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Um teórico fundamental para a prática revolucionária

Cezar Xavier Publicado em 10.07.2017

O lançamento de duas novas obras sobre o pensamento leninista foi o pretexto para celebrar a importância de Vladimir Ilitch Ulianov Lênin para a Revolução Russa, que completa cem anos em 2017. “Lênin - presença da revolução” e “Lênin, leitor de Marx” são duas novas publicações da Editora Anita Garibaldi lançados nesta sexta-feira (7), na sede nacional do PCdoB, com conferência da professora de Economia da Unicamp, Lígia Osório Silva.

A professora do Instituto de Economia da Unicamp, Lígia Osório Silva, apresenta seu texto a Lênin, Presença da Revolução, acompanhada de Renato Rabelo, A. Sérgio Barroso e Augusto Buonicore. Foto: Cezar Xavier
 

O historiador Augusto Buonicore, presidente do Conselho Curador da Fundação Maurício Grabois, considera fundamental resgatar o pensamento de Lênin numa conjuntura em que ele é praticamente esquecido. Quem tem uma certa convivência com o pensamento acadêmico, ressalta ele, sabe que Lênin foi praticamente excluído dos currículos universitários. “Embora alguns autores continuem circulando no circuito universitário, mesmo tendo perdido parte de sua influência, como Lukacs, Gramsci e Althusser, eles se diziam leninistas. Na academia se cria uma verdadeira muralha da China entre esses pensadores considerados originais críticos e Lênin, considerado um pensador dogmático e esquemático, o que não é a realidade”.

Buonicore destacou as obras Duas Tácticas da Social-Democracia na Revolução Democrática, As Teses de Abril, Esquerdismo – doença infantil do comunismo, como verdadeiros tratados de ciência política. Obras “fundamentais” como Imperialismo Fase Superior do Capitalismo, alimentaram toda a luta anticolonial do século XX. Em sua opinião, não é possível entender a luta de emancipação dos povos no século XX sem entender o pensamento surgido das mães de Lênin.

“A revolução russa está intimamente ligada a Lênin, o pensador mais sagaz da primeira década do século 20 e o marxista que melhor conseguiu instrumentalizar, do ponto de vista dialético e materialista, o campo da ação política revolucionária”.

No sentido contrário da crítica ideológica a Lênin, vinda da academia, dois livros como esses, Presença da Revolução e Leitor de Marx, resgatam essa visão dialética e materialismo que impulsionaram o marxismo-leninismo para o século XX.

Autores visionários

 

O organizador do livro Lênin, Presença da Revolução, o diretor de Pesquisas e Estudos da Fundação Maurício Grabois, A. Sérgio Barroso, destaca a importância deste lançamento para a atualização do pensamento do revolucionário russo, no momento em que se celebram os cem anos da Revolução de Outubro.

Embora considere o lançamento do livro uma contribuição modesta, ele acredita que serve para despertar educativamente o entusiasmo para as reflexões teóricas. O pensamento de Lênin mostra uma força de análise estrutural formidável da própria dinâmica do sistema capitalista na era do imperialismo.

Barroso cita Lênin e Marx, quando se referem a um tema incipiente em sua época, mas central na atualidade: “Com o século XX, surge o ponto de viragem do velho capitalismo para o novo, da dominação do capital em geral, para a dominação do capital financeiro.” (Lenin) “No capital portador de juros está a perfeita e acabada representação fetichista do capital. A ideia que atribui ao produto acumulado do trabalho e por cima configurado em dinheiro, a força de produzir automaticamente mais valia em progressões geométricas em virtude de qualidade inata e oculta.” (Marx)

Ele ressalta que esse conceito de um capital portador de juros, ou capital fictício ou capital financeiro, é uma ideia que o Marx já pleiteava no final do século XIX. “Lênin, por sua vez, afirma categoricamente que saíamos de um velho capitalismo para o novo da dominação financeira. Tudo de uma atualidade impressionante”, salienta Barroso.

Assim como Gorki dizia que o mundo esperava “esse homem”, lideranças surgem em circunstancias históricas que as exigem. Barroso apontou no “caudal de resistência latino-americana” que fez surgir lideranças como Hugo Chavez, abrindo um ciclo progressista no continente, um desses momentos históricos.

Captar a singularidade de uma época

 

Já o presidente da Fundação Maurício Grabois, Renato Rabelo, apontou a genialidade de um homem que, tendo vivido apenas 54 anos, produziu uma obra monumental. “Imagine se tivesse vivido ate os 80... Vai saber o que teria sido dos rumos do processo revolucionário! Já começo por aí”.

Na opinião de Rabelo, a obra teórica, política e filosófica de Lênin é gigantesca. “Uma baita obra. E tudo aproveitável. 44 volumes”, destacou. De acordo com ele, essa gigantesca obra tem permanência, universalidade e atualidade maior ainda.

“Porque Lênin foi o grande condutor da primeira revolução proletária vitoriosa. O maior acontecimento do século XX. A primeira experiência histórica de estruturação continuada de um sistema socialista alternativo ao capitalismo”, explica ele.

Rabelo aponta a necessidade de contextualização de personagens históricos como Stalin, para uma compreensão sem caricaturas. “Se o colocar no contexto, vai entender o que é e o que foi, e a própria dimensão de Stalin”.

O tempo de Lênin é o final do século XIX e entrada do século XX, quando uma nova etapa do capitalismo se abre, com os surgimento dos monopólios e da internacionalização do capital, um desenvolvimento técnico e cientifico, aceleração industrial, transformações, rupturas e consequentemente novas ideias. “As ideias não surgem por acaso, porque eu gosto, mas pelas mudanças nas bases materiais da sociedade, já dizia Marx”.

A era do imperialismo, embates entre grandes potências, mudanças geopolíticas, deflagração da primeira guerra mundial. “Esse é o tempo de Lênin”. Mas, Rabelo sabe que nem todo pensador consegue captar com maestria as especificidades que marcam uma época, no momento em que as vive.

“A dimensão do papel de Lênin está marcada por essa capacidade de dominar a singularidade de sua época. Há quem observe a generalidade de uma época, mas qual é a questão própria dela, qual sua singularidade? Lênin distinguia as tendências, no curso histórico, e antever até mesmo a sua evolução”, enfatizou.

Fundador do Partido Bolchevique, Lênin tornou-o o único a altura do marxismo, na opinião de Rabelo. Ele não se limitou a sistematizar e divulgar o marxismo, mas sobretudo, empenhou-se para desenvolvê-lo de modo original para a sua época e o proletariado, produto desse processo histórico.

“Na minha opinião, o estudo dessa imorredoura obra de Lênin, nos dá a sensação da largueza da sua visão e da impressionante construção das ideias como reflexo fiel da realidade em movimento. E da síntese das ideias que se voltam como um verdadeiro encaixe permitindo a transformação do movimento real”, resume ele.

Rabelo observa como essa obra impressionante se construiu num curto espaço de produção teórica, refletindo-se numa prática política muito maior que esses 15 anos. Com uma densidade, uma lucidez e determinação excepcionais, a sua intensa e diversificada dedicação à luta revolucionária da corrente mais avançada do movimento operário mundial, naquele período, se refletiu numa história prática de 15 anos (1903 à 1917) com mais sete anos, da conquista do poder político até 1924, quando ele morreu. “Esse é o período dessa obra gigantesca de Lênin.”

“Tudo isso ocorreu sem paralelo no mundo, em virtude da sua riqueza e variadas experiências que Lênin magistralmente pode formular ensinamentos, lições, gestando uma doutrina revolucionária, que assume a dimensão universal, permanente e atual. Seu tempo, portanto, transpõe o século XX e penetra no século atual”, avalia Rabelo.

O dirigente comunista destacou três exemplos de atualidade significativas da vasta e preciosa doutrina de Lênin:

A atualidade do seu conceito de imperialismo no contexto presente de desenvolvimento desigual do sistema capitalista. Esse conceito de desenvolvimento desigual é formulado originalmente por Lênin a partir do debate acerca da economia política do imperialismo no início do século passado. Hoje a transição do cenário de dominação unipolar, logo após o fim da guerra fria, com intensificação progressiva de tendências à multipolarização, surgimento de novos polos de poder no sistema de forças internacional, foi fomentada e sustentada pela dinâmica de desenvolvimento desigual do capitalismo. Assim, o conceito de desenvolvimento desigual formulada sob a natureza do imperialismo indica e dá fundamentos para o desenlace atual face à ascensão de novos polos de maior dinamismo econômico em áreas de desenvolvimento de capitalismo mais tardio.

Um outro exemplo que ele considera importante é a atualidade da célebre formulação de Lênin acerca da NEP, a Nova Política Econômica, que esteve no debate da nascente revolução sobre as alternativas de transição ao socialismo na Rússia, concebidas pelo poder soviético. Passou a prevalecer a opção pela socialização acelerada com todas as consequências positivas, que permitiu a preparação para a Segunda Guerra Mundial, em que a URSS foi vitoriosa. “Mas, em perspectiva, seu desenvolvimento tornou-se muito negativo”, avalia.

“Na atualidade, o debate candente sobre a transição ao socialismo, nos marcos da luta contemporânea nos países da periferia de desenvolvimento capitalista relativamente atrasados, se volta a retomada dos princípios e práticas formuladas nos anos 1920, por Lênin. Tem sido sempre assim. A revolução proletária acontece sempre em países de capitalismo atrasado. É o que vem acontecendo de forma assumida pelo desenvolvimento chinês, desde a orientação aplicada por Deng Xiao Ping, logo após, de forma semelhante, no Vietnã, e, mais recentemente, em Cuba, cada uma desses experiências com suas peculiaridades”, pontua ele. Os princípios e práticas formulados por Lênin voltam de certa forma, adaptados à realidade de cada experiência.

O terceiro exemplo é a extraordinária capacidade de síntese de Lênin fundada em rica variada e singular experiência, trouxe ao nível do conhecimento uma verdadeira enciclopédia do conceito de estratégia e tática e das suas justaposições entre vanguarda e massa, liderança e bases, em um sentido amplo e mais precisamente no terreno político e revolucionário.

Em consequência disso, há uma grande contribuição de como impedir os extremismos na luta política revolucionária. Lênin desvenda a real dimensão política do papel dos partidos revolucionários, dos partidos comunistas. Situa os dois procedimentos básicos e contrastantes , que são universais e permanentes na luta política e revolucionária: doutrinar sobre o comunismo fixando-se nos marcos de uma seita, ou lutar para conquistar as grandes massas transformando-se num grande partido proletário de ação política. “Esse que é o grande desafio leninista”, sinaliza.

Esquerdismo, doença infantil do comunista (1920), último escrito longo para orientar os partidos comunistas que começam a surgir, imbuídos da paixão revolucionária. “Mas distantes da compreensão dos desafios da variedade da luta política e do decisivo desafio de ganhar as grandes massas”, diz Rabelo, em sua análise sobre um dos maiores desafios da luta partidária.

O protagonismo camponês na revolução

 

A professora Lígia Osório Silva também destacou o fato de Lênin ser muito pouco estudado e discutido em outros ambientes, que não sejam esse da Sociedade dos Amigos do Lenin (SAL). “Longe de ser dogmático ou desinteressante, o próprio tema da aliança operário-camponesa mostra o quanto o pensamento do Lênin variou e procurou dar conta do processo revolucionário na Rússia e ao mesmo tempo das dificuldades que enfrentou para levar adiante, nem sempre com sucesso absoluto, as tarefas que ele e o partido bolchevique se propuseram”, afirma ela.

A aliança operário camponesa, em sua especificidade temática, tangencia outros aspectos importantes e vastos, como a questão da guerra e o processo revolucionário e, de outro lado, o imperialismo. Este foi o tema de sua contribuição a Lênin, Presença da Revolução, para revelar a dimensão e alcance do pensamento de Lênin.

A primeira questão é a novidade da revolução poder se dar num país onde 80% da população vive no campo e onde os operários não constituem 3 milhões numa população de 150 milhões. “Isso, por si só, deveria nos levar a nos debruçarmos sobre o assunto.”

Outra questão, é a própria situação agrária russa, o país mais atrasado da Europa em relação à política no campo. Até 1861 ainda havia a servidão feudal e os camponeses eram organizados em comunidades específicas, o Mir, uma força organizada que congregava em seu interior camponeses ricos, pobres e assalariados, dominados pelos camponeses ricos. Portanto, havia uma análise que levaria alguns a defender que essas comunidades apressavam o avanço socialista e outras a justificar o atraso do campo na Rússia.

Lênin era desses que considerava essas comunidades camponesas um aspecto do atraso russo. Seu livro, Desenvolvendo o Capitalismo na Rússia, era para defender a tese de que o capitalismo estava avançado na Rússia e que não havia necessidade de utilizar o Mir como um trampolim para o socialismo. A diferenciação no campesinato já estava avançada e o grande aliado da classe operária seria a camada pobre do campesinato e o trabalhador agrícola.

Outro  aspecto importante era a existência dos fundos territoriais, vastas extensões de terra nem povoadas nem apropriadas, que vai ser levada em conta por Lênin, tanto no Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia, e também na modificação dessa sua posição.

O próprio regime czarista tenta duas vezes fazer reformas no campo, a primeira em 1861, quando abole a servidão, e já aponta para a dissolução do Mir, o que não acontece. Novamente em 1905, insiste na linha de destruição do Mir e novamente fracassa. E o Mir continua sendo um aspecto importante para a continuidade do processo revolucionário. “Um dos aspectos que atrapalha a aliança operário-camponesa é a fraca presença do partido bolchevique no campo e a persistência do Mir como uma força organizada, e nada neutra, porque dominada pelos interesses dos grandes proprietários ou médio camponeses”, diz ela.

Em 1907, Lênin modifica sua posição, impressionado com a participação dos camponeses na revolução de 1905. Então, ele modifica o programa do partido bolchevique ao apostar na capacidade revolucionária do campesinato. Assim, diz ela, ocorre a aliança operária-camponesa de uma forma nova, uma revolução liderada pela classe operária, mas cuja massa será o campesinato.

Nesse momento, ele escreve o programa agrário da social-democracia da primeira revolução russa, no texto em que apresenta as duas vias para o capitalismo, a via americana e a prussiana. Ele acredita que a Rússia pode assumir a via americana, primeiro estender a democracia no campo e depois fazer a transição ao socialismo.

Em 1914 estoura a guerra e Lênin e Rosa Luxemburgo se frustram pelo modo como a classe operária embarca na carona da guerra imperialista. “É, então, que Lênin reflete a respeito e escreve Imperialismo, Etapa Superior do Capitalismo e O Estado e a Revolução”, relata a economista.

Lênin vai insistir no caráter parasitário da burguesia e sua incapacidade de liderar qualquer processo de transformação ou desenvolvimento. É quando ele observa que a via americana não é mais possível na Rússia e, portanto, é preciso partir para uma via socialista imediata.

A guerra não termina em 1919, na Rússia, pois ela vai ser invadida pelas nações capitalistas e passar por uma guerra civil, com sérios problemas de abastecimento, tornando a questão agrária importante para reduzir a fome.

“Num primeiro momento do processo revolucionário, as terras são distribuídas, a partir do confisco das propriedades dos nobres e da igreja, que tinham 40% das terras, a partir da organização do Mir, já que o partido não está capilarizado no campo.”

O Estado acredita que não haverá resistência à entrega da produção agrícola, subestimando a capacidade dos médio produtores de liderar uma oposição a essa política. Os camponeses também não se interessam por se organizar em cooperativas e defendem a comercialização de sua produção como desejarem. A política de apoio preferencial a pequenos camponeses e assalariados, minoritários no sistema rural russo, ignora a capacidade de organização e liderança dos médios camponeses. “Lênin percebe a necessidade de não tratar o camponês médio como inimigo. Embora seja um trabalhador, este camponês também se vê na posição de se tornar um explorador e especulador da enorme dificuldade em que se encontra a classe operária. Além do que ele também não tem o que fazer com o que o Estado tem a oferecer, implementos, sementes, mecanização, porque não existe isso para ser disponibilizado e também a indústria não tem nada a oferecer”, analisa Lígia.

A Nova Política Econômica (NEP) de Lênin surge para diminuir essa resistência, pacificar o campo e desenvolver a produção, que estava abaixo de 1913. No partido, alguns consideram a NEP um retrocesso.  Lênin mostra que se o campo for pacificado, abastecer a cidade e equilibrar a sociedade para as transformações, não será um retrocesso. Mas trata-se de um convencimento difícil, pois a NEP mantém os privilégios dos camponeses mais favorecidos, burgueses, “nepmen”, enquanto o proletariado e o campesinato mais pobre, donos do Estado, passam enormes dificuldades, nos anos 1920-22.

Lênin morre em 1924 sem que a produção voltasse aos níveis de 1913, e ocorrência de muita fome, ainda. Em 1926, a NEP é abandonada e os anos Stalin forçam uma socialização da produção agrária, com muita repressão.

“A análise da aliança operário-camponesa na Revolução Russa, portanto, é uma situação complexa e nova, com necessidade de desdobramentos teóricos para que políticas novas pudessem ser gestadas. É o que faz Lênin, analisando praticamente o dia-a-dia do processo revolucionário, em meio a guerras, que alteram profundamente o andamento das coisas em tempos de paz”, avalia a professora da Unicamp.

Finalmente, o imperialismo leva Lênin a se desencantar completamente com a possibilidade da burguesia liderar qualquer possibilidade de desenvolvimento ou transformação. “Embora o próprio desenvolvimento da China na atualidade demonstre que não é bem assim”, opina ela.