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“É preciso olhar os 100 anos da Revolução Russa com os olhos de hoje” – Parte I

Audicéa Rodrigues Publicado em 27.09.2017

Por que discutir a Revolução Russa cem anos depois? questionou o cientista político e professor universitário Luís Fernandes ao iniciar palestra sobre os legados e lições da Revolução de 1917, que proferiu em debate realizado quinta-feira (21), no Recife, para celebrar o centenário da ação revolucionária que influenciou o mundo e definiu o século 20. O encontro marcou também o lançamento da Seção Pernambuco da Fundação Maurício Grabois.

 
(Foto: Luana Rocha)

"Em primeiro lugar porque a Revolução Russa é um dos eventos mais significativos e marcantes da História da humanidade. É um evento com mais impacto e repercussão na vida humana do que a própria Revolução Francesa. Segundo o historiador Eric Hobsbawm, a Revolução Russa definiu o século 20. Nessa reflexão, Hobsbawm faz uma cronologia política e identifica no advento da Primeira Guerra Mundial - que foi o contexto no qual a Revolução Russa pode triunfar -, e no colapso da União Soviética, em 1991, as fronteiras de início e fim do século 20. A Revolução Russa é um evento que marcou e definiu o século 20”, explicou Luís Fernandes.

O cientista político apontou ainda outra razão importante para se debater o que classificou ‘um evento absolutamente fundamental para ser entendido por todos que se interessam pela história humana’.

Isso porque, segundo ele, para além de ter definido o século 20, há um conjunto de realizações que conformam o mundo em que vivemos hoje, no século 21, que são construções da Revolução Russa. “Essa é uma revolução que, por mais que tenha sido, no seu formato socialista, derrotada e dissolvida enquanto experiência, no caso concreto da sua configuração estatal, que era a União Soviética, realizações civilizacionais trazidas para o mundo por essa revolução estão presentes em nosso mundo até hoje. Daí ser importante discutir esse legado”, destacou.

Impactos no Brasil

Para Luís Fernandes, um dos impactos civilizacionais e legados da Revolução Russa é ter influenciado, pela primeira vez, a participação organizada dos trabalhadores brasileiros na vida política nacional.

“Esse é um ponto importante porque nós somos um país de desenvolvimento capitalista e de movimento operário tardios em relação à experiência europeia. Quando surgem no Brasil as primeiras lutas dos trabalhadores elas são influenciadas pela presença e pela influência política de migrantes do Sul da Europa, portugueses, espanhóis e italianos, que trouxeram o ideário que predominava no movimento operário de seus países, que era, sobretudo, o anarco-sindicalismo, que não encaminhava a luta dos trabalhadores para uma participação organizada na vida política nacional”, explicou.

Segundo o cientista político, coube ao impacto da Revolução de 1917 no Brasil e no Mundo despertar um setor do movimento para a necessidade da luta política. “Assim é que os fundadores do Partido Comunista do Brasil são, fundamentalmente, lideranças anarco-sindicalistas, que impressionadas com o sucesso da revolução soviética despertam para a necessidade de organizar a luta política dos trabalhadores no Brasil e fundam o Partido Comunista do Brasil em 1922, à época como Seção brasileira da Internacional Comunista. Então, é um impacto direto na vida política do país”.

Impactos no mundo

Luís Fernandes discorreu ainda sobre o que avalia ser impactos e legados ‘mais amplos’ do Outubro de 1917. “A primeira marca e legado da Revolução Russa é que ela deu origem à primeira experiência consolidada e prolongada de estruturação de um sistema socioeconômico alternativo ao capitalismo no mundo. Isso foi uma criação da Revolução Russa, inicialmente, como experiência socialista isolada até a Segunda Guerra Mundial. Com o fim da Segunda Guerra houve a formação de um sistema socialista mundial, fruto do papel decisivo que a União Soviética desempenhou na derrota do nazismo. Isso constituiu, na verdade, a ordem mundial do final do século 20 pelo seu triunfo e pela sua expansão na constituição de um sistema socialista mundial na segunda metade do século 20. Talvez, esse seja o elemento mais distintivo da revolução”, afirmou.

A segunda marca e legado mundial da Revolução Russa é a introdução da questão social na agenda mundial, e ela o fez, segundo Luís Fernandes, de forma direta e indireta. “De forma direta, ao promover o maior processo de redução da desigualdade social da História da humanidade a partir da socialização da propriedade, na trajetória da constituição do sistema socialista soviético. Houve também uma grande expansão de direitos, direitos sociais de uma maneira mais ampla, direito à educação, à saúde, à cultura...”.

“Mas, ela também introduziu a questão social na agenda mundial de forma indireta. Isso, pela sua própria existência como sistema mundial alternativo ao capitalismo e diante do que era visto como ameaça, a chamada ameaça comunista, gerou um contexto histórico em que se abriu o caminho para a constituição de um Estado de Bem-estar, sobretudo, na Europa, que era a área de fronteira principal dos dois sistemas. Portanto, a grande expansão de direitos viabilizada pelo Estado de Bem-estar só foi possível graças à Revolução Russa e são esses direitos que nós estamos defendendo até hoje. Estamos assistindo hoje a um ataque brutal a esses direitos, uma ofensiva para retroceder em direitos conquistados porque foram conquistados em um contexto onde a influência decisiva era do campo socialista então existente. Então, esse é um legado civilizacional que pauta as nossas lutas até hoje”, destacou.

 
(Foto: Lunana Rocha)

Para Luís Fernandes, outro legado de realização que não se pode deixar de registrar e enaltecer nos 100 anos da Revolução Russa é a atuação da União Soviética no combate e resistência ao nazifascismo durante a Segunda Grande Guerra. “O mundo deve à União Soviética a derrota e o desmantelamento da ameaça nazifascista no século 20, pois ela foi a força determinante da derrota do nazifascismo na Segunda Guerra. Essa vitória deslegitimou o nazifascismo durante um bom período como alternativa política considerada aceitável. Infelizmente, nós estamos assistindo no Brasil e no mundo o renascimento de uma ideologia que havia sido deslegitimada e excluída do debate do que era considerado razoável e aceitável na luta política. Esse renascimento, justamente no contexto mundial gerado pela dissolução do antigo campo socialista, da própria União Soviética, não é coincidência”.

O cientista político e professor destacou ainda o que ele considera ‘outra dimensão’ do triunfo da Revolução de 1917. “Nós tendemos a naturalizar essa dimensão, que conforma o mundo em que nós vivemos, mas que é em grande medida, não exclusivamente, fruto do triunfo da Revolução Russa há 100 anos, cem anos que nós temos de olhar com os olhos de hoje. O que era o sistema internacional há 100 anos? Era um sistema europeu com alguns agregados, como os Estados Unidos e com algum atraso e subalternidade os países da América do Sul. Para quase metade do território do planeta o sistema internacional era global por meio do colonialismo, eram possessões coloniais que tornavam esse sistema global. Com a África retalhada, com a Ásia em grande parte retalhada, o Oriente Médio ocupado. Esse era o Mundo em 1917”, enfatizou.

(*) Nos próximos dias, publicaremos a parte final da palestra do cientista político e professor universitário Luís Fernandes, que inclui a avaliação das lições advindas do fracasso da experiência revolucionária de 1917.