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Geógrafa italiana destaca importância do Brasil na luta antifascista na 2ª. Guerra Mundial

Cezar Xavier Publicado em 18.02.2016

Mesa de debates nesta quarta, 17, em São Paulo, reúne intelectuais que resgatam a importância dos pracinhas na Itália, em contraponto a toda a propaganda que diminui o papel do Brasil neste primeiro grande gesto de cooperação internacional. Participaram ainda, o historiador Augusto Buonicore (Fundação Maurício Grabois) e o sociólogo Paulo Cunha (Unesp).

Mesa de debates com Augusto Buonicore, Teresa Isenburg e Paulo Cunha Foto: Cezar Xavier

A mesa de debates “O Brasil na Segunda Guerra Mundial: Uma página de relações internacionais”, ocorrida no Cedem Unesp, no centro de São Paulo, em parceria com a Fundação Maurício Grabois, lotou o auditório com uma plateia altamente qualificada de pesquisadores do tema e militares interessados, entre outros, com suas intervenções e contribuições. A participação dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na 2ª. Guerra Mundial, relatada pela geógrafa Teresa Isenburg, atraiu uma atenção inesperada, pela ausência de debates sobre o tema e o progressivo apagamento oficial deste episódio da história.

O livro de Teresa, lançado no local de sua edição, olha com sensibilidade para aqueles nortistas e nordestinos simples que se encontraram em condições dramáticas com os italianos pobres e sofridos das montanhas geladas do norte da Itália. Embora pouco valorizados no Brasil, pelas condições históricas e ideológicas da época, e recentemente desqualificados por autores reacionários como William Waak, os heróis que contribuíram para a libertação da Itália de Mussolini, são devidamente homenageados nesse trabalho primoroso de pesquisa.

Teresa não apenas resgata o cenário conturbado da alta cúpula do Governo Vargas disposta a uma integração ideológica e racista a Hitler e Mussolini, mesmo que fosse necessário um golpe contra Getúlio. Ela também busca nos cenários do conflito as cartas e depoimentos de sobreviventes daquele período, que revelam o carinho dos italianos pelos brasileiros. O retorno triunfante dos soldados foi desmobilizado por Dutra, ministro da Guerra, para evitar o avanço comunista entre as tropas, já que o contato com os partigiani foi o melhor possível.

Embora haja inúmeros autores que resgatam com rigor histórico e documental a qualidade daquele movimento de resistência ao nazifascismo, é lamentável que “As duas faces da glória: a FEB vista pelos seus aliados e inimigos”, de Waak, acabem se tornando o centro do debate. A obra tem o demérito de reunir todos os preconceitos, equívocos de interpretação e manipulação histórica, as distorções e superficialidades, além do reacionarismo cínimo do autor vistas em outras obras. Mas, é a partir daí que se observa o modo como as elites conservadoras brasileiras operam o apagamento das lutas de resistência democrática da consciência coletiva. O caso do heroísmo dos pracinhas na Europa é exemplar deste mecanismo de negação da memória nacional às novas gerações.

Para Teresa, o debate foi uma oportunidade para um debate sobre o papel dos militares na luta pela democracia, tema frequentemente evitado na esquerda, devido ao modo como as Forças Armadas tiveram um papel brutal na manutenção de ditaduras do mundo todo. Para ela, esse debate é fundamental e não deve ser evitado. Ela citou o caso italiano, onde a obrigatoriedade do alistamento foi substituído por um exército mercenário, o que fecha o funcionamento das Forças Armadas para a sociedade. “Toda a área militar tem muito a ver com tecnologia, então, a sociedade civil precisa acompanhar o que está sendo feito”, afirmou ela. “Somente agora, em 2016, 70 anos depois, a Itália está abrindo os documentos oficiais sobre o ocorrido durante aquele período. Eu espero que o Brasil tenha mais sorte e abra antes seus arquivos”, disse Teresa.


A negação do heroismo nacional

O secretário-geral da Fundação Maurício Grabois, Augusto Buonicore, enfatizou o modo como os brasileiros desconhecem essa página da história nacional. Se por um lado, o revisionismo histórico tem seu pior papel nesse fenômeno, o ufanismo nacionalista também contribuiu para a romantização do heroísmo dos Pracinhas, ignorando as enormes mobilizações de esquerda no Brasil demandando a intervenção do país na luta contra o nazifascismo, mas também menosprezando a participação dos guerrilheiros dirigidos pelo Partido Comunista na Itália.

No caso do revisionismo, por sua vez, o desserviço de Waak e de Rádio Auriverde (1990), filme de Sylvio Back, são apenas dois exemplos eloquentes que ele cita. “Waak constrói toda a sua narrativa a partir de depoimentos e documentos dos nossos inimigos alemães e dos nossos muy amigos norte-americanos, como verdade incontestável, sem arcabouço crítico, já que para ele, esses são imunes ao ufanismo nacionalista de terceiro mundo”, ressalta Buonicore, lembrando que os argumentos estrangeiros são particularmente enfáticos, quando se contrapõem à análise de militares brasileiros.

O “antidocumentário” de Back, por sua vez, dispensa comentários pela grosseria e pilhéria que faz dos pracinhas, tendo gerado reações em todo o país, particularmente de intelectuais estudiosos do tema. Buonicore diz que um argumento errôneo do filme seria de que os brasileiros foram à guerra a serviço do imperialismo norte-americano, o que ele considera absurdo, como a própria Teresa disse anteriormente, que os EUA não queriam a participação de tropas brasileiras em solo europeu, apenas o envio de subsídios para os Aliados.

“O que garantiu isso foram as pressões das mobilizações no Brasil, mesmo antes da decretação do estado de guerra, quando houve os ataques de submarinos aos navios brasileiros.” Buonicore mostrou, no entanto, o modo como o Brasil de Vargas estava dividido entre a aproximação, em 1937, do nazifascismo, e a proximidade econômica com os EUA, mais tarde, devido ao empréstimo para a construção da Siderúrgica Nacional. “Escapamos por pouco de uma tragédia, se o Brasil tivesse, em 1940, ingressado no campo de guerra do nazifascismo.”

Outro comentário de Buonicore sobre a intervenção da pesquisadora italiano, foi o destaque dado a sua afirmação de que “o centro dessa guerra é uma luta dos povos contra a opressão do nazifascismo”. “Não são os detalhes táticos e estratégicos, mas em que campo você está”. A grande virtude brasileira, segundo ele, foi ter optado pelo campo certo. Do ponto de vista tático, o Brasil não esteve no centro nevrálgico da guerra, naquele momento. Não dá pra comparar a atuação dos pracinhas na conquista de Monte Castelo, com a batalha de Stalingrado ou a ocupação do Dia D na Europa. “Nós demos nossa contribuição, por pequena que seja, para a derrota do que existia de pior no século XX, que era o nazifascismo”.

O resgate cultural e afetivo

O pesquisador Paulo Cunha, estudioso de história militar, também lamentou a pobreza analítica do livro de Waak, contestando uma série de argumentos. Ele achou curioso como a Bibliex republica “Camaradas”, outra obra do jornalista muito pobre feita para desqualificar as rebeliões de 1935 com especial atenção contra os comunistas brasileiros, mas não “Duas faces...” Do mesmo modo como ele percebe que os militares adoram o livro anticomunista, mas não querem nem ouvir falar do livro contra os pracinhas.

O historiador cita a surpresa de Waak com os erros dos combatentes brasileiros. “Eu me surpreendo é com os erros de combatentes que já estavam em guerra há muitos anos, com enorme experiência em combate”, afirmou.

Ele destacou a análise de Teresa sobre a luta interna no Governo Vargas, mostrando as tensões que cercaram a tomada de decisões sobre a entrada na guerra. Ele se surpreende como a constituição da FEB incluiu militares comunistas, algo ignorado pela história oficial, e a autora reconhece o valor desses soldados.

Cunha recorda de um filme em que italianos destacam a diferença do tratamento dado pelos soldados brasileiros à população civil italiana, se comparado com norte-americanos e ingleses. Um relato emocionante que engrandece o caráter humanitário do Brasil em sua cooperação.

O modo como os comunistas passam a ter uma forte influência entre os febianos, em particular no que se refere à luta democrática, é algo que preocupa o Governo brasileiro naquele momento, ao ponto da FEB ter sido desmobilizada ainda na Itália. “As associações de ex-combatentes surgem em função da luta por direitos, pois não tinham nem condições de voltar para casa”, explica ele.

Cunha mencionou a análise de Teresa sobre o racismo exposto pela FEB, quando o negro nunca estava na linha de frente quando havia uma inspeção de tropas por comandantes estrangeiros. Para ele é importante fazer esse debate vergonhoso. Outro aspecto do livro é a presença majoritária do sertanejo nordestino nas tropas lutando, morrendo e sobrevivendo a condições duríssimas de combate. Ele parafraseou Euclides da Cunha, ao reconhecer em Canudos que “o sertanejo é sobretudo um forte”.

Cunha ainda acredita que o livro permite uma outra leitura da FEB, não apenas como uma divisão de combate, mas uma escola de cidadania, de política e cultura. “É surpreendente saber que há italianos que ainda lembram das marchinhas de carnaval brasileiras”. Mas ele também acha importante lembrar que, embora a FEB tenha sido importante para o restabelecimento da democracia, muitos febianos foram golpistas, posteriormente, lamentavelmente. “Ressaltando sempre que muitos foram perseguidos, cassados, presos e torturados na defesa da democracia”, lembrou ele.

 

 

 


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O Brasil na Segunda Guerra Mundial: Uma página de relações internacionais