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Homenagem ao centenário de Jango na Alesp vira ato pela democracia e liberdade

Por Sérgio Cruz, da Hora do Povo Publicado em 19.09.2019

Ato promovido por iniciativa da deputada estadual do PCdoB-SP, Leci Brandão reuniu dirigentes partidário, lideranças do movimento popular, sindical, de juventude, negros, mulheres em uma homenagem ao ex-presidente João Goulart que ressaltou a importância da luta pela Democracia e pela soberania nacional.

Mesa do Ato Solene em homenagem a João Goulart Foto: Carina Franco

O Hino Nacional brasileiro abriu, na noite de segunda-feira (16), a solenidade em homenagem ao centenário de nascimento do ex-presidente João Goulart, realizada no auditório Paulo Kobayashi da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), por iniciativa da deputada estadual Leci Brandão (PCdoB-SP).

Antes, diversas lideranças populares, sindicais, de juventude, negros, associações de moradores, dirigentes partidários, associações femininas e funcionários da Assembléia assistiram, no mesmo auditório onde ocorreria o ato, ao filme Jango, de Silvio Tendler, que conta a saga do presidente deposto pelo golpe de 1964.

A deputada Leci Brandão iniciou os trabalhos dizendo que anda bastante “preocupada com a situação do nosso país nos últimos tempos”. “Eu acho que todos aqui estamos preocupados. Entretanto, eu estou certa de que hoje esse plenário está cheio de coragem, sabedoria e disposição para a luta que o Brasil precisa para sair desse poço que parece não ter fundo”.

 
Dep. Federal Orlando Silva (PCdoB-SP) (Foto: Carina Franco)

O deputado Orlando Silva (PCdoB-SP)lembrou que ele e um grupo de deputados já tinham realizado, no primeiro semestre, uma homenagem a João Goulart na Câmara dos Deputados. “João Goulart é parte da história da construção da democracia no Brasil”, disse. “Mas eu quero dizer que João Goulart se situa num partido secular no Brasil. Ao longo da história sempre tivemos a disputa do partido de Tiradentes e do partido de Silvério dos Reis. De patriotas e de traidores, e João Goulart é filho dessa história e é um personagem ilustre desse partido de patriotas que defendem a nação, a soberania e os interesses do povo de nosso país”.

“No partido da Pátria estão Astrogildo Pereira, Luis Carlos Prestes, João Amazonas, que para nós são referências muito importantes, assim como Gregório Bezerra, Carlos Marighella, Cláudio Campos, este mais jovem, mas também parte dessa trajetória. Também é o partido de democratas, como Euzébio Rocha, Ulisses Guimarães, gente que ao longo do tempo representou essa perspectiva da defesa de um projeto nacional”, disse.

O ex-deputado e ex-prefeito de Araraquara, Marcelo Barbieri (MDB), destacou que “apesar de tantos males que a deposição de João Goulart trouxe para o país, a ditadura, as perseguições, nós estamos aqui”. “Superamos isso. Derrubamos a ditadura. Não derrubamos violentamente, com tiros, derrubamos politicamente. A ditadura foi derrotada. Está derrotada”, observou. “Estão tentando acabar com a democracia, mas a força da luta democrática no Brasil é muito forte. Homenagear João Goulart é homenagear a democracia, a luta democrática”, prosseguiu.

Barbieri citou Cláudio Campos que, segundo ele, foi um guia na luta democrática. “Ele lutou firmemente na época para fortalecer o MDB, que eu represento aqui hoje. E nós, juntos, derrotamos a ditadura. Nós temos que buscar agora, na minha modesta opinião, a unidade das forças democráticas. E elas tendem a se unificar se a gente tiver grandeza para isso, como tivemos na luta contra a ditadura militar. Foi assim que derrotamos a ditadura”, salientou. “Nós fizemos isso na luta das diretas. E nós tivemos que contar com Tancredo no colégio eleitoral para acabar com a ditadura. Foi errado?”, indagou Marcelo. “Não”, respondeu ele mesmo, em seguida. “Então, nós temos que ter jogo de cintura para criar a frente democrática, nós temos que ter habilidade política e muita firmeza, que é o que tinha Jango”, completou o emedebista.

 
Almino Afonso, Ex-Ministro do Trabalho de Jango, Deputada Leci Brandão e João Vicente Goulart, presidente do Instituto João Goulart (Foto: Carina Franco)

O ex-ministro do Trabalho de Jango, Almino Afonso, deu uma aula viva e emocionante sobre sua passagem pelo governo Jango nos momentos decisivos daquele governo. Ele revelou detalhes inéditos de como o ex-presidente se comportou de forma digna e firme nos embates com o imperialismo e a reação. Almino relatou o episódio da criação do Estatuto do Trabalhador Rural, mostrou como eram reticentes as elites e o parlamento à reforma Agrária defendida por Jango.

Almino relatou também as pressões do presidente norte-americano John Kennedy para que o Brasil participasse de uma invasão a Cuba, que acabara de derrotar a ditadura de Batista e iniciava a construção do socialismo. “Jango garantiu o princípio da autodeterminação dos povos. O Brasil enviou uma carta, que foi trabalhada à mão pelo próprio João Goulart, informando a Kennedy que o Brasil defendia o direito do povo cubano a escolher o seu caminho e o seu regime político”, contou.

Renato Rabelo, presidente da Fundação Maurício Grabois, afirmou que João Goulart “é o último grande personagem da corrente do trabalhismo que assumiu a Presidência da República num momento muito tenso e rico da vida nacional”. Ele lembrou que foi nesse período que ele, Renato, entrou para a vida política. “Houve uma grande mobilização de forças nesse momento”, disse.

“O momento era de encruzilhada entre o avanço progressista, onde Goulart teve um papel central, marcada por mudanças estruturais para o desenvolvimento do país, a soberania do Brasil e o avanço democrático e social. Por outro lado, a contracorrente conservadora, colonizada, querendo a todo custo manter o status quo da concentração de renda, de profundas desigualdades e restrições à liberdade”, analisou.

“João Goulart e Leonel Brizola, e outros próceres, lideraram essa luta decisiva pelo progresso do país. O progresso que foi barrado pelo golpe de estado de 31 de março de 1964. Isso demonstrou a profundidade e a agudeza da luta em curso. Nós temos profunda compreensão da importância da corrente trabalhista, que nasce após a revolução de 30, com a liderança de Getúlio Vargas”, observou Renato Rabelo. “O programa do PCdoB reconhece que a revolução de 30 foi um avanço civilizacional do Brasil. Não foi um avanço qualquer”, disse ele.

Leia na íntegra o pronunciamento de Renato Rabelo no ato solene.

Gláucia Morelli, presidente da Confederação das Mulheres do Brasil (CMB), parabenizou a deputada Leci Brandão e disse que, pela força e beleza dessa mesa que aqui está, o Brasil “certamente vai vencer a atual situação”. “Getúlio, Brizola e Jango devem estar muito felizes hoje ao ver como João Vicente segue erguendo a bandeira da luta pelo Brasil e pela democracia”, disse Gláucia, dirigindo-se ao filho de Jango.

Para o ex-ministro e ex-deputado Aldo Rebelo, “celebrar o centenário de Jango é celebrar a trajetória de um homem vitorioso, quando vemos as perspectivas históricas de suas lutas da corrente política e social que ele representou”. Aldo lembrou os 200 anos da volta de José Bonifácio ao Brasil. “Em três anos ele articulou, organizou e deu ao Brasil o passo mais importante da sua história que foi a sua emancipação política, a sua independência. E um ano depois da independência, ele já estava preso e exilado”, disse. “Mas”, prosseguiu, “as ideias, um projeto de uma nação desenvolvida, economicamente avançada, socialmente equilibrada, que emanciparia os escravos, integraria os índios à sociedade, esse projeto teve continuidade”.

O deputado Paulo Teixeira (PT) parabenizou a iniciativa da deputada Leci Brandão que, segundo ele, é uma pessoa que vem do mundo artístico e que transfere para a política uma energia muito boa. Ele resgatou o papel de Getúlio Vargas e João Goulart na história do Brasil. “Foram homens que lutaram pela soberania nacional”, disse. Teixeira defendeu a liberdade de Lula.

Bira, da CGTB, denunciou as arbitrariedades que estão acontecendo no Brasil no governo Bolsonaro. Falou da censura a Chico Buarque de Holanda e ao filme Marighella. O sindicalista denunciou o desemprego e os ataques à Amazônia e reforçou que “a questão central neste momento é unirmos todos aqueles que são contra Bolsonaro”. “Não podemos ficar com frentes estreitas. Essas frentes representam sanduíche de pão com pão, que não têm gosto bom, além de resolverem nada”, argumentou.

 
Renato Rabelo durante ato em homenagem a João Goulart

O vereador de São Paulo, Eliseu Gabriel (PSB), disse que “o que está acontecendo hoje é muito grave, mas lembrou que “nós derrotamos a ditadura que foi instalada no momento em que João Goulart foi destituído”. Com unidade, vamos impedir a volta da ditadura com este governo que aí está”, avalou.

Guilherme Bianco, diretor da UNE, fez questão de lembrar que as lutas de Jango foram também as lutas da UNE. “Defender hoje a Educação é defender o legado de Jango”, disse. Nós vamos estar juntos pela democracia e em defesa da Educação”, acrescentou. “Este governo veio para tirar nossos direitos mas também quer tirar nossa soberania”, denunciou Maricler Real, presidente da Associação das Assistentes Sociais e Psicólogas do Tribunal de Justiça.

O vereador Eduardo Suplicy (PT) lembrou de sua juventude como presidente do Centro Acadêmico da FGV, quando, em assembléia, em março de 1964, os estudantes decidiram pelo respeito à Constituição e, portanto pela permanência de Jango no governo.

Rafael Martinelli, do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), entidade que liderou a luta dos trabalhadores na década de 60, deu um testemunho de que as lutas dos trabalhadores por melhores condições de vida e pelas reformas de base eram apoiadas integralmente por Jango. “Sempre que o presidente precisava de alguma coisa, ele me procurava. Isso causava até um certo ciúme no meu partido, o PCB”, contou Martinelli.

Rosanita Campos, presidente do Instituto Cláudio Campos, destacou que “foram os trabalhadores que sustentaram o governo de João Goulart e foi no governo dele que os sindicatos tiveram um grande apoio”. “Agora estaremos novamente na luta para derrotar o arbítrio desse governo e vamos derrotar”.

Rodrigo de Moraes, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, afirmou que “os trabalhadores estiveram um certo tempo anestesiados e embriagados com mentiras e com falsas notícias”, mas, “eu quero informar a vocês que essa embriaguez já está passando e nós vamos recuperar a nossa interlocução com a nossa base”.

 
Publico lotou auditório da Alesp para homenagear João Goular (Foto: Carina Franco)

João Vicente Goulart agradeceu, em nome da família, às homenagens a seu pai e reafirmou seu compromisso com o legado do ex-presidente. Ele lembrou que o Congresso Nacional já havia anulado a sessão ilegal da noite e 2 de abril de 1964, que declarou vaga a cadeira de presidente da República com Jango dentro do território nacional. “Vamos em frente, garantir um Brasil livre e solidário”, defendeu João Vicente que preside o Instituto João Goulart.

Compuseram a mesa da solenidade, João Vicente Goulart, filho de Jango, o ex-ministro do Trabalho de Jango, Almino Afonso, Renato Rabelo, presidente da Fundação Maurício Grabois, o ex-ministro e ex-deputado Aldo Rebelo, o deputado federal Paulo Teixeira (PT), o deputado federal Orlando Silva (PCdoB), o vereador Eliseu Gabriel (PSB) e o vereador Eduardo Suplicy (PT).

Estavam ainda na mesa do evento, o ex-deputado e ex-prefeito de Araraquara, Marcelo Barbieri (MDB), Ubiraci Dantas, presidente da CGTB, Guilherme Bianco, diretor da UNE, Maricler Real, presidente da Associação das Assistentes Sociais e Psicólogas do Tribunal de Justiça, Rafael Martinelli, do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), Rosanita Campos, presidente do Instituto Cláudio Campos, Rodrigo de Moraes, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, José Pereira, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Guarulhos, Gláucia Morelli, presidente da Confederação das Mulheres do Brasil. 

A íntegra do evento em vídeo está disponível no canal da Deputada Leci Brandão no YouTube!