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Seminário aponta desafios da luta pelo socialismo no século 21

Blog do Renato Rabelo Publicado em 13.06.2017

O seminário sobre os 100 anos da Revolução Russa, promovido pela Fundação Maurício Grabois (FMG), encerrou seu ciclo com palestrantes de peso na noite desta segunda-feira, 12, no auditório da Federação dos Trabalhadores no Sistema Financeiro do RS (Fetrafi- RS), com o tema ”A luta pelo socialismo no Século 21?. Estiveram presentes o ex-governador do RS, Tarso Genro (PT); o ex-ministro Roberto Amaral; e o presidente da FMG e ex-presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo, atual presidente da Fundação Maurício Grabois.

O seminário, em seu conjunto, foi um grande sucesso de público, tendo superado todas as expectativas da organização. Tanto que, após a lotação do primeiro debate, ocorrido ainda no mês de maio, os demais eventos foram realizados em espaços maiores para dar conta da grande procura.

“Há, ainda, muito o que debater e aprofundar sobre o significado e o que projeta a Revolução Russa”, sentenciou Tarso Genro na abertura da sua fala. O ex-governador chamou a atenção para o relativo enfraquecimento da classe trabalhadora ao longo da história e sua atual fragmentação e fragilidades, diante do poder do capital financeiro que controla as dívidas dos Estados, os meios de comunicação e estruturas governamentais.

Segundo Tarso, há uma mudança estrutural no legado da Revolução Russa. Hoje não basta, para ele, a tomada de consciência dos trabalhadores de dentro das fábricas. É preciso haver um amplo processo de luta pela hegemonia na sociedade, em dimensão cultural e existencial.

A miséria e a desigualdade são o legado do capitalismo

Roberto Amaral, o histórico militante socialista, chamou a atenção para a imprevisibilidade das condições da luta social. Apesar da irradiação de ondas de mudanças e lutas, a partir da revolução de 1917, segundo ele, vivemos num contexto de vitória do imperialismo: nos campos militar, da economia e no controle da difusão de ideias através dos meios de comunicação. Mas, para Amaral, as grandes contradições do sistema estão cada vez mais notáveis. Mesmo com os avanços tecnológicos e dos meios de produção, há enorme miséria, violência e desigualdade: “este é o legado do capitalismo”.

Sobre o golpe no Brasil, Amaral denuncia que a direita conservadora no Brasil não aceita abrir mão do poder. Exemplifica na nossa história, citando momentos em que houve algum avanço da esquerda e sempre ocorrera a contraofensiva conservadora e restritiva aos direitos democráticos, como aconteceu com Getúlio e Jango.

“A partir deste quadro, em que socialismo podemos pensar e construir neste século 21?”, pergunta. Amaral crê na necessidade de aprender com os erros do passado, mas levar em conta o notável legado da Revolução Russa que pautou uma nova perspectiva para a humanidade: uma sociedade humanista, mais juta e igualitária. “O socialismo segue sendo a inspiração de trabalhadores do mundo todo na direção de uma outra sociedade”, enfatizou. Também fez críticas contundentes ao comportamento da esquerda mundial, que se quedou diante do pragmatismo eleitoreiro, abandonando os seus princípios ideológicos. Para ele, o socialismo do século 21 deve radicalizar a democracia e ser ambientalmente sustentável.

Socialismo é uma exigência da história

Renato Rabelo iniciou sua explanação reafirmando a ideia de que o socialismo é uma resultante das próprias contradições do capitalismo. “O socialismo nasce no século 20. Por isso os ideólogos do capitalismo são geriatras e os ideólogos do socialismo são pediatras”, brincou.

As lições do século passado e do início deste são fundamentais, na opinião dele. “As contradições do capitalismo deste início do século 21 trazem uma grande responsabilidade para as forças avançadas e de esquerda: a realização de uma nova luta pelo socialismo. Como pode, este gigantesco processo de desenvolvimento das forças produtivas conviver com o aumento da exploração, da pobreza e da desigualdade?”, questiona.

Rabelo destacou que, ao contrário do que Marx previa, as experiências socialistas no mundo se dão em países pobres, em nações não desenvolvidas plenamente, como é o caso da China, Vietnã e Cuba. Mesmo a revolução russa se dera em condições muito peculiares, em uma nação de base agrária e com industrialização ainda em fase inicial.

Para ele, a história do capitalismo tem sido de sucessivas crises, esta é – por certo – uma tendência dos tempos atuais. Hoje, segundo ele, está vigente a crise da fase neoliberal do capitalismo que vem acompanhada da crise da ordem unipolar: há uma nova realidade mundial caracterizada pelo surgimento de novos pólos de poder. Ou seja, há uma tendência de multi-polarização, com o crescimento da Russia, Índia, China e até do Brasil.

Outra tendência, segundo ele, é o avanço da chamada quarta revolução industrial. A robotização das indústrias, que tende a uma diminuição do contingente necessário para a produção e uma especialização maior para aqueles trabalhadores necessários à operação dos sistemas produtivos. Ou seja, está surgindo um novo perfil da classe trabalhadora que trará consequências mais amplas e profundas para a luta social e revolucionária.

Para Rabelo, este “mundo em transição” recoloca a centralidade da questão nacional para os países da “periferia”, além de promover a necessidade de novos arranjos no plano internacional. A afirmação dos projetos nacionais na AL, segundo Rabelo, tem nas oligarquias associadas ao capital financeiro e ao imperialismo seus maiores inimigos. “O problema é que hoje, estes setores oligárquicos financeiros querem fechar o espaço institucional que a esquerda conquistou. Querem criminalizar a política e a esquerda. Não admitem sequer a alternância de poder com a esquerda”, adverte. Há uma luta de resistência diante da ofensiva conservadora no mundo, denuncia. Os setores capitalistas dominantes hoje se apresentam de duas formas na luta política: a tendência ultraliberal e aqueles que se baseiam no ultra-nacionalismo, ambos se configuram em reações dentro dos setores dominantes do capitalismo e que buscam dominar o espaço político.

Rabelo também enfatizou a necessidade de a esquerda recolocar no centro da sua tática a luta pela questão nacional, e não deixar a bandeira da afirmação nacional cair na mão da direita. Citou exemplos positivos de unidade do campo progressista e da esquerda na eleição inglesa, na França e na aliança de governo em Portugal. “Não podemos nos perder na confusão dos particularismos, que são importantes, mas não podem ser o centro. A questão central é a afirmação da nação. A luta então é contra o neoliberalismo e contra o neocolonialismo”, adverte.

No caso do Brasil, Rabelo aponta a necessidade da resistência e da luta pela retomada do novo projeto nacional de desenvolvimento, baseado no progresso social, nas reformas estruturais e democráticas, na defesa da soberania e na integração solidária na região. “Fala-se muito em candidatos para agora, ou 2018, mas precisamos falar de projeto. Desta luta anti-neoliberal e pela democracia. Da luta pelo desenvolvimento local e regional, como a proposta de integração dos portos entre o Atlântico e o Pacífico, por exemplo”, afirma.

Para Rabelo, o Brasil retrocedeu, tornando-se um país meramente extrativista. É preciso, para ele, retomar o debate sobre o investimento na produção industrial. Retomar a elaboração de uma ideologia do desenvolvimento nacional. Este novo projeto voltado para o desenvolvimento do Brasil é o caminho para se chegar noutra etapa, mais avançada, de luta pelo socialismo.