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Biografia promove reencontro com trajetória de luta de Aurélio Peres

Cezar Xavier Publicado em 07.12.2018

Nesta quinta-feira, foi lançada em São Paulo a biografia de Aurélio Peres, escrita por Osvaldo Bertolino. O evento na sede nacional do PCdoB reuniu amigos, parentes, colegas de militância e as novas gerações de lutadores sociais para um reencontro emocionante com a trajetória de luta operária em plena ditadura militar. Leia e veja como foi o lançamento.

Foto: Cezar Xavier

Recluso com a esposa em sua chácara em Ibiúna (SP), Aurélio fez uma grande concessão em se deslocar até a “loucura” da Capital e ser assediado com abraços e demonstrações de carinho pelas dezenas de pessoas que lotaram o auditório da sede do PCdoB. Longe da vida política há muito tempo, Aurélio nunca renunciou à trajetória comunista, embora resistisse à “tarefa” de colaborar para feitura da biografia que a Fundação Maurício Grabois tomou como prioridade. O autor, Osvaldo Bertolino, se esforçou para extrair dele sua trajetória pessoal, já que Aurélio se recusava a falar de si, preferindo falar de seu contexto histórico. Para ele, os fatos são mais importantes que as pessoas. Uma assertiva que pouco ajuda biógrafos preocupados em trazer a humanidade dos fatos à luz da narrativa.

Foi o que saltou da homenagem que se tornou o lançamento da biografia Aurélio Peres - Vida, Fé e Luta. No reencontro com personagens do livro salientando a capacidade política e coragem de Aurélio em momentos hostis, ele, no entanto, voltou a reforçar a prioridade da luta e a importância do Partido na condução das tarefas revolucionárias. Mas não escondia o prazer e emoção de rever velhos conhecidos e ver de perto como a luta continua no rosto de gente jovem em tempos difíceis que se anunciam.

 

A mesa comandada por Nádia Campeão, ex-vice-prefeita de São Paulo, foi curta pra tantas cadeiras. Muitos queriam depor sobre Aurélio Peres, mas nem todos cabiam na mesa. Mesmo assim, ela foi aumentando conforme o evento se tornava cada vez mais prestigiado.

 
Aldo Rebelo

Ao fim, o autor Osvaldo Bertolino falou de suas dificuldades e prazeres em escrever sobre o biografado. Haroldo Lima, militante histórico do mesmo período de Aurélio, também contou suas impressões, especialmente do período em que estiveram juntos na Câmara dos Deputados lutando pela redemocratização. O advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, do alto de uma trajetória reconhecida pela defesa de presos políticos, lembrou de detalhes comoventes daquele período. O presidente da Fundação Maurício Grabois, Renato Rabelo, disse que, ao voltar do exílio, esperando um PCdoB desconstruído, encontrou entre outros, esse militante operário com uma luta influente e profunda no seio do povo. O deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) lembrou, recentemente, do discurso inédito de Aurélio na Câmara, em plena ditadura, em homenagem ao nascimento de Karl Marx. Aldo Rebelo, ex-ministro, enfatizou a importância de tantos lutadores como Aurélio que sofreram para que outros pudessem usufruir da liberdade. Conceição Peres, companheira de toda vida de Aurélio também completou a mesa por toda a luta que assumiu em favor do povo, junto do marido, mas independente dele.
 
“É um orgulho para todos do Partido Comunista ter essa oportunidade nesse final de ano tão difícil. Sabendo que se avizinham anos muito difíceis para o nosso país e o povo brasileiro, podermos estar aqui, nesse final de ano, unidos numa celebração da luta, da coragem, da dedicação das causas democráticas, dos direitos humanos e dos trabalhadores e do socialismo, que é o que nos move, move nossa vida e nossa luta”, disse Nádia, expressando o clima que lotou o auditório, desde às 19h, numa quinta-feira.

Não-autorizado

 

Bertolino agradeceu aos diversos personagens que colaboraram para a confecção da biografia, alguns que ele considerou, humildemente, como coautores pela leitura cuidadosa que fizeram e comentaram, Luis Carlos Ruy e Pedro Oliveira. Ele destacou a documentação que Luiz Eduardo Greenhalgh disponibilizou para a compreensão da defesa de Aurélio Peres, quando esteve preso pelo regime militar. Osvaldo contou que o advogado guarda a ficha completa de todos os seus clientes, muitos deles documentos históricos. “Ele provavelmente tem uma ficha minha”, disse Bertolino, contando de quando era diretor de imprensa do Sindicato dos Metroviários e agitava os trabalhadores durante greves tensas, que paralisavam o metrô da cidade. Um promotor entrou com queixa-crime por incitação à sabotagem.

Osvaldo ainda agradeceu os filhos de Aurélio, Leni e Marco Aurélio, pela paciência e colaboração no livro. Mas a homenagem especial ficou para Conceição, companheira de Aurélio em todas as lutas. Ele mencionou o depoimento de Greenhalgh sobre a bravura, integridade e solidariedade de Conceição. Para ele, Conceição merece um capítulo especial no livro por tudo que contribui na luta contra a carestia, conscientizando as mulheres e ajudando a organizar o povo. 

Bertolino contou da resistência de Aurélio contra uma biografia. Depois de raras conversas, ligou para ele falando da possibilidade da biografia. “Melhor, não...” Então, Vital Nolasco, outro biografado por Osvaldo, sugeriu que ele escrevesse uma parte e mostrasse para ele. Depois de ler uns três capítulos, Aurélio retornou o contato. “Está falando muito de mim, aí!”, disse ele, bravo. “Fale mais dos acontecimentos”, ordenou, ao que Bertolino ignorou.

Ele ainda contou de como conheceu o biografado no início dos 1980, e do seu destaque na campanha das Diretas Já. Para um biógrafo, alguns episódios são reveladores do caráter fundamental do personagem, como o da entrada de Aurélio no Paraguai, como turista, para uma reunião com a oposição à ditadura, enquanto os demais seguiram os trâmites tradicionais e foram barrados. “Tem histórias como essa. Mais, não conto!” concluiu Bertolino.

Legitimidade operária

 

Haroldo Lima destacou a continuidade da experiência de Aurélio Peres. Enquanto outros viveram “pedaços” da luta, trechos de experiência, devido à violência da ditadura e sua sanha fascista de eliminar os adversários, ele viveu algo contínuo, atravessando o auge e a decadência da ditadura, como operário, experiência política que só se encerrou com a democratização plena do país.

Lima destacou ainda o fato de Peres ter uma formação católica e intelectual, até o fim dos anos 1960, que depois se volta para a formação operária, como torneiro mecânico, fresador e ferramenteiro, a tarefa do Partido. Tudo isso aliado à postura progressista da Igreja Católica de João XXIII e Paulo VI, que culminou nas pastorais e nas comunidades eclesiais de base, destruídas por João Paulo II.

Lima conta que ficou sabendo de Peres, após sair da cadeia, quando o deputado já ocupava gabinete em Brasília desde o ano anterior como o único deputado de extração operária. Desta forma, ao sair da prisão, Lima soube que já havia um forte movimento contra a carestia liderado por Peres. Em 1982, ao ser eleito deputado, Lima encontra Peres no Congresso que havia sido reeleito. Segundo ele, era impressionante o fôlego dessa turma que ocupava o campo progressista do Congresso naqueles anos de extertores da ditadura. “Era o diacho!”

Ele também se impressionou com a retórica de Peres, que, mesmo sendo de extração operária, dominava o discurso como intelectual erudito perspicaz, que engrandecia ao PCdoB”, disse ele, lembrando que faziam parte do PMDB à época da ilegalidade do Partido.

Ele destaca o enorme respeito que Aurélio dispunha, pela matriz de classe e o ponto de vista que defendia. Em reuniões em que a disputa pela intervenção era enorme, Aurélio sempre teve a palavra franqueada pela legitimidade que representava. “Aurélio Peres, o deputado operário, era um grande cacife que o PCdoB tinha naquele momento”, afirmou Lima, lembrando dos comícios pelas Diretas Já em que ele discursou, em meio às disputas pelo palanque entre as forças políticas.

Lima encerrou seu depoimento enfatizando a importância de Greenhalgh para os presos políticos desde a Chacina da Lapa, em 1976. Ele enfatizou a coragem e ousadia do jovem advogado ao quebrar sua incomunicabilidade da solitária, mesmo com Sérgio Paranhos Fleury tentando vigiar o que conversariam.

Defensor da esquerda

 

“A maioria de vocês sabem que eu sou dirigente do Partido dos Trabalhadores, mas eu não posso esconder que eu fico muito à vontade num ato entre os companheiros do PCdoB”, foi como começou Greenhalgh seu depoimento. “Acho que dessa mesa aqui eu já defendi quase todos”, disse ele, provocando risos.

Ele contou que, mesmo sem conhecer pessoalmente para quem advogava, de tanto ler os autos acabava tendo uma imagem muito nítida de quem elas eram. Foi assim advogando para militantes da Ação Popular, do PCdoB ou da Chacina da Lapa. “Eu nunca tinha visto o João Amazonas e o Renato Rabelo, mas pelo que se dizia eu os conhecia”, contou, revelando que as pessoas são sempre melhores do que retratadas nos processos.

Com Aurélio foi diferente, pois Greenhalgh o conhecia desde 1973, quando já era da oposição metalúrgica. “Eu vim aqui, hoje, para agradecer a confiança que o Aurélio e a Conceição tiveram em mim”, disse ele sobre as “ideias malucas” que teve naquele processo para absolver Aurélio.

Ele também destacou a importância pessoal de desengavetar o “arquivo morto” do Aurélio, para reviver e não esquecer aquela época. “É muito oportuno lançar esse livro, hoje, que retrata uma época, em que há sinais, brisas, ventos, sussurros de que a gente pode ter, senão igual, porque não é farsa, alguma coisa que caminha por aí”, declarou, contando ainda episódios particulares sobre a Chacina da Lapa, processo que ele considera tê-lo forjado como advogado de presos políticos.

Protagonismo na redemocratização

 

Renato Rabelo afirmou que a Fundação Maurício Grabois não poderia fugir à responsabilidade de garantir a biografia de uma personalidade histórica como Aurélio Peres. Quando voltou do exílio em 12 de outubro de 1979, com Conchita, com João Amazonas e Diógenes Arruda, se viram diante da responsabilidade de, mais uma vez, reestruturar e dar continuidade ao Partido destruído pela ditadura militar, especialmente, após a Queda da Lapa.

“Diante dessa situação, foi um prêmio dos céus encontrar militando na fase final do regime militar, como deputado federal, Aurélio Peres. Não esqueço que, diante de tanta dificuldade e de tanta coisa a ser construída, eu encontro um militante da envergadura de Aurélio Peres”, disse ele. Para Renato, o protagonismo de Peres já expressava vitalidade e novos ares democráticos ao PCdoB, em vez de estar mergulhado no luto.

Renato também apontou a importância da obra literária num momento que sinaliza autoritarismo e resistência democrática para impedir que as atrocidades de 1964 se repitam. Para ele, a trajetória de Aurélio, “tão bem descrita por Bertolino”, traz com grande riqueza analítica as formas do terror espalhadas elo regime implantado em 1964. “Hoje, as forças vencedoras da eleição presidencial de outubro deste ano, parecem abrir caminho para legitimar tais atos de selvageria nas condições atuais. Deste modo, esta biografia é um anátema à hipocrisia e ao ardil que consiste em reinterpretar a história recente do Brasil. É uma obra de grande valor didático para a juventude e para todos os amantes do avanço civilizacional e da grandeza da nossa nação”, declarou.

Renato também destacou o protagonismo de Aurélio Peres no retorno do Partido à legalidade, após 40 anos de clandestinidade, em 1985, quando afirmou que aquele era “o reencontro da classe operária com seu partido de vanguarda”. “Aurélio foi um pioneiro que desbravou a trilha para, junto com os que vieram após, construir o caminho para a representação parlamentar do PCdoB na transição a democracia”, destacou o dirigente comunista.

“Aurélio Peres é um exemplo de militante comunista, memorável líder popular, orgulho para todo o Partido Comunista do Brasil”, concluiu Renato, emocionado.

Obreiro da revolução

 

Aurélio afirmou que foi estimulado por inúmeras pessoas para contar sua trajetória de lutas. Mas, como confessa ele, as turbulências com a direção partidária por volta de 1985, faziam com que ele tivesse resistências à ideia. “Cansei de ouvir que não era comunista, no máximo um socialdemocrata!” contou, provocando risos.

Aurélio agradeceu Bertolino e sua equipe pelo trabalho. Sempre subestimando seu papel na história, ele considera sua trajetória muito simples, sem grandes arroubos de evidência. “Sempre fui um operário, não apenas do pé da máquina, mas que obra, que realiza. O Partido me deu essa tarefa e eu fiz; o partido não me deu os instrumentos necessários, e eu criei. O que está no livro não é o que eu fiz, mas o que nós fizemos”, disse, incluindo no plural Conceição, sua companheira, Ana Martins, Ester e Vital Nolasco e o padre Luiz, entre outros.

Destacando, com orgulho, sua origem religiosa, Aurélio provocou risos ao dizer que lhe honra ter sido expulso do seminário pelo cardeal Agnelo Rossi. “Hoje tenho orgulho de ouvir, não de um Wojtyla que acabou com a igreja, mas de um Papa que tem a coragem de, numa entrevista, dizer que os comunistas falam a mesma linguagem da igreja”, disse sobre o Papa Francisco.

“Fui um obreiro e só parei de trabalhar no dia que não pude mais”, disse ele, relembrando, sempre grato, pelas pessoas que contribuíram para seu trabalho. Segundo ele, foi graças a esse coletivo que foi possível reunir milhares na Praça da Sé ou reunir mais de um milhão de assinaturas para a legalidade do Partido, em plena ditadura militar.

Ele contou que nunca tinha acompanhado uma sessão da Câmara Municipal, quando lhe impuseram o “fardo” do mandato de deputado federal. Ressaltou que não tinha experiência nenhuma, mas o Partido lhe deu essa tarefa e ele tinha que cumpri-la da melhor maneira possível.

“Digo que a nossa luta valeu a pena, e espero que esse livro sirva de roteiro de trabalho, pois não é um livro teórico, mas prático, de como exercer um mandato e uma liderança popular sem os recursos necessários”, defendeu. “Tudo isso que eu fiz, principalmente na atividade parlamentar, eu fiz porque eu tive uma cabeça que me dirigia. Essa cabeça não é a minha, não, essa cabeça é o Partido. Em qualquer luta, o Partido é fundamental. Sem Partido não há vitória, não há revolução; sem Partido não se coloca esse país na mão da classe trabalhadora”, declarou Aurélio, exaltado.

Ele continuou apontando a necessidade do Partido estar sempre com “uma cabeça afinada” e também precisar de muitos braços e pernas. “Agora, está chegando o momento do Partido jogar sua força na lama, não para se lambuzar, mas para conquistar a base, jogar o Partido na periferia para trazer de volta aquilo que foi perdido. Temos pela frente grandes desafios. Não sei se vou poder contribuir com muito, mas se puder estou disposto. A luta não terminou, a luta continua”, concluiu ele.

 


Galeria de Fotos

Osvaldo Bertolino lança biografia de Aurélio Peres dia 6 de dezembro, em São Paulo