أحمد مرسي

Traduzido por  Coletivo de tradutores Vila Vudu

Estudantes, empregados e operários participam da ação. Durante toda a semana as escolas permaneceram fechadas. A Zona Franca Pública e a Investment Authority – conjunto de mais de 29 fábricas na área urbana da cidade – fecharam as portas. O prédio do governadorato de Port Said foi cercado e a estrada de ferro Cairo-Port Said foi bloqueada por tanques do exército, que também cercaram outros equipamentos considerados chaves pelo governadorato.

“Os habitantes de Port Said foram negligenciados ao longo de décadas. Não contam com quaisquer serviços públicos e são atacados. O sangue deles respinga nas ruas” – disse Mohamed Abdel-Wahab, 58 anos, morador da cidade, que participou, no domingo, de uma acampada à frente da sede do governadorato.

No domingo, milhares de manifestantes participaram de passeatas organizadas como parte da campanha de desobediência civil. Os manifestantes exigem que se condenem os responsáveis pela morte de mais de 40 manifestantes nos violentos confrontos com a Polícia que irromperam dia 26 de janeiro e levaram à implantação de toque de recolher na cidade.

A violência aconteceu depois que o tribunal condenou à morte 21 moradores de Port Said, acusados de participação na morte de 74 torcedores do al-Ahli de futebol, em fevereiro de 2012, depois de um jogo de futebol entre as equipes do al-Masri, de Port Said, e do al-Ahli, do Cairo.

A maioria dos condenados declararam-se inocentes. Muitos, em Port Said, estão convencidos de que o tribunal condenou sem provas suficientes, usando alguns dos acusados como bodes expiatórios, para acalmar a situação no Cairo. O julgamento, dizem eles, teve motivação política, tentativa para aplacar a ira dos “Águias Verdes” torcedores do al-Ahli, que ameaçaram criar o caos, se as sentenças não forem executadas.

“Exigimos que um tribunal e juízes independentes investiguem a morte, mês passado, de mais de 40 moradores de Port Said” – Abdel-Wahab disse a Al-Ahram Weekly. “Exigimos também que aqueles 40 mortos nos confrontos do mês passado sejam considerados mártires da revolução. E exigimos que os suspeitos de terem participado do massacre no estádio, em 2012, sejam novamente julgados. Muitos dos que permanecem presos são inocentes.”

“Será que, para fazer valer nossos direitos, teremos de agir como ‘os Águias’ do al-Ahli, que ameaçaram lançar o país em estado de anarquia?” – perguntou Mahmoud Rayan, 25 anos, desempregado, habitante de Port Said. Antes de a corte anunciar a sentença, torcedores do al-Ahli haviam cercado o prédio da Bolsa de Valores e bloqueado a ponte 6 de Outubro, exigindo a pena de morte para os responsáveis pelo massacre no estádio de Port Said.

“Exigimos um pedido oficial de desculpas pela violência. E as vítimas da violência policial na cidade devem ser consideradas mártires da Revolução de 25 de Janeiro” – disse Rayan àquele semanário.

“Se presidentes tratam o sangue dos egípcios como mercadoria barata, abaixo todos os presidentes” – cantavam os manifestantes em passeatas que cruzavam a cidade de Port Said. Também gritavam slogans contra a Fraternidade Muçulmana e o Ministério do Interior.

“A mídia fez crer e divulgou para a opinião pública que todos os que morreram mês passado seriam de gangues armadas, interessados em invadir a prisão para libertar os suspeitos que permanecem presos. É mentira” – disse Ahmed Hassan, morador de Port Said e ativista. – “A maioria dos que morreram nada tinham a ver com a tentativa de invadir a prisão.”

Mahmoud Al-Arabi, filho de Soad Ali, morreu dia 26 de janeiro. “Quem pagará pelo sangue do meu filho?” – pergunta ela. – “Por nós, só temos Deus”.

“Mahmoud tinha apenas 23 anos. Saiu para comprar comida para o jantar. Estava a mais de meio quilômetro de distância da prisão. Foi morto com um tiro na cabeça. Condeno Morsi, o ministro do Interior e o diretor de segurança, como culpados da morte do meu filho.”

A situação já tensa piorou no domingo, quando dúzias de torcedores do al-Ahli atacaram membros de uma equipe de voleibol de Port Said. Invadiram o Shooting Club em Dokki e atacaram membros das equipes Robat e Anwar de voleibol, antes de incendiarem o ônibus em que viajavam.

Hussein Zayed, membro do Conselho da Shura Council, nascido em Port Said e secretário-geral assistente do Partido Wasat, iniciou uma manifestação e acampada no Conselho, na 2ª-feira, para protestar contra a inação do gabinete do presidente, ante o agravamento da crise em sua cidade.

Zayed disse que sugestões que apresentara ao presidente Mohamed Morsi, ao primeiro-ministro Hisham Kandil e ao governador de Port Said sobre modos de resolver a situação foram todas ignoradas. Encerrou a manifestação no mesmo dia, depois que o porta-voz do Conselho da Shura, Ahmed Fahmi, prometeu examinar suas sugestões e responder o mais rapidamente possível.

Na 2ª-feira à tarde, o governador de Port Said, major-general Ahmed Abdallah, anunciou que o ministro da Justiça Ahmed Mekki designara um juiz para iniciar imediatamente investigação sobre os confrontos do dia 26 de janeiro, com instruções para que chamasse a depor todos os oficiais superiores da segurança do governadorato.

Disse também que o governadorato de Port Said, o Ministério de Seguros e Assuntos Sociais e a Associação de Investidores de Port Said criaram um fundo para indenizar as famílias dos mortos nos confrontos do mês passado, e que 35 mil libras egípcias já estavam previstas, como indenização a ser paga à família de cada mártir.

“Não creio que o povo de Port Said acredite em Mekki nem que ponha fim à desobediência” – disse Hassan. “O governo perdeu toda a credibilidade entre os moradores da cidade.”

Em Port Said, os serviços públicos estão em colapso e só o desemprego cresce. “Absolutamente não há nenhuma vaga de emprego em toda a cidade” – diz Rayan, que trabalha parte do dia como motorista de táxi. – “O que ganho num dia de trabalho é gasto à noite, até o último vintém, em comida.”

“Em Port Said há a zona franca do Canal de Suez, com suas fábricas e várias empresas de petróleo. Mas não se encontra trabalho. A maioria dos trabalhadores são migrantes. Antes, podíamos, pelo menos, comprar mercadoria no porto e revender aos que chegavam de outras províncias. Hoje, já nem isso é possível.”

Em 1977, o presidente Anwar Al-Sadat assinou decreto presidencial que converteu Port Said em área de livre comércio. Em 2001, o presidente Hosni Mubarak mandou abolir a zona franca. A partir daí a cidade foi vítima de legislação que nunca parou de mudar e de políticas vacilantes e indefinidas, até que, em 2012, o decreto foi efetivamente implantado.

A Associação dos Trabalhadores do Arsenal Maritmo em Port Said e o Sindicato dos Trabalhadores da Zona de Livre Comércio decidiram aliar-se à campanha de desobediência civil iniciada na 2ª-feira. Funcionários do Sindicato disseram que o fizeram para protestar contra as condições de crescente deterioração na cidade.

“Contêineres saem ou partem para outras cidades, enviadas do porto, sem serem examinados. Sequer são abertos” – disse à Weekly Osama Al-Arabi, comerciante de Port Saidi. – “Isso tem impacto negativo sobre os empregos na cidade.” 
A cidade foi declarada zona franca em 1902. Os barcos atracavam em ilhas próximas e comerciavam seus produtos sem passar pela alfândega. Oficialmente, essa situação só deixou de ser rotina 110 anos depois, em 2012. Imediatamente depois da Revolução, os comerciantes de Port Said ameaçaram desertar da Câmra de Comércio local, se o status anterior não fosse restaurado.

Em movimento atrasado, de mostrar alguma atenção às preocupações dos habitantes da cidade, a televisão estatal disse, na 2ª-feira, que o presidente Morsi determinara que 400 milhões de libras egípcias passassem a ser alocadas, anualmente, para promover o desenvolvimento das cidades do Canal (Port Said, Ismailia e Suez). Disse também que Morsi teria apresentado ao Conselho da Shura um projeto de lei que devolverá a Port Said o status de zona franca de comércio.

Uma semana depois de iniciada, a campanha de desobediência civil em Port Said começa a dar os primeiros resultados. A estratégia está sendo analisada por ativistas de outras províncias e cidades cujos habitantes sentem-se tão esquecidos e negligenciados quanto os Port-Saidis.

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[1] Al-Masry Sporting Club (árabe: النادي المصري للألعاب الرياضية‎), é uma associação esportiva egípcia, mais conhecida pela equipe de futebol, com sede em Port Said. Foi fundada em 1920, por um grupo de moradores de Port Said, para ser o primeiro clube a ser frequentado por egípcios na cidade, cheia de clubes privados, restritos às muitas comunidades estrangeiras que viviam em Port Said. O Al-Masry [O Egípcio] venceu 22 campeonatos oficiais ao longo de sua história. É um dos cinco clubes de futebol de maior torcida no Egito, ao lado de Al-Ahly, Zamalek SC, Ismaily SC e Al-Ittihad Al-Skandary. A equipe de futebol disputou a Liga Principal de Futebol no Egito até o desastre no estádio em Port Said, em 2012, e as controvérsias que se seguiram (mais, sobre o time de futebol, em http://en.wikipedia.org/wiki/Al-Masry_Club).

Os torcedores do Al-Masry reivindicaram para eles a honra de ser a primeira torcida organizada de equipe de futebol do Oriente Médio, quando constituíram, em 1960, a “Associação de Torcedores do Al-Masry Club”, registrada no ministério do Interior do Egito (reg.n. 102, de  1960). Em 2009, constituiu-se um subgrupo de torcedores, que se autodenominou “Ultras Green Eagles”, ou, simplesmente “os UGE” [Ultra Águias Verdes]. Também em 2010, surgiu outro subgrupo de torcedores organizados, os Ultras Masrawy, bem menor que os UGE. As duas torcidas partilham a mesma parte do estádio, chamada “Almodarag Algharby” [Curva Oeste).
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Fonte: http://weekly.ahram.org.eg/News/1538/17/Pressure-that-works.aspx
Data de publicação do artigo original: 20/02/2013
URL deste artigo: http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=9323