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Mais de trinta anos de luta pela universidade na Zona Leste

Cezar Xavier Publicado em 06.03.2015

Desde 1983, ainda na ditadura, a distante e abandonada Zona Leste de São Paulo luta por uma escola de ensino superior para seus jovens. Nem as escolas particulares se interessavam pela região, e o Movimento de Luta pela Universidade Pública da Zona Leste já sonhava alto. A comunista Ana Martins esteve lá desde o início e tem história e conquistas para contar.

Ana Martins, quando era parlamentar, em um dos inúmeros eventos de defesa da universidade pública na Zona Leste.

Desde 1983, ainda na ditadura, a distante e abandonada Zona Leste de São Paulo luta por uma escola de ensino superior para seus jovens. Nem as escolas particulares se interessavam pela região, e o Movimento de Luta pela Universidade Pública da Zona Leste já sonhava alto. Foi preciso mais de vinte anos de luta incansável para a chegada da USP em 2005, e eleger um operário sem diploma superior para que uma universidade federal chegasse naquela região mais populosa da capital paulista. Depois de muita violência contra o movimento, a Fatec ocupou os alicerces de dois cadeiões que seriam construídos na região.

Foram inúmeras manifestações, seminários com intelectuais renomados, debates, abaixo-assinados e assembleias com mais de cinco mil pessoas, nestes 32 anos, até a conquista da USP Leste, da Unifesp e os cursos superiores da Fatec. A ex-vereadora Ana Martins (PCdoB) acompanhou esta luta desde o início como liderança do movimento. “Íamos como comissão organizadora do movimento na Unesp, na USP, na Unifesp conversar com reitores. Não sabíamos qual seria o caminho adequado, por isso falávamos com todo mundo”, diz Ana, revelando como foi extenuante e desgastante a luta, ainda que gratificante. Junto com ela, participaram ativamente do movimento Antônio Marquione, o Padre Ticão, Luiz França e Anderson, lideranças ligadas aos gabinetes dos parlamentares Paulo Teixeira (PT),  Jamil Murad (PCdoB), Devanir Ribeiro (PT), Adriano Diogo (PT) e Juliana Cardoso (PT).

Para ela, estas três universidades são o mínimo necessário para aquela região tão grande. “Dá pra começar”, diz ela, ainda insatisfeita e disposta a continuar a luta. A expectativa é que a consolidação destas escolas avance com criação de novos cursos e ofertas de milhares de novas vagas.

Ana lembra da luta pela Fatec, quando o governador Mário Covas (PSDB) pretendia fazer dois cadeiões no terreno onde hoje é a escola. “Por coincidência, um dia o Covas seguia pela Radial Leste, em direção à Cohab, e se deparou com uma manifestação do nosso movimento. Como era do perfil dele, desceu do carro e foi confrontar os manifestantes para saber o porquê daquilo. Foi assim que tudo mudou!”, relata Ana, lembrando que os cadeiões já tinham começado a ser construídos e o movimento sofria violenta repressão há seis anos, quando o projeto das prisões mudou para Guarulhos.

Cidade da USP

O regimento da USP é de 1946, quando São Paulo tinha apenas dois milhões de habitantes, mas nunca foi mudado. É este documento que trava o avanço universitário na cidade, hoje com 11 milhões de moradores, pois não permite que numa cidade tenha o mesmo curso superior público.

Por isso, a USP Leste teve que se reinventar com cursos diferenciados e modernos, como Ciências da Natureza, Gestão Ambiental, Gestão de Políticas Públicas, Sistemas de Informação, Lazer e Turismo, Moda, Obstetrícia e Gerontologia, entre outros.  Hoje, só a região Leste da cidade conta com quatro milhões e 300 mil habitantes, sendo, no mínimo, um milhão e 800 mil jovens.

Outro entrave que precisou ser deslocado por Covas foi a possibilidade de construção de interesse social na  Área de Proteção Ambiental (APA) que vai da Penha a Salesópolis, o Parque Ecológico do Tietê. A USP foi instalada ali, às margens do Tietê, mas enfrentou problemas de contaminação do solo. A Unifesp deve inaugurar no próximo ano, já que a Cetesb precisou examinar o nível de contaminação do solo da altura da Jacu-Pêssego com a Nova Trabalhadores.

Estou na universidade!

Ana lembra dos tempos da cultura do “Jacabei”, quando a maioria dos jovens não tinha a menor perspectiva de fazer um curso superior. “Quando ia procurar emprego, o patrão perguntava se o candidato estava estudando, e ele respondia: Não, já acabei!” Continuar estudando após o curso secundário ou mesmo fazer um caro cursinho pré-vestibular nem existia no horizonte destes jovens. “Hoje, conseguimos criar oito lugares com cursinhos pré- vestibular pelo Centro Integrado Educação Empresa (CIEE)”, acrescenta ela, como mais uma conquista da população.

Com a ausência do poder público, e o estímulo do Governo FHC às universidades privadas, estas empresas começaram a ocupar o vácuo educacional na região, abarcando milhares de estudantes e tornando-se grandes corporações lucrativas. “A chegada dessas escolas públicas estaduais e federal, provocaram uma queda vertiginosa nos preços das particulares”.

A luta pela educação superior não é simples nem conclusiva. Conquistar as escolas não é o suficiente em bairros tão carentes e empobrecidos. O primeiro ano de um curso particular apresenta 25% de evasão, enquanto a partir do 3º ano a desistência dos alunos chega a 40%. “Os jovens não aguentam pagar o curso, porque, muitas vezes, perdem o emprego. Na Fatec, observamos que a evasão se dava por motivos como dificuldades com transporte e alimentação”, explicou a ex-vereadora, acrescentando que, ao trancar o curso, o aluno perdia a possiblidade de voltar. Foi preciso lutar pela mudança na lei para que o prazo para retorno ao curso fosse ampliado. “Antes, discutíamos a democratização do acesso e, agora, a garantia à permanência na sala de aula”, resumiu.

Universidades nas pontas periféricas

A luta pela Unifesp também foi longa, de sete anos, com caravanas anuais aos ministérios, em Brasília, para garantir o comprometimento com a instalação da universidade. “A Dilma exigiu que a Unifesp tivesse o curso de Engenharia de Transporte, devido à localização”, conta Ana. Ela avalia que o terreno dedicado à Unifesp é privilegiado, possibilitando um aumento grande da universidade no futuro. A Unifesp será uma escola com ênfase nas questões urbanas.

Outra dificuldade a ser superada é que os cursos não pouco divulgados e as universidades pouco conhecidas. Maria Cristina, a nova diretora da USP Leste, diz que ainda existe preconceito com a Zona Leste, mesmo na pós-graduação. “No vestibular da USP, os cursos da Leste são a última opção dos candidatos”, diz Ana.

Houve muito questionamento preconceituoso com a encampação de uma universidade na Zona Leste, de acordo com Ana, assim como houve com os CEUs da prefeita Marta Suplicy (PT).  “Enquanto FHC, o intelectual tucano, nunca criou uma universidade, Lula, sem nunca ter pisado numa universidade, criou 14, sendo que na primeira, ele escolheu a miserável região do Vale do Jequitinhonha (MG) para instalar um campus. O PSDB levou mais de 20 anos para acatar a proposta do movimento para fazer a USP, enquanto do Lula pra cá, já saiu a Unifesp na Jacu-Pêssego”, desabafa Ana.

Muito prática e sem rodeios ou vaidades, Ana conta satisfeita que lutou muito, inclusive na clandestinidade, desde 1975, reivindicando creches, depois avançando para o 2º grau e os cursos supletivos para adultos analfabetos. A satisfação dessa trajetória de lutas é poder contar de boca cheia que ela chega aos anos 1980 com a luta pelo ensino superior, e pode passear pela Zona Leste, neste 2015, podendo dizer que tem um pedacinho de si em cada um daqueles endereços educacionais.