Especiais - Gilse Westin Cosenza, uma mulher imprescindível (1943-2017)

Como Henfil driblou a ditadura com desenhos para a presa Gilse

Daniel Camargos Publicado em 29.05.2017

O cartunista Henfil conseguiu contar com desenhos para a cunhada, presa e torturada, que a filha estava bem.

Juliana, à esquerda do tio Henfil, e a irmã mais nova, Gilda

O Estado de Minas conta duas histórias que pouca gente conhece, mas que mostram bem a tensão e o terror dos anos de chumbo que se seguiram após a queda do presidente João Goulart (1919-1976), em 31 de março 1964. A ex-militante Gilse Cosenza, cunhada do cartunista Henfil é a personagem principal dessa história.

Graúna, o bode Francisco Orelana, o Capitão Zeferino e os frades Cumprido e Baixim são todos geniais personagens de Henfil, mas, apesar de marcarem  a história do cartum brasileiro, nenhum deles conseguiu ser tão politizado e passar uma mensagem certeira como um desenho do irmão do Betinho, que para a maioria dos leitores soou despretensioso. Uma criancinha advertida em uma tirinha publicada em jornal: “Juliana, chega de comer sorvete com morango, pois você vai ter caganeira”.

Juliana aos 4 meses no colo da tia, a mulher de Henfil, que a acolheu

Para entender a história é preciso voltar ao início dos anos 1970, quando Gilse Cosenza, então uma aguerrida militante da Ação Popular (AP), estava presa na Penitenciária de Linhares, em Juiz de Fora, na Zona da Mata. Era o auge da repressão, iniciada com o golpe militar, em 1964, e agravada com a decretação do Ato Institucional número 5 (AI-5), em 1968. Gilse foi barbaramente torturada nos porões da ditadura em Belo Horizonte e quando foi presa, sua filha Juliana tinha apenas 4 meses. A irmã de Gilse, Gilda Cosenza, era casada com Henrique de Souza Filho, o Henfil, que ainda hoje é chamado carinhosamente por elas de Henriquinho.

Gilda e Henfil cuidaram de Juliana por dois anos, enquanto Gilse estava presa. Gilse recorda que quando chegou ao presídio em Juiz de Fora não sabia como estava sua filha. “Durante as sessões de tortura, eles (torturadores) colocavam uma criança chorando, dizendo que estavam maltratando a Juliana”, lembra Gilse da violência psicológica, acompanhada das barbáries físicas.

Quando foi transferida para Juiz de Fora, Gilse recorda que a condição era melhor. “Fazíamos greves de fome para ter direito a banho de sol e até conseguir ler um jornal diário”, destaca. “Quando chegou o primeiro exemplar do Jornal do Brasil todas queriam o primeiro caderno para ler as notícias de política, mas eu queria ver a parte com os cartuns para saber se estava tudo bem com o Henfil e, assim, com a Juliana.”

Quando leu o quadrinho, ela não se recorda se era com a Graúna ou algum dos fradinhos, viu um recado, que a fez chorar de emoção e gritar de alegria para as colegas de luta que estavam presas: “Juliana, chega de comer sorvete com morango, pois você vai ter caganeira”. O recado cifrado de Henfil fez com que Gilse soubesse que sua filha estava bem. “Depois, soube que não era a primeira vez que ele fazia isso”, conta Gilse. O irmão dela, Gildásio, que também era preso político, assim como o marido, Abel Rodrigues Avelar, também recebiam recados cifrados de Henfil.

“Eles esconderam, protegeram e criaram minha filha”, recorda Gilse. O agradecimento dela foi tanto, que, quando ficou grávida pela segunda vez, ainda levando uma vida clandestina, com nome falso, decidiu que o nome do filho seria um agradecimento para a irmã e o cunhado. “O nome dela vai ser Gilda, se for menina, e Henrique, se for menino. Foi uma forma de dizer obrigado”, lembra Gilse, que batizou a filha com o nome da irmã.

NAMORO

Gilse era namorada do também militante da AP Abel, amigo de Henfil. Os dois estudavam juntos na Faculdade de Economia da UFMG. “O Henriquinho era espirituoso em tudo. Minha irmã já estava namorando, mas ele ficou doido com ela.”, recorda Gilse. Ela lembra que Gilda vestia uma saia xadrez em preto e branco e o Henfil tentou conquistá-la de todas as maneiras. “Ele fez uma charge e colocou um desenho de uma moça com aquela saia sentada em um banco de praça com o namorado e com um desenho dele entrando por trás dos dois e separando”, recorda Gilse.

Outra história da corte de Henfil é um documento, com tom de galhofa, que ele registrou em cartório e entregou a Gilse e Abel dizendo que se comprometia a dar um pagamento mensal para o resto da vida se eles dessem força para que ele conseguisse namorar Gilda. Os planos, aliados a outros, deram certo e os dois começaram a namorar.

Quando a barra pesou para Gilse, em 1967, ela tinha que sair de Belo Horizonte e viver uma vida clandestina. “Eu não podia mais dormir na casa do meu pai. Cada dia tinha que dormir em um lugar. Fiquei sabendo que havia uma lista de 17 líderes estudantis que seriam presos a qualquer momento”, lembra Gilse. Ela foi avisar o namorado, que decidiu ir junto. Porém, quando avisou o pai, escutou: “Filha comunista já é um problema grande, mas amasiada é demais. Casa primeiro, mas casa rápido”. Quando Henfil soube da situação, decidiu aproveitar o embalo e se casar também com Gilda. “Se é para limpar a moral da família limpa a área toda”, disse Henfil, segundo Gilse. E assim os dois casais se casaram no mesmo dia, na Igreja Santo Antônio.

DOENÇA

“O Henriquinho era uma pessoa muito contraditória. Por um lado, era um gênio, um artista, uma pessoa muito inquieta, que queria desvendar o mundo e a sociedade. Ele queria sempre mudar e buscar novas situações. Inclusive para o trabalho dele. Por outro lado, ele tinha o problema da hemofilia, que fazia ele sofrer muito e o impedia de muita coisa”, conta Gilse.

Juliana Cocenza hoje tem 45 anos e lembra do tio Henfil como “um cara extremamente brincalhão”. Ela recorda de uma foto em que ela está com ele, em 1979, quando foi decretada a anistia. Na foto também está a irmã de Juliana, Gilda. Outra recordação que ela guarda é um bilhete deixado pelo tio, lamentando não ter se encontrado com ela em São Paulo, em 1984. “Ele gostava de brincar com tudo quanto é tema e brincava com os assuntos da vida. Passou muito disso para o cartum”, destaca Juliana. “Tenho uma gratidão sem tamanho por ele e por minha tia. Sem tamanho. Eu devo minha vida a eles.”

No bilhete guardado pela sobrinha Juliana como recordação, o carinho do tio cartunista


Gilda, a tia de Juliana, lembra que a criança estava muito frágil, quando uma companheira de Gilse a levou para seus cuidados. “Tinha 4 meses e apenas três quilos”, detalha. Gilse teve gêmeas prematuras, mas somente Juliana sobreviveu e precisava de cuidados intensos. “É importante falar dessa época para que as pessoas não se esqueçam disso. Assusta-me muito que os jovens não saibam o que foi a ditadura, o que essas pessoas passaram e o horror que foi a tortura”, lamenta Gilda.

Traços da resistência

O mineiro Henrique de Souza Filho, o Henfil, nascido em Ribeirão das Neves, foi um dos maiores cartunistas brasileiros. Resistiu à ditadura com cartuns inteligentes e irônicos e é o autor da expressão “Diretas Já”, que marcou a campanha pela volta das eleições populares para presidente e pelo fim dos anos de chumbo. Fez história no semanário O Pasquim, em companhia dos não menos brilhantes Millôr Fernandes, Ziraldo, Jaguar, Paulo Francis e Ivan Lessa. Em 5 de fevereiro Henfil completaria 70 anos, mas morreu em janeiro de 1988, um mês antes de completar 44 anos, vítima do vírus da Aids, contraído em uma das transfusões de sangue a que era submetido periodicamente. O cartunista era hemofílico, assim como seus irmãos o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, e o músico Chico Mário. Henfil teve um filho com Gilda, Ivan Cosenza, hoje responsável pela acervo da obra do pai. Recentemente, a Coleção Fradim foi relançada pelo instituto e ONG batizados com o nome do artista.

Publicado em Estado de Minas