Especiais - PCdoB, 96 anos de luta

Os primeiros passos

José Luiz Del Roio Publicado em 22.03.2018

Leia o artigo publicado em 100 anos da Revolução Russa, legados e lições, publicado pela Fundação Maurício Grabois e a editora Anita Garibaldi, com primeira edição em março de 2017, organizado por Osvaldo Bertolino e Adalberto Monteiro.

O processo que desembocou na grande revolução soviética foi de difícil leitura. Revolucionários europeus e até mesmo russos se perdiam nos seus meandros. Podemos então imaginar o que sofreram os militantes brasileiros daquela época. 

Uma imensa extensão, com poucas cidades dignas deste nome e um movimento operário ainda nascendo. Lutavam em um ambiente hostil, baixo uma república oligárquica, com meios de comunicação tecnologicamente atrasados e com uma grande imprensa enganosa. (Já naquela época.) E os acontecimentos revolucionários se desenrolavam em uma área tanto distante que parecia um conto de fada.

Seus instrumentos de análise eram muito frágeis, pois se baseavam, principalmente, em estudos sobre teóricos anarquistas e anarco-sindicalistas. Porém, contaram com duas importantes armas: a unidade em torno do problema da guerra e a clarividência de Astrojildo Pereira.

Desde o 1° Congresso Operário realizado em 1906, no Rio de Janeiro e sucessivamente nos encontros mais importantes, o proletariado organizado sempre se exprimiu contra a guerra de forma contundente. Nesta posição se sentiam respaldados pelos grupos anarquistas existentes em outros países e também pela II internacional, que declamava que contra a guerra os trabalhadores deviam declarar a greve geral.

Porém, quando em agosto de 1914 eclode o conflito em Europa que em poucos meses se transformaria em mundial, o desastre no campo da esquerda é total. Os partidos socialistas e socialdemocratas aderem aos governos de seus países e votam os créditos de guerra. Raros serão os líderes que resistem a esta onda chauvinista e denunciam a guerra imperialista.

O mesmo acontece com o anarquismo. O ícone deste movimento, P. A. Kropotkin, acompanhado por Jean Grave, Paul Reclus, Alceste de Ambris e outros, defendem a justeza da guerra contra o militarismo alemão.

A grande imprensa, os pequenos grupos socialistas e intelectuais importantes tendem a apoiar a Entente e fazem grande alarido disso. Entre outros colocavam- se Rui Barbosa, Olavo Bilac e Nestor Pestana. Fácil de explicar tal posição, pois o capital britânico era dominante no Brasil e havia uma notável influência da cultura francesa. A situação piora quando o Reino da Itália se joga na carnificina em maio de 1915. O grupo mais consistente de proletários era italiano e os patrões de fábricas daquela mesma nacionalidade pressionavam pelo apoio à pátria de origem.

Os militantes sentem-se desarvorados. Isso se nota na frase de Astrojildo: “Eu esperava naturalmente, que esta guerra quando não fosse evitada, fosse pelo menos embaraçada pelas hostes da revolução. Não foi. Rapidíssima, traiçoeira, fatal. Foi um desastre.”  Mas em tom profético dirá: “Após a maior guerra do mundo virá a maior revolução do mundo.”  (1).

O movimento contra a guerra se reorganizou e já no 1° de Maio espocaram demonstrações substanciosas em diversas cidades. Mas Astrojildo não achava que bastasse, tinha como objetivo estreitar relações com aqueles que peleavam em outros países, pela mesma causa.

A ocasião surgiu. Vários sindicatos, movimentos, socialistas e anarquistas convocaram um Congresso Internacional da Paz. Deveria se realizar na pequena cidade galega de Ferrol, Espanha, no final de abril de 1915. Embora o Estado ibérico fosse neutro, acabou sofrendo a pressão da Entente e proibiu o evento.

Astrojildo não teve dúvidas. Convenceu a Confederação Operária Brasileira a organizar o Congresso no Brasil. No dia 29 de junho de 1915 a COB lançou o manifesto-convite assinado por Antonio F. Vieytes e Astrojildo Pereira. Era dirigido “aos socialistas, sindicalistas, anarquistas e organizações operárias de todo o mundo”. Vamos ler algumas linhas. “Atos de sublevação já se deram nas trincheiras das nações em guerra. Liebknecht e outros na Alemanha, lançaram um manifesto pedindo a Paz. Sebastien Faure fala ao sentimento dos seus compatriotas, com um manifesto, e este chega às trincheiras, onde os soldados entusiasmados cantam a Internacional. Na Rússia, na própria capital da nação, os revolucionários protestam contra a guerra.”

Mais adiante clama: “Proletários das nações beligerantes!, antes de morrer nas trincheiras, defendendo os interesses da classe capitalista, é preferível  morrer nas barricadas, defendendo a vossa emancipação.”

Um comentário sobre o texto revela conhecimento sobre o movimento de oposição à guerra nos países em conflito. E isso não era fácil. Afasta-se de um pacifismo inócuo, quando propõe a insurreição ou a guerra civil contra a guerra imperialista. Uma coincidência interessante foi a realização da Conferência de Zimmerwald, pequeno burgo na Suíça, entre 24 e 30 de abril. Encontraram-se 38 delegados de 10 países europeus para discutirem que atitude tomar perante a catástrofe. Um dos delegados russos, bolchevique, V. Lênin, colocou a palavra de ordem: “transformar a guerra imperialista em guerra civil.” Foi um voto vencido, mas acabou se impondo, pelo menos no caso russo. Se Astrojildo ficou sabendo disso naquele momento, deve ter ficado muito satisfeito. 

O Congresso realizou-se nos dias 14, 15 e 16 de outubro. Muitos foram os delegados brasileiros e representantes da Argentina, Portugal e Espanha. Outros países responderam ao apelo, mas se encontravam impossibilitados de chegarem pela dificuldade imposta pelo próprio conflito. 

O fato de o Brasil ser um país periférico tirou muito do valor deste encontro, entretanto ajudou a espalhar os conceitos contra a guerra entre os trabalhadores brasileiros (2).

O conflito continuou a ampliar-se. Sempre novos países e seus povos eram jogados nas fornalhas. Centenas de milhares de soldados morriam nas trincheiras, não parecia ter nenhuma solução para a hecatombe. Os pobres jornais operários e anarquistas brasileiros continuavam impotentes a denunciar os fatos.

O ano de 1917 começou com uma crise econômica alarmante. O grande produto de exportação do Brasil, o café, ficava estocado. Era um luxo que os principais países importadores, agora em guerra, não podiam suportar. Os financiamentos internacionais sumiam, pois eram direcionados para a indústria militar. A carestia golpeava duramente e pesava nos ombros dos trabalhadores.

Demonstrações, protestos e greves começaram a espocar em todas as partes. Com muito maior força em São Paulo. Explica-se pelo fato de que nesta cidade se concentravam os cotonifícios, que conseguiam escoar sua produção, em parte, através da exportação e para cobrir as necessidades de uma população em acelerado aumento. Ao mesmo tempo em que a mão de obra escasseava, pois a emigração havia minguado. Agora o excedente populacional europeu morria na guerra. Fatores estes que fortaleciam a força de contratação dos trabalhadores.

A greve começou no dia 3 de junho no cotonifício Rodolfo Crespi no bairro paulistano da Mooca. Esta empresa era de capitais italianos, originários da Lombardia. A família Crespi era importante, tendo suas raízes na Idade Média. Suportar greves operárias não era uma das suas características. Poucos anos depois, Rodolfo Crespi seria um dos financiadores de Benito Mussolini. A repressão foi intensa. Outras fábricas foram se paralisando e o movimento se transformou em uma greve geral. Choques com a polícia se generalizaram, com mortos e feridos e muitas prisões. Batalhões do exército foram mobilizados, porém vacilavam em intervir. Finalmente depois de quase 50 dias de luta, os patrões cederam. Os grevistas tinham conseguido aumentos de salários, redução das horas de trabalho e limitação do trabalho feminino e infantil.

O bom combate contra o desmando patronal se entrelaçava com as muitas notícias internacionais que chegavam a todo momento. A principal era de que o movimento do proletariado de Petrogrado, capital do Império Russo, iniciado no dia 8 de março (calendário gregoriano), havia derrubado a monarquia autocrática dos Czares. Imensa felicidade, todos festejavam o fim daquele regime infame. Parecia abrir uma nova fase na história da humanidade.

Mas os nossos anarquistas sindicalistas tinham desconfiança e encontravam-se confusos. O novo governo russo, que se declarava revolucionário, reafirmava a decisão de continuar a guerra imperialista, não realizava a distribuição de terras e tinha como primeiro-ministro um príncipe (G.Y. Lvov). Além disso, era aclamado pela imprensa da oligarquia brasileira.

E a angústia aumentou quando o governo dos Estados Unidos declarou guerra contra o império alemão no dia 6 de abril. Isto significava que as pressões para incluir o Brasil na lista das nações beligerantes iriam aumentar e muito. A Federação Operária do Rio de Janeiro rapidamente convocou uma grande assembleia e enviou um apelo ao presidente da República Wenceslau Brás, exortando para manter a neutralidade do paíd.  Assim, as greves e manifestações contra a carestia e a luta pela paz se forjavam juntas.

Para tentar analisar o complexo quadro nacional e internacional e fornecer alguma orientação ao proletariado, Astrojildo Pereira, junto com Adolpho Porto e a colaboração de Lima Barreto, criaram a revista O Debate. Este veículo, junto com o jornal O Cosmopolita – que era o “Orgam dos empregados em hotéis, restaurantes, cafés, bares e classes congêneres” – realizam com seus parcos recursos um grande trabalho de informação (3).

Vou citar apenas alguns artigos que acompanham a evolução do pensamento de Astrojildo sobre a revolução em ato na Rússia. No 1º de julho, na sua página “Os factos do exterior”, ele, de forma quase genial, consegue localizar a questão dos dois poderes em que se debate a revolução e qual seria o seu desenlace mais provável. Quando Lênin colocou esta tese em discussão no Comitê Central dos Bolcheviques no final de abril, a resistência foi grande. Foram necessárias semanas para convencer a massa dos militantes do partido. E o próprio Soviete de Petrogrado se opôs. Logo, era ainda uma posição minoritária. Mas Astrojildo a defende.

Vamos ler algumas linhas: “Os dois núcleos orientadores do movimento, a Duma e o Comitê de Operários e Soldados, este surgido da própria revolução, logo tomaram posições antagônicas, terminado o primeiro golpe demolidor. A Duma, vindo do antigo regimen, pode dizer-se representa em maioria, a burguesia moderada e democrática, ao passo que o Comitê de Operários e Soldados representa o proletariado avançado, democrata, socialista e anarquista. A Duma deu o governo provisório e o primeiro ministério; O Comitê de Operários e Soldados derrubou o primeiro ministério, e influiu  poderosamente na formação do segundo e tem anulado quase por completo, sinão de todo, a acção da Duma.” Continua mais adiante com sua análise : “A qual das duas forças esta destinada a preponderância na reorganização da vida russa? O que pode se afirmar com certeza é que esta preponderância tem cabido até agora ao proletariado. E como o proletariado, cuja capacidade política já anulou o papel da Duma burguesa, esta também com as armas na mão, não encontrando, pois resistência séria aos seus desígnios” (4).

Astrojildo havia descoberto Lênin, mas também a grande imprensa começa a fazê-lo. Trazia notícias quase de páginas policiais, tratando-o como chefe da rede de espiões do Kaiser alemão na Rússia. Noticiavam com satisfação e com certa frequência que havia sido preso ou morto.

A vacilação do exército em reprimir grevistas despertou no líder anarquista sonhos de que podiam ser criados também no Brasil os Sovietes. Sem afirmar esta possibilidade, lançava artigos e notícias em tom interrogativo sobre a criação de comitês de operários, soldados e marinheiros. O Debate de 29 de setembro publicava um artigo de Roberto Raport tentando explicar quem era de fato Lênin. Apesar dos erros e lacunas, tornou o nome do chefe dos bolcheviques conhecido. Astrojildo como pessoa séria, pesquisador consciente, revolucionário integro,  assim que conseguiu um texto de Lênin o apresentou nas páginas de sua revista, no dia 27 de outubro. Finalmente podia se saber o que Lênin pensava realmente. Tratou-se da longa carta que ele escreveu aos socialistas helvéticos, quando deixou seu exílio na Suíça em março de 1917.

Naquelas mesmas horas, no dia 26 outubro, o governo brasileiro declarava guerra à Alemanha. A repressão recrudesceu, mas o movimento não arriou suas bandeiras e nem se deixou envolver na grande campanha chauvinista, incentivada pelo imperialismo estadunidense e pela oligarquia nativa. Lutaram com a força possível e dignidade.

A história caminhava rápido e no 7 de novembro agências de notícias estrangeiras começavam a anunciar a tomada do poder pelos sovietes em Petrogrado. Foram necessários alguns dias para se entender alguma coisa, mas logo ficou claro que havia acontecido a maior revolução social da história.

Para os revolucionários brasileiros, teve início outra fase sendo preciso estudar, discutir e organizar-se de novas formas. Não foram fáceis as condições repressivas e atrasadas do desenvolvimento capitalista brasileiro, elas opunham grandes barreiras.

Em março de 1918, Astrojildo lança um folheto de 16 páginas assinadas como Alex Pavel, intitulado de A Revolução Russa e a Imprensa. Na introdução afirma: “As páginas que forma este folheto foram escritas em dias espaçados, no interregno de tempo contado de 25 de novembro do ano findo até o 4 de fevereiro último.” Apresenta a sua inteligente e implacável defesa da Revolução Soviética. Tem ainda muito de anarquismo, mas havia dado os primeiros passos que o levariam a criar a em Niterói, entre 25 e 27 de março de 1922, o Partido Comunista do Brasil. 

José Luiz Del Roio é diretor do Instituto Astrojildo Pereira.

 

Notas:

1 – Tal frase encontra-se na revista A Vida – publicação mensal encabeçada por Astrojildo que durou  sete números, de 30 de novembro de 1914 a 31 de março de 1915. Interessante, pois aí se encontra a visão de Astrojildo sobre aqueles meses iniciais da Primeira Grande Guerra Mundial. Em 1988 foi feita uma edição Fac-similar, organizada pelo Centro de Memória Sindical e pelo Arquivo Histórico do Movimento Operário Brasileiro de Milão, Editora Icone. Conta com uma introdução de J. L. Del Roio.

2- No arquivo de Astrojildo Pereira, pertencente ao Instituto com o mesmo nome e depositado no Cedem/Unesp, encontra-se um farto material sobre esta conferência, com a correspondência, delegados, os debates e resoluções.

3- O Cosmopolita, jornal aparentemente sindical, mas na realidade muito político, onde escreviam Astrojildo Pereira, Orestes Barbosa, Jose Oiticica, João Vosgos, Rodrigues Martins, entre outros. Em dezembro de 1917 publica uma biografia de V. Lênin. Em seguida nos próximos números de mais alguns personagens da revolução soviética como L. Trotsky e M. Gorki.

4- Este artigo de Astrojildo sobre o duplo poder já foi tratado em algumas publicações. Como O Ano Vermelho e sua influência no Brasil, de Muniz Bandeira, Clovis Melo e A.T. Andrade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. A Grande Revolução de Outubro e a América Latina de Boris Koval. São Paulo: Alfa-Ômega, 1980. E também por mim, em um artigo para uma rede virtual marxista.

Aproveito nestas notas para agradecer à competente e dedicada equipe do Cedem/Unesp pelo carinho que dispensam aos arquivos do movimento operário e social do nosso país.