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Fábio Palácio: fakenews são a metástase da pós-verdade

Cezar Xavier Publicado em 27.08.2019

A partir das transformações no âmbito da hegemonia coercitiva e discursiva do capitalismo, o especialista em Comunicação Social da UFMA, mostra como um novo ambiente epistemológico e ético contribuiu para o avanço da pós-verdade e da ultradireita política ao poder. Ele discutiu formas de dominação do capitalismo em crise, durante a jornada de colóquios ocorrida no dia 30 de julho, em diálogo com Sílvio Almeida, filósofo e professor da Fundação Getúlio Vargas.

Fábio Palácio, professor de Comunicação Social da UFMA Foto: Cezar Xavier

Segundo o presidente da Fundação Maurício Grabois, Renato Rabelo, o objetivo da jornada de colóquios é abrir a porta para temas de fronteira, fundamentais para a linha da pesquisa de estudos que o PCdoB vem fazendo, sobretudo, em duas linhas básicas: o capitalismo contemporâneo e o que seria um socialismo contemporâneo; além da pesquisa permanente do Brasil de hoje, o governo Bolsonaro, com seus ineditismos.

Segundo Renato, a pergunta desta edição do colóquio parte da indagação se existe uma nova forma de dominação no capitalismo de hoje, na sua superestrutura, seu estado, suas instituições, suas corporações.  

As apresentações tiveram abordagens diferentes, a partir de uma visão da história política e da filosofia jurídica por Silvio Almeida, pós-doutor pela USP, professor de filosofia e ética no Mackenzie e professor na Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas, além de presidente do Instituto Luiz Gama.

Já a abordagem de Fábio Palácio, doutor em ciências da comunicação pela ECA-USP, professor de jornalismo na UFMA e presidente da Fundação Maurício Grabois no Maranhão, preferiu partir das estratégias de linguagem e comunicação para discutir a elaboração de sentidos na era da pós-verdade.

Leia também: Sílvio Almeida: o racismo se preserva como estratégia de dominação capitalista

Leia abaixo a íntegra da apresentação de Fábio Palácio:

 
Fábio Palácio, professor de Comunicação Social da UFMA (Foto: Cezar Xavier)

A intervenção do professor Sílvio Almeida me impressiona muito positivamente, ao trazer este conceito de necropolítica, dentro desse arcabouço da biopolítica, originado em Michel Foucault. Eu vou fazer uma abordagem que pega outros aspectos bastante distintos, mas que eu acho que vai acabar sendo complementar.

Foi interessante pautar este tema que não tinha me passado pela cabeça dessa maneira, embora eu tenha me dado conta depois, que, vários estudos parciais que eu tenho feito no último período, se unificam nesta abordagem. Foi bom porque me forçou a fazer uma reflexão mais totalizante sobre muitas questões parciais que eu tenho procurado trabalhar no âmbito da nossa atividade de pesquisa.

Eu vou procurar escorrer aqui sobre aquilo eu penso serem as balizas para se pensar esse tema de novas formas de dominação. Sem a preocupação de dar aqui nenhuma resposta peremptória ou definitiva, mas acredito que é possível, ao menos, balizarmos a reflexão sobre o tema. Quais são os conceitos mais importantes para podermos pensar esse tema se existiriam ou não formas de dominação dentro dessa estrutura econômica do capitalismo. Eu já adianto que minha resposta para essa pergunta é sim e não.

O centauro maquiavélico e a hegemonia gramsciana

Existem e não existem novas formas de dominação. Eu vejo muito as coisas como o professor Sílvio falou aqui. Existem coisas que são atemporais: estado é estado. Enquanto a essência do modo de produção permanece absolutamente a mesma: mercadoria permanece sendo valor de uso e valor de troca; o estado permanece sendo mecanismo de dominação; mas, isso dependendo do tempo e do lugar, vai se materializando de distintas maneiras.

Eu começaria a minha intervenção pegando esse conceito de dominação. Discutir dominação é discutir poder. Estamos discutindo, portanto, se há ou não mutações no exercício do poder. O professor Sílvio já falou aqui de alguns conceitos que nos ajudam a captar algumas dessas mutações, como o conceito de necropolítica.

Eu queria retornar à própria definição de poder, que sabemos ter um duplo caráter. Os marxistas gostam muito desse negócio de duplo caráter das coisas, como a mercadoria que tem valor de uso e valor de troca. Embora esse duplo caráter do poder não seja exatamente uma invenção do marxismo, com Gramsci. Se a gente for analisar a obra de Maquiavel, já estava lá o duplo caráter do poder. Em O Príncipe, ele resgata, no capítulo 18, o famoso mito do centauro, para descrever, na opinião dele, como era o poder.

No capítulo 18 de O Príncipe, salvo engano, é o que ele discute se as lideranças políticas deveriam manter a palavra empenhada ou se isso não é necessário, e deveriam agir de acordo com as conveniências. Ele dá, mais ou menos, uma resposta de sim e não. Deve manter enquanto existirem as condições políticas que o levaram a empenhar a palavra, desaparecidas essas condições, não é preciso mais manter a palavra empenhada.

Lá no final desse capítulo, ele resgata um mito que aparece em vários textos da Antiguidade, em que se dizia que Aquiles e outras lideranças foram educadas por um centauro. O centauro tem cabeça de homem e corpo de cavalo; é o contrário do minotauro, que tem cabeça de touro e corpo de homem. As lideranças foram educadas pelo centauro porque não poderia ser de outra maneira. A política tem esses dois lados – ela é força e humanidade ao mesmo tempo. Ela é coerção e civilização.

Mais tarde, em sua análise sobre os textos sobre Maquiavel, nos Cadernos do Cárcere, Gramsci vai resgatar o centauro maquiavélico, para dizer que o poder é coerção, mais consenso. Lênin, sem falar de Maquiavel, já havia discutido as formas reflexivas da guerra. As formas que a guerra assume no terreno do discurso e do consenso. Lênin já havia abordado isso, falando também de hegemonia, embora com um conceito um pouco mais restrito que aquele desenvolvido por Gramsci, mais tarde. Lenin falava de hegemonia, basicamente como capacidade de liderança de outros setores. Meu grupo lidera outro grupo, então eu tenho hegemonia sobre o conjunto das forças políticas e dos grupos sociais que eu consiga liderar.

Em boa parte de sua obra, Gramsci tenta desenvolver conceitos presentes na obra de Lênin, mas de uma forma muito intuitiva, pouco amadurecida. Um deles é o conceito de hegemonia. O filósofo italiano vai dizer que hegemonia é coerção mais consenso. É força mais essa dimensão civilizatória do discurso, que é convencer aqueles a quem eu quero liderar. Há até uma certa ambiguidade, porque parece que ele está chamando de hegemonia a coerção mais o consenso, e às vezes, hegemonia é só a parte do consenso, a depender do trecho da obra que você está lendo. Portanto, o poder é o exercício da força organizada. [o estado] É o monopólio legítimo do uso da força, como dizia Max Weber. Mas ele é também consenso.

A gente pode entender coerção e consenso também a partir dos conceitos de política e ideologia. Terry Eagleton, o autor britânico de Ideologia (Ed. Boitempo) da linhagem dos estudos culturais, define política como “processos de poder mediante os quais as ordens sociais são mantidas ou desafiadas; ao passo que a ideologia diz respeito aos modos pelos quais esses processos de poder ficam presos no reino do significado”(1997). Em outras palavras, a política é o poder propriamente dito, é a forma pela qual eu mantenho uma ordem ou desafio uma ordem dominante.

Ideologia é a parte desse processo de manutenção e desafio da ordem que diz respeito ao reino do significado, do discurso; principalmente, do discurso nesse sentido mais amplo, usado por Foucault, que se confunde com o próprio significado. Não é discurso como esse que estou fazendo agora, como fala pública, mas num sentido mais geral. Os significados que orientam nossa vida e conduta, não apenas aquilo que estou falando, mas principalmente aquilo que não é dito.

Eu acredito que essa questão da coerção e do consenso, da política e da ideologia, são as duas chaves principais para se pensar esse tema das novas formas de dominação. Essas balizas que já estavam lá em Maquiavel são atuais, assim como tantas outras coisas que ele falou em O Príncipe.

O que muda? Primeiro, que se estabelece um novo equilíbrio entre coerção e consenso. Esta é a novidade na vida contemporânea, na relação entre dominar através da força ou através das ideias, que encontram um novo balanço entre os elementos. Mas este balanço também existe porque existem mudanças no campo da própria coerção e no terreno do consenso. As formas como se constrói consenso hoje, não são mais as formas como se construía consenso no período do Iluminismo. E também acredito que há mudanças importantes no terreno da coerção.

Os perigos da “pax americana”

Antes de seguir, gostaria de trazer algumas falas que ouvi na China, no 6o. Fórum Mundial de Socialismo, atividade realizada pela Academia Chinesa de Ciências Sociais, considerada o principal think tank da Ásia. Com apoio do PCdoB, tive a oportunidade de participar dessa atividade em outubro de 2015, portanto, quatro anos atrás. O tema desse Fórum era: Liderança e poder discursivo, revoluções coloridas e hegemonia cultural.

Olha o que os chineses pensavam sobre este assunto, já em 2015. Wang Weiguang, reitor da Academia, falou que, embora vivamos uma era de desenvolvimento pacifico, é necessário “preparar-se para os perigos na paz”. Para eles, existe agora uma era de prolongar o desenvolvimento pacífico. Ou seja, uma era onde a dominação direta através da guerra teria, em grande medida, perdido a importância que tivera antes como processo de dominação. Mas eles não acham que a coisa ficou melhor. Eles acham que esse desenvolvimento pacífico é um terreno ainda mais perigoso, mais ardiloso e mais difícil, que exige muito mais atenção e preparo ideológico da sua parte.

Um outro pesquisador, Li Shenming, diretor do Centro de Pesquisas do Socialismo da CASS, vice-presidente do comitê para assuntos internos e judiciários do Congresso Nacional do Povo. O comportamento atual do imperialismo mostra que a via exclusivamente militar, coercitiva, falhou como meio principal de dominação. A “evolução pacífica” surge como nova estratégia. Vejam, não é que essa nova estratégia dispensa a guerra. Seria até contraditório em relação a isso. É que existe um novo balanço entre a coerção pura e o bom senso. Existe um novo método de relacionamento entre essas duas dimensões.

Ainda o Li Shenming, se a gente lembrar, o presidente Nixon já havia convidado os países socialistas para uma competição pacífica. Henry Kissinger em 2001 especulou sobre como poderíamos fazer nos americanos para que os outros pratiquem os que os EUA querem através da aceitação tácita do poder norte-americano.

Outro pesquisador, Zhang Guozuo, diretor do Centro de Pesquisas sobre Soft Power Cultural Nacional, diz que a desintegração de um poder começa pela cultura. A infiltração cultural é algo que ocorre durante um longo tempo, enquanto a falência política ocorre do dia pra noite. Pra preparar o bote político, primeiro tem um longo processo de preparação cultural e ideológica.

O imperialismo opera desacreditando lideranças, complementa ele. Reparem que de tudo que estou falando aqui, parece que o Brasil foi um laboratório privilegiado, quando se pensa no que houve para desacreditar a liderança do presidente Lula e de toda a esquerda. O imperialismo opera removendo a proteção ideológica conferida pelo poder discursivo, diz Guozuo. E esse mesmo pesquisador define poder discursivo como a “liderança exercida pelo pensamento”.

Revoluções simbólicas

Então, eu acredito que o que os chineses estão nos falando é de algo que tem sido muito discutido, que é o caráter crescentemente simbólico dos conflitos ético-políticos. Nós vivemos num contexto em que não é que hoje nascem as conexões entre discurso e poder, mas elas se tornam mais evidentes nos dias de hoje. Mais evidente a relação profunda entre discurso e poder. Não que Maquiavel já não soubesse disso, mas fica mais evidente também que o abandono do discurso conduz a falência de um projeto político. Ao contrário, a aposta no poder discursivo promove a ascensão de um projeto político. Acho que isso é muito importante para entender o que houve no Brasil nos últimos anos, quando, principalmente depois de 2013, nós assistimos uma erosão rápida e continuada da hegemonia da esquerda e das forcas progressistas. Como diz o Guozuo, é um processo que começa no plano ideológico e vai se esgotar no plano político, com o golpe o impeachment da Dilma.

O que se coloca na atualidade, é que os grandes potentados ocidentais têm tido a capacidade de mobilizar formas cada vez mais eficientes de se culminar o chamado o material power, que é calculável, com o soft power, que é incalculável. É fácil responder à velha pergunta de Stalin, de quantas divisões tem o Papa. Nenhuma! Mas não seria tão simples se Stalin perguntasse quanto poder espiritual tem o Papa. Isso não e uma coisa que a gente possa calcular tão simplesmente.

Então, o imperialismo vem testando, desde as chamadas revoluções coloridas, que foram três, principalmente, a revolução das rosas na Georgia (2003), a revolução laranja na Ucrânia (2004) e a revolução das tulipas no Quirguistão (2005). E antes já havia tido ensaios, que muitas vezes a gente esquece, como é o caso da revolução bulldozer na Iugoslávia (2000), que derrubou o Milosevic. E, desde ali, têm sido testados, continuamente, modelos de ação política menos coercitivos e mais consensuais. Modelos que combinam o uso massivo de poder econômico, como forma de pressão política e diplomática, e ideológica, e métodos pacíficos de mobilização civil.

E como parte desse esforço, essa questão dos métodos pacíficos de mobilização civil, tendo naquele manual do Gene Sharp, um clássico sobre o assunto, que se dispôs a catalogar e estudar quais são os efeitos de cada uma dessas formas de mobilização civil e isto tem sido testado em todo o mundo. A primavera árabe foi mais um capítulo em que se procurou testar essas novas formas. E se tenta como parte desse esforço mobilizar elementos no plano dos significados visando tirar os movimentos de massa das mãos do povo, do campo progressista, e colocar nas mãos dos reacionários.

O imperialismo percebeu com clareza que é possível mudar países e governos mudando mentalidades. E esse método pode ser muito mais eficaz e menos custoso do que a pura e simples guerra de movimento, para usar um termo, novamente, de Gramsci. Muitas vezes, usam ensinamentos e valores da esquerda contra a própria esquerda. Curiosamente, vejam o quanto esses fascistas e bolsonaristas citam Gramsci, numa relação de amor e ódio. Eles citam geralmente numa chave odienta, mas que revela, lá no fundo, uma certa admiração. Eu não sei se esses caras leram Gramsci, mas certamente ouviram falar muito e, mesmo sem conhecer a fundo, buscam implementar muitos dos ensinamentos que estava ali na obra de Gramsci.

O extermínio moral

A dominância do capitalismo, hoje, se aproveita do fato de que as condições sociais e culturais, ou seja, o senso comum, é largamente favorável à essa dominância. O senso comum é moldado pelas instituições dominantes. Já Lenin dizia que os valores dominantes são absorvidos pelo leite materno. Hoje, já podemos dizer mais que isso, que é pelo próprio ar que se respira. Aliás, não será por outro motivo que formas de poder contra-hegemônicas sempre vão necessitar mais da coerção. Porque os valores e as ideias dominantes são as ideias da classe dominante, como já dizia Marx.

Tudo isso que estou falando aponta para um novo balanço na relação entre coerção e consenso. Acredito que a gente possa identifica transformações estruturais no terreno da coerção, embora eu não vá me dedicar a falar muito disso, aqui. Eu só queria notar que, é interessante como, não só no Brasil, como na América Latina inteira, forças militares e paramilitares, embora continuem tendo um papel importante, perdem protagonismo para o que eu estou chamando aqui de complexo policial-judiciário. A farda vem sendo sobrepujada pela toga na tarefa de garantir a ordem.

Judiciário, Ministério Público, Polícia Federal, instituições de controle, evidentemente todas possuem uma relação estreita com a dimensão coercitiva do estado, mas sempre a exercem de modo necessariamente mais argumentado, e de modo necessariamente mais mediado.

O extermínio físico, sem necessariamente deixar de existir, ele também passa a coabitar com o extermínio moral, numa espécie de fascismo pós-moderno. Que em vez de liquidar fisicamente com seus adversários, busca liquidar com reputações, busca liquidar com a capacidade de a pessoa ter uma voz que seja ouvida na sociedade. São algumas transformações que a gente pode identificar no terreno da coerção.

O triunfo da tecnoburocracia

Agora, eu queria me dedicar para falar das transformações estruturais no terreno do consenso. Hoje em dia, não é possível você estabelecer consenso como se fazia antes, por exemplo, no período do Iluminismo. Entre as mudanças que observo, em primeiro lugar, tem o que eu chamaria de despolitização e desideologização. Isso está relacionado com a desmoralização das instituições e da própria política.

No Brasil, foi justamente a despolitização e a desideologização que abriu caminho para a judicialização da política e para a própria Lava Jato. Muitos teóricos, o próprio Eagleton faz isso, chegam a sugerir que o capitalismo financeirizado teria prescindido do apelo a valores públicos como meio da manutenção da ordem. Isto é não é mais tão importante como era antes. Este mecanismo foi substituído por formas tecnocráticas. O capitalismo, hoje, estaria assentado não mais em complexas estruturas de significado, - não que isso tenha deixado de existir -, mas hoje ele se assenta, principalmente, na própria falência do significado.

Tem um trecho em que Eagleton afirma o seguinte: “A sociedade capitalista já não se importa ou não se acreditamos nela; não é a consciência ou a ideologia que a consolidam, mas suas próprias e complexas operações sistêmicas. Essa tese, portanto, deriva algo da insistência posterior de Marx de que a mercadoria automaticamente provê sua própria ideologia [essa é a tese de Marx do fetichismo da mercadoria, que está no capítulo 3 do livro 1 de O Capital]: é a lógica material rotineira da vida cotidiana e não algum corpo de doutrina, que mantém o sistema em seu funcionamento básico”. Vejam que isso tem uma relação muito próxima com o que o professor Silvio chamou de “naturalização”. Hoje em dia não são complexas estruturas de pensamento, mas a própria falência do significado e a naturalização da nossa vivencia imediata que o capitalismo usa como mecanismo de dominação.

Então, longe daquele debate racional em torno de alternativas que a gente se acostumou a chamar de política, a política virou agora uma questão de gestão, uma questão tecnoburocrática. Segmentos das burocracias estatais e privadas se agigantam em face de sistemas políticos carentes de legitimidade. Completamente desmoralizada, a política é substituída ora pela administração econômica, ora pela técnica jurídica, ora pela engenharia social. Isso quando ela não é substituída por dimensões bem menos racionais e mais afetivas como o próprio espetáculo mediático que vou explorar mais a frente.

Então, se subverte, dessa forma, algo que foi caro ao próprio liberalismo, que não é uma invenção do liberalismo, que é o estabelecido desde Aristóteles. Lá na sua obra política colocava a política como a forma mais elevada de solucionar conflitos e definir o rumo da pólis, entendida não como cidade, mas como comunidade de destino.

O que estou chamando de despolitização, coloca-se o mérito acima da política. A política é vista como suja, o mérito, não, é glorioso. Isso abre caminho para que corporações profissionais, policiais, juízes, procuradores, auditores, gestores, jornalistas, passem a ditar os rumos do jogo político, marginalizando muitas vezes a própria classe política. Profissões técnicas substituem políticos eleitos na tarefa de interpretar os anseios da sociedade. O concurso público se sobrepõe ao voto.

Evidentemente, esse processo não se dá sem contradições. Podemos ver que há uma razoável e crescente reação da classe política, inclusive do campo conservador, ao que consideram hoje exageros da Operação Lava Jato e de empresas jornalísticas. Então, há contradições entre a classe política e esse campo tecnoburocrático. E há contradições dentro das próprias burocracias públicas e privadas, como estamos assistindo, nesse momento, na disputa entre os campos jurídicos, personificado no Sérgio Moro, e jornalísticos, personificado hoje no Glenn Greenwald. Raciocínio que eu até gostaria de abordar mais profundamente. Além dessa questão da despolitização e da desideologização, ou seja, dessa tentativa de colocar tudo como se fosse técnico e como se fosse definido à margem da política.

A era da metástase retórica

Uma outra tendência importante da contemporaneidade é a chamada pós-verdade. Em 2016, a Oxford English Dictionaries dicionarizou, pela primeira vez, o termo pós-verdade. Vocês devem se lembrar disso, que a Oxford elegeu esse termo a palavra do ano, logo após o plebiscito do Brexit.

Interessante recuperar aqui como ela define: pós-verdade se tornou significante para, nas palavras da Oxford, circunstâncias em que os fatos objetivos são menos influentes em formar a opinião pública, do que apelos à emoção e à crença pessoal. Definição sucinta e muito precisa do que a gente vê hoje, por exemplo, na afirmação do Bolsonaro de que não existe fome no Brasil.

Acredito que esse fenômeno da pós-verdade a gente pode definir como uma nova atmosfera epistemológica e ética. Que é caracterizada pela indiferença à verdade em sua dimensão factual. O fato não é a própria verdade. Lá na Antiguidade, com Aristóteles e seu correspondentismo podia ser. A verdade vai além do fato. Mas existe uma dimensão na verdade, inegável, que é a dimensão factual. Então, a primeira característica é essa: a indiferença à verdade em sua dimensão factual. Uma outra característica é o desprezo da racionalidade em detrimento da afetividade. As formas de argumentação se tornam cada vez mais sentimentais, emotivas, afetivas, e menos racionais, quando nada racionais.

Muita gente tem buscado atribuir esse fenômeno da pós-verdade, localizar a raiz  desse fenômeno, em mudanças na ecologia comunicacional. Agora, se tem uma outra ecologia comunicacional, as redes sociais, a internet 2.0, e isso facilitou um momento em que nós desprezamos a argumentação racional e a consideração pelos fatos.

Eu acredito que não dá pra explicar as coisas por aí. A ascensão da pós-verdade não se deve unicamente a mudanças da ecologia comunicacional. Isso pode ter facilitado, pode ter sido um fator a mais que concorreu para essa nova atmosfera epistemológica e ética.

Acho que, muito mais decisivo do que isso, pra gente localizar o advento da pós-verdade, são as transformações do panorama cultural mais amplo. Que são trazidas à luz, desde o advento da chamada Pós-Modernidade. Os autores que trataram da pós-modernidade costumam designá-la por uma ambiência histórica caracterizada pelo predomínio de algumas teorias irmanadas no relativismo cognitivo e na negação dos valores universalizantes da Modernidade, que são os valores do Iluminismo, da Revolução Francesa.

Utilizando-se do cetismo, da ironia e da fragmentação, os pensadores pós-modernos contribuíram para o estilhaçamento de noções antes bem assentadas, como as noções de verdade e realidade objetiva. Quando solaparam as bases do moderno racionalismo iluminista, este processo contribuiu para abrir caminho à irrupção do fenômeno da pós-verdade. Parafraseando um conhecido pensador marxista, podemos afirmar que a pós-verdade é o estágio supremo da pós-modernidade. Ou seja, é o momento em que o pensamento pós-moderno atinge a plenitude do senso comum. A pós-verdade, nesse sentido, pode ser definida como uma metástase sociológica da pós-modernidade.

Em 2004, um autor norte-americano chamado Ralph Keyes escreveu o primeiro livro sobre esse tema da pós-verdade. Ele afirmou que vivemos um tempo em que se diluem as fronteiras entre verdade e mentira, entre honestidade e desonestidade, entre ficção e não-ficção. A versão vale mais que o fato. Nessa nova época, “não temos apenas verdades e mentiras, mas uma terceira categoria de afirmações ambíguas, que não são exatamente a verdade, mas não chegam a ser mentiras.”

Isso me lembra exatamente a explicação do Sérgio Moro, quando flagrado no processo da Vaza Jato. “É tudo mentira, mas se não é mentira, não tem nada de mais no que falei, e se tiver alguma coisa de mais, foi tudo em nome da luta contra a corrupção”. Essa é a típica pós-verdade. As afirmações são contraditórias entre si, mas não importa. O que importa é se eu convenço.

A pós-verdade é como se regredíssemos do platonismo para a sofística. Platão com sua preocupação com relação a verdades universais, e os sofistas anteriores dizendo que o que importa é convencer. Mas e se eu incorrer em contradições? Se sua contradição convencer, isso é o que importa.

Estamos diante de um ressurreição da sofística numa escala cósmica, global. Onde alguns mandatários do mundo hoje, como Trump, fazem desse modo de pensar a sua conduta na esfera pública, de um jeito que era inimaginável alguns anos atrás. Tratar jornalistas como Trump e Bolsonaro tratam seria um negócio inimaginável e se tornou corriqueira e comum.

No editorial de 2016 da revista The Economist sobre a pós-verdade, que ajudou a tornar o tema discutido no mundo inteiro, diz assim: A verdade já não é falseada ou contestada; ela se tornou simplesmente secundária, ela não importa mais. São os sentimentos, não os fatos que importam nesse tipo de discurso” pós-verdadeiro. A pós-verdade, então, reduz o papel das evidências arremessando contra a pedra dura dos fatos, a água mole dos sentimentos e das afetividades. A tendência possui conexões fortes com o crescimento do autoritarismo.

É o que já destacava o primeiro autor a utilizar esse termo pós-verdade em 1992, que é o ensaísta sérvio-norte-americano Steve Tesich. Ele escreveu na revista The Nation, um ensaio chamado “Um governo de mentiras”, é a primeira vez que essa palavra pós-verdade aparece na literatura em todo o mundo. Eu vou reproduzir o parágrafo em que essa palavra aparece pela primeira vez no artigo de Tesich, em 1992: “Estamos nos tornando, rapidamente, protótipos de um povo que monstros totalitários podiam no máximo vislumbrar em seus sonhos. Todos os ditadores, até agora, tiveram que trabalhar duro para suprimir a verdade. Nós, por meio de nossas próprias ações, estamos dizendo que isso não é mais necessário, que adquirimos um mecanismo espiritual capaz de despir a verdade de qualquer significado. De um modo essencial, nós como pessoas livres, decidimos livremente que queremos viver em algum tipo de mundo da pós-verdade.” Ou seja, a verdade não tem mais significado para nós, não importa mais. O que importa é o que eu quero. O que eu acredito.

Nesse ensaio do Tesich, ele está criticando o governo Bush, e atribui o início da era da pós-verdade ao caso Irã-Contras do Reagan. O Irã estava sob embargo de comércio com os EUA e o Reagan foi flagrado traficando armas para os rebeldes iranianos para destinar o dinheiro da venda aos contras da Nicarágua. E a declaração do Reagan é um marco da pós-verdade: eu sei que os fatos indicam que realmente houve comércio de armas, mas minhas intenções e meus melhores sentimentos indicam que nada disso aconteceu. E a população americana comprou aquilo: Realmente, não foi bem assim... É o início de uma era em que as minhas intenções e os meus melhores sentimentos valem mais do que os fatos.

Podemos dizer que a “pós-verdade” é a nova atmosfera epistêmica e ética na qual circulam, em suspensão, as fakenews, que também se tornaram um elemento importante da dominância contemporânea.

Contra distopias, utopias!

O que fazer contra a pós-verdade? O Steve Tesich propõe um retorno ao Iluminismo, um novo Iluminismo. Eu acho isso balela e completamente errado. Eu acredito que essa nova atmosfera da pós-verdade seja um momento que veio para ficar. Não é um negócio passageiro ou um modismo. E nem vamos combater isso com um retorno ao passado, resgatando os valores do iluminismo, dos fatos. Acho que só vamos combater a distopia da pós-verdade resgatando novas utopias.

Aliás, porque nós comunistas, de esquerda, nos tornamos tão ruins de utopia? Vocês não acham que, no último período do nosso governo aqui no Brasil, estava faltando um pouco de sonho, de utopia? Parece que nos tornamos administradores do rame-rame do cotidiano. E “eles” fizeram o que? Levantaram as grandes distopias deles e venceram.

Temos que tomar como exemplo, essa jovem deputada dos EUA, Alexandra Ocásio-Cortez. Ela está combatendo o Trump no campo dele, não dizendo que ele está errado, como fizeram a campanha contrária ao Brexit na Inglaterra. Tem estudos importantes na área de marketing mostrando porque o Brexit foi derrotado. O discurso pró-Brexit era que se não aprovasse, amanhã, a Turquia que foi incorporada na União Europeia, era um povo que ia invadir o nosso país. A campanha atacando esse tipo de discurso com estatísticas, percentuais, coisas que para o cidadão comum, hoje, não tocam o sentimento e não fazem a menor diferença.

A Ocásio-Cortez, nos EUA, está combatendo o discurso do Trump dizendo que vai fazer o novo Green Deal. “Mas você vai financiar isso como, exatamente?” “Primeiro, vocês perguntem para o Trump como ele vai financiar o muro dele no México, depois vocês voltem aqui”. Green Deal é uma ideia que cola muito, principalmente, em relação aos jovens. Porque resgata essa coisa dos sonhos, de ter um país diferente.

O espetáculo contra a corrupção

Tem um outro elemento, além da pós-verdade, que eu considero importante, e que tem diretamente relação com esse elemento da pós-verdade, que é a chamada espetacularização da sociedade.

A pós-verdade relaciona-se estreitamente ‘a chamada “sociedade do espetáculo”, conceito do Guy Debord, que busca construir uma versão marxista desta questão da espetacularização. Nela, tudo é narrativa, os fatos interessam pouco, o que importa é que todos são chamados a “incrementar” a narrativa de sua própria experiência. Vejam como isso é presente nesse negócio das redes sociais, hoje em dia.

Fala ele, também, do predomínio do sensorial e do afetivo sobre o argumentativo. Não interessa se a minha argumentação é lógica, se é rigorosa, se não incorre em contradições, mas se ela chama a atenção. Segundo Debord, “o espetáculo apresenta-se como algo grandioso, positivo, indiscutível e inacessível”. Percebam que essa adjetivação é religiosa e descrevem bem a experiência religiosa. É o resgate da experiência religiosa em novas condições e fora da própria religião, fora da própria estrutura institucional das religiões. É a crença pura, desprovida de qualquer base argumentativa lógica ou racional. Por isso que eu digo que essa questão da espetacularização tem muito a ver com a pós-verdade.

O Debord diz que “Sua única mensagem [a do espetáculo] é “o que aparece é bom, o que é bom aparece”. A atitude que ele exige por princípio é aquela aceitação passiva que, na verdade, ele já obteve na medida em que aparece sem réplica, pelo seu monopólio da aparência.”

Não é preciso pensar muito para entender o quanto de espetacularização está por trás da projeção da Operação Lava Jato. Que é expressão da aliança entre instituições policial-judiciárias e a grande mídia. Vocês acham que a Lava Jato teria existido sem a aliança com a grande mídia? Jamais. Foi exatamente a transformação da Lava Jato em espetáculo que fez o que ela se tornou.

É a aliança do discurso tecnocrático com as tendências à espetacularização, resultou em:

a)    Transformação de agentes do estado em personagens (o “justiceiro”, o herói, o superhomem, o batman, p.ex.)

b)   Midiatização / glamourização de operações policial-judiciais;

c)    Vazamentos seletivos de interceptações, delações etc.

Cinismo da corrupção de uns e de outros

Por fim, uma última tendência que é muito própria dos métodos de consenso, hoje, que é o “cinismo elegante”. Esse termo eu tirei de um livro de um jornalista chamado Matthew D´ancona, um dos poucos sobre pós-verdade no Brasil. O cinismo é exatamente quando o seu ideário aponta numa direção, no plano normativo e prescritivo, e aponta para outra no plano da vontade e da ação. É o famoso “dizer uma coisa e fazer outra”.

Podemos dizer que as práticas opressoras do capitalismo se encontram em cínica oposição com seus valores universais. Os valores universais apontam para um lado, e a prática efetiva do capitalismo cruel e opressiva aponta para outro completamente diferente.

O sujeito do cinismo sabe muito bem o que está fazendo. A gente pode ter a tentação de dizer que esse sujeito é imune à crítica da ideologia. Porque ele sabe que a ação dele aponta para um rumo e a ideologia dele aponta para outro. Mas isso não seria correto, porque a ideologia não é apenas teórica, a ideologia é performática. Toda ideologia é orientada para a ação, compreende necessariamente elementos de conduta.

Então, o clima que a gente vive hoje, é marcado por esse “cinismo elegante”. Assim, a corrupção no pós-golpe é simultaneamente condenada em geral e tolerada em forças que ascenderam ao poder. A democracia é simultaneamente louvada e esvaziada, dentre inúmeros outros exemplos que poderíamos colocar de descasamento entre a ideologia dominante e a prática efetiva.

Corrupção versus desigualdade social

Claro que esses novos mecanismos de formação de consenso, que estou procurando descrever, coexistem com outros procedimentos mais tradicionais, que já eram conhecidos anteriormente. Como a naturalização de interesses, a que se referiu o professor Silvio Almeida, ou a universalização das minhas ideias como sendo as ideias de todos, que Marx já descrevia.

No Brasil, isso foi um dos elementos que viabilizou as manobras da Lava Jato. Mecanismos de agendamento operados pelos meios de comunicação conseguiram subverter a pauta e as prioridades do país em contradição, inclusive, com o que tinha sido eleito em quatro disputas eleitorais consecutivas. O Brasil elegeu o combate às desigualdades sociais e o combate à fome e à pobreza como os principais objetivos nacionais e isso acabou, sorrateiramente, relegado ao segundo plano. Em lugar disso, irrompe com força a luta contra a corrupção. A pauta e agenda do país mudou completamente. A luta contra a corrupção passou a ser o objetivo único ao qual deveriam subordinar-se todas as prioridades.

O interessante é que essa manobra discursiva ainda conseguiu instalar, junto a essa pauta da “luta contra a corrupção”, algo que podemos chamar de gatilho discursivo: um mecanismo retórico que entra em ação automaticamente quando se tenta desarmar as prioridades estabelecidas naquele discurso. No caso da luta contra a corrupção, o gatilho discursivo é acionado toda vez que você questiona se tudo deve estar subordinado à “luta contra a corrupção”, se essa deve ser a prioridade única, acima dos demais temas nacionais. Sobrevêm, nesse momento, enunciados falaciosos – porém eficazes – fundamentados em falsas dicotomias do tipo “se você está questionando a luta contra a corrupção, você é corrupto ou amigo de corruptos”.  Isso não precisa nem ser dito. O próprio sujeito que for travar esse debate, se tiver um simples opositor, sabe, mesmo de maneira pouco refletida, que o gatilho está ali, subentendido. É como se ficássemos na defensiva por algo que está no subtexto.

Então, conseguiram mudar a pauta do país e conseguiram instalar um gatilho discursivo, de maneira que, ninguém consegue desarmar essa bomba. Tudo tem que estar vinculado à luta contra a corrupção. Desigualdade e pobreza não vêm ao caso, o importante é acabar com a corrupção no país. Isso viabilizou o gigantismo que a Lava Jato foi assumindo na vida política nacional.

Internet monológica

Muita gente costuma associar essas tendências à tecnologia. Muita gente acha que tendências sociais brotam da tecnologia, em vez de entender que a tecnologia já é uma resposta a certas necessidades sociais. O problema é que o avanço de tecnologias sempre vai requerer novas relações de produção. Faz parte das novas relações de produção a questão do vetor ideológico.

É evidente que na atmosfera cultural e ideológica que temos hoje em dia a internet, - como aliás antes dela o cinema, a televisão e o rádio -, que tinha um enorme potencial de contribuir para a libertação da humanidade, para empoderar as populações do ponto de vista do saber e do conhecimento, essas tecnologias inseridas nesse contexto e nessa atmosfera cultural que estamos vivendo, tem servido exatamente para o contrário, para a opressão, e para tornar as populações não mais sábias ou conscientes, mas mais ignorantes.

Isso nada mais é o que Marx já dizia, que a tecnologia possa libertar o homem, sozinha não vai fazer isso. O discurso que se faz sobre a internet já foi feito em relação à televisão. Quero lembrar que o teórico Marshall Macluhan dizia que a televisão ia libertar a humanidade, uma nova era etc. Depois todo mundo ficou chocado, e depois vem a crítica, porque a tevê não vai salvar a humanidade. Só a humanidade pode salvar a si própria.

Quando a internet surge, novamente, esse discurso incensando a internet. Agora, a comunicação é pessoa com pessoa. Agora é democracia plena! Agora, é totalmente diferente da televisão. Só que todas essas tecnologias têm uma fase de um período de experimentação, em que se testam modelos de negócios, formas de exploração econômica daquilo, e lá pelas tantas essas formas se estabelecem.

Agora elas estão estabelecidas. Vimos o que gigantes da comunicação fizeram, como Google e Facebook. Como os modelos algoritmos contribuem não para o diálogo, mas para tornar o discurso ainda mais monológicos é que as pessoas finalmente... “A partir do Brexit tudo mudou”. Eu debatia com uma professora que dizia que eu precisava entender que a partir de 2016 tudo mudou. Mudou em 2016, a partir do Brexit, só para quem acreditava que a internet ia libertar a humanidade.

A gente que já estava vacinado contra isso, já estava dizendo que ia acontecer com a internet o mesmo que aconteceu com a televisão. Ou seja, surge como promessa e acaba como uma enorme decepção. Isso remete a uma velha afirmação do marxismo: nova tecnologia, só se houver nova relação de produção. Se continuar o velho arcabouço social e cultural anterior, a tecnologia não vai servir para libertar ninguém, só vai servir para aprisionar.