Prosa@Poesia

(Luanda, 1979 – o angolano)

Jorge Amado Publicado em 11.03.2011

Entre os heróis aprendidos nos bancos escolares, dou preferência ao índio Poti, ao negro Henrique Dias, dois brasileiros, empunharam armas ao lado de escassos patriotas portugueses, puseram a correr os holandeses – a corte portuguesa já dera a colônia perdida.

Em Luanda, uma das faces da Bahia, a outra é Lisboa, o diretor do Museu Histórico, Henrique Abrantes, exibe-me troféus de guerra, alguns de épocas remotas, outros da luta recente pela independência. Ao ouvir-me citar o nome de Henrique Dias, perguntou-me se eu sabia que o negro, personagem da história do Brasil, era natural de Angola. Espanto-me, não sabia, pensava-o filho de africanos nascido em senzala do nordeste. Nasceu aqui, garante-me o diretor, apóia-se em documentos, pode exibi-los se eu quiser, dispenso.

Conta-me uma história que dá nova dimensão ao herói do manual de História do Brasil. A expedição militar que saiu do Rio de Janeiro com o objetivo de expulsar os holandeses de Angola deveria ter contado com a bravura e a competência comprovadas de Henrique Dias. Designado capitão do batalhão dos negros, importante troço das tropas, na última hora foi destituído do comando e afastado da viagem.
Os secretas a serviço do governo da colônia haviam descoberto um plano subversivo, trama do angolano – Henrique Dias não pretendia se limitar à expulsão dos holandeses, seu projeto libertário era botar para fora de Angola os invasores batavos e na mesma vassourada os colonizadores lusos, proclamar a independência.

Aqui fica a informação como a recebi, nem tirei nem acrescentei, eu a deixo aos cuidados dos doutos da categoria de Thales de Azevedo, José Calasans, Dias Tavares, ou seja, Luiz Henrique.


Navegação de cabotagem: apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei
– Rio de Janeiro: Record, 1992, pág. 144.