Especiais - Bicentenário de Karl Marx: Desbravar um Mundo Novo no Século XXI

Turbulências na vida de Marx afetam compreensão de sua obra

Cezar Xavier Publicado em 08.06.2018

Em palestra proferida durante o Seminário do Bicentenário Marx, em São Paulo, o pesquisador da MEGA e autor da mais recente biografia de Karl Marx, Michael Heinrich, mostrou como a precisão na análise dos textos originais do filósofo, assim como a relação com a perseguição política que sofreu alteram sensivelmente a compreensão de sua obra. Muitos o leem como um autor contínuo e linear, quando Marx abandonou e retomou temas e raciocínios durante toda a vida.

Foto: Cezar Xavier

Michael Heinrich, o estudioso da MEGA, instituição que preserva, estuda e publica os manuscritos de Karl Marx e Friedrich Engels, proferiu uma preciosa palestra em São Paulo, por ocasião das celebrações do Bicentenário Marx. Convidado pela Fundação Maurício Grabois, o alemão participou do Seminário Desbravar um Mundo Novo no século XXI, ocorrido dia 19 de maio no Novotel Jaraguá, no Centro de São Paulo.

Em sua palestra, Heinrich revelou o trabalho minucioso que a MEGA realiza em torno de manuscritos, anotações, cartas e outros documentos de Karl Marx, mas também de todos que se relacionaram com ele, para compreender com precisão o sentido de seus escritos. Autor da mais nova, e monumental, biografia, Karl Marx e o nascimento da sociedade moderna: biografia e evolução de sua obra (volume I), pela editora Boitempo, o sociólogo também revelou algumas das peculiaridades da pesquisa minuciosa que desenvolveu, a partir do material de que dispõe na MEGA, entre outros, para construir uma narrativa da vida intelectual de Marx. A considerar a dimensão do primeiro volume, este será o projeto de várias vidas, conforme sinaliza o próprio autor.

 
Cezar Xavier

A mesa de debates foi conduzida pelo jornalista e professor da UFMA, Fábio Palácio, que, após longa entrevista com o sociólogo alemão para a revista Princípios, concluiu que a obra de Marx é largamente desconhecida, “muito maior que o que foi publicado em vida e após a morte de Marx.” Essa compreensão é fundamental para romper com o dogmatismo que cerca as interpretações do texto marxiano, sempre visto como completo, concluído e encerrado em suas conclusões.

Palácio também ressaltou o fato de haver diferentes versões da obra de Marx numa mesma língua, em que as traduções alteram sensivelmente o sentido da obra.  “Duzentos anos depois, esta obra ainda está sendo descoberta, o que nos faz pensar o quanto Marx é um autor gigantesco”, afirmou.

Palácio também mencionou o fato de cada geração de lutadores do socialismo ter conhecido seu próprio Marx. “É surpreendente que Lênin jamais tenha lido A Ideologia Alemã e os Manuscritos Filosóficos, publicados muito tempo depois”, disse ele sobre o revolucionário que analisou profundamente a obra de Marx, mesmo não tendo acesso à maioria de seus escritos conhecidos hoje.

A MEGA significa, em alemão, Obras Completas de Marx e ENGELS, um projeto da Academia de Ciências da Alemanha, que já foi iniciado três vezes. Começou na URSS, prosseguindo na Alemanha Oriental como Mega 2, a partir dos anos 1960. Conta com financiamento do estado, sob risco de manutenção pelos próximos 15 anos. “Heinrich calcula que será precisos ainda 20 anos para publicar os 114 volumes que comporiam tudo que Marx escreveu”, conta Palácio.

O corpo de contratados é muito enxuto, precisando de parcerias com estudiosos das universidades sob supervisão dos coordenadores da MEGA. “O sentido dessa mesa é conhecer o que o estágio atual da MEGA pode aportar de novos insights para enriquecer o marxismo contemporâneo”.

ASSISTA À ÍNTEGRA DA PALESTRA E DEBATE DE MICHAEL HEINRICH, A PARTIR DE 3h11m36s: