Prosa@Poesia

primavera na periferia

Sergio Vaz Publicado em 16.10.2008

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      Ontem enquanto milhões de pessoas no Brasil estavam ligadas em frente à televisão assistindo novelas, a um joguinho mixuruca de futebol entre Brasil e Colômbia, umas quinhentas pessoas, mais ou menos, foram sequestradas pela poesia, na periferia da Zona Sul de São Paulo. Quem anda cometendo esses crimes? O Sarau da Cooperifa.

      Há sete anos, exatamente no mês de outubro, aproveitando-se da desatenção do estado e da falta de cinemas, bibliotecas, museus, teatros, livrarias, e qualquer espaço para a produção cultural, um
bando de malfeitores trajados de roupas simples e empunhando poesias nas mãos, invadiram uma fábrica abandonada em Taboão da Serra, e começaram a produzir um tipo de entorpecente que iria afetar o cérebro e a alma das crianças, jovens e adultos: a literatura.

      No começo as autoridades acadêmicas não deram muita bola para o assunto, acharam que seria apenas mais uma dessas primaveras, em que as flores abrem caminhos para o verão. Mas que nada! As flores não pararam de desabrochar, e a estação das flores e dos espinhos, não tem
hora para acabar.
 
      E quando o apito da fábrica apitou o final do expediente, nós que éramos operários da palavra com medo do desemprego gramatical, erramos o caminho para Passárgada, e caímos direto no único espaço público ao qual as pessoas da ponte pra cá têm direito: o bar.
 
      E antes que a gente se embriagasse de tédio, começamos a recitar poesia, e o poema, que transitava de boca em boca, chegou aos ouvidos de outros poetas mudos abandonados nos becos e vielas da fidalguia do vernáculo.
 
     E como se fosse um chamado do rei Zumbi, um enxame insolente de guerreiros e guerreiras vinha de todos os lugares para se juntarem ao quilombo da palavra falada, que acabava de se formar.
 

      E vinham de outras tribos, pintados para guerra ou não, e trazia em seus cantos a canção que celebra a luta, que respeita os ancestrais e honra a vida. Um canto de louvor à liberdade, e de um povo que já não respeita mais os seus carrascos.
 

       E quando o bar já se tornara o quartel general da evolução, guardados por poetas, donas-de-casa, torneiros mecânicos, professores, desempregados, taxistas, auxiliares de escritórios, advogados,
rappers, advogados, motoristas, aposentados, estudantes, estudados e iletrados, os livros, armamento pesado, foram distribuídos de mão em mão, a qualquer um que quisesse manuseá-los. Independentes se tinham porte para portá-los, ou não. A única recomendação era que todos apontassem para a mesma direção: o futuro.
 
     E ontem de posse do nosso futuro, aconteceu mais um disparo no sarau, o livro "Meninos do Brasil" de Márcio Batista, professor e poeta da Cooperifa.
 
      Acho que foi o quadragésimo livro lançado ali, no Bar do Zé Bateado, no extremo sul de São Paulo, perto do Jardim Ângela, perto do cemitério do Jardim São Luiz, onde estão enterrados a maioria dos
jovens que foram assassinados nesta metrópole da riqueza e da dor.

      Mas a primavera não pára por aí, ontem também, neste mesmo horário, no jardim Monte Azul, estava acontecendo uma exposição de artes "Natural da periferia" de Jair Guilherme, outro artista resistente da quebrada.
 
      Pois é, numa mesma noite, longe dos grandes centros e longe das grandes e pequenas verbas da prefeitura, do estado ou da federação, quase quinhentas pessoas se reuniram - como se reunem-se há sete anos, toda quarta-feira, ininterruptamente -, para ouvir e falar poesia, e de quebra, comprar um livro de um autor nascido e criado na Cooperifa. E para provar que a gente não odeia ler, Márcio Batista vendeu 120 livros, ali, no chão duro do bar, no templo da poesia, um lugar onde boa parte das pessoas morria de cirrose, sem o tira-gosto da poesia.
 
      Se por acaso você não foi, pergunte para quem esteve lá, a única lágrima que escorreu de alguém, foi do rosto do poeta, e não foi de tristeza, foi de emoção pelo nascimento de mais um livro na nossa
maternidade.
 
      Nem tudo são flores em nossa primavera, mas para nós, que sempre fomos espinhos no verão alheio, um pouco de poesia no outono, faz com que a gente suporte a vida dura no inverno.

 

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