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"Conversa com Bial" discute controvérsias da Guerrilha do Araguaia

Cezar Xavier Publicado em 16.05.2018

O programa "Conversa com Bial", da Rede Globo de Televisão, da terça-feira (15) abordou episódios obscuros da história nacional, esclarecendo aspectos importantes e explorou a participação dos soldados no conflito, ao mesmo tempo em que veiculou informações falsas, a exemplo da afirmação de que o PCdoB e as Forças Armadas ocultam documentos sobre o episódio e de que ambos fingem que o Araguaia não aconteceu. A verdade é que o PCdoB sempre lutou pela total liberação dos documentos oficiais, ao mesmo tempo em que já divulgou seus próprios documentos. Continuadamente tem feito grandes esforços para disseminar o legado da Guerrilha do Araguaia e a memória dos guerrilheiros (as) que heroicamente lá tombaram. Essa abordagem distorcida foi prontamente rebatida pela pré-candidata a presidenta da República do PCdoB, Manuela d'Ávila.

O talk show da TV Globo recebeu para o debate o coordenador do Centro de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas, Matias Spektor, que analisou documentos inéditos da CIA revelando, recentemente, que as execuções de opositores do regime militar eram ordenadas pelos próprios generais no comando da Presidência da República. Participaram também o cineasta Belisário Franca, diretor do filme "Soldados do Araguaia", que mostra o relato dos soldados sobreviventes do confronto com os guerrilheiros do PCdoB; o ex-combatente Raimundo Pereira de Melo, um dos personagens do filme; e o jornalista e pesquisador Hugo Studart, autor do livro A Lei da Selva, citado no talk show de Pedro Bial, que apresenta o "imaginário" dos militares sobre a Guerrilha do Araguaia. O livro de Studart foi comentado pelo pesquisador da Fundação Maurício Grabois, Osvaldo Bertolino, autor das biografias de Pedro Pomar e de Maurício Grabois.

Vasto material e documentação

A Fundação Maurício Grabois tem se dedicado intensamente ao assunto discutido na entrevista, tendo como missão o resgate da memória das lutas comunistas, sem omitir sequer eventuais erros de estratégia ou autocrítica. Deste modo, a Guerrilha do Araguaia está no rol das lutas de que os comunistas se orgulham e se empenham para manter viva na memória do povo brasileiro, a partir de diversas iniciativas, embora os recursos sejam limitados. Ainda em pleno regime militar, em 1980, o PCdoB promoveu uma caravana de lideranças políticas e sociais, além de familiares de desaparecidos da guerrilha, à região do Araguaia, para iniciar um trabalho difícil de recuperação dos fatos do confronto, em meio ao medo dos camponeses e às ameaças de militares locais. Esta caravana gerou inúmeros resultados importantes para a compreensão do que ocorrera ali, seis anos antes, além de provocar novas caravanas que prosseguem até a atualidade.

O PCdoB e a Fundação Maurício Grabois acompanharam o trabalho da Comissão da Anistia em cada julgamento que buscou a reparação aos familiares de desaparecidos, guerrilheiros ou moradores locias, vítimas da brutalidade do regime. Do mesmo modo, participou das investigações da Comissão Nacional da Verdade, assim como das Comissões da Verdade instaladas nos estados. Periodicamente, a Guerrilha do Araguaia e temas próximos são objeto de solenidades e atos políticos nos parlamentos para rememorar e registrar sua importância na história.

A Fundação Maurício Grabois diponibiliza o acervo do PCdoB no seu Centro de Documentação e Memória (CDM).  Há, também, a biografia de Pedro Pomar que divulga e analisa toda essa documentação. A Fundação produziu ainda dois importantes e premiados documentários sobre o assunto: Camponeses do Araguaia, a guerrilha vista por dentro (2009), mostrando os relatos de pessoas comuns atingidas pela violência do regime na região, contando o que testemunharam da presença guerrilheira, como também do Exército. O filme Osvaldão (2014), por sua vez, volta no tempo para mostrar quem era o famoso guerrilheiro por aqueles que o conheceram.

Por meio da editora Anita Garibaldi, a Grabois também publicou duas pesquisas seminais do historiador Romualdo Pessoa Filho: Guerrilha do Araguaia – A esquerda em armas (1997) e Araguaia, Depois da Guerrilha, Outra Guerra (2012). Outras contribuições fartamente documentadas sobre o assunto são as biografias de Maurício Grabois, uma vida de combates (2012), em que Osvaldo Bertolino pesquisa minucionamente a vida do comandante militar da Guerrilha. O principal dirigente do PCdoB à época da Guerrilha (final dos anos 1960 e 1974), João Amazonas, também tem sua biografia publicada pela Anita Garibaldi, chamada Meu Verbo é Lutar, a vida e o pensamento de João Amazonas, escrita pelo historiador e diretor da Fundação Maurício Grabois, Augusto Buonicore. A biografia escrita por Osvaldo Bertolino, Pedro Pomar, ideias e batalhas (2013) esclarece muitos aspectos pouco conhecidos sobre o pós-Guerrilha.

A publicação Guerrilha do Araguaia - Uma Epopéia pela Liberdade (2005) está em sua quarta edição e foi idealizada com o propósito de trazer mais luz a esse episódio encoberto, por décadas, pelo manto do obscurantismo e da censura. A cada edição foi enriquecida e atualizada com artigos e entrevistas nos quais jornalistas, pesquisadores e dirigentes do Partido que a organizaram perscrutam o seu alcance e significado, apontam os acertos e erros e sistematizam os ensinamentos daquele episódio histórico.

Leia a resposta da Manuela d'Ávila:

Guerrilha do Araguaia tem relevância histórica para o PCdoB

Além disso, o Portal Grabois mantém dossiês sobre o assunto para pesquisadores e interessados:

Guerrilha do Araguaia, uma geração de armas nas mãos contra a ditadura

Lutas que construíram o Brasil: da Coluna Prestes à Guerrilha do Araguaia

Araguaia 41 anos, luta radical em defesa da democracia

Araguaia, mortos que caminham 

 

Conversa com Bial pode ser assistido gratuitamente no GShow