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A importância da formação e propaganda em tempos de golpe

Cezar Xavier Publicado em 24.01.2017

Desde este sábado, 21 de janeiro, a Fundação Maurício Grabois e a Secretaria de Formação do PCdoB realizaram seus principais encontros nacionais de quadros de 2017 para um debate sobre o papel urgente e fundamental da comunicação e da qualificação política na conjuntura de instabilidade e imprevisibilidade que vive o país, ameaçando o protagonismo do PCdoB e de toda a esquerda na vida política do Brasil. Após este Encontro Nacional de Formação e Propaganda, nesta segunda, 23, foi dada a largada ao Curso Nacional Nível III "Aprofundamento dos Conceitos do Marxismo-Leninismo", que prossegue até 4 de fevereiro de 2017 no Instituto Cajamar (SP).

Altair Freitas, da Escola Nacional de Formação, e Adalberto Monteiro, secretário-geral da Fundação Maurício Grabois Foto: Cezar Xavier

Durante todo o sábado, foram discutidas pelos responsáveis a atuação da Fundação Maurício Grabois, do Centro de Documentação e Memória (CDM), da Escola Nacional de Formação João Amazonas, da revista Princípios, do Portal Grabois e da editora Anita Garibaldi. Houve ainda informes da Secretaria de Organização do Partido, pelo dirigente Ricardo Alemão Abreu. Foram apresentados balanços da atividade de cada setor e discutidas estratégias para o trabalho deste ano. 

O secretário-geral da Fundação Maurício Grabois, Adalberto Monteiro, na abertura do evento, situou a importância da formação e propaganda do Partido em tempos de golpe, instabilidade e imprevisibilidade política e profunda crise econômica. Para ele, é nestes momentos de defensiva histórica que a qualificação política da militância e dos quadros partidários mostra ser mais valiosa para a subsistência e protagonismo do PCdoB. 

Monteiro avalia que o País pós-golpe segue regido pela instabilidade e imprevisibilidade devido à falta de legitimidade do governo golpista, à crise institucional incontornável, com entrechoques entre poderes. No entanto, o estado de ajuste fiscal das políticas do governo e escândalos geram uma rejeição e apatia do povo, inclusive pelos setores que apoiaram o golpe. 

Segundo ele, como já se previa, as contradições do consórcio golpista se acentuam, revelando que a coesão entre os diversos grupos de interesse só se manteve até a derrubada da presidenta Dilma. As contradições se revelam, particularmente, no debate sobre o Pacote Anticorrupção, tão festejado enquanto visava a atacar o PT, retirando direitos constitucionais da sociedade e do Poder Legislativo e ampliando força e poder ao Ministério Público e ao Judiciário. Afastada a ameaça petista, as investigações e delações, os vazamentos, os grampos ilegais e as conduções coercitivas desaparecem do cenário do novo governo, revelando que o suposto combate à corrupção era parcial e seletivo.

Ainda assim, aponta Monteiro, mantém-se no ar o risco de “golpe dentro do golpe”, com a possibilidade de derrubada de Michel Temer, caso este não seja capaz de conduzir as políticas que agradam ao mercado rentista com a força necessária. Desta forma, diz ele, a mídia insufla uma nova onda por mais cabeças, Janot é o festejado entregador-geral da República, protelam-se as delações sob os cuidados do STF, a Lava Jato intimida-se, enquanto a mídia agenda a projeção da ministra Carmem Lúcia para tomar as decisões que realmente importam no governo golpista. “O Partido da Lava Jato quer a ministra governando”, diz Monteiro. 

Atualmente, disputas pela exploração de energia e grandes obras de infraestrutura no Brasil são abertas tendo como beneficiárias exclusivas empresas estrangeiras envolvidas em escândalos de corrupção em seus países. Para o dirigente comunista, este é um dos maiores indicadores dos objetivos entreguistas do golpe, ao desmontar as empresas nacionais, prendendo executivos e desqualificando a engenharia nacional para a disputa de licitações no país, o que afeta diretamente o quadro de desemprego e renda, devido ao impacto profundo que a construção civil tem sobre a economia.

A crise econômica, com falta de crescimento e aumento do desemprego é outro fator de instabilidade, de acordo com Monteiro. Mesmo com o PSDB apoiando o Governo Temer, aumenta sua impopularidade. “Como discutimos no Comitê Central, em dezembro, o balão de oxigênio de Temer é a nova ordem conservadora neoliberal, em que o programa e agenda do golpe visa retirar direitos e bloquear o desenvolvimento soberano do país”, afirmou ele.

Desta forma, Temer vai ganhando sobrevida conforme é bem sucedido em aprovar a PEC 55, “que praticamente liquidou a Constituição de 1988”, mas tranquiliza o rentismo ao reservar 55% do orçamento para pagamento de juros. A nova agenda de governo também retoma a política de subserviência às grandes potências, a negação da integração da América Latina e a desnacionalização de terras e patrimônio nacional. “Querem tirar o país da crise sacrificando o povo e saqueando as riquezas do Brasil.”

O protagonismo institucional do PCdoB

Outro tema particularmente grave para o PCdoB na agenda do golpe atinge um pilar da democracia. A reforma política aprovada retira o PCdoB do Legislativo por meio de uma cláusula de barreira. “Para reformas como essas que o governo tem levado adiante, é preciso menos democracia, menos partidos de oposição e tratar o movimento social como caso de polícia”, explica ele, enfatizando a necessidade de pluralidade e oposição partidária como pilares da democracia.

Mas, supondo um gráfico de 250 dias do Governo Temer, Monteiro observa um sobe e desce de apoios, em que o boletim do dia aponta para uma permanência maior do usurpador. Segundo o dirigente comunista, “o clima se desanuviou para os porta-vozes do PIB, a Rede Globo afrouxou as cordas e se inclina a dar sobrevida a Temer”. Mesmo diante da estagnação econômica que deve se manter em 2017, com cortes de milhões de empregos formais e a primeira vez em 20 anos que o reajuste do salário fica abaixo da inflação.

Por outro lado, há uma aposta na queda dos juros e na redução da inflação devido à recessão (queda de demanda), além de um reaquecimento do preço das commodities. Caso estes elementos se confirmem, o suposto crescimento da economia só apresentaria resultados em 2018. Mas Monteiro considera que a esquerda precisa preparar sua estratégia de oposição para esse tipo de cenário.

Aliás, a cúpula do Fórum Econômico de Davos, este ano, veio acompanhada de uma propaganda da grande finança que, aparentemente, estaria com crise de consciência e, portanto, demonstra “grande preocupação com a desigualdade social”. “Esta bandeira do Fórum Social Mundial agora seria a deles. É assim que se dá a luta de ideias em meio à crise do capitalismo”, analisa. Apesar dessas manifestações do capital financeiro, e até do FMI, a plataforma do golpe brasileiro vai no sentido oposto ao acentuar a desigualdade e assegurar ganhos do rentismo. 

Por outro lado, Monteiro lembra que com a perda de credibilidade da esquerda e do PT, em particular, não é o PSDB ou Marina Silva que ocupam o espaço, mas cresce a extrema-direita personificada em Bolsonaro. “A expectativa em torno do que falaria Lula, no Congresso do PT, revelou um discurso para dentro. Ou seja, a preocupação do PT é sobreviver”, disse ele, ressaltando a importância de Lula ser o candidato para garantir a sobrevida do partido. 

“Em 64, a esquerda é desalojada do poder com grande conceito junto ao povo. Foram golpeados porque eram comunistas e estavam implementado reformas de base. Agora, a esquerda foi derrubada porque roubou”, comparou ele, o cenário que fica da propaganda contra a esquerda. Para ele, a fotografia eleitoral da esquerda no Sul e Sudeste é reveladora do sucesso dessa estratégia da direita. “Mas não dá pra minimizar os resultados positivos no Maranhão!” salientou.

Frente ampla por eleições diretas

A coesão da esquerda vai ser um processo, acredita Monteiro. É evidente, e correto, segundo ele, que partidos como o PT, PDT e PCdoB busquem especular e afirmar candidaturas próprias na disputa pelos rumos da esquerda. “Afinal de contas, o partido âncora da frente de esquerda está se perdendo no fundo do mar do golpe”.

“Se um candidato identificado com a pauta do golpe for sufragado em 2018, veremos um horizonte prolongado de retrocessos”, alertou ele. Por isso, o PCdoB alarma-se diante de uma reforma política que pode não jogar o PCdoB à clandestinidade, como em outros períodos, mas o fará perder o papel institucional que goza hoje. “Estamos convictos de que uma candidatura própria percorrendo o Brasil, debatendo ideias, seria uma grande contribuição do PCdoB à esquerda. Precisamos vincar a identidade do PCdoB na sociedade, senão, sobram as presenças de Ciro Gomes, Lula e nossa ausência”, defendeu. 

Portanto, a eleição na Câmara, com todas as suas polêmicas, assume um papel fundamental para o PCdoB. “Aqui, vale a regra básica: explorar as contradições no seio do inimigo. Ninguém está pregando ilusões, mas este ou aquele pode abrir uma brechinha e barrar a cláusula de barreira. O PT e o PDT não perdem o sono por isso, mas para o PCdoB não há dúvida como se comportar diante das candidaturas”.

Luta de ideias

Posta a tática diante do golpe, resta discutir os eixos estruturantes da luta de ideias. Com o ciclo de protagonismo do PCdoB ceifado por um golpe de estado, o caminho do projeto nacional para o socialismo segue atual, mas a tática do vértice do governo foi derrubado. “Agora, a tática muda. Ganha ênfase o trabalho de elaborar a luta de ideias.”

Monteiro salienta que a derrota desanima, desagrega, dispersa, afinal, o ânimo militante dependia muito do horizonte de governo e das políticas concretas que se implementavam. Por isso, a formação política é fundamental para diminuir o impacto da derrota na militância do PCdoB. “O complexo de formação e propaganda tem de enfrentar a luta de ideias e fazer o balanço dos acertos e erros cometidos.” 

Conforme avalia Monteiro, a hegemonia do vencedor tende a levar os vencidos a mitigar seu legado. Ouve-se muito a própria militância de esquerda minimizando a importância de grandes conquistas ocorridas neste período e assimilando o discurso hegemônico da direita. “Agora, é preciso tirar lições do erro cometido, afinal, a derrota não era inevitável”, acredita ele. 

Desta forma, a Fundação Maurício Grabois pretende persistir na linha de estudos sobre a crise mundial. “Estamos vivendo as consequências políticas da crise. Lenin já apontava a redução de democracia e o avanço de fascismo diante das crises capitalistas”, citou Monteiro. Ele lembrou que, na França, a esquerda precisa se posicionar entre Le Pen e candidaturas ultraneoliberais, sem alternativas à esquerda.

Outra preocupação da Fundação, segundo ele, é o modo como se tenta excluir o PCdoB do debate sobre o Centenário da Revolução Russa. “Precisamos ter a versatilidade de lutar a guerra de guerrilha, promovendo atividades pequenas e multifacéticas por todo o país, conforme seja possível realizá-las”, disse ele, citando um grande evento sobre o assunto que, em meio a 200 intelectuais, apenas dois são do PCdoB.

De outro modo, os 95 anos do PCdoB também são uma efeméride que pode se reverter em atos comemorativos que contribuam na luta em defesa da democracia e contra a exclusão do Partido do parlamento. O projeto nacional de desenvolvimento também precisa ter seu relançamento como alternativa da esquerda.

Monteiro mencionou o esforço do Comitê Central em priorizar 17 ações de formação e propaganda regidas por planejamento, sem compartimentação, qualificadas para subsidiar quadros e militância. “É preciso descentralizar a formação e promover formação de gestores, assim como começar uma campanha de contribuição militante pela subsistência do Partido”, mencionou.

 


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Encontro Nacional de Formação e Propaganda do PCdoB 2017