Prosa@Poesia

Desencantares do mundo

Brasigóis Felício Publicado em 17.06.2009

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      O poeta já não se ilude: suas palavras não mudam nem moldam o mundo: não elidem seu desvario, nem recuperam a esquecida luz. Os poucos que ainda insistem em caminhar na contra-mão do absurdo, é porque se sentem vivos mantendo-se fiéis à lucidez do compromisso. Porém, os bosques e os lagos dos parques são espaços de silêncio e de respiro, nas cidades vertiginosas. Poucos no entanto são os que se dão o direito de contemplar o silêncio criador do vazio-cheio em que viaja o que É. Em escala planetária, o animal humano, em vez de elevar-se, rebaixa-se, mergulha na barbárie. Cientistas abalizados concluem que, não havendo uma mudança de consciência, terá a humanidade dois horizontes possíveis: o viver solitário, após haver destruído todas as espécies, ou terá de conviver apenas com as máquinas produzidas por seu compulsivo fazer tecnotrágico. 

      Assim escreveu José Saramago, em seu blog: “Todos os dias desaparecem espécies animais e vegetais, idiomas, ofícios. Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Cada dia há uma minoria que sabe mais e uma minoria que sabe menos. A ignorância expande-se de forma aterradora. Temos um gravíssimo problema na redistribuição da riqueza. A exploração chegou a requintes diabólicos. As multinacionais dominam o mundo.

      Não sei se são as sombras ou as imagens que nos ocultam a realidade. Podemos discutir sobre o tema infinitamente, o certo é que perdemos capacidade crítica para analisar o que se passa no mundo. Daí que pareça que estamos encerrados na caverna de Platão. Abandonamos a nossa responsabilidade de pensar, de actuar. Convertemo-nos em seres inertes sem a capacidade de indignação, de inconformismo e de protesto que nos caracterizou durante muitos anos. Estamos a chegar ao fim de uma civilização e não gosto da que se anuncia.

      O neo-liberalismo, em minha opinião, é um novo totalitarismo disfarçado de democracia, da qual não mantém mais que as aparências. O centro comercial é o símbolo desse novo mundo. Mas há outro pequeno mundo que desaparece, o das pequenas O indústrias e do artesanato. Está claro que tudo tem de morrer, mas há gente que, enquanto vive, tem a construir a sua própria felicidade, e esses são eliminados. Perdem a batalha pela sobrevivência, não suportaram viver segundo as regras do sistema. Vão-se como vencidos, mas com a dignidade intacta, simplesmente dizendo que se retiram porque não querem este mundo”.

      Isto José Saramago já sabia. Quanto a mim, digo que, nas cidades trepidantes, sobrevive-se no limite do risco: ondas de assalto, até mesmo nas antes pacatas cidades de interior, são a conseqüência direta do flagelo das drogas. Onde se vivia sem medo e ansiedade, famílias associam-se em atividades criminosas, não mais se irmanam para a solidariedade e o convívio fraternal.

      Romperam-se os diques do decoro; ter vergonha na cara deixou de ser requisito para o viver em comunidade e o respeitar a si próprio. Não é mais visto nem no convívio indiferente ou hostil entre pais e filhos, que atritam-se contra seus provedores, como pérfidos monstros anti-vida. Onde buscar segurança, quando a simples anarquia se espalha pela terra, e a insanidade do Homus Economicus devasta os recursos não renováveis do planeta – a moldura e morada do Homo Sapiens, tornado Homo Demens por sua mente insana e selvagem?

      Indiferentes à fúria e à pressa da cidade, tornada pauleira pura, pelo Homus Economicus, que não tem tempo para ser feliz, as maritacas passam, junto a outros passam, em revoadas que fazem lembrar a paz que podemos ser. Ao vôo da leveza assisto, comovido, escutando o estrondo da cidade trepidante – e dá-me uma estranha nostalgia de não ser leve como as aves. Súbito, vêem-me à mente os versos do poeta Wallace Stevens: “Guarda tuas palavras/guarda teus gestos/guarda até teus pensamentos/Com quem estarás, quando estiveres no paraíso?/Com os pássaros, talvez – apenas com os pássaros”. 




 Brasigóis Felício, é goiano, nasceu em 1950. Poeta, contista, romancista, crítico literário e crítico de arte. Tem 36 livros publicados entre obras de poesia, contos, romances, crônicas e críticas literárias.