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Jornal ataca pesquisa acadêmica sobre cobertura do Governo Flávio Dino no Maranhão

Cezar Xavier Publicado em 24.07.2015

Jornal O Estado do Maranhão move ataques a pesquisa coordenada pelo diretor da Fundação Maurício Grabois, Fábio Palácio, em parceria com docentes da Universidade Federal do Maranhão. Resposta das instituições obteve retratação do jornal.

Coleta aleatória de manchetes de primeira página, nos primeiros dias de janeiro, revela o tom negativo contra o Governo do Estado.

Em Defesa da Liberdade de Cátedra

O jornal O Estado do Maranhão, de propriedade da família do ex-presidente José Sarney, incomodou-se com a aprovação de financiamento de uma pesquisa acadêmica sobre o comportamento editorial do jornal em relação ao governo de Flávio Dino (PCdoB). A pesquisa “Governando contra as notícias: o primeiro ano do governo Flávio Dino nas páginas do jornal O Estado do Maranhão” foi submetida a um edital da Fundação de Amparo à Pesquisa do Maranhão (FAPEMA) e, após avaliação por consultores externos, aprovada para financiamento. O resultado foi divulgado no último dia 15 de julho. No dia seguinte, a coluna Estado Maior surpreendeu ao atacar a pesquisa, coordenada pela professora Li-Chang Shuen Cristina Silva Sousa em parceria com o diretor da Fundação Maurício Grabois, professor Fábio Palácio de Azevedo, e a professora Josefa Bentivi Andrade. A equipe de doutores responsável pela pesquisa compõe o corpo docente do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Maranhão.

Os professores Li-Chang Shuen Sousa, Fábio Palácio de Azevedo e Josefa Bentivi Andrade.

Demonstrando claro desconhecimento da proposta da pesquisa e do funcionamento dos editais das agências de fomento, a coluna acusou a Fapema de aprovar um projeto por critérios políticos e afirmou que a intenção do governo é atacar o jornal e calar a liberdade de imprensa. “A pesquisa sinaliza críticas ao jornal e flores aos Leões”, afirmou O Estado do Maranhão em referência ao Palácio dos Leões, sede do governo estadual.

A coluna buscou, ainda, desqualificar a área de Ciências Sociais e Humanas ao estranhar um projeto “voltado especificamente para analisar a postura de um jornal frente ao atual governo”. O jornal afirmou ser “curioso figurar entre estudos para as áreas de saúde, ciências e tecnologia uma pesquisa que (pelo título) acena em direção a interesses do governo contra a imagem de um veículo de imprensa”. O que tentou o Estado do Maranhão, com esse ataque à liberdade de cátedra, foi lançar uma sombra de descrédito sobre uma equipe qualificada, com pesquisas ativas na área de mídia, política e poder.

A reação da comunidade acadêmica foi rápida. O departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Maranhão pediu direito de resposta, que foi acatado pelo jornal, e fez circular amplamente uma nota de repúdio na qual esclarece que pesquisadores não fazem militância política, e sim ciência. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Maranhão também afirmou, por meio de nota, que o julgamento das propostas apresentadas ao edital foi feito por consultores externos, de outros estados, com a chancela de serem pesquisadores de produtividade do CNPQ e sem nenhum vínculo com quaisquer dos proponentes locais. A repercussão negativa para o jornal foi tão grande que no dia 17 de julho a coluna voltou ao assunto para publicar o direito de resposta e tentar se retratar, ao desejar “sorte” para os pesquisadores.

Veja os gráficos que consolidam os números relativos às valências negativas, positivas e neutras encontradas na primeira página do jornal entre 1 de janeiro e 10 de abril de 2015.

Pesquisa que incomoda

O projeto prevê o acompanhamento da cobertura do jornal sobre o primeiro ano do governador Flávio Dino, com uma comparação quantitativa e qualitativa da cobertura do periódico durante o último ano da governadora Roseana Sarney, uma das proprietárias de O Estado do Maranhão. Os pesquisadores partem do pressuposto de que o jornalismo é uma instituição política, e que os jornais atuam como agentes institucionais na disputa por hegemonia que, no caso em exame, dá-se entre as elites maranhenses tradicionais e os novos atores políticos alçados ao poder estadual com a vitória de Flávio Dino nas eleições de 2014.

O principal objetivo da pesquisa é entender o comportamento editorial do jornal, que dá voz a um grupo político deslocado para a oposição após décadas no comando do estado. Um paper com os resultados preliminares já se encontra disponível e será apresentado no Rio de Janeiro em setembro, durante o XXXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. O trabalho será publicado em breve pelo portal Grabois.

* Com informações de Fábio Palácio.

Leia abaixo a coluna Estado Maior, de O Estado do Maranhão, que ataca a pesquisa.

Leia aqui a nota da Fapema.

Leia aqui a nota do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Maranhão.

Leia aqui nota do Sindicato dos Professores da UFMA (Sind-UFMA).

Leia abaixo a retratação de O Estado do Maranhão.