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Centrais se unem em lançamento de livro comemorativo aos 130 anos do 1o. de Maio

Cezar Xavier Publicado em 20.09.2016

Com o apoio da Central dos Trabalhadores e Trabalhadores do Brasil (CTB), entre as seis maiores centrais sindicais do país (CUT, Nova Central, Força Sindical, CSB e UGT) , foi lançado no Sindicato dos Comerciários de São Paulo, na noite de segunda-feira, 19, o livro "1º de Maio, sua imagem,  seu significado,  suas lutas",  de José Luiz del Roio. 

O evento contou com a presença do presidente da CTB, Adilson Araújo, do secretário Sindical do PCdoB, Nivaldo Santana, e do secretário-geral da Fundação Maurício Grabois, Adalberto Monteiro, entre outras lideranças sindicais e políticas. Compareceram ainda o governador Geraldo Alckmin (PSDB), o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira (PTB), a candidata a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy (PMDB), parlamentares e representantes das centrais sindicais CUT, Força Sindical, CTB, Nova Central e CSB, que fortaleceram a unidade entre as entidades, que sempre esteve presente nas lutas que envolvem a ampliação dos direitos trabalhistas.

Diante da plateia de sindicalistas, destacou-se a presença e o discurso do ministro do Trabalho, enviado a São Paulo para uma agenda intensa de discursos enfatizando o recuo do Governo Temer diante das repercussões negativas de entrevistas que o próprio Nogueira concedeu, apontando para o aumento da jornada de trabalho e mudanças na legislação trabalhista em prejuízo do trabalhador. Além da evocação da data historicamente mais significativa para o movimento sindical, o evento contou ainda com um símbolo trabalhista: um busto de Getúlio Vargas sobre uma das mesas. Foram várias as referências ao ex-presidente e à Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Del Roio destacou a presença, entre outros, de Raphael Martinelli, líder ferroviário e integrante do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), atuante nos anos 1960 e desmantelado após o golpe de 1964.

Documento histórico

O livro, que comemora 130 anos do 1º de Maio, cumpre um importante papel de guardar a memória do que é o Dia Internacional do Trabalhador e, principalmente, a relação do movimento sindical para o fortalecimento das relações trabalhistas.

Roio contou que o livro foi escrito e lançado há 30 anos num momento muito diferente na vida do país. “O Brasil saia de uma ditadura e começava a respirar ares democráticos, importante para a classe trabalhadora se organizar”. Para ele, o capital tem um problema há décadas que é o decréscimo da taxa de lucros. "E se existe decréscimo de lucros a crise se aprofunda e querem jogar, como sempre, o preço nas costas da classe trabalhadora”. De acordo com o escritor, “o Brasil era praticamente uma exceção e, por isso, tornou-se insuportável, então vem o golpe”.

"Essa ofensiva do capital financeiro chegou ao Brasil, que até resistiu. A ventania neoliberal extremada chegou também ao Brasil. Os trabalhadores estão em perigo de perder os seus direitos. Não chegamos às 40 horas semanais e ainda corremos o risco de retroagir. É preciso que a classe operária lute contra isso", afirmou. Na abertura da nova edição, o autor faz referência à declaração recente (e depois contestada) do presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade, sobre jornada de 80 horas semanais, acusando presença de "escravocratas aninhados" na entidade patronal.

Adilson Araújo, presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, ressaltou o papel transformador que a formação exerce sobre os sindicalistas. “Lênin já dizia que sem teoria não tem revolução”, disse. “Muito importante que a classe trabalhadora se aproprie de sua história para conscientização e atuação mais qualificada nas lutas que estão por vir. Vida longa às centrais sindicais”.

O dirigente do PCdoB, Nivaldo Santana lembrou que o 1o. de Maio é uma das datas mais simbólicas da luta dos trabalhadores na luta pela redução da jornada de trabalho e contra a repressão patronal e policial. "Resgatar esses 130 anos de história do Primeiro de Maio serve para educar as novas gerações de trabalhadores, e, também, preservar a história de quem vive do trabalho, que geralmente é uma história marginalizada e esquecida", afirmou.

Santana, que também é dirigente da CTB, também avaliou com entusiasmo a unidade sindical em torno deste lançamento. "A CTB sempre procurou a unidade das centrais sindicais em defesa da democracia, do desenvolvimento nacional e, principalmente, da valorização do trabalho. A nossa compreensão é que eventos como esses, que conseguem aglutinar todas as centrais sindicais, ajudam nessa nossa perspectiva de unir as centrais e os trabalhadores para que a nossa agenda adquira maior protagonismo na sociedade".

O que mudou para os trabalhadores de 1986 para cá, ou seja, entre a primeira e a recente edição do “1º de Maio - sua origem, seu significado, suas lutas”? Quem respondeu foi o próprio autor durante o lançamento. "O capitalismo, especialmente o capital financeiro, endureceu seus ataques a direitos e conquistas, no mundo todo. No Brasil, até na contramão dessa conjuntura, conseguimos ter um período de avanços e conquistas, porque tivemos governos populares, que não nos atacavam. Mas isso mudou. Sofremos um golpe e a temporada de ataques aos trabalhadores e aos direitos sociais voltou".

Roio defende a importância do livro pelo que registra e documenta. "É memória. E memória é chão, apoio. Sem conhecimento e domínio da própria história não se vai a lugar algum. O próprio fato de seis Centrais se unirem na edição do livro mostra que existe uma preocupação com o conhecimento dessa memória, desses 130 anos de 1º de Maio, uma data cuja origem tem luta, resistência repressão e morte".

Ele também ressaltou a unidade de ação trabalhadora expressa nesse livro. Participaram da proposta de edição do livro, além das centrais sindicais, outras 28 entidades parceiras entre Sindicatos, Federações e o próprio Dieese.

"As comemorações ao 1º de Maio surgiram nos Estados Unidos, depois de uma greve por melhores condições no trabalho e nós, brasileiros, ainda não tínhamos abolido a escravidão. Passados 130 anos, o movimento sindical americano vem ao Brasil pedir apoio para suas ações porque o setor patronal conseguiu enfraquecer a organização trabalhista naquele País, isso é motivo de orgulho para a nós e ao mesmo tempo de preocupação, para que não aconteça aqui o que hoje acontece lá", diz Ricardo Patah, presidente nacional da UGT. 

Patah lembrou ainda que o lançamento do livro coincide com os 75 anos de fundação do Sindicato dos Comerciários de São Paulo. "Esta é uma data muito importante para os trabalhadores e trabalhadoras do comércio e para todo o movimento sindical, porque o sindicato nasceu para fortalecer e defender a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e hoje este livro faz um regate de toda essa história". 

No vídeo abaixo, o Sindicato dos Comerciários mostra o lançamento do livro e comemora seus 75 anos de aniversário:

A jornada de trabalho não será alterada em uma eventual reforma trabalhista, disse o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, diante da plateia de sindicalistas. Seu discurso, durante o lançamento do livro, se restringiu a enfatizar o recuo do governo golpista de Michel Temer diante de entrevistas de membros do governo apontando para uma agenda de brutais retrocessos na legislação trabalhista. A afirmação, que vem sendo reiterada pelo ministro nos últimos dias, é uma tentativa de conter a repercussão negativa após uma fala de Nogueira ter sido interpretada como uma defesa da ampliação da jornada diária para 12 horas.

Foi pelo menos a segunda vez no mesmo dia em que o ministro disse que a jornada não será ampliada, que os direitos trabalhistas não serão retirados, mas "consolidados", e que os trabalhadores não serão "surpreendidos" por uma reforma, mas participarão o tempo todo da discussão. No início da tarde, Nogueira já havia feito o mesmo discurso na sede do sindicato dos trabalhadores da indústria química e farmacêutica de São Paulo (Fequimfar).

"Nunca fez parte da agenda do governo aumentar a jornada de trabalho. Nunca o ministro do Trabalho falou que o governo pretendia aumentar a jornada", declarou Nogueira. "Eu sigo uma orientação do presidente Michel Temer no sentido de que o Ministério do Trabalho exerça um amplo debate, um amplo diálogo, com os trabalhadores, os empregadores, com a sociedade civil. O trabalhador não pode e não será surpreendido. O trabalhador será protagonista nessa discussão", acrescentou, citando suas origens como comerciário e fundador do sindicato da categoria em Carazinho (RS), terra natal de Leonel Brizola. "A minha tribo é o trabalhador." Nogueira também afirmou que nenhum direito assegurado pela CLT será retirado, como o 13º salário e as férias. Segundo ele, há três eixos que norteiam a reforma trabalhista: segurança jurídica para acordos entre sindicato e empregadores, fomento da ocupação com renda e consolidação de direitos.

Segundo o ministro, o governo está "colhendo subsídios" e busca criar um "ambiente de confiabilidade, de concertação e de pacificação". As reformas, não detalhadas, que ele chama de "atualização", buscariam reduzir o que chamou de insegurança jurídica. Mas isso ocorreria somente com participação do movimento sindical, garantiu. "O trabalhador vai surpreender o Brasil", repetiu.

O governador Geraldo Alckmin observou como é fundamental a construção da memória das ações do movimento sindical, por meio da elaboração de um livro, que é um instrumento que fica para as próximas gerações saberem o que foi a luta de classes no início da organização trabalhista. "É uma honra participar deste evento histórico para o movimento sindical e para a classe trabalhadora".

Reedição em tempos de golpe

No dia 1º de maio de 2016 chegamos ao 130º Dia Internacional do Trabalhador. Em 1986, o Centro de Memória Sindical publicou o livro 1º de Maio cem anos de luta, escrito pelo senador italiano José Luiz Del Roio. Passados trinta anos, por iniciativa do CMS e das Centrais Sindicais, o livro foi reeditado e terá seu lançamento no próximo dia 19 de setembro.

Roio conta que lhe foi pedido em 1986 para escrever “um texto simples explicando como havia surgido o 1º de Maio”. Mas ele fez um clássico da literatura do movimento sindical. Uma obra que apresenta a história da classe trabalhadora carregada de lutas, conquistas e também repressão e morte.

No Brasil, o movimento sindical surge no início do século 20 com a industrialização do país, já uma República, em que vigorava a importação de mão de obra europeia, principalmente de italianos. O autor relata as dificuldades de organização dos trabalhadores e trabalhadoras em um país com cerca de 80% de analfabetos, onde a escravidão havia sido abolida poucos anos atrás.

O Dia do Trabalhador foi instituído com muita luta no país. Até que a nascente burguesia resolveu cooptar e o 1º de Maio virou feriado nacional - em 26 de dezembro de 1924 - com o objetivo de festejar o trabalho e não refletir sobre ele, muito menos defender os direitos da classe trabalhadora.

Por isso, “reeditar e divulgar a história do 1º de Maio é fundamental para a luta sindical. Através dela podemos saber das barbaridades às quais o trabalhador era, e ainda é, exposto”, revela Milton Cavalo, presidente do Centro de Memória Sindical.

O 1º de Maio é “o dia em que, ano após ano, no Brasil, reiteramos e renovamos a luta da classe trabalhadora contra a exploração capitalista, pela igualdade entre todos os seres humanos, pelos direitos sociais, pelo desenvolvimento nacional com valorização do trabalho”, reforça Araújo.

A nova edição mantém o texto original, atualizando os prefácios, que serão assinados pelos presidentes Adilson Araújo, Vagner Freitas, Paulo Pereira da Silva, Ricardo Patah, José Calixto Ramos e Antônio Neto, além do prefácio do consultor sindical João Guilherme Vargas Netto.

A unidade das centrais também se concretizou em torno da reedição do livro, desejo que vem sendo acalentado e trabalhado por Juruna desde 2012. A este processo uniu-se também o consultor sindical João Guilherme Vargas, autor de um dos prefácios da edição atual.

“Quando começamos a tocar o projeto, o João Guilherme também entrou e falou vamos fazer unitário e tentar buscar as demais centrais”, contou João Carlos Gonçalves, o Juruna, secretário-geral da Força Sindical. Ele relembrou que o autor Del Roio ficou emocionado quando soube que as seis centrais tinham se unificado em torno do projeto.

“Ele ficou emocionado e eu fiquei mais ainda quando vi que a entrevista dele na Folha de São Paulo sobre o livro traduziu o que era o objetivo: A unidade das centrais e o enfrentamento contra a retirada de direitos”, enfatizou Juruna.

Usando o exemplo da Revolução Industrial, do século 18, o livro mostra que o operariado sempre buscou se organizar e reagir às injustiças sociais. Isso porque a Revolução alterou profundamente a vida do trabalhador braçal. Os operários, inclusive mulheres e crianças, viviam em péssimas condições, com salários que se restringiam à subsistência e com uma jornada de trabalho que acentuava estas condições. Desde os acontecimentos sangrentos nos Estados Unidos, em 1886, a data tem sido um dos marcos do movimento de trabalhadores e de sua institucionalização, acumulando uma crônica rica e variada que vai da luta pelas quarenta horas semanais, até as multidões reunidas nas comemorações com festa e sorteios no Brasil.

Desta forma, a adoção do 1º de Maio como Dia do Trabalhador se consolidou como um evento emblemático, que evidencia o fortalecimento do movimento sindical. Hoje em dia, com impudor, os adversários dos trabalhadores tentam mascarar isto, e disparam provocações como a proposta de uma jornada semanal de 80 horas! Os cento e trinta anos do Dia do Trabalhador corroboram, entretanto, a capacidade do povo em rechaçar seus malfeitores.

A história do 1º de Maio é uma história aberta e em construção. Esta nova edição do livro, e a intenção unitária que a sustenta, garantem à sociedade brasileira, o registro de uma vida longa de lutas que o movimento sindical teve no passado e terá no futuro.

Serviço

Autor: José Luiz Del Roio
Editora: Centro de Memória Sindical | Edição: 2ª | Ano: 2016
Encadernação: brochura | 176 Páginas | ISBN: 9788566157109
Impresso com papel chambril book 90gr | Tiragem: 30 mil exemplares
Preço: 20 reais

Ilustração de T. de Thulstrup retrata a Revolta de Haymarket, manifestação trabalhista ocorrida em 4 de maio de 1886 em Chicago, Illinois (EUA). Na imagem, destaca-se a figura do socialista britânico e líder trabalhista Samuel Fielden discursando para a multidão. Durante a manifestação pacífica a favor do regime de 8 horas de trabalho, uma bomba estourou junto ao local onde policiais estavam posicionados, matando um imediatamente e ferindo outros 7 que morreram mais tarde. A polícia abriu fogo contra os manifestantes, ferindo dezenas e matando onze. Os oito organizadores da manifestação, militantes anarquistas, foram presos e incriminados pelo acontecimento, mesmo na ausência de evidências que os conectassem com o lançamento da bomba. Uma grande campanha foi organizada para salvar os mártires de Chicago. Finalmente, quatro deles foram executados, um cometeu suicídio antes do enforcamento, e os três remanescentes receberam sentenças de prisão que foram revogadas em 1893, quando o governador concluiu que todos os oito acusados eram inocentes. O episódio é considerado uma das origens das comemorações internacionais do "1º de Maio"


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Roio relança livro sobre o Primeiro de Maio, com apoio de Centrais Sindicais