1943-2017)

A morte é sair da memória

Luiz Manfredini Publicado em 29.05.2017

Gilse Maria Westin Cosenza deixou de existir ontem à noite. Mas não morreu, tampouco morrerá, pois como disse a escritora portuguesa Lídia Jorge, “a morte não é morrer, a morte é sair da memória”. E é da memória de 74 anos que se faz, hoje, a vida dessa mulher miúda, bonita e guerreira. Nada mais para a frente, imensidões para trás a serem cultivadas como sementes e frutos.

Conheci-a fazem mais de 30 anos e sempre a soube generosa, alegre, otimista, extrovertida. Por isso ouso dizer que Gilse assinaria o que escreveu Santo Agostinho:

"A morte não é nada. [...] Não utilizem um tom solene ou triste, continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos. Rezem, sorriam, pensem em mim”. 

            Pensemos, pois, em Gilse. Não vou requisitar Maiakovski, Brecht, Neruda. Não vou arrolar exaltações revolucionárias, ainda que versos e exaltações casem bem com essa brava mulher que desde ontem à noite não existe mais (embora não tenha morrido). Casam bem, mas não a tomam em sua inteireza.

         O que a  memória de Gilse me traz, nesta manhã sob núvens em Curitiba, e sob espanto e dor, é a luta obstinada pela autonomia (sobretudo a autonomia como mulher), pelo amor e pela liberdade de saber, pela inconformidade com o torto da vida. Sua luta, que ao longo de quase 60 anos ganhou a substância da ideologia, vem desses primórdios juvenis. Por isso, começo a pensar em Gilse quando a vejo empoleirada na janela do quarto para devorar, madrugada a dentro, sob a luz da Lua, os livros vetados pelo índex familiar, ou a falsificar a assinatura do pai para ter acesso à biblioteca do Ideal Club, em Varginha, Minas.

         “Pensem em mim”, pediu Agostinho.

         Penso em Gilse vendo-a insubordinar-se com o que lhe reservava o tradicionalismo, as fronteiras exíguas de um destino injusto, boa dona-de-casa, mãe e esposa devotada, recatada e temente a Deus.

Já em Belo Horizonte, afrontava o resistente conservadorismo mineiro com as minisaias arrojadas, ao andar na garupa das lambretas dos rapazes, cabelinho curto, namoradeira e feliz. Meninos a respeitavam, mais assustados que admirados. No cenário do tradicionalismo, um deles desabafou: “Gilse, você é uma ótima companheira, mas não é mulher para se casar. Se fosse você a única mulher do mundo, eu seria obrigado a ficar solteiro”.

Penso em Gilse no final dos anos 1960, trabalhando com os camponeses paupérrimos da região de Ipatinga, também em Minas, minúsculo povoado, levando-lhes a luz das lutas sociais, salvando gente com seu livro “As plantas curam”. Ganhou fama e autoridade, junto com Abel Rodrigues Avelar, com quem acabara de se casar.

“Pense em mim”, sem tristeza, sem solenidade, repetia Agostinho.

Penso em Gilse na cela do quartel. Miudeza de corpo e fortaleza de vontade. Repassou o estribilho da velha modinha:

 

“Se a perpétua cheirasse

Seria a rainha das flores

Mas como a perpétua não  cheira

Não é a rainadas flores”

 

            E improvisou:

 

“Minha vizinha de cela

Não tenha medo da dor

Mais vale ser um defunto

Que estar vivo e ser traidor”

 

         Caiu nas mãos de um sargento sádico, pervertido sexual. Mais uma vez a miudeza do corpo inflou-se como fortaleza de vontade e resistência.

         É assim que penso em Gilse, quando sua memória, que se aferra em todos nós, ultrapassa sua própria existência. Foi-se, mas não morreu.

         Em 2007, um câncer a devastou. Depois, um derrame cerebral. Resistiu com a mesma bravura com que enfrentou os carniceiros da ditadura. E se salvou. E disse: “Valorizo o fato de estar viva, e continuar na luta seja como for”.

         Agora não está mais viva, mas vive na memória que resiste em nossas mentes, no que falou e escreveu, no que fez, nas bandeiras que ergueu, nas marchas libertárias, na fidelidade ao povo e a seu partido e seus camaradas, na devoção aos filhos e netos, no seu riso, no seu humor, no alegre gosto pela dança, no sublime canto à vida que dela nunca se afastou.

         E por ter sido assim, merece os versos de Loreta Valadares, uma das moças de Minas que deixou de existir (mas não morreu) em 24 de novembro de 2004, e dividiu com sua camarada Gilse Maria Westin Consenza o suor e glória da luta revolucionária.

 

“E quando

As novas veredas

Do socialismo

Forem percorridas

Lembram-se de

Fui

Até o impossível freio

(só que me faltou o tempo’

 

Luiz Manfredini é jornalista e escritor paranaense, autor, entre outros, dos romances As moças de Minas, Memória de Neblina e Retrato no entardecer de agosto.


Galeria de Fotos

Fotos: Gilse Cosenza, trajetória de luta