Prosa@Poesia

O Grito

Paulo Fonteles Filho Publicado em 31.05.2011

O Grito

Madrugada alta, amada,

parece que o mundo desabou

e há um silêncio tão profundo

quanto o esquecimento.

Há em meu peito

um herói das horas vencidas

e ele escreve

sobre as vertentes emocionais

destas chuvas, destas casas

destes dias lentos

de março.

Em minha cama

os punhais

das palavras cotidianas.

Em minha cama

os lençois noturnos

e sulcos e cabelos e mãos:

meu corpo, porém,

está frio.

Nada busco senão

detratar as verdades oficiais

dos burocratas de plantão

e sigo,

pequeno som na escuridão,

por salientes operetas

onde tudo parece ser

e tecer

as cores das semeaduras.

Talvez exorte a esperança. Um dia, talvez.

De terno busco auroras: não as encontro

e volto para casa triste e sonolento.

Estiolado volto para casa

sabendo o mundo

apenas o dia

após o outro.

Já não posso acovardar-me: meu caminho

não tem volta e

é sempre adiante.

Conheço a estrela-guia

e não tenho medo

de seu brilho.

Fui pelas estradas procurando cidades numerosas,

fotografias desaparecidas,

diários reveladores

e sepulturas para que os odiosos

nunca vençam a luta

pela a memória de nossa época.

Ofegante, apenas o vento

conversara com meus cabelos

e a paisagem do sertão

e dos cordéis

me pareceu

inóspita.

Fui pelas pessoas procurando saber

dos destinos das grotas e das vidas

e agreguei

sob os romances das espingardas

os motivos do fogo

e os valores das trincheiras.

Conversei em diversas línguas

e li poemas com candeeiros.

Andei à cavalo.

Subi pelos pedrais da serra martirizada.

Amei como um bruto

e também amei

com suavidade.

Febril busquei as manhãs vermelhas

e colérico continuo

a detestar os senhores

de terno e gravata

da sacrossanta impunidade.

Os velhos conservadores

e os modelos de eficiência

disseram-me que tudo estava

em calmaria: fiz,

na harmonia dos algozes,

vastas denúncias de prisões.

Falido estive antes de acontecer

minha morte fora anunciada

no ventre de minha mãe.

Estive feliz

e também passei tristezas,

jamais andei

com begônias na lápela.

Para apagar o fogo

fui gasolina.

Para estancar o sangue

fui lâmina cortante.

Para o nascente vindouro

fui noite profunda.



Paulo Fonteles Filho