Prosa@Poesia

Milonga dos negros

Jorge Luis Borges Publicado em 11.11.2011

Milonga dos negros
 

Minha voz, senhores, como
Quem joga truco, eu levanto
Para celebrar a gente
De cor negra no meu canto.

Para ingleses e holandeses,
Eram negro marfim,
E aqui os desembarcavam
Depois de meses sem fim.

Lá no bairro do Retiro
Houve um mercado de escravos;
Determinados que eram,
Muitos provaram ser bravos.

Esqueceram seu país
De leões quando meninos
E a esta terra os habituaram
Os costumes e os carinhos.

Quando a pátria, numa certa
Manhã de Maio, nasceu,
O gaúcho só sabia
Lutar montando um corcel.

Alguém viu que os negros eram
Patriotas, destros, ferrenhos,
E formou-se o Regimento
De Pardos e de Morenos.

O sofrido regimento
Cujo número era seis
E do qual disse Ascasubi:
“Mais bravo que o galo inglês”.

E assim, na margem oposta,
Esse bando negro, ao grito
De Soler, arremeteu:
Foi no ataque do Cerrito.

Martin Fierro matou um
E é quase como se houvera
Matado todos. Sei de outro
Que morreu pela bandeira.

A cada tarde no Sul
Olha-me um rosto moreno,
Trabalhando pelos anos
Tão triste quanto sereno.

Em que céu de longa sesta
E tambor estão agora?
O tempo que é esquecimento,
O tempo os levou embora.

 

Jorge Luis Borges Obras Completas II 1952 – 1972
Editora Globo