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A construção coletiva da gestão Aloísio Teixeira

Adalberto Ramon Vieyra Publicado em 13.07.2017

O diretor do CENABIO (Centro Nacional de Biologia Estrutural e de Bioimagem da UFRJ) homenageou o ex-reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Aloísio Teixeira, na noite de segunda-feira, 10, no Salão Nobre da Faculdade de Direito da UFRJ. Na ocasião, educadores e acadêmicos palestraram em memória de Aloísio, morto há cinco anos, e relembraram o período em que o economista esteve à frente da maior universidade do país. Leia a íntegra do discurso de Vieyra:

Excelentíssima Pró-Reitora de Extensão Maria Malta, aqui representando o Magnífico Reitor Roberto Leher;
Excelentíssimo Diretor da Faculdade Nacional de Direito Flávio Tales Martins;
Excelentíssimo Decano do Centro de Ciências Jurídicas e Económicas Vítor Iório;
Excelentíssimo Pró-Reitor de Planejamento, Desenvolvimento e Finanças, Roberto Gambine;
Excelentíssima Decana do Centro de Ciências da Saúde Maria Fernanda Quintela Nunes;
Excelentíssimos Diretores de Unidades, Professores, Técnico-Administrativos em Educação, Estudantes;
Senhoras e Senhores;
Excelentíssimo Senador, sempre o Senador que tanta falta faz no Parlamento, Saturnino Braga;
Excelentíssimo Prefeito Hélio de Mattos Alves a quem agradeço o convite para estar hoje aqui nesta noite, compartilhando lembranças da Construção Coletiva da Gestão de Aloísio Teixeira, 5 anos depois de sua partida, aos pés desta tela simbólica. 

 

Para compartilhar alguns momentos do começo do século XXI, do terceiro milênio, no Brasil e na UFRJ, que teve em Aloísio Teixeira um pensador, um grande construtor de sonhos e de realidades, cujo legado nos encoraja a continuar lutando no meio das incertezas que a contemporaneidade e a conjuntura nos trazem.

O ano de 2002 foi o do início de uma década que se anunciava virtuosa. Trazendo a esperança de acelerar as obras inacabadas de nossa História: a proclamação da República, o exercício pleno da Soberania
Nacional, a abolição da escravatura e o fortalecimento da Federação. Aqui, aos pés desta tela, creio que esse seria o sentimento que Aloísio Teixeira pronunciaria.

Começou uma década de contrastes. O melhor e o pior dos tempos. Tempos de expectativas, de esperanças, de desilusões, de contradições, de falhas, erros e equívocos, inclusive no campo popular e democrático. Alguns fantasmas e demônios não exorcizados nesse passado recente retornaram um ano atrás. Mas não começarei por eles.

Prefiro recordar primeiro realizações que simbolizam a esperança daqueles anos: os mais de 30 milhões de brasileiros que saíram da miséria, a inserção de um Brasil respeitado no cenário político
internacional, os avanços ocorridos na educação superior, as ações afirmativas, a interiorização das universidades federais, a expansão das universidades estaduais, o SISU, o REUNI, os investimentos em
ciência e tecnologia, investimentos estes que precisam ser reconhecidos como ferramentas de Soberania Nacional. Recordações que trazem à nossa memória, nesta noite, as ações de um intelectual, de um
inspirador, de um protagonista: Aloísio Teixeira.

Conheci Aloísio de maneira próxima somente a partir de 2002, quando nos juntamos, numa Universidade partida, na campanha de Carlos Lessa para a Reitoria da UFRJ. Uma certa distância, talvez devida àquela que existe entre as Internacionais com as quais nos identificamos, a Terceira – a do Aloísio – e a Segunda – a minha – foi a que me permitiu admirar de forma mais completa suas ações, sua trajetória, e a compartilhar seus sonhos. Os sonhos de completar as obras inacabadas às quais me referi. E, por isso, para dar uns breves testemunhos dessas ações e desses sonhos de Aloísio Teixeira, é que sou grato por estar aqui nesta noite.

Passando Carlos Lessa a exercer funções no Governo Federal das esperanças que assumiu em janeiro de 2003, as do corpo social da UFRJ convergiram naturalmente na figura de Aloísio Teixeira. Uma
Universidade fraturada, fragmentada e dispersa começou a ser pensada de maneira diferente. E a ser pacificada e transformada. Nascia aqui, a Universidade Necessária, a da utopia talvez necessária sobre a qual escrevera esse outro grande sonhador e realizador de nossa História: Darcy Ribeiro.

Respeitoso dos pilares de uma Universidade Necessária, de uma Universidade que para isso deve ser autônoma, hierárquica – com o significado nobre que a hierarquia intelectual e moral tem – e, acima
de tudo, libertária, Aloísio Teixeira restaurou os princípios da colegialidade e da gestão coletiva. Os Colegiados Superiores e as Congregações retomaram sua missão precípua na construção dessa
hierarquia democrática. A Plenária de Decanos e Diretores consagrou o princípio de uma gestão mais participativa, colegiada e plural. A Reitoria itinerante levou a todos os lugares da UFRJ a realidade do
protagonismo de professores, técnico-administrativos e estudantes. Do protagonismo que permite construir uma genuína autonomia. 

A vertente libertária de Aloísio Teixeira se plasmou na sua defesa veemente das ações que, no Brasil, abriam a possibilidade de dar ao seu povo as condições de dignidade que merecem todas as mulheres,
todos os homens, todas as crianças, os jovens e os velhos, pela sua imanente condição humana. 

Por isso encontramos Aloísio Teixeira na linha de frente das ações afirmativas que abriram as portas da maior Universidade Federal Brasileira – Pública portanto – para uma parcela de jovens que nunca
tiveram o passaporte necessário para entrar. Esse passaporte, Senhoras e Senhores, pode estar hoje sendo cassado não apenas para aqueles que nunca entraram.

Para abrir essas portas, Aloísio Teixeira fez POLÍTICA. Sim, política. Aquela que muitos – hoje e sempre – dizem que deve ser aleia ao mundo acadêmico. Mas não aquela que hoje contemplamos com indignação em muitas esferas de governo porque essa é a política de negação de todas as liberdades, de todos os direitos, de todos os sonhos.

A política que Aloísio Teixeira praticou permitiu o acesso à Universidade Pública de muitos jovens de outras origens de classe, com outras roupas, com outra tonalidade de pele. Uma Universidade que hoje
é mais morena, como diria Leonel Brizola. Mais digna e inclusiva. Num novo agrupamento, como escrevera Darcy Ribeiro, em que “cada membro, como pessoa, permanece inconfundível, mas passa a incluir sua pertença a certa identidade coletiva”. Esta parte do legado de Aloísio Teixeira nos conclama especialmente a defende-la. Porque muitos desses jovens ainda não contam com as condições de permanência no ensino superior, apesar do passaporte que têm nas suas mãos. Porque no mundo do privilégio, muitos querem lhes negar esse inalienável direito. Vemos, com alegria acadêmica, que esta bandeira se encontra hasteada pela atual Administração da UFRJ no mais alto mastro da Instituição.

A Grande Universidade Aberta sonhada por Aloísio Teixeira não podia se limitar ao município do Rio de Janeiro. Por isso devemos lembrar os exemplos do seu apoio na caminhada para Xerém e Macaé. No caminho na direção de Xerém encontramos o símbolo da superação de um histórico “apartheid” acadêmico. Numa das regiões mais pobres de nossa região metropolitana, foi plantada uma bela flor que ainda merece cuidados. Uma esperança que novamente nos lembra Darcy Ribeiro: “quanto mais pobres sejam nossas crianças e nossos jovens, mais ricos devem ser os instrumentos educacionais colocados ao seu alcance”. A Universidade Necessária é um dos instrumentos para isso. Outra parte do legado de Aloísio Teixeira que também devemos defender, fortalecer e ampliar. 

Sobre Macaé tive a oportunidade de ouvir Aloísio Teixeira dizendo que “a era do petróleo acabaria no Rio de Janeiro”. Que era necessário construir algo diferente para o porvir nessa região. Esse porvir, na
visão de Aloísio Teixeira, poderia e deveria ser iniciado por uma Universidade Pública plural em seus saberes acadêmicos. Porque o nosso exemplar e grandioso NUPEM sozinho não seria suficiente. O sonho
do petróleo não acabou no Estado do Rio de Janeiro por causa da finitude das riquezas naturais não renováveis, mas por outros motivos. E assim, antecipadamente, a região continua a nos desafiar como nunca. Por isso, Macaé – com seus campus Aloísio Teixeira – é mais um compromisso que temos com o legado de Aloísio Teixeira.

O ideal de gestão aberta, coletiva e compartilhada teve outro exemplo no Complexo Hospitalar. Com seus 9 hospitais universitários, herança da época em que o Rio de Janeiro era a capital da República e os
ministros precisavam de centros para cuidar e recuperar a sua saúde, a UFRJ têm um exemplo de fragmentação e abandono. Um exemplo de que a saúde dos mais vulneráveis não é prioridade do Estado. A pesar do que reza a Constituição de 1988. Apesar dos princípios acerca dos Cuidados Primários de Saúde, do direito e da gestão em saúde promulgados na memorável Conferência de Alma Ata de setembro de 1978, que tantas vezes foram lembrados por Aloísio Teixeira desde a época de sua pós-graduação e durante sua gestão à frente da UFRJ. O Complexo Hospitalar é ainda uma veia aberta que a todos nos conclama para que, de verdade, ele nutra o ensino e a pesquisa em harmonia com a atenção à saúde que a dignidade da população merece e exige.

A ciência, a tecnologia e a pesquisa foram vistas sempre por muitos – especialmente por muitos pesquisadores de lustre, com a exceção notável de Carlos Chagas Filho entre uns poucos – como um campo
reservado para o exercício nobre da ciência num cenáculo isolado, como o idealizado por Carlos II quando criou a Royal Society em novembro de 1660. Como Carlos Chagas Filho, Aloísio Teixeira acreditava que a ciência e a tecnologia são ferramentas de construção e fortalecimento da Soberania Nacional. Hoje, o mundo está dividido entre aqueles países que produzem ciência e que, por isso, a dominam, e os outros que apenas se utilizam dela – de maneira não inclusiva, deve ser ressaltado – e que, também por isso, são dependentes dela. Aloísio Teixeira tinha uma visão diferente. E corajosa.

Uma noite como esta não deveria ser palco de recordações que envolvam iniciativas da gestão de Aloísio Teixeira que estiveram perto de nós. Mas não posso deixar de trazer um exemplo que hoje é de toda a UFRJ. Nos idos do início da década virtuosa à qual me referi no início, idealizações e iniciativas dos Ministérios da Saúde, da Educação e da Ciência e Tecnologia, delinearam o caminho que conduziria para o
fortalecimento no Brasil da capacidade de compreender e dominar os segredos da vida no nível celular e molecular. Surgiu a ideia de criar um Centro Nacional de Bioimagens desde a molécula ao organismo
inteiro, passando por células e tecidos. A UNICAMP e a UFRJ eram candidatas para sedia-lo. Aloísio Teixeira decidiu que aqui deveria ser instalado. Com a celeridade que requeriam a aquisição e a chegada
de equipamentos de fronteira adquiridos com recursos obtidos em disputados editais das diferentes agências de fomento, Aloísio Teixeira construiu o primeiro dos 3 espartanos edifícios a alberga-lo.
Pouco mais de 10 anos depois, o Centro Nacional de Biologia Estrutural e Bioimagens/CENABIO-UFRJ, com uma infraestrutura e uma atmosfera intelectual únicas no Hemisfério Sul, desenvolve pesquisas que nos aproximam dos mistérios e das fontes da vida, e também dos mistérios e das fontes da dor, do sofrimento e da morte. Num espaço onde se cultiva a ciência fundamental, porque sem ela a propalada “inovação” é apenas uma palavra vazia. Mas também um espaço que hoje está permitindo avanços significativos nos campos de combate à dengue, à Zika, às mais diversas parasitoses, à doença de Alzheimer, à doença de Parkinson, ao câncer, às cardiopatias crônicas... A lúcida iniciativa da atual Administração da UFRJ de congregar cientistas de dentro e de fora da UFRJ para enfrentar coletivamente o doloroso aparecimento do vírus Zika em nossas latitudes, mostrou como é necessário estar preparados, alicerçados numa sólida pesquisa fundamental, para enfrentar os desafios do desconhecido que atenta
contra a saúde e a vida.

A Autonomia é indissociável da Dignidade disse uma vez Aloísio Teixeira, não me recordo exatamente se com estas palavras, mas certamente com esse mesmo significado. Nada mais oportuno que aqui,
neste recinto, exemplificar uma ação de Aloísio Teixeira no resgate da dignidade acadêmica. Nesta noite aos pés desta tela. No início de sua gestão encontrou nesta Casa um emblemático exemplo de degradação acadêmica e social. A gloriosa Faculdade Nacional de Direito era um laboratório onde se incubavam os ovos da serpente, as práticas que hoje presenciamos, repudiamos e combatemos nas diferentes esferas governamentais. Que nos fazem sentir a saudade de sua presença no Parlamento que mencionei no início, Senador Saturnino Braga. Com o apoio e a participação protagonista do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira liderado à época por Marcos Vinícius Torres Pereira, de uns poucos professores que lá estavam e de outros que foram chegando – do Rio, das montanhas de Minas e de outros lugares – Aloísio Teixeira deu um exemplo de gestão aberta e coletiva, mas também corajosa. Esta Casa recuperou a sua dignidade e sua glória! Este recinto voltou a ser o de Hermes Lima, de Evandro Lins e Silva, de San Tiago Dantas, de Evaristo de Moraes Filho, de Heleno Fragoso, entre muitas outras grandes figuras do Direito e da Dignidade. O lar acolhedor das esperanças de justiça do Povo Brasileiro. Outro legado que hoje, na condução serena e competente de Flávio Alves Martins, a todos também nos conclama e nos aglutina de maneira emblemática! 

A menção das práticas políticas que repudiamos e combatemos, de nossa resistência ao domínio do poder econômico, à não auditada dívida pública, ou melhor a “suposta dívida que a população deve pagar aos bancos” como dizia Aloísio Teixeira, será o marco do final destas recordações. Chegarei a este final revelando uma faceta de Aloísio Teixeira que dele me aproximava no final de muitas tardes de domingo, após ouvir em nossos respectivos lares o programa Ópera Completa da rádio MEC. Quando a distância entre Internacionais desaparecia... Refinado conhecedor do gênero operístico, com ele aprendia e, não raro, trocávamos opiniões pelo telefone ou por e-mail acerca da obra transmitida. Depois de uma memorável transmissão do “Nabucco” de Giuseppe Verdi, disse ao Aloísio que uma grande tristeza me embargava ao lembrar que as cinzas da mais divina interprete do papel de Abigail em todos os tempos, Maria Callas, se encontravam navegando no mar Egeu, como os peregrinos do Grande Coro dessa ópera que representa como poucos a alma do povo hebreu na diáspora. Acrescento que hoje, navegando na companhia dos refugiados do Oriente Médio que fogem da guerra, da miséria e da fome. Ele então me respondeu que algum dia faríamos companhia a Maria Callas. . . a Abigail. . . 

Excelentíssima Pró-Reitora, Excelentíssimo Decano, Excelentíssimo Diretor, Senhoras e Senhores. Nesta noite, aqui, nesta Casa que recuperou sua dignidade na gestão pacificadora, coletiva e participativa de Aloísio Teixeira, aos pés da tela que como poucas simboliza a esperança de liberdade, sinto que as cinzas do Aloísio deixaram por um instante a companhia de Abigail e se corporificaram. Sinto que ele voltou. Para se juntar a nós num grito também coletivo e unânime que fora símbolo da Guerra Civil Espanhola nas palavras da Passionária Dolores Ibarruri. Brado que uniu os militantes de todas as Internacionais e todas as gentes que defendiam as liberdades públicas e democráticas no Mundo. Juntos estamos para dizer hoje, aos governantes que, inclusive mudando de rosto, querem usurpar para sempre os direitos e a dignidade do Povo Brasileiro: NÃO PASSARÃO!

 
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