Prosa@Poesia

Poema para Aylan Kurdi

Adalberto Monteiro Publicado em 03.09.2015

O garoto sírio Aylan Kurdi, de três anos, morreu afogado ao tentar chegar à Grécia na quarta-feira (2 de setembro de 2015), depois de uma colisão entre barcos que afundaram no Mar Egeu. O irmão de Aylan, Galip, de 5 anos, e sua mãe, Rehan, de 35, também afogaram. O pai Abdullah foi o único sobrevivente de uma grande família curda, também morta, mas pelo grupo jihadista Estado Islâmico (EI). Seu desejo agora é enterrar sua esposa e os dois filhos ao lado dos parentes e não sair mais da Síria, embora tenha recebido oferta de asilo no Canadá, onde mora uma tia dos meninos. A imagem da criança morta na praia tornou-se icônica da tragédia migratória em que muitas outras crianças são trazidas mortas pelo mar todos os dias no sul da Europa.

Se soubesse nadar,
Talvez tivesse chegado à praia,
Com vida, mas ele tinha apenas 3 anos.
Minutos antes do naufrágio,
A mãe o apertara contra os seios,
Mesmo pequenino pressentia a grande desgraça,
Fechou os olhinhos e teve uma brevíssima miragem:
Ele ganhara asas do gigante Albatroz,
O pequeno barco voaria como avião,
Salvando todos, a mãe e o irmão.
Ah, a poesia quisera ser Alá,
Quisera ser Iemanjá, Quisera ser Deus,
Para tê-lo transformado num peixinho sírio
Que chegasse saltitante à praia turca.
Ah, a poesia quisera ser um chefe de Estado
Que tivesse alma,
Que retirasse das fronteiras os cães e o arame farpado,
Que poupasse a humanidade desse crime hediondo:
Um menino, reduzido a um corpinho sem vida,
Calçado, e vestido de camiseta vermelha e bermuda azul.
(Adalberto Monteiro, são paulo, 3 setembro 15)

Publicado no blog do Renato Rabelo